Arrependimento
1 Maldita Noite
Notas iniciais
Era tarde da noite. Uma garota qualquer se perguntava se aquilo era certo. Não, aquilo definitivamente não era certo e ela sempre soube disso, mas era preciso mesmo sendo doloroso para ela. Mesmo sabendo que podia se arrepender mais tarde.
Uma caixa... Maldita caixa!
Dentro dela a garota colocou duas criaturas, dois gatinhos, que ela amava tanto, porém colocou um pacote de ração para não passarem fome até que outro alguém os levasse.
Quando foi colocar a outra gata adulta, a mesma fugiu não querendo entrar de jeito nenhuma na caixa. A garota a pegou no colo, suas patinhas sobre seu peito, seus olhinhos a olhavam, belíssimos olhos de um tom azul violeta. O animal olhava de um modo como se dissesse:
— Não faça isso! Quero ficar aqui, com você, porque eu te amo! — Parecia que sabia o que iria acontecer.
Mas a garota a colocou na caixa junto com os outros. Fechou e fez um buraco para que respirassem, mas antes de pegar o objeto de papelão, a gata que agora a pouco estava em seu colo, se encontrava tentando desesperadamente sair da caixa pelo buraco. Quando conseguiu, saiu ficando longe da mesma, assustada. Sem dizer a nada, a garota a colocou de novo, porém os colocou em outra maldita caixa. A gata de olhos azuis violetas a olhou com os mesmos olhos de antes. A jovem tirou as patinhas que estavam em seu peito e a colocou sem dizer nada. Fez um último gesto de carinho neles e lacrou para não fugirem e se machucarem, fazendo também um buraco no papelão.
Um homem e uma mulher...
Um homem e uma mulher levavam a caixa onde se encontrava dentro, três gatos e um monte de ração.
Uma jovem esperava dentro de sua casa, notícias deles. Pouco tempo depois, os mesmos chegaram.
— Pronto, colocamos debaixo de um banco... Você tinha que fazer isso, não havia mais jeito. — A mulher disse. — Mas ainda há tempo de se arrepender.
Ouvindo isso, a jovem queria imediatamente ir lá trazer a caixa de volta, tirá-los de lá e colocá-los em sua cama. Pedir desculpas por sequer pensar em fazer aquilo e dormir com eles ao seu lado. Porém apenas disse:
— Não. Não há mais jeito.
Assim a jovem ficou acordada esperando seu sono vir.
Algumas horas depois na madrugada, a mesma jovem pegou as chaves, abriu o portão e já ia se dirigindo até o lugar onde estava a caixa, porém foi impedida pela mulher.
— Volte aqui, não tem mais jeito! Eles vão encontrar alguém que possa cuidar deles melhor que nós! — Mesmo dizendo isso, a jovem queria ir lá, mas foi convencida facilmente.
...
Dois dias depois...
O homem e a mulher foram verificar o lugar, voltaram a casa para dar as notícias a jovem.
— Não está mais lá, pelo visto alguém deve ter pegado. — Disse um deles.
A garota foi verificar o lugar, na esperança de que ainda estivessem lá e para sua surpresa não estavam mais. Querendo se desmanchar em lágrimas naquele instante, teve que se segurar, pois não era seu costume chorar na frente de todos.
...
Um ano depois...
"Estava em sua antiga casa, lar onde viveu maior parte de sua vida. Se encontrava em seu quarto sentada em uma cadeira e uma gata estava em sua frente. Branca com orelhas; cauda e patas pretas, além de uma mancha preta na cara em formato de cruz; e lindos olhos azuis violetas, aparentando estar um pouco mais velha.
Fazia de tudo para chamar atenção da gata, chamava-a; fazia gestos; até tentava bater em seu peito para que ela pulasse como costumava fazer. Entretanto a gata agiu como se a pessoa a sua frente nem existisse, passou por ela sem lhe dar o mínimo de atenção.
A pessoa, aparentava querer chorar, e em seu rosto havia arrependimento."
Acordava de mais um sonho, não muito comum, mas já sonhava com o animal desde que teve que se mudar. Sem sono, sentou-se na cama e começou a pensar no que fez um ano atrás.
"Será que estão bem? Será que estão felizes? Será que aquele que pegou a caixa era alguém honesto e carinhoso? Será que estão em uma nova família? Será que morreram? Será que ainda se lembram de mim?"
Esses eram os pensamentos dela, se passou um ano, mas ela ainda se lembrava de tudo. Das vezes em que eles dormiam com ela; as vezes que ela comprava ração e areia com o pouco dinheiro que tinha; de quando quebraram suas coisas; de quando ela batia em seu peito e a gata pulava; dos ataques constantes de asma que tinha por causa dos pelos deles; dos primeiros gatos que ela pegou e que também sentia muita falta; quando subiam na mesa; quando teve que levar todos ao veterinário; o acidente que sua outra gata sofreu; as necessidades que passara; o desespero de perde-los algum dia; os conflitos com outros vizinhos por eles; as broncas de sua tia preocupada com a asma; quando teve que se mudar e pedir a vizinha que cuide dos outros... A saudade de cada um deles. E muitas outras coisas.
Sentia-se horrível, um monstro. Sua crise de asma havia melhorado e não tinha mais que se preocupar sobre a sujeira que faziam, entretanto... Sentia falta de acordar e ter alguém ronronando em sua cara, de acariciar os pelos macios, de acordar e dar a ração deles. Só de pensar eles nos braços de outros, lhe dando a mesma atenção que só davam para ela, veio uma solidão, e pensou que para eles ela não passava de um nada.
"Ah se arrependimento matasse."
Lágrimas caíram de seus olhos.
Ela tinha certeza de uma coisa: nunca mais isso iria se repetir, preferia encarar a solidão eterna do que fazer aquilo novamente. Foi uma promessa.
Pense em seus atos antes de realizá-los, você pode se arrepender depois, mas arrependimento não traz o que você ama de volta.
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