Armadilhas do Destino
3 Debaixo de uma Cerejeira
Notas iniciais

Uma semana e meia se passaram após aquele ocorrido e eu não voltei mais na academia. Dentro da minha casa não se falava mais em luta, nem em treino, nem em tatame, nem em Yoko Mavis!
É lógico, meu pai ficou todo estressadinho com o ultimo ocorrido.
Flash Back
Quando entrei em casa, fui direto ao meu quarto. Joguei minhas luvas e minha mochila em cima da cama e entrei no banheiro. Após uns 20 minutos eu já havia terminado, então me enrolei em toalhas e voltei ao meu quarto em busca de uma roupa seca, mas o que eu encontrei lá foi um pai com uma cara que dizia “você me decepcionou”
–– Seja breve!
–– Você sabe o que um confronto direto com o time verde nos resultaria? – Ele pôs uma mão no bolso e retirou uma medalhinha que eu sempre usava. –– Ela ficaria decepcionada com você.
Com “ela”, meu pai dizia da minha avó! Essa medalhinha eu havia recebido dois dias antes de sua morte. Desde então, eu nunca havia retirado-a do pescoço.
Passei a mão no pescoço, confirmando que me faltava algo. Provavelmente deve ter caído na hora da “luta”. Corri até ele e tomei-a de sua mão. Ele apenas bufou, fechou os olhos e cruzou os braços.
–– Tenho certeza de que ela ficaria feliz em me ver lutando! Ao menos alguém demonstrava seus reais sentimentos pra mim. – Virei novamente para encará-lo. –– E não sei que problema! O mestre do time verde parecia estar muito feliz com aquilo!
Ele abriu os olhos, expressivamente com raiva. Eu continuei lhe encarando e mostrando que não tinha medo algum!
–– Um mês sem mesada e é da escola pra casa. Sem computador ou celular!
–– O-O-O-O QUE?! – Eu arregalava os olhos enquanto gritava. –– HIDOI, OTOOU-SAN!
Eu caí no chão, como naquelas cenas de anime em que o personagem entra em total depressão, com uma nuvem negra na cabeça. Ele apenas se virou e começou a caminha pra fora do quarto.
–– E se arrume direito essa noite! Vamos a uma festa na empresa da sua mãe.
Eu corri até a porta e gritei:
–– ELA NÃO É MINHA MÃE E NUNCA VAI SER! EU NÃO TENHO MÃE, SEU VELHO IDIOTA!
Fechei a porta rapidamente torcendo pra que ele não voltasse e começasse a gritar comigo novamente. Ele não tem o direito de usar minha avó desse jeito, não tem!
Flash Back
E foi isso o que aconteceu. Eu fiquei ignorando ele durante alguns dias por ter sido tão baixo e tocado em um assunto que não lhe tinha nada a ver com o momento. Ainda tenho mais duas semanas pra “aproveitar” sem meu celular e meu computador. É uma vida triste, sem sentido, mas eu to bem. Nesse momento, eu estou na escola, mais precisamente na aula de historia! E pra falar a verdade, estou usando minha mochila de travesseiro e tentando dormir.
–– Hey, Sayuri!
Esse que me chama é Lawliet Birthday, ele é britânico. Cabelo castanho escuro e arrepiado, meio emo, olhos negros com olheiras grossas, magro, pele pálida... Meu amigo desde quando me mudei para a Califórnia, há cinco anos. No começo, ele não falava quase nada. Parecia ate que tinha... Vergonha... De falar com alguém. Mas com o tempo de convivência comigo, aos poucos ele foi mudando. Também... Digamos que meu lado “histérico e sincero” é bem convincente, eu diria.
–– Ahn? – Falei levantando o rosto e o encarando firme. Odeio que me acordem! –– Ah, é você... Boa noite...
–– Você não tem jeito mesmo...
Ele riu e tenho que admitir que seu sorriso não era nada mal. Depois disso abaixei a cabeça sem responder nada. Apenas voltei ao meu bom sono.
Após algumas horas de aulas, eu finalmente já estava indo pra casa. Mas ao passar pelo parque, algo me chamou atenção! Havia uma cabeleira branca encostada, sob uma árvore qualquer.
“Não pode ser!”
