Arma Química

1 Primeiro Capítulo: Krokodil, a nova droga.


Notas iniciais
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. PLÁGIO É CRIME. TODOS DIREITOS RESERVADOS!

Era verão no Rio de Janeiro, como sempre muito quente em qualquer parte do estado. Exceto na região serrana, na qual Ton nunca visitara antes, mas sua vontade era enorme. — Ton adorava frio e montanhas. — Como eram férias e todas as festas de final de ano já haviam acabado, tudo pela cidade estava em liquidação.

Sua mãe e ele entravam e saiam em diversas lojas para observar as roupas — sua mãe era obcecada por compras, — passaria o dia na cidade e nem ligava, já Ton, odiava. — Odiava mais ainda aqueles dias de verão insuportáveis. O calor parecia piorar a cada dia. As pessoas usavam roupas finas e curtas, e ninguém mais tinha tanto preconceito quanto a isso diante daquele real inferno.

Nos jornais as notícias do aquecimento global se alarmar cada vez mais eram cotidianas, havia quem acreditava no fim do mundo de um ponto religioso e haviam os que acreditavam apenas de ponto de vista científico. Ton defendia um pouco das duas ideias, já que era um religioso, digamos assim, "afastado". Sua mãe defendia fielmente o ponto de vista religioso.

A mãe de Ton entrou finalmente na ultima loja, depois dele se lamentar tanto, e chegaram à frente de uma mesa de blusas masculinas e femininas por dez reais. Em volta a essa mesa estava lotado de mulheres histéricas umas agarrando a mesma peça de roupa e batalhando pelas vestes. Elas gritavam e se mexiam, se esbarravam e as mais esquentadinhas começavam uma nova discussão. Ton ficou imaginando: "se essas mulheres brigavam por peças de roupa imagina se fosse por comida".

As pessoas desse século já não tinham mais tanto pudor e ele achava que todo o clima não ajudava em nada no controle emocional delas.

— Nossa, nesse calor e essas mulheres brigando por tão pouco. — Disse Brenda, mãe de Ton, enojada.

— É melhor você falar mais baixo, mãe. Vai que elas ouçam e queiram arranjar uma briga contigo. Você tão pequena e magrinha não iria aguentar o primeiro round. — Brincou Ton, lhe dando um beijo na cabeça.

— É por isso que eu venho com meu segurança especial, querido. Ou você acha que eu te trouxe atoa. — Ela retrucou.

***

Ao voltar para casa eles sempre passavam numa avenida muito movimentada do estado, onde muitos usuários de drogas "residiam" por ali. Se é que pode-se falar que eles ligavam para um teto na cabeça deles. Junto com tanto calor, violência e etc; as drogas também eram alvos fortes nos noticiários. Era uma coisa que estava crescendo cada vez mais, não só no Brasil, no mundo inteiro. Na família de Ton haviam dois usuários e isso era considerado quase normal. Todos sabem como essa praga funciona. Ela não tem preconceito com cor, classe social, opção sexual, nem nada. Ela atuava na vida de quem desse brecha e os devastava.

Acontece que naqueles últimos dias as notícias eram um pouco diferente, estava ocorrendo muitos relatos de usuários de crack mortos, cada vez em mais números. Uma semana depois, o número de usuários de cocaína também teria diminuído quase cem por cento nas regiões mais críticas. Era até estranho passar naquela grande avenida e não ver nenhum grupo com um copo na mão, roupas rasgadas e sujas, pés descalços, pele imunda e alma sugada por aquela maldição.

Porém, naquela noite tudo mudaria com mais uma notícia diferente. O repórter na tevê anunciava um nova droga que se originou na Europa:

"Nova droga originada na Rússia alcança nosso país. Seu nome é krokodil, atende por esse nome, pois deixa a pele como a de um réptil."

"E não é só isso, ela vicia mais rápido e mata o dependente na mesma velocidade."

"Essa droga, quando injetada no corpo deixa a pele em estado de putrefação. Além de tornar o usuário em um verdadeiro 'zumbi'. Ele perde os sentidos e fica num estado deplorável. Pior do que o crack e de 8 à 10 vezes pior do que a morfina, ela chega ao Brasil em grande força."

