Arma Química
8 Laço Vermelho
Era uma dia normal, calor estonteante. Apesar de todo o caos que uma semana antes aterrorizava a população mundial. Logo depois dos vários relatos de usuários mortos, as coisas estavam se acalmando. Havia ainda uma tristeza, -é claro, por conta de todos os entes que se perderam à vinda dessa praga.
Sem contar na depredação que as principais cidades do Brasil inteiro sofreram. Um verdadeiro holocausto de dias. Mesmo agora, que tudo parecia se encaixar e as autoridades alegavam um controle sobre a epidemia, as coisas eram de se assustar. Ao sair pelas ruas era possível ver as marcas de uma grande revolta. Que envolvia medo e desejo de respostas por tantas mortes.
Vai entender o ser humano. Enquanto existiam os drogados todos reclamavam, mas quando eles morreram foi pior ainda. Uma grande revolução. Pensou Ramón, o homem que não tinha família, ou pelo menos, não lembraria se tivesse.
Ramón não se recordava de seu passado. Nem um feixe de memória. Nenhum resquício do que antes fizera ou deixara de fazer. Não sabia se tinha família. Tudo isso por conta de seu acidente na empresa de cosméticos que ele trabalhava, era formado em química. Apesar de ser um homem inteligentíssimo cometeu muitos erros. Mas essa queda teve algo de bom, além de esquecer seu passado; Ramón se tornou alguém com um pouco de dignidade.
Aos poucos todos voltavam à suas rotinas de escola; trabalho; de organizar a cidade. Voltar a rotina.
Era isto que Ramón e vários outros cidadãos estavam tentando fazer. Ele havia batido a cabeça no acidente, contudo, não perdera sua mania de não ligar para as coisas. Com tanto que não acontecesse com ele, estava ótimo. Então, não foi muito difícil retomar as atividades.
Ramón morava num flat à uns 40 minutos do trabalho, no qual a companhia pagava, no acordo judicial. Depois que ele acordou da pancada, os médicos puxaram sua ficha e procuraram sua família, mas fora em vão. Ele sabia que tinha uma ex mulher e talvez um filho, entretanto não saberia reconhecê-los e nem queria. Eles não quiseram e nem se preocuparam consigo, então, estava bom do jeito que está.
Na volta para casa, já ao entardecer, o engarrafamento de sempre. Pelo visto, não era só ele quem não estava ligando para tamanha praga. Calculou.
Trânsito parado, luzes de diversos vários; semáforos. Veículos soltando seus mesmo gases venenosos que nos permitiam chegar depressa nos lugares. Buzinas. Xingamentos. Buzinas. Dezenas de pessoas espetando condições para chegarem em sua casas. Motos ultrapassando sinais por entre os carros. Apitos de guardas. Quase tudo do mesmo jeito.
Podia-se até julgar que as coisas tinham mesmo voltado aos seus devidos lugares, e que apesar da tristeza, as pessoas acabariam superando tudo àquilo.
Se não fosse pela ambulância que pedia passagem desesperadamente. Tudo bem, talvez houvesse alguém precisando de socorro imediato, mas não daquele jeito. A ambulância atropelou os três carros a sua frente. Mais buzinas. Pessoas olhando para fora. Alarmes apitando, os dos carros e o da ambulância.
Fumaça exalava por todo o espaço.
E de repente gritos estonteantes. Correria. Pessoas desviando o máximo e se batendo. As que caiam no chão eram facilmente pisoteadas. Gritos e mais gritos. Fumaça e alarmes. Carros recuando e todos olhando através das janelas do ônibus.
–O que é isso?
–O que pode ter acontecido?
E então... Um enorme explosão vinda do céu. A bola de fogo acertou o ônibus atrás e labaredas ardiam todos os corpos que lá estavam.
Seriam mais manifestações? Pensou Ramón. Mas nada do que ele deduzia era de fato o que estava acontecendo.
Todos do ônibus que ele estava começaram a tentar loucamente a sair do veículo.
Buzinas, gritos e bombas.
Eles precisavam salvar suas vidas. Cada momento ali era perigoso, com todas aquelas bolas de fogo vindas do céu. Pela primeira vez a maçaneta do ônibus fora utilizada, todas as janelas se quebraram. Cacos de vidros se espalharam e acertaram aos passageiros. Nada que fosse tão grave. Até que eles conseguiram se ver livres de dentro do ônibus.
Alguns tropeçaram, caíram da pequena escada do ônibus e se levantavam. Crianças e idosos primeiro. Como se eles fizessem alguma diferença, nenhum dos dois ajudam em nada em situações como essas. A mente de Ramón parecia voltar a suas origens.
O que ele queria era se ver livre daquele amontado de bombas e pessoas. Achar um lugar seguro e se salvar. Afinal, não tinha ninguém com quem se preocupar.
Pessoas choravam e gritavam por nomes, desesperadas. Elas precisavam achar as pessoas que amavam e deixá-los em segurança.
