Armas da vida
19 Capítulo 19
Acordei sendo cutucada. Julie estava do meu lado sorrindo. Sorri para ela. Respirei fundo e disse:
– Bom dia Julie!
– Para você será um dia perfeito!
Ainda estava sonolenta e não estava sabendo direito do que estava acontecendo pela cidade. Decidi perguntar:
– Por que será perfeito?
– O Felipe (filho do governador) vai vir aqui hoje para fazer uma palestra para nós! Ele ia vir semana que vem, mas soube que tem uma jovem doente, que é você, então vai fazer uma visita especial!
Comecei a rir. Sabia que Julie gostava muito do filho do governador (ela tinha deixado isso bem claro durante esses dias...) e eu sabia que ela ia ficar muito feliz de poder conhece-lo pessoalmente. Não queria falar algo que a deixa-se triste então decidi mudar delicadamente de assunto:
– Julie poderia ir lá minha mochila e pegar uma blusa? Tanto faz qual seja.
– Claro gosto de uma blusa sua, aquela preta meio decotada...
Comecei a rir e a Julie foi andando em direção de uma gaveta e tirou minha blusa de lá. Então ela falou sem fazer muito caso:
– Passei suas roupas para essa gaveta. Não mexi em nada a não ser suas roupas.
Julie me entregou a blusa e saiu do quarto. Troquei de blusa. Gostava daquela blusa preta, minha mãe tinha feito para mim quando eu era pequena. Ela a escondia no fundo do armário, bem debaixo das cobertas do inverno. Não era aprovado que usássemos isso, mas poderia usar. A blusa mostrava bem meu pescoço e uma pequena parte do meu busto, tinha uma renda na sua base, e tinha um desenho com uma linha branca formando um caminho que minha mãe copiou de um quadro que ela gostava. Ouvi umas batidas na porta. Falei que poderia entrar. Para minha surpresa quem entrou foi Brian, com um sorriso torto nos lábios. Ele esticou os braços e agarrou minha cintura e meus braços e me colocou na cadeira de rodas. Olhei para ele e antes que pudesse falar alguma coisa ele levou um dedo da mão a boca em um gesto de silencio. Fiquei em silencio em quanto ele me levava para o refeitório. Eu queria perguntar tantas coisas a ele sobre o Tyler, Liam e Neo, mas ele ainda não parecia que iria me responder. Ao chegarmos no refeitório Liam estava sentado em uma mesa (a mesma mesa que sentamos todos os dias) com um pacote na mão. Não tinha ideias do que teria dentro daquele pacote, mas não queria pergunta-lo. Eu não sei ainda o motivo, mas estava tão feliz que fiquei mexendo nos cabelos sem nenhum motivo. Quando estávamos na mesa ainda não tinha parado de mexer no cabelo e o Brian começou a mexer nos cabelos dele como eu estava mexendo. Comecei a rir e disse:
– Eu não mexo nos meus cabelos assim.
– Não, estou imitando o Liam...
Liam o olhou com uma cara arrogante e logo voltou a olhar o pacote que estava nas suas mãos. Eu voltei a olhar para Brian em quanto tentava tirar a minha mão que tinha se prendido nas pontas do cabelo. Falei:
– Brian o que você acha de eu cortar o cabelo?
– Se você tentar tal ato, não terá mais cabelo quando acordar...
– Amo saber que você se importa comigo- disse ironizando.
– Isso eu já sabia.
Comecei a rir. Eu então perguntei ironizando:
– Liam quando será o casamento?
– Hãn? – ele me olhou sem entender.
– De você e esse pacote.
– Lucy acho que seria mais fácil eu casar com você do que com esse pacote.
Corei instantaneamente. Não estava acostumada com pessoas me paquerando. Morava na parte mais isolada da cidade. Só ia para lá quem morava lá, e pelo fato de não ter sido popular no colégio (e ainda nunca tive amigos além do meu irmão e alguns amigos dele) e meus pais não gostavam de eu ter amigos. Antes que pudesse falar algo Brian falou algo em seu tom de ameaça:
– Sabe se EU deixar você olhar para a MINHA aluna será um belo milagre.
