Arma Química
2 Segundo Capítulo: O começo do sofrimento.
Notas iniciais
Tudo aconteceu de forma estranha. Aquela maldita droga que assolava a todos desolou famílias. Era difícil encontrar uma pessoa que não tivesse um parente sequer usuário de droga. Ainda mais no Rio de Janeiro, cidade com extensas favelas que predominam o poder do tráfico.
Na família de Ton não era diferente. Só nela dois entes haviam morrido. E ele tinha relatos de pelo menos um ou dois membros de famílias amigas que também haviam falecido. Eram tantas mortes que não existia mais espaços em cemitérios para poder enterra-los, sendo assim, o governo conseguiu uma aliança com senhores de terras em vários estados para ceder fazendas e, então, enterrar os milhares de mortos no país.
No mesmo dia em que a família Nabeth, vizinhos de Ton, foram enterrar o pai da Casa aconteceu o inesperado. Algo que superava toda aquela praga que assolava o mundo.
A família de Ton sempre foi amiga da família de Michella Nabeth, uma menina de cabelos vermelhos e esbelta que estudava desde sempre na classe de Ton. A praga também foi presente na vida dela, e justamente na pessoa que ela mais amava na vida, — seu pai. — Ele se convertera há um tempo, tinha virado até mesmo pastor e fazia anos que não usava drogas. Ele era liberto disso, todos não tinham a menor duvida que o menino encrenqueiro de 1988 que usava "cola", não era mais o mesmo. Ele era um homem exemplo, um pai de família. Mas morreu da mesma forma que o tio e primo de Ton.
Michella estava completamente arrasada e cheia de dúvidas. Como poderia seu pai, que havia largado a droga desde que ela chegou ao mundo, morrer como um drogado? Talvez ele não teria parado de se drogar. Talvez ele tenha enganado a família e amigos por dezessete anos.
Meus sentimentos pra lá. Ele era um grande homem pra cá. Ele está em um lugar melhor etc e etc... Todos falavam e cada vez mais pareciam piorar a situação. Michella estava triste, mas piorava com aquelas palavras de piedade que pareciam ser cuspidas por pessoas que apedrejavam seu pai pelas costas quando vivo.
— Eu não tenho o que falar. Apenas acho que tudo deve ter uma explicação. — Ton falou para a sua vizinha e colega de turma, abraçando-a.
— Você acha que é o fim? Sabe o que quero dizer, o fim dos tempos? — Perguntou ela.
— Talvez possa ser o começo de outros tempos. De um mundo longe das drogas. — Disse ele.
Ela o olhou, não de forma aborrecida, mas de forma branda. Impressionada por alguém não lhe oferecer palavras clichês de conforto por algo que não tem como mudar. Ele foi verdadeiro e se expressou da forma como gostaria que se expressassem com ele. E acabou a confortando com as palavras certas, o que ela deveria ouvir. Ela deveria encarar que tudo tem seu objetivo e aquela praga que destruía os drogados, tinha o seu.
Indo de carro até a fazenda mais próxima onde Laércio Nabeth iria ser enterrado, uma notícia aterrorizou ainda mais a todos.
"Se não bastasse toda essa discórdia que vêm degradando o mundo. Desde o primórdio da existência das drogas até o aparecimento da Krokodil, temos uma notícia que os assustaram ainda mais, ouvintes. Uma norte americana, Alex Warner, cujo nunca experimentou qualquer tipo de droga apareceu com os sintomas. Em questão de uma semana Alex faleceu como uma usuária, mas exames comprovaram o contrário. Pois é, amigos, a droga krokodil foi além. E não só os que as usavam estão sendo atingidos, quem teve contato com eles também. O estado de Alex, Chicago, está em quarentena. E o Brasil tomará quais medidas quanto a isso?"
