Trigésimo dia de caminhada, o sol castigava a pele daquela caravana de soldados não preparados, todos jovens sem treinamento, que agora viam sua vida se esvaíndo aos poucos. A água havia acabado 4 dias atrás e não havia lugar para onde ir. Tinham sido mandados para o inferno, um maldito inferno sem fim, aquele mar de areia e horizonte distorcido pelo calor das chamas produzidas pela bola de fogo no céu que agora era o maior inimigo. A noite virava outro inferno, não menos assustador que o primeiro, mas desta vez era um inferno gelado, as temperaturas caíam tanto que mal podiam acreditar que se encontravam no deserto, mas claro, a areia não reteem calor.

Suavam, tremiam, suavam, tremiam, e assim se passavam os dias, o número ia descendo até que não mais podiam se chamar de reforços, mas sim um grupo de ajuda, quem sabe menos. Reforços, essa ideia lhes parecia tão idiota agora, eles mal podiam sobreviver, o que eles conseguiriam proteger? Essa guerra estava perdida desde o começo, e eles sabiam disso, mas ainda assim marchavam rumo ao fim, em direção à cidade em ruinas que só sabiam estar alí pelo mapa, porque os olhos apenas enxergavam areia e morte, nada mais.

Desnorteados, seguiam apenas aquele que havia sido escolhido como portador do mapa, aquele que direcionaría o grupo e que se fracassasse seria responsavel pela morte de todos, uma grande responsabilidade que começava a pesar cada vez mais. Naturalmente, as brigas começaram, suspeitas despertavam, todos começavam a se olhar como inimigos, como à espera de abater uma presa, já não eram mais aliados, eram apenas selvagens, selvagens tentando sobreviver.

O que mais sofria era Jack, o guia, e com grande tristeza misturada com raiva de sua própria incompetência começava a dúvidar de sua capacidade de tomar a direção certa. Deveriam ter chegado ao destino 10 dias atrás, mas algo dera errado, ele devia ter cometido algum erro. E ele sabia, ou apenas imaginava, que todos estavam à beira de um colapso, e a primeira coisa que fariam antes de morrer seria matar aqule que os levou à desgraça, sim, ele mesmo. Mas entre todos havia um ser, um individuo que não se abalara, não mostrara rancor nem medo, seu nome? ninguém sabia, ele apenas acompanhara em silêncio o trajeto todo. Toda vez que alguém não acordava no dia seguinte ou morria no meio das longas caminhadas diarias ele parava e ficava para trás por alguns segundos, se rezava, prestava homenagem ou até mesmo sentia prazer em ver a morte ninguém podia dizer com certeza, todos tinham uma teoria, mas provavelmente nenhuma estaria certa. O chamavam de "happy" em ironia ao seu estado sereno e não sorridente, mas ele nem se dava o trabalho de responder a isso, apenas atendia quando era chamado, não importava de que maneira.

Foi então que Happy falou pela primeira vez, mas não sorridente, pelo contrário, mais sério do que costume, apenas disse: "problemas". Foi quase um susurro, mas a voz era poderosa, não sabia dizer o por quê, mas Jack sentiu segurança mesmo que as palavras tivessem um significado tão negativo. Quando ele se aproximou viu o que havia deixado o soldado sem nome tão sério, pegadas, várias delas, era dificil não notar. Poderiam ser de outros soldados, os mais otimistas do grupo chegaram a pensar que fossem mais reforços. Toda a alegria se desfez quando Thales, o líder, com binóculos confirmou o que temia, caçadores. Mas caçadores do deserto significavam comida, munição e sobretudo água, o ouro do deserto.

Depois de segui-los por algumas horas chegara finalmente o momento decisivo, o momento do confronto. Haviam decidido atacar, não esperar por resposta, não sabiam quão armados ou perigosos poderiam ser. Então sem aviso prévio atacaram, mas logo Jack percebeu, não era um confronto, era um carnificina. Viu dois "caçadores" correndo e sendo mutilados, uma mulher ajoelhada rezando e recebendo uma bala no meio do peito, não cedeu, foi fuzilada, um homem chorando, a carruagem manchada de vermelho vivo, de lá saindo dois homens, um se apoiando no outro, haviam perdido quase metade do corpo, a cena era terrivel. Jack não atirava mais, Thales continuava gritando "fogo!" e Happy apenas parado, com os olhos fechados.

Após uns minutos, que pareceram horas aos olhos atormentados de Jack, o cenário seguinte se tornara um pesadelo, ou apenas uma visão triste, em meio aos destroços e corpos ensanguentados encontrava-se uma pessoa em pé, não uma pessoa, uma criança, uma garota, não mais de sete anos. Paralisada, não escorreu nem uma lágrima, não se escutou nem um grito, ela estava parada, olhando o vazio.

Não sabiam se a encararam por 5 minutos ou uma hora, o único que sabiam é que ela não se mexera, e nem eles. Ninguém se atreveu a dar o primeiro passo, tinham medo até de respirar fundo e quebrar o silêncio.Passaram-se mais 2 minutos, ou talvez mais, mas certamente pareceu mais, quando finalmente ela fechou os olhos, abriu-os devagar encarando as mãos ensanguentadas, mas ao mesmo tempo olhando para o nada, e em um súbito movimento, desmaiou.

Não sabem se a levaram consigo ou a deixaram lá, não era importante, mas apenas sabiam que já não eram os mesmos, e que nunca voltariam a ser.

Ao longe avistaram uma cidade, o destino, as ruínas, o pesadelo só estava começando.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.