– Ela tem vida própria e sabe se cuidar sozinha!
– Sim, e você é a única e melhor opção para ela?
– Única não, mas melhor sim.
Decidi me meter no meio da briga:
– Eu não posso escolher?
Os dois em uni som falaram:
– Não!
– Eu não tenho poder de escolha de quem eu irei casar é?
– Não, só tem que não escolher o Liam.
– Eu acho que não deveria escolher o Brian.
– E eu acho que não vou escolher nenhum dos dois...
Brian começou a rir e Liam se levantou e foi embora. Me virei a Brian e perguntei:
– O que deu no Liam?
– Ex...
– Ela anda procurando ele?
– Não ele que procura ela.
– Ah! Sim, ela o recusou?
– Não, pelo contrario aceitou.
– E ele não deveria estar feliz?
– Não, nossa está errando muito essa manhã. Ele queria que ela recusasse, por que ele perdeu uma aposta com alguns amigos. Mas só para piorar ele não ama mais ela, e sim ama você.
Corei novamente. Não gosto de ficar sabendo que as pessoas gostam de mim, e ainda mais não gosto de ficar corada. Finalmente Brian se levantou e disse:
– Vou pegar alguma coisa para comer, e já que sei que não quer ir até lá pode ficar ai. “E não fale com estranhos viu?” — Ele falou com uma voz fina que irritou meus ouvidos.
Fiquei somente olhando em quanto ele entrava em uma fila enorme. Então para minha surpresa Charles apareceu e sentou em uma cadeira. Senti meu estomago se embrulhar como se fosse vomitar. Não gostava dele pelo que ele fez. Não queria deixar a situação pior então tentei começar uma conversa:
– Bom dia Charles. Como você está?
– Tudo normal Lucy. Como anda seu treinamento?
– Se as idas ao hospital fossem um treinamento estariam indo até frequente demais.
Ele soltou uma risada meio forçada e disse fazendo pouco caso:
– Mas isso vai acabar logo. Esta ansiosa para a vinda do filho do presidente?
Decidi mentir:
– Claro sempre fui muito fã dele...
– Não precisa mentir para mim – Ele falou rindo.
– Não, eu não estou mentindo. Eu falei a verdade eu, acho ele legal.
– Eu sei que você não gosta, sua expressão de nojo falou por você.
– Não fiz expressão de nojo, foi só que eu bati a perna na mesa- minha mentira estava se embolando cada vez mais.
– Sim... Você é muito acidentável pelo visto.
Brian chegou na mesa. Achei que seria salva de ter que ficar conversando com Charles, mas pelo contrario. Brian cumprimentou Charles e começaram a conversar de algo baixo o suficiente para eu não ouvir (suspeito que tenha haver com algo que eu fiz ou sobre o filho do presidente, mas eu suspeito mais que seja sobre outra coisa). Não quis atrapalhar o momento, mas Brian segurava minha comida, e eu estava com fome, então falei:
– Brian, poderia me dar minha comida?
Brian me olhou com um olhar fuzilador e disse olhando para o prato que segurava nas suas mãos:
– Não, eu que vou comer isso – Dito isso deu uma mordida no meu pão- Está uma delicia.
– Brian!
– Não, não vou te dar essa comida, está gorda demais- eles passou os olhos pelo meu corpo- e ainda mais eu estou com mais fome que você
– Como sabe que esta com mais fome que eu?
– Bem eu não comi nada desde o café da manhã de ontem...
– Se você acha que vai me convencer a deixar você comer minha comida, vai sonhando por que eu quero comer isso e irei comer isso!
