Armagedom

2 Capítulo I - Palavra Obscena


Maria disse que eu fui um presente dos anjos — mesmo que nos tempos atuais a palavra anjo não signifique muito, mas é sempre bom poder nos sustentar em algo que consideramos superior — ela disse que os comissários de Deus bateram na porta do orfanato e me deram à ela. Mas eu não acredito muito nessa história, porque no mundo em que vivemos a palavra Deus não existe mais, muito menos Anjo.

Mas isso não empatou em nada em minha vida. Eu sabia que eu era diferente de todos que conviviam comigo, mas ninguem poderia dizer ao contrário, ou melhor, quase ninguem. Meu melhor amigo Ton era, além de Maria, o único que sabia de meu segredo. Isso, eu não era humano. Eu apresentava características diferentes das dos humanos, a primeira e principal eram meus olhos, eu era o único que possuia olhos brancos em minha cidade. Também possuia uma estranha habilidade de regeneração acelerada e uma grande resistência física. Essas características eram as únicas que me diferenciavam dos humanos, e por ser apenas estas, eu pude viver em paz até meus 15 anos de idade.

A luz bateu diretamente em meus olhos quando eu os abri. O céu já estava claro e as pisadas das crianças do orfanato estavam barulhentas como sempre. O sino para o café da manhã já começara a tocar e eu estava atrasado. Com um pulo eu desci da cama, rapidamente me vesti com as roupas que estavam em cima da prateleira da cama e fui correndo para a cozinha — se eu não me apressasse eu iria ficar sem tomar café da manhã novamente — come sempre a cozinha estava uma bagunça, a mesa estava toda suja de comida e era um barulho ensudercedor.

— Bom Dia Joe — Maria me comprimentou ao me ver na posta da cozinha — Eu separei sua comida hoje para você não correr o risco de ir para a escola com fome novamente.

— Ah, Bom Dia Maria. Obrigado.

Fui sentar diretamente em minha cadeira, não queria me envolver naquela confusão — já não havia conseguido dormir direito noite passada porque os gêmios ficaram até tarde contando história de terror — não estava com paciência para ficar ouvindo besteiras. O café da manhã terminou e todos foram saindo da mesa para ir ao colégio — como sempre Maria estava lá na porta para dar um tchau para todos, a fila se estendia até a sala — perto do colégio eu me encontrei com Ton como sempre.

— Bom Dia Joe.? — Ton me cumprimentou.

— Opa, Bom Dia. Conseguiu fazer os resumos daqueles cinco livros?

— Infelizmente só consegui fazer o dos quatro primeiros. Quando fui começar o quinto eu fiquei com preguiça. — Responde Ton com um sorriso no rosto.

— Pelo menos foi melhor que eu... Não fiz nem quatro, só consegui fazer três.

— Mas também o professor queria demais não? Resumo de 5 livros em uma semana!

— É, nisso eu tenho que concordar com você — logo o sino toca — vamos correr que já estamos atrasados.

Então eu e Ton começamos a correr em direção a sala de aula. Como sempre eu não sentia nenhum cansaço e corria muito rápido, enquanto Ton quase não conseguia falar nada. Logo entramos na sala e sentamos em nossas respectivas carteiras. Ao término das aulas eu fui direto para o orfanato, estava me sentindo muito mal — o que era muito estranho por ter uma resistência incrível — mas nesse dia eu estava realmente mal, ao chegar no orfanato fui direto ao meu quarto e despenquei na cama.

Não me lembro de muita coisa, só sei que de repente eu estava em cima do orfanato sentado sobre os telhados, o normal seria eu ter um susto, mas eu não senti nada, era como se aquilo fosse natural para mim. E para ser mais estranho ainda, meu olhos estavam com uma misteriosa cor dourada, podia perceber isso pelo brilho que estava acendendo em pleno escuro. E para terminar eu não tinha controlhe do meu corpo e eu fiquei lá parado, sentado em cima do telhado fintando o nada. Até que não aguentei e meus olhos se fecharam.

Não sei como vim parar aqui, mas quando abri meus olhos tive um grande susto por ver todos aqueles seres ao meu redor. Era a primeira vez que vi tantos e de tão variadas raças desta forma, haviam dragões, fadas, lobisomens, ogros... Era inevitável ficar com medo — acho que normalmente humanos iriam ficar ali, parados, imaginando tantas coisas. Então essa seria mais uma caracteristica que me diferenciava dos humanos. Eu apenas pensei em ataca-los — senti que o branco dos meus olhos começaram a brilhar, estavam de uma cor prateada. Tentei imitar aquela posição de luta que eu via os lutadores de box fazendo na televisão. E então me preparei para partir para cima deles, mas fui parado por aquela doce voz — e como sua voz, a dona era mais doce ainda, possuia cabelos dourados que caiam sobre seus ombros, passavam pelas costas, até chegar na cintura. Olhos que refletiam a suavidade e ternura do oceano, uma cor vívida que absorvia a atenção de qualquer pessoa.

— O que o traz aqui, em nosso humilde lar que a todos recebem?

Pensei minunsiosamente em minha resposta. Em meio a tantas feras — mal sabia eu que era a única fera ali — que poderiam me atacar a qualquer momento por qualquer coisa que os aborrecesse.

— Não sei, eu estava dormindo em meu lar e quando abro meus olhos já não reconheço onde estou.

— E como se chamas, jovem?

— Joe... Joe Sauver. E se me permiti...

— A sim, claro, me desculpe. Me chamo Aine, Bracken Aine. Sou a fada governanta dessa aldeia. Somos a maior aldeia de Fantasys existente.

— Fantasys?

— Não sabe o que são fantasys? — indaga espantosamente a bela fada.

— Não.

— Fantasys são a nossa raça, somos denominados fantasys por nós mesmos. É como os abominaveis humanos, a raça deles é chamada de humanos enquanto a nossa é fantasy. Mas como podia não saber de uma coisa dessas?

— Ah, entendo. Sabe, eu sou um humano, e nós humanos os reconhecemos como monstros.

— HUMANO? — um grito ecoa entre a multidão de fantasys.

Logo percebi que a besteira que havia falado. A única palavra que deveria ter dido seria essa, humano. Os humanos que os atormetam por anos, escravisando-os e os maltratando, óbvio que eles iriam guardar rancor sobre nós.

Notas finais
O que acharam?