Corri, e logo minhas suspeitas foram confirmadas.
–– Mavis!
Ela se virou, mas agora seu olhar era diferente. Não era a feição de tédio que havia visto naquele dia, na verdade, ela não tinha feição nenhuma. Era como se estivesse totalmente perdida em pensamentos. Ela estava com o uniforme da escola bagunçado. A saia torta, a meia uma mais acima que a outra, a blusa amassada e a jaqueta amarrada na cintura. A mochila estava jogada a alguns centímetros de distancia e no seu colo havia seu celular conectado aos fones de ouvido.
–– Higashi? O que você faz aqui?
Quando ela se virou totalmente, pude perceber que seus olhos estavam bastante vermelhos e um pouco inchados, como se ela estivesse... Chorando há horas.
–– Sou eu quem te pergunto! Sua estúpida! Você faltou à aula hoje não foi? Quer crescer e fic...-
Antes que eu pudesse completar, ela me puxou pelo braço me fazendo sentar e em seguida ela se atirou no meu colo. Eu não entendi nada, mas vi suas lágrimas escorrerem e entendi que ela precisava de atenção, carinho, de alguém que a entendesse, então apenas a respeitei e deixei que chorasse até se acalmar. Após alguns minutos, ela havia me explicado que hoje era seu aniversario, mas também era o dia em que sua mãe havia morrido. Era como se ela se sentisse culpada pela morte de sua mãe, o que não é verdade.
–– Eu me repudio...
–– Eu vou repudiar minha mão na sua cara se não parar com isso agora! – Ela levantou do meu colo e me encarou, primeiro com olhar de espanto, mas depois com raiva. –– Fala serio! Sua mãe te amou tanto a ponto de dar a vida dela pra você nascer, e ao invés de aproveitar ao máximo, você age com se fosse um “estorvo” ou algo do tipo. Sinceramente? Eu queria lutar com você um dia sim, mas não pelos boatos, e sim porque eu pensava que você tinha algo mais alem de beleza. Achei que era uma garota inteligente, mas eu me enganei. Você não passa de uma bebê chorona que não percebe que tem pessoas ao seu redor querendo ver seu sorriso, não suas lagrimas.
Depois de contar um pouco sobre a minha história, eu me levantei e saí antes que ela pudesse responder alguma coisa, deixando ali no parque, refletindo, uma garota aparentemente sofrida, mas na verdade, ela apenas não entende muito bem a vida, nem seus sentimentos.
E pensar que aquilo foi o estopim pra uma amizade.
No dia seguinte, meu pai teve que resolver algumas coisas sobre as aulas com o mestre do time verde, e pediu que eu fosse com ele até aquela casa. No começo eu não quis ir, mas depois pensei na possibilidade de ver a Mavis e saber se ela estava melhor. Não que eu esteja preocupada... É mais por curiosidade. Já que fomos de carro, não demorou muito pra que chegássemos aquela casa. Meu pai foi convidado a ir a um tipo de sala de visitas junto ao outro mestre, e eu apenas me sentei no sofá com meus fones. De repente, algo me surpreendeu! Um enorme Husky Siberiano apareceu de algum lugar e pulou em cima de mim, me lambendo da cabeça aos pés.
–– Damon! Senta!
E no mesmo instante o cão saiu de cima de mim e sentou no carpete.
–– Damon? – Encarei aquela figura despenteada e senti uma enorme vontade de rir, mas me controlei. –– Porque não o chama de belzebu logo?! Seria mais obvio.
–– Eu bem que queria, mas meu pai é um idiota e implicou demais comigo, então optei por Damon. – Ela passou a mão no cabelo, não para arruma-los, mas sim, para retirar a franja dos olhos. Foi ai que pela primeira vez eu vi sua heterocromia.
Passei a mão sobre a minha franja e a retirei de cima do meu olho esquerdo, deixando a mostra também a minha heterocromia. Ela sorriu sugestivamente e balançou os cabelos pra que eles caíssem novamente em seus olhos.
–– É bom saber que não sou a única tratada como “raridade” e blablabla... Isso me da nos nervos!
Ela sorriu novamente antes de completar.
–– Eu ainda não tomei café da manha, então venha e não aceito não como resposta.
–– Como se fosse possível Higashi Sayuri recusar comida!