Brian não estava muito convencido de me dar o meu café da manhã, e para minha surpresa rapidamente Charles pegou o prato das mãos de Brian e me entregou. E ainda para me surpreender mais, Brian não tentou o matar, e sim ficou rindo. Não estava acostumada com a atitude do Brian de não tentar matar as pessoas (e nem de eu tentar matar alguém). Eu não conseguia me reencontrar na vida. Estava mudando cada dia mais e, para piorar eu estava debilitada. Comi meu café da manhã sem olhar nem o que era, só estava querendo me alimentar e passar minha fome, mas não queria comer rápido, pois queria saber o que Brian e Charles estavam conversando. Eles conversavam com uma facilidade estranha, como se já se conhecesse á anos, mas sabia que eles se conheciam á pouco tempo (ou pelo menos achava que sim). Antes de ter acabado Charles se despediu e foi embora. Brian me falou:
– Lucy você conhece o Charles?
– Sim... – Tentei disfarçar meu nervosismo- Conheci ele pelo Liam...
– Sim, ele é bem legal, você deveria conversar mais com ele.
– Você acha que o Charles é uma boa pessoa? – engoli seco. Não queria que Brian desconfiasse do que me aconteceu. Ele me olhou com um rosto sério e disse:
– Sim, porque essa pergunta?
– Por nada... Vamos?
– Claro, mas acho bom antes irmos no Tyler, ele queria dar uma olhadinha na sua perna – Brian deu uma piscada.
Ele me levou pelos corredores. Me senti como uma criança, livre, que poderia fazer qualquer coisa, mas ainda me sentia aprisionada nessa vida que parece que tem pesos nos pés. Ao chegarmos no consultório, Tyler estava ocupado, então Brian se sentou em uma cadeira do lado da minha cadeira de rodas. Então tentei falar com ele, mas ele novamente fez um gesto de silencio. Fiquei olhando para um grande relógio que tinha na parede. 08h13min A.M. Chegaria atrasada para o treino. Depois de um longo tempo Tyler saiu da sala dele acompanhado de um rapaz alto, loiro de olhos verdes bem claros, vestindo uma blusa preta um pouco mais folgada do que deveria, uma calça jeans um pouco velha (tinha umas partes que já estavam de outra cor por causa do uso). Ele me olhou e sorriu. Retribui o gesto e fiz o mesmo. Brian me olhou feio e voltei a ficar séria. Tyler então nos chamou para sua sala. Ao entrarmos estava tudo normal, sem nada de diferente. Brian me deu o meu remédio para eu tomar. Eu o engoli sem nem me esforçar para saber qual seria o sabor, mas acho que era morango. Então Brian me colocou na maca e Tyler pegou umas faixas na mesma gaveta que pegou ontem. Então em quanto Tyler tirava as faixas da minha perna Brian falou:
– Lucy não fale nada por que não temos tempo. Tyler e eu somos irmãos (aquilo me surpreendeu, mas não tanto, por que já comecei a acostumar com essas coisas diferentes que acontecia comigo diariamente), mas nossa mãe não pode criar nós dois e me deu para ser criado por sua mãe. Sei que sua mãe nos criou com carinho, mas nós temos que ter noção que não somos parentes. – Eu já tinha noção disso, mas não queria atrapalhá-lo então continuei ouvindo o que ele dizia- e Tyler, eu e Charles somos quase as únicas pessoas que você deverá confiar, mesmo que ache que não deve.
Tyler estava colocando as novas faixas, e notei que ele quase que não tirava os olhos de minhas pernas, nem para pegar as faixas (que ele acabou derrubando algumas vezes). Ele então chamou Brian e falou algo baixo o suficiente para somente ele ouvir. Acho que o que ele falou era bom por que Brian estava sorrindo. Tyler então falou:
– Pronto. Viu que não doeu?
– Sim, muito obrigado Tyler.
Tyler ficou um pouco corado, mas logo estava normal. Ao sairmos do consultório perguntei a Brian:
– Quem era o rapaz que saiu da sala do Tyler?
Ele olhou em volta, e falou do lado do meu ouvido:
– Felipe. Filho do governador.
Não fiquei nem surpresa e nem feliz. Não tinha nenhum tipo de conceito sobre ele. Falei então:
– Que horas que ele ira fazer o discurso dele?
– Daqui a pouco.