Ramón corria o mais distante possível, mas algo na ambulância o chamou atenção. E ele foi olhar. Um sobrevivente. Impressionou-se ao pensar. Como depois daquele acidente alguém sobreviveria?
–Ei, ajudem aqui! Um sobrevivente! -Ele gritava, mas sua voz não era ouvida diante de todo aquela bagunça.
Mais bombas faziam estremecer o chão. Ele se a abaixou, como se fosse surfar em grandes ondas, tentando se equilibrar ao chão que tremeluzia. Olhou aos lados e não viu alguém que o pudesse ajudar. Ele mal sabia o porquê de estar ajudando aquelas pessoas.
Abriu a ambulância com dificuldade, na parte em que acomoda-se os pacientes e estendeu a mão para o que foi agraciado -ou não -com o milagre de viver por mais um tempo.
–Venha, pegue minha mão. -O sobrevivente estava na escuridão, no fundo da ambulância e agarrou a mão de Ramón. Mas ele escutou um balbuciar estranho.
Será alguém mudo? Ou perdeu o juízo? Talvez esteja com tanta for que não está mais falando coisa com coisa. Pensou.
Por sorte um clarão invadiu o veículo caído, que iluminou a cabine. Ao ver a criatura Ramón recuou imediatamente.
Meu Deus!
Aquilo foi pior do que morrer. A pele, do que parecia ser um homem estava... Completamente podre. Seus olhos cinzas. Completamente ensanguentado. O homem até perdera alguns dentes, talvez com o impacto da batida. Era a pior visão que Ramón pode presenciar.
Mas o homem, se arrastando e ainda balbuciando palavras para si conseguiu sair da ambulância. Ramón cada vez mais se afastando. A partir daquele momento, ele pôde perceber que pior do que morrer ou do que ter o rosto desfigurado era se tornar um... Um morto-vivo. Aquilo com certeza não estava vivo. Nem morto. Aquilo era um zumbi.
Ramón correu boquiaberto, não podia acreditar naquilo. Se não estivesse diante de seus olhos jamais acreditaria.
Ao olhar em sua volta, aqueles que estavam no ônibus caminhavam pela rua, em chamas. Crepitando nelas. Suas peles negras, queimavam ao caminhar e rastejar de alguns. Eles emitiam o mesmo som que o homem da ambulância fazia.
Ramón piscou os olhos, em busca de que tudo fosse uma miragem. Chegou a se beliscar, mas não era um sonho. Correu, o mais rápido que conseguia. Ele desviava, saltava, corria. Aqueles que caminhavam eram lentos, -sorte. -Ele conseguia ter uma vantagem. Pegou um facão, no açougueiro mais próximo. Precisava de algo para se defender daquelas coisas.
Ao entrar em um beco, se deparou com um moça, sentada em uma poção de lixo, encarando as paredes. Ele chegou com passos leves e se certificou se ela fazia aqueles terríveis sons. Mas ela parecia viva ou quase.
–Tudo bem com você? -Perguntou apontando o facão para a mulher.
Ela chorava em prantos. E havia uma mordida no ombro. Estava com sangue vívido e a marca dos dentes.
–Eu não consegui... Não fui capaz de matá-la. Foi muito rápido. Vá embora, fuja ! -Ela clamava, com os olhos flagelados.
Ele abaixou para colocar as mãos em sua ferida, mas ela o deu um tapa. Encarou com tristeza tal homem.
–Apenas vá... E acerte a cabeça. -Ela disse.
Acertar a cabeça?
Barulhos próximos de algo caminhando. Algo que... Que grunhia! Ramón só teve o tempo de virar e sarpar o facão no pescoço do morto-vivo. SAP! Sangue eclodiu pelo beco. A cabeça caiu em seus pés.
–Nããão! -A mulher ferida gritou! -Não minha filha, não! -Seu choro fraco e agonizante.
Era uma bela menina. Pele morena, e cabelos negros. A cor dos olhos era impossível de identificar, já que tinha se tornado cinzentos. Ela tinha um laço vermelho preso ao cabelo. Foi a primeira zumbi que Ramón matou.
Choro. Gritos e mais clarões. Bombas e alguns grunhidos distantes. A mãe, ferida, ainda choramingava.
Ramón esperou a mulher ter seu último suspiro de vida e cravou o facão em seu crânio. Algumas lágrimas fugiram, mas logo foram secas. Ele subiu as escadas externas que davam acesso ao edifício lateral, e esperou tudo aquilo acalmar.
E foi então que foi perseguido por um bando que adentro dali estavam. E foi ali que viu seu milagre procurando suprimentos nos carros. Ton.
Talvez fosse por isso que Ramón ajudou aquele menino que quebrou o vidro para salvá -lo. Talvez fora por isso que pegou a menina do carro que gritava por vida, por alguma coincidência ela se parecia com àquela menina do beco.
Talvez fosse pelo mesmo laço vermelho.
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