Ela andou e eu a segui até a cozinha.
–– Ah! Se ameaçar me dar um tapa novamente, nós iremos resolver no tatame!
Eu sorria, mas em deboche.
–– Eu mal posso esperar!
Desde então, eu e Mavis não nos desgrudávamos mais! Foram inúmeras noites em que dormi na casa dela, e vice-versa, longos treinamentos juntas, varias confusão em que ela se enfiava e eu acabava pagando o castigo junto com ela. Ela continuava a mesma garota esquisita e rebelde de sempre, mas agora, não tratava mais sua vida como “estorvo” ou algo do tipo.
Quando eu completei quatorze anos, foi o pior ano da minha vida!
Por quê?!
Meu pai resolveu se mudar novamente, e por algum motivo, nada o fazia mudar de ideia. Dessa vez iríamos para a França. A pior parte foi me despedir da Mavis... Não gritamos, não protestamos, nem mesmo choramos! Fomos fortes até o final! Naquele dia, nos trocamos nossas luvas e juramos um dia nos encontrar de novo.
Nesse exato momento estou dentro do avião, rumo a Tokyo. Não posso dizer que muita coisa mudou.
Dezesseis anos, 1,59cm de altura e 49 kg. Acho que a única coisa que mudou em mim foram meus cabelos, que agora estão na altura do bumbum e não os mantenho mais trançados como antes. No começo, eu não aceitava minha heterocromia muito bem e por isso mantinha minha franja enorme, mas o tempo que eu passei na França foi ótimo quanto a isso e me ensinou a viver bem com minha raridade, então aquele franjão emo não existe mais. Ainda tenho franja sim, mas não exageradamente como antes, agora ela é mais curta e cobria maior parte da minha testa.
Meu pai continua o mesmo cara rude e ignorante de sempre e ainda esta com a mesma mulher, a minha “madrasta querida”.
Ah! Finalmente vi o meu “irmãozinho querido”... E por causa dele, meu otou-san ficou bravo comigo. Por quê?!
Só porque eu briguei... Não, eu espanquei aquele idiota machista, que vai morrer só! Simplesmente o odeio! E queria ter arrancado mais sangue e de brinde, queria todos os dentes de sua boca!
Acho que eu nunca contei isso pra vocês, mas eu tenho um irmão mais velho.
Lembram que eu disse que antes de conhecer a mulher que me colocou no mundo, meu pai havia passado por um relacionamento ruim? Bem, a mulher que veio antes da minha mãe, atualmente é minha madrasta, que infelizmente engravidou do meu pai naquela época, por tanto, esse indivíduo, biologicamente, é meu irmão.
Vou fazer um “esquema” pra vocês entenderem melhor:
1º relacionamento = Meu pai + (atualmente) minha madrasta = meu meio irmão.
2º relacionamento = Meu pai + a mulher que me pôs no mundo = Eu.
Relacionamento atual = Meu pai + minha madrasta + eu – meu irmão = família feliz – só que never –
Basicamente, é isso.
Uma voz em um alto-falante avisa que em 5 minutos estaríamos aterrissando no centro de Tokyo. Eu estava ansiosa pra por meus pés na minha terra natal e visitar a casa onde fui criada... Essas coisas que a gente faz quando quer matar a saudade de algo.
Quando aterrissamos era por volta das 10h da manhã. Meu querido pai não perdeu tempo e logo chamou um taxi.
–– Pegue suas malas. A gente vai ficar no hotel central por hoje, mas amanha bem cedo eu vou procurar uma casa perto da academia.
–– Você vai de taxi, então leve minhas malas!
Andei até uma das minhas malas, abri, e peguei meu skate e dinheiro.
–– Faça o que quiser! — Ele revirou os olhos, em sinal de reprovação. –– Mas esteja em casa às 15hs.
Coloquei minhas malas no taxi e não disse mais nada. Abaixei pra apertar os cadarços dos meus tênis, ajeitei os fones, pus o dinheiro no bolso da calça e subi no skate, rumo a um lugar que eu estava louca pra matar a saudade.
Quando passei pelo parque, avistei uma cerejeira e automaticamente me veio lembranças dela.
“Yoko Mavis... Onde você está nesse moment
Fale com o autor