– Brian poderia passar no dormitório para eu trocar de blusa?
– Qual o problema dessa?
– Acho que tem um decote muito grande – Apontei para o decote. Brian parou deu uma olhada por um longo período de tempo e disse com um sorriso malicioso:
– Está bonito. Vamos.
Tive que me acalmar para não discutir com o Brian. Ao chegarmos na sala de treinamento todos os jovens estavam se sentando na arquibancada. Brian me levou para uma parte que estava perto dele e me deixou lá. Ele se sentou do meu lado (na arquibancada e eu na cadeira de rodas) e falou somente para eu ouvir:
– Espero que não se iluda com ele. Ele só é “bonito”.
Concordei com a cabeça. Quando Felipe entrou, todas as garotas (menos eu) começaram a gritar seu nome, mandar corações. Mas os rapazes somente aplaudiam de pé, em silencio. Ele então falou perto de nós:
– Jovens. Moças, Rapazes. É com muito orgulho que venho aqui, nesse centro de treinamento, para poder dizer que sinto muito feliz de saber que nosso país terá jovens inteligentes, fortes e bonitos como vocês. – Notava que enquanto ele discursava, ele olhava para mim, mesmo eu achando que não, vi como os olhos dele me observavam- Queria poder passar pelos testes com essa turma fascinante. Queria que quem tivesse alguma duvida, não importa qual seja, pode perguntar para mim.
Varias garotas instantaneamente levantaram as mãos. Suas duvidas literalmente não tinha nada a ver com seu cargo de querer ser presidente do nosso país. A maioria das duvidas eram: “Você colore seu cabelo?”, “Seus olhos são naturais?" e muitas outras. Eu então levantei a mão. Felipe já tinha respondido todas as perguntas de todas as garotas. Ele então falou que poderia perguntar. Disse em um tom sério:
– Qual seus planejamentos para mudar nosso país?
Vi que ele não estava preparado para essa pergunta, pois olhou para o chão como se quisesse que ele lhe desse a resposta. Depois de um tempinho ele disse:
– Pretendo que nosso país evolua na agricultura, nos estudos...
– Não, isso já sei. O que eu quero saber é o que de verdade você vai fazer. Seu pai fez mínimas coisas para nosso país, e eu queria saber se você será igual a ele.
Ele não tinha a resposta certa. Ele então repetiu tudo que já tinha dito. Falei tentando ser clara:
– O que você ira fazer depois que ganhar as eleições?
– Melhorar o país.
– Logo de cara? Anotarei suas palavras.
– Não na hora que ganhar. Um tempinho depois.
– Quanto tempo.
– Sei lá uns três meses.
– Ficaremos sem comida por três meses?
– Não...
– Então, se você não mudar a estrutura do país em alguns meses estaremos com falta de alimentos em algumas partes da cidade.
– Não temos riscos de que ocorra isso.
– Tem sim.
– Não tem.
– Sim, temos esse risco por causa da falta de água que está afetando nosso país.
Brian me deu uma leve cotovelada para eu me calar, mas eu sabia que se continuasse ele ficaria bravo. Fico em silencio. Ele segura minha mão e fica acariciando a parte de cima da minha mão com seu dedo polegar. Faço o mesmo com sua mão. Ele sorri, levemente como se não quisesse que alguém visse. Eu retribuo o seu sorriso com outro sorriso. Eu vejo seus olhos verdes ganharem um brilho que não vejo há muito tempo. Aquilo me deixou muito alegre. Gosto muito de ver Brian feliz, mesmo ele quase sempre se esforça para ficar sério. Felipe termina de responder mais algumas perguntas (que eu nem presto atenção para ouvi-las) e quando terminar, ele fala que quem quiser ir conversar com ele poderia ir. Varias garotas se levantaram correndo e fizeram uma fila um pouco comprida. A maioria queria um abraço dele, um beijo (ele deu um beijo na bochecha mesmo eu sabendo que elas queriam em outro lugar...), um autografo... Eu não queria ir lá, mas Brian se levanta ainda segurando minha mão e me leva para a fila. Eu tentei avisar a ele que não queria falar com Felipe, mas não adiantou. Quando chegou minha vez Felipe disse:
– Lucy, certo?