"Se você esteve em contato com algum usuário de qualquer droga, o que não é muito difícil nos dias de hoje, fique de olhos abertos. E os que não tiveram, tomem precações radicais. O presidente já está com abrigos para crianças e idosos. Que Deus estejam com vocês."
— O que? Meu Deus, não pode ser verdade. — A mãe de Ton gritou ao volante esbaforida.
— Todos nós tivemos contato com algum antigo usuário. Todos nós vamos morrer? — Muito assustado, o irmão de 13 anos de Michella, Caio, perguntou.
Michella abraçou seu irmão e prostrou-se a chorar no banco traseiro.
— Gente, calma, isso é só um caso à parte. — Ton tentava amenizar a situação. Ao falar isso o carro de sua mãe bateu no da frente, no qual levava o corpo de Laércio. E em seguida, o carro de sua mãe também foi atingido na traseira pelo carro que estava a outra parte da família Nabeth.
— Mãe, você tá louca?! Se controla!
— Não foi minha culpa, o carro da funerária parou de repente, Antônio.
Ao olhar para frente o motorista do carro da funerária abriu a porta, em meio ao sinal vermelho e gritou. Ele apontava para o local onde o caixão estava, desesperado.
— Mas que merda é essa? — Ton perguntou.
Todos saíram do carro para conferir o que o motorista maluco queria dizer. Já não bastasse a dor da família. Ele ainda queria atrasar todo o enterro.
— O caixão se mexeu, eu juro. Ele se mexeu e eu pude escutar um grunhido. -Disse o motorista, que estava suando em bica.
— O senhor deveria estar impressionado com algo... — A mãe de Ton iria dizendo, quando o motorista a interrompeu.
— Não me impressionei coisa alguma, eu dirijo para a funerária mais de vinte anos e nunca vi o caixão se mexer ou grunhir, minha senhora.
Com tantas das buzinas na mão única e os diversos xingamentos que eles receberam por estarem parados, resolveram checar o caixão.
O irmão mais velho de Michella, Charles, abriu o porta-malas-caixão do carro e deu um pulo para trás, caindo no chão abruptamente.
— Meu Deus, que merda é essa? — Ele gritou e seus olhos estavam arregalados. — Meu pai, meu pai... Ele está vi...Vivo. — Todos o encararam boquiabertos, não sabendo se felizes ou com medo.
Caio foi o único que se mexeu, curioso e feliz, foi ao encontro de seu pai, ou melhor, do caixão dele para verificar se era mesmo verdade. Quando ele olhou também se afastou em resposta ao vê-lo. Seus olhos também arregalados e trêmulo.
— O pai está com os olhos totalmente... Totalmente brancos! E parece estar faminto, porquê ele tentou... Me morder através do vidro. —Ele gaguejava, todos ainda parados com as mãos na boca, Charles ainda sentado no chão sem ação.
— Que àquilo, meu Deus? — Uma parente dos Nabeth perguntou, apontando para umas árvores e valões que tinham quase na beira da pista.
— Meu Deus!!!! —Todos exclamaram em conjunto, assustados.
—Aquilo é um... Um morto andando? Meu Deus, aquilo é mesmo um morto andando?! —Michella falou quase desmaiando ao ver um homem maltrapilho saindo da escuridão.
Sua pele era arroxeada e vermelha, por conta do sangue. Buracos em sua pele com o que apreciam ser larvas. Sua arcaria dentária à amostra, seus olhos acinzentados. Ele caminhava relativamente devagar, o que deu para eles ficarem olhando tal monstro. Sua boca e braços se mexiam, de forma para alcançá-los. Quando àquilo começou a andar mais rápido, eles se deram conta que estava na hora de sair dali, depressa.
— Corram, agora! Vai, vai! — Ton falava e corria para dentro do carro.
Estamos sendo seguidos por um... Por um zumbi? Pensou Antônio com o coração precipitado, respiração ofegante. Ele pegou no volante, engatou o carro e trancou as portas. Pronto para fugir...
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