"Será esse o motivo do sumiço de tantos usuários na região do estado?"

"Existem os que alegam a relação dessa nova droga com o governo, numa estratégia de acabar com os dependentes químicos e assim favorecer a beleza do estado. Tornando essa droga numa arma química"

"Veja agora, no Jornal Estadual"

Com toda aquela notícia o rebuliço na cidade foi grande. Todos ficaram chocados pelo fato da potência da droga. E outros com medo de serem vítimas da tal "arma química" também. Não demorou muito para o caso se alarmar e as notícias internacionais chegarem alegando milhões de mortes. Enquanto isso, no Brasil, o estágio da droga ainda era menor do que no resto do mundo. Apenas quem usava drogas eram vítimas da krokodil.

Pela falta de informação sobre as mortes, se elas eram homicídio ou suicídio (já que os que ficavam viciados na droga provocavam a própria morte), o povo se revoltou. Muitas manifestações e degradações de artefatos públicos foram realizadas. Prefeituras pichadas. Pessoas sequestradas e mortas. Foi um verdadeiro holocausto.

Em meio a todas essas coisas acontecendo, com o medo de todos saírem até mesmo para estudar e trabalhar o pior aconteceu para a família de Ton. A droga tinha chegado para seus parentes, os únicos dependentes químicos. Carlos fora o primeiro a morrer, usuário de cocaína, e pai de duas filhas. Carlos era tio de Ton, e foi um baque enorme ouvir que ele tinha apodrecido vivo. Todos o alertaram sobre essa droga, ele sabia, estava presente na cidade com todas as confusões. Mas era tarde demais, ele já havia experimentado a "coisa nova" que eles tinham lhe oferecido no ponto de vendas. E foi rápido. Ele passou dias sumidos, como fazia sempre que recaía. Mas logo depois a esposa ficou sabendo que ele passará três dias no hospital, ao invés de passar onde ele consumia a droga. Quando ele voltou para casa, feridas começaram a aparecer. Com um cheiro de carniça e profundas, sua pele parecia querer descolar do osso. Mesmo desse jeito ele não se importou e saiu logo no mesmo dia para procurar a droga. Já era tarde demais. Sua esposa apenas recebeu a ligação de um amigo do amigo que viu um corpo na vala mais próxima do bairro. E foi desse jeito a sua trágica morte. Na qual assustou a todos, inclusive as suas filhas, que não paravam de perguntar sobre o papai e se ele iria voltar.

Pedro, primo de Ton, que era usuário de maconha e alegava usar apenas para relaxar morreu dias depois. O incrível que pareça ele só usava essa droga mesmo, e de fato, ela o relaxava. Pedro sempre fora um menino muito explosivo. Não aguentava uma palavra errada. Mas logo depois da morte de seu pai, ele começou a usar maconha e se acalmou. Mas logo depois da morte de Carlos, ele e seus amigos estavam numa casa todos mortos. Caídos no chão e com seringas da droga espalhadas por entre eles. Suas peles já estavam no estado que começaria a se deteriorar. Sua mãe ficou desolada, Pedro era tudo para ela. E não só ela, como toda a família ficou em estado de choque. O pior de tudo? Cada vez mais pessoas estavam morrendo. Na família dos próximos morria um a cada dia. Entre as pessoas famosas acontecia o mesmo. Músicos, atores, diretores e etc... Todos morrendo aos poucos. Estudantes, trabalhadores com famílias acabadas. Jovens e velhos. Héteros e homossexuais. Ricos e pobres.

Todos na mesma situação.

Com o passar dos dias e das dores irremediáveis dos entes que, apesar de doentes, eram muito queridos. A situação cada vez mais se alarmava. Ainda mais pelo fato de que os ricos estavam caindo na armadilha dessa droga. Os burgueses decidiram, então, entrar na briga e procurar por uma resposta. Eles necessitavam saber se era uma arma química ou a droga aparecia para os usuários e eles simplesmente decidiram usar. E então morrer.

Mas então o que já era inexplicável, apenas piorou.

Relatos de pessoas que nunca usaram drogas antes começaram a aparecer com manchas no corpo e em questão de 24 horas elas viravam feridas horríveis, e o final? O final todos já podiam prever...