Tive vontade de dizer: “Sim, Tyler ficou te contando é?” Mas em vez disso disse:
– Sim.
– Adorei sua participação.
– Bem eu acabei é discutindo não participando...
– Participou muito, acho que além de participar acabou encantando algumas pessoas.
Sabia bem do que ele estava falando. Agora além de um monte de garotos quererem me namorar o filho do presidente quer me namorar. Tentei mudar de assunto:
– Quantos anos você tem?
– 23 Anos – Vi um sorriso safado se formar em seu rosto- e você?
– 18.
– Nossa, está muito bonita para ter essa idade.
– Obrigada– estava muito vermelha. Brian acariciou, mas delicadamente minha mão. Acho que ele queria descobrir alguma coisa com aquilo- Bem você também é bonito.
– Obrigado.
– O que você acha desses testes?
Ele ficou em silencio por um tempo (igual quando eu lhe perguntei das suas propostas) e disse como quando eu lhe perguntei antes:
– Bem eu acho que nós seremos mais evoluídos com isso, nosso país será melhor...
Notei que ele estava mentindo para mim, pelo tom da sua voz e pelo seu comportamento. Disse delicadamente:
– Tem certeza?
– Acha que eu mentiria para uma garota bonita?
– Bem acabou de fazer isso...
Ele deu uma risada bem forçada e disse:
– Não menti, só que às vezes é difícil aceitar a verdade...
– Mas eu sei que seu ponto de vista é diferente, bem diferente, do meu.
Brian me deu uma leve beliscada na minha mão, que significava que era para eu mudar de assunto. Falei:
– Sua blusa é muito bonita.
Ele deu uma olhada para meu decote. Que raiva da Julie. Ele falou ainda tentando disfarçar que estava olhando para meu decote:
– É preta que nem a minha, temos muito bom gosto.
Mas raiva da Julie. Brian então falou:
– Ela tem namorado Felipe.
– Quem?
– Eu.
– Não sabia que era permitido policiais namorarem com alunos.
– Novas regras.
– Já que os dois são namorados, não se importariam de se beijar não é?
Fiquei gelada. Brian deve ter sentido isso pois apertou minha mão levemente tentando me acalmar, e estava funcionando até que o Brian falou:
– Claro, mas aqui não. Vá ao refeitório dos funcionários eu lhe provarei.
Aquilo me fez querer matar o Brian, mas ele passou a mão rapidamente tentando me acalmar. Felipe então falou:
– Você tem sorte Brian de ter uma namorada como essa. Lucy quando cansar de sair com perdedores vá atrás de mim.
Ele deu uma piscadinha e saiu. Me virei para Brian e disse muito brava:
– Por que você fez isso? Você mesmo disse que eu não deveria beijar ninguém!
– Calma, não vai acontecer nada, eu tenho um jeito de ter ajudar e me ajudar. Venha você não pode fazer aula com essa blusa.
Concordei com a cabeça. Ele me levou direto para o dormitório e entrou comigo no quarto. Ele fechou a porta e só acendeu a luz que fica nas primeiras camas. Ele empurrou a cadeira de rodas até a minha cama. Ele abriu uma porta de uma cômoda e tirou uma blusa bem folgada e disse:
– Coloque por cima dessa, depois pode tirar ela.
– O que você vai fazer para, quer dizer, para eu não te beijar.
– Digamos que seu braço esta doendo muito e eu terei que te levar na hora do almoço para o Tyler te ver.
Concordei. Ele disse:
– Terá um baile amanhã em comemoração ao final dos testes físicos, quero dizer não totalmente, ainda farão atividades físicas, mas todas as pessoas daqui irão, até o Felipe vai. Mas o que eu quero mesmo é te convidar para me dar a honra da primeira dança.
– Mas Brian eu não sei dançar, e as minhas pernas?
– Mais um motivo de você ir ao Tyler. Como você não sabe dançar?
– Depende, eu consigo pisar no seu pé durante a dança, mas dançar bonito não consigo.
Brian me olhou com um olhar de trabalho. Estava prevendo já o que aconteceria. Brian começou a me levar para a sala de treinamento e ao chegarmos lá ele disse:
– Vamos vou te levar para o Kyle te ajudar nos exercícios.
Kyle estava ajudando um rapaz que estava tentando levantar uns pesos, mas deve ter exagerado por que estava caído no chão e não conseguia se levantar. Kyle também não estava conseguindo fazer muita coisa. Brian se apoiou na parede e disse sendo irônico para o rapaz:
– Está doendo?
O rapaz disse:
– Sim.
– Que bom.
Me aproximei do lado do rapaz e puxei os pesos sem fazer muita força. Logo o rapaz estava de pé e eu estava segurando o peso olhando para ele e disse:
– Quantos quilos tem aqui?
– 25.
– Hum... Achei que era 30 kg, mas ok.
O rapaz me olhou perplexo e saiu. Kyle disse:
– Como você consegue levantar isso. É bem pesado para você.
Olhei para o lado. Brian já não estava mais lá. Falei:
– Brigar dá nisso.
Kyle riu e fiquei levantando o peso em quanto ele saiu para pegar algumas coisas. Não me importo de ficar sozinha, até acho melhor, mas não gosto de ficar sozinha no meio de rapazes, e quase todos me vem somente como uma garoto bonita, só isso. Quero que as pessoas me vejam pelo o que eu sou, pela minha personalidade, não pelo meu corpo ou pelo meu cabelo. Odeio isso. Kyle chegou com um elástico preso a uma parte de plástico igual a outra. Ele me entregou e me explicou que deveria puxar com as duas mãos até ficar na altura dos ombros. Não estava afim de fazer isso, mas mesmo assim fiz com um sorriso no rosto, e com os pensamentos longe. Fiquei pensando em como as pessoas me viam e estava decidindo fazer algo temporário para as pessoas pararem de me olhar como uma garota bonita só ainda não sabia o que faria. Fiquei um bom tempo fazendo o exercício até que Kyle disse:
– Lucy quantas vezes você fez o exercício?
Parei de fazer o exercício e disse rindo:
– Não sei só sei que foi mais que uma.
Kyle riu e disse:
– Lucy você vai no baile amanhã?
– Sim só não sei com o que...
– Nossa eu tinha esquecido de te entregar.
Ele levou a mão ao bolso de trás da sua calça e tirou 150,00 Felps (Felps era o nome do dinheiro na minha cidade, sim o nome é ridículo, mas nosso prefeito achava aquele nome inspirador) e me entregou dizendo:
– Dinheiro para comprar um vestido. Todas as garotas receberam, já os rapazes ganharam uns trocados para comprarem uma gravata.
Soltei uma risada e disse:
– Você poderia ir comigo comprar um vestido?
Vi seus olhos brilharem e ele disse:
– Claro, será uma grande honra.
Sabia que Kyle gostava de mim e aquilo me deixava mais corada ainda. Kyle disse:
– Que tal você começar a dar uma empurrada nessa cadeira para conseguir se locomover mais.
Eu comecei a me locomover para frente e para trás quase sem sair do lugar, pois não estava muito animada para fazer isso e acabei fazendo sem muita vontade. Kyle me olhou feio e então voltei a fazer o exercício, mais ou menos direito. Eu andei por alguns metros sem muito esforço. Não queria ficar me exercitando, mas mesmo assim fiz com pouca vontade. Ao terminar já era hora do almoço e Brian se aproximou do Kyle e falou algo em seu ouvido e depois me levou até o hospital que Tyler trabalha e me levou na sala. Tyler examinou minhas pernas (acho que ele ficou tempo demais passando as mãos nas minhas pernas. Acho que ele quis aproveitar para saber como são minhas pernas. Acho que terei que adicionar mais um na lista de pessoas que gosta de mim...) e disse:
– Pronto, suas pernas estão perfeitas. Não vai nem mais precisar dessa cadeira de rodas. Bem vamos começar a andar.
Brian logo disse:
– Sabe Tyler eu amo muito essa garota, acho que ela não deveria gastar as pernas dela andando.
Eu estava em pé e logo dei um chute nas partes intimas de Brian que caiu no chão com as mãos onde eu chutei. Falei rindo:
– Olha minhas pernas já estão funcionando!
– Brian você está bem?
Brian levantou uma mão em um gesto obsceno. Falei:
– Não precisa ficar xingando as pessoas.
Brian fez um “Ok” com a mão. Tyler segurou meu braço e andou comigo pela sala. Eu escorreguei e Tyler me segurou. Quando ele me puxou ficamos com os rostos muito próximos. Conseguia ouvir sua respiração. Eu disse:
– Tyler pode me soltar.
– Precisa?
– Logico que sim...
– Certeza?
– Se você me largar eu te dou um beijo, mas será na bochecha.
– Ok.
Tyler me largou e estendeu a sua bochecha na minha direção. Quando estava dando o beijo no Tyler, Brian me olhava sério. Virei para Brian e andei até sua direção e lhe dei um beijo na sua bochecha. Seu rosto sério voltou a ficar feliz. Ele então disse:
– Será que eu urinarei sem sangrar?
– Você menstrua por acaso?
– Não Lucy. Eu não menstruo.
– Sério? Você já está na menopausa?
Ele me agarrou e me derrubou. Ficamos com os rostos colados e ele falou:
– Não acho que eu menstruo ou já menstruei alguma vez, mas por você até isso eu faço.
– Faz isso agora? – Pedi com a mesma voz que Brian usou quando falou para eu não conversar com estranhos.
– Quer que eu tire a roupa para você ver?
– Eu acredito na sua palavra.
– Sabe o que eu queria fazer agora?
– Menstruar?
Ele apertou de leve minha cintura e disse:
– Te beijar.
Corei (acho que já estão se acostumando de me verem da cor do meu cabelo) e falei:
– Nem tente.
– Tem certeza? Nunca reclamaram do meu beijo.
Tyler então disse:
– Brian você já beijou alguém para saber se é verdade?
Brian virou a cabeça e olhou para ele em quanto me segurava e disse:
– Deixa eu ver... Não acho que isso é da sua conta. – Ele se virou para mim de novo e disse- Aonde estávamos mesmo?
– Na parte da sua menstruação.
– Achei que a gente já tinha evoluído nessa parte...
– Brian eu marquei com Kyle de ver uns vestidos hoje.
– Kyle vai ficar uma graça de vestido...
– Também acho, mas ficariam melhor em mim.
– Ok, deixarei você ir, mas não deixe Kyle comprar nenhum vestido para ele, ele não tem busto suficiente para usa-los.
Soltei uma risadinha. Brian me colocou de pé e Tyler disse:
– Tome isso – Ele me entregou uma bengala vermelha (estão de zoeira comigo...) e disse- qualquer coisa pode vir aqui.
Tyler me entregou um papel. Dobrei e coloquei no bolso. Brian me acompanhou até a porta do dormitório e disse:
– Hoje não terá treinamento à tarde, para as garotas e alguns rapazes verem as roupas que vão usar, acho melhor trocar de short.
Soltei uma risada e entrei no dormitório. Não tinha nenhuma garota lá. Achei até melhor de não ter ninguém. Tirei a blusa folgada que Brian me deu para vestir e fiquei com a blusa dos caminhos. Coloquei um short maior do que eu usava (aquele short que eu usava tinha uns dois palmos fechado) e fui até o banheiro. Tranquei a porta atrás de mim e me olhei no espelho. Tirei as lentes de contato e coloquei em uma caixinha com soro que escondia em uma portinha do armário. Soltei meu cabelo, e o penteei com uma escova que estava em cima da pia. Eu vi uma garota muito bonita, com olhos vermelhos e com o cabelo vermelho, seu corpo era bem definido, com curvas bonitas. Seu busto era de qualquer garota invejar. Sua pele era bem clara, quase branca. Tinha umas sardinhas, mas a garota devia mal tomar sol. Seus olhos tinham um brilho natural incrível. Mas desta vez eu consegui saber que a garota que eu olhava era eu mesma, e não tive nem que pensar um pouco mais. Eu sorri e lavei meu rosto. Depois pensei em prender meu cabelo em uma trança de lado, mas lembrei da ultima vez que prendi meu cabelo em uma trança e desisti. Acabei deixando o cabelo solto. Coloquei as lentes de contato e sai do banheiro e do quarto e fui para sala de treinamento ver se Kyle estava lá. Para minha surpresa Felipe esta conversando com Kyle. Meu rosto estava ficando vermelho, mas de raiva. Cheguei a Kyle sorrindo. Kyle disse:
– Lucy que bom que já pode andar!
– Por que você não foi?
– Estava no medico, sai agora daqui. Inclusive eu não almocei até agora.
– Se quiser podemos ir comer antes de irmos atrás do seu vestido Lucy.
– Não precisa Kyle, eu janto depois.
– Lucy eu irei no baile amanhã, aproveite para me provar o seu amor pelo Brian.
– Felipe, você deveria tentar se preocupar com o país, não com um casal.
Ele se aproximou de mim e disse:
– Lucy, todos se preocupam com uma garota bonita, e ainda mais inteligente.
– Ainda bem que eu não sou isso.
Felipe passou a mão pelos meus cabelos e disse:
– Algum dia...
Tenho quase certeza que seria “eu terei você” ou algo do gênero. Felipe foi embora e Kyle e eu fomos embora. Kyle foi me guiando até uma loja com vários vestidos. Uma garota jovem me levou para dentro da loja. Eu fiquei segurando a mão do Kyle pelo máximo de tempo que pude. Olhei vários vestidos, mas gostei mais de três. Levei eles a um provador e me troquei. Vesti um vestido preto de alças finas que ia até minha canela, com uma abertura que mostrava minhas pernas. Fui mostrar pra Kyle. Ele me olhou com um rosto um pouco estranho e disse:
– Tem certeza que você quer usar esse?
– Por quê? Você não gostou?
– Acho que tem opções melhores.
Voltei ao provador e vesti um vestido rosa que eu achei muito curto (ele deveria ser menor do que o short que usei quando quebrei as pernas) e logo fui provar o outro. O outro vestido tinha um forro cor de perola e por cima do forro tinha uma renda azul escuro, bem delicada, essa parte ia até minha cintura, da cintura até meus joelhos ela era azul escuro com detalhes em dourado até meus joelhos, era um pouco rodada, mas caiu perfeitamente em meu corpo, fiquei feliz ao ver o resultado de tudo (inclusive pelo preço. Era só 110 Felps, o que significa que tinha ainda dinheiro para um lanche). Sai do provador e Kyle me olhou com um sorriso lindo. Ele se ajoelhou e pegou na minha mão e disse:
– Lucy, com esse vestido eu vou me casar com você.
– Ainda bem que eu não vou me casar.
– Ainda não, mas um dia ira.
Ele ri e volto ao provador. Me troco, e antes de pagar o vestido eu vejo que tem uns batons para vender. Pego um preto e vamos embora, mas antes Kyle para em uma loja de doces e eu compro uns doces, como: chocolate, balas, bombons, chiclete (amo isso, por isso sempre mantenho um bom estoque de chiclete), e uns pirulitos. Volto ao dormitório. Kyle está sorrindo e diz:
– Você vai ter que me dar à segunda dança.
– Por que a segunda?
– Por que eu tenho certeza que Brian pediu à primeira.
Dei uma risadinha e concordei com a cabeça. Entrei no dormitório. Fui até a cômoda e coloquei o vestido sem amassá-lo na gaveta. Apoiei a bengala do lado da cama e me deitei. Eram 17h34min. Queria dormir, e foi isso que eu fiz.
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