Arma Química

9 Sétimo Capítulo: Estrada para o inferno.


Todos estavam exaustos. A noite já estava caindo, o céu estava inundado por estrelas. O que era difícil de se ver com todas as antigas luzes das cidades, agora era fácil. Todos sabiam que quando a noite caía, já era hora de se abrigar em algum lugar seguro. E eles ainda passeavam com o caminhão para despistar o bando de zumbis. O grupo estava faminto e assustado; para variar. E agora, com um novo integrante. Mais uma vez tiveram que optar por seguir o destino. Não sabiam para onde estavam sendo levados, mas não poderiam interferir. Quem ali sabia de um outro lugar?

–Eu observava sempre aquele abrigo de cima do edifício. Eu achei um binóculo em uma das lojas de conveniências. Temos que ir lá. É a única esperança. -O estranho falava.

O estranho apenas para alguns, pois Eloise o conhecia muito bem. E guardava diversas mágoas também. O curioso era que ele não se lembrava dela ou do filho... Ah, sim, claro. A pancada que ele levou. Lembrou a mãe de Ton.

Ela estava louca para descordar da ideia. Falar que conhecia aquele traste que ali estava. E que qualquer coisa que vinha dele, não deveria prestar. Mas decidiu não falar nada. Se ele não lembrava e muito menos Ton, (já que Ramón os abandonaram quando Ton ainda era bem pequeno), era melhor deixar como estava. Apesar de todo o ódio revirar dentro de si, ela guardou aquilo.

Suas mãos suavam descontroladamente. Qual a probabilidade de justo o homem que ela fugia, surgir do nada, e acompanhá-la no fim do mundo. "Até que a morte os separe", maldita frase.

Eles subiram uma ladeira íngreme com o caminhão, e chegaram em uma altura onde só se passava a pé por escadas e vielas. Uma típica favela do Rio de Janeiro. Os soldados armaram a todos, principalmente os mais vulneráveis. Dividiram as armas e facas entre eles.

O soldado loiro; que atendia pelo nome de Jonas; que machucou Michella e que era o braço direito de Gregório deu cada arma para cada integrante. Menos para o estranho homem.

–Não darei um arma na mão de um desconhecido. -Jonas era esse tipo de pessoa, daqueles que não tinham papas na língua.

Ele olhou para Michella, com o mesmo olhar de quando discutira com ela. A encarou de cima em baixo. Cautelosamente.

–Toma essa faca, tenho certeza que você não sabe atirar. Só para o caso de alguma emergência. -ele falou.

Raiva esquentou o corpo de Michella. Mais uma vez ele achava que ela era incapaz de fazer algo que prestasse.

–Você acha que não sou capaz de atirar em alguém? Acha que sou fraca? -Perguntou Michella, furiosa, apontando a faca para a fronte de Jonas.

Ele deu um sorriso de lado, com seus dentes esbranquiçados. Michella até o acharia atraente, se não o detestasse tanto.

–Acho você tão fraca quanto uma grilo. -Disse torcendo seu punho. -Você vem comigo, garota.

**

Todos seguiram pelos becos e vielas. O pai de Lara agradeceu a Ton por salvar sua filha. A menina não desgrudava do pai. Eloise guiava Luanda, que parecia uma zumbi, só que viva. Não falava; não gritava; nenhuma expressão. João, o médico, acompanhou Gregório. Os outros soldados atrás. E as duas mulheres caminhavam caladas atrás.

No caminho, claro, alguns zumbis. Nos quais eram rapidamente aniquilados pelos soldados. De longe, avistaram um grupo de cinco casas com enormes barricadas. Se entreolharam e não hesitaram subir os lances de escadas restantes. Haviam duas pessoas fazendo a ronda e avistaram o grupo.

Eles gritaram o nome de um homem, ele logo apareceu. Esguio e com a barba para fazer. Apoderando muita munição e um fuzil em sua mão.

–Quem são vocês? Como chegarem aqui? Como... -abarrotado de perguntas.

–Nós vimos essa fortaleza do telhado de um edifício. Não temos para onde ir. Estamos exaustos; famintos; assustados e machucados. Precisamos de um lugar, só por um tempo. -Gregório falou.

O homem olhou desconfiado, escabreado. Afinal, era um grupo de pessoas diferentes. Que ninguém saberia o que eles seriam capazes de fazer. Mas de longe, uma voz feminina mandou que os portões se abrissem. E sua ordem foi atendida.

Ao abrí-los, eles se depararam com um grupo de homens envolta de uma mulher morena, com traços fortes de índia. Um corpo esbelto, cabelos extensos e lisos, roupas vermelhas e com muitas munições também, formando um cordão de balas pelo seu corpo. Uma metralhadora em suas costas. Uma pistola e um faca em sua cintura. Essa certamente estava preparada para a verdadeira situação do mundo.

–Entrem... -A voz dela rasgou o silêncio. Os homens de seu grupo com certeza não concordaram, à julgar por suas feições. -Como está a situação lá em baixo? -Ela perguntou, mandando o grupo seguí-la para uma casa que estava no centro das outras quatro.

–Nada boa... -João disse.

Eles sentaram num cômodo cheio de colchões, cobertores, travesseiros.

–Podem se acomodar, mas antes... Quero saber quem está dentro do nosso único refúgio. -Ela disse.

Gregório se encarregou de contar toda a história. De que eles estavam desesperados por um abrigo. Que poderiam ajudar em qualquer coisa. Que tinham arma, mantimentos, medicamentos, homens fortes e até mesmo um médico. Enquanto isso, todos se acomodaram em seus devidos lugares. E a mulher mostrou os dormitórios que faziam parte de uma única casa.

–Homens do exército, hein? Espero que não borrem as calças amanhã. Nós vamos buscar mantimentos. Infelizmente o apocalipse acontece, mas a vida não muda, temos sempre que trabalhar. -Ela zombou. -E quanto as mulheres, todos têm funções por aqui. -Avisou.

Todos assentiram. Só de ter um abrigo para descansar por horas sem serem surpreendidos já estava ótimo.

–Eu gostei dela, gosto de quem comanda... -Gregório disse e eles até que tinham algo em comum: conseguiam tirar sarro das coisas, mesmo com tantas ameaças assolando o mundo.

**

Ao acordarem tiveram um ótimo café da manha. Com pães, mortadela, queijos, café, leite e suco amargo de maracujá. Era uma luxuosa refeição. Eles conversaram e a "índia" falava sobre a importância de um desjejum reforçado; como se aquilo realmente iria mudar os fatos.

–Senhora, me desculpe a intromissão, mas... É... Gostaria de saber seu nome. Você não se apresentou e... -João gaguejava.

– Luciana. -A mulher falou cortando rapidamente a conversa sobre nomes.

–Aonde iremos hoje? -Um dos conterrâneos daquela instalação falou. Um homem já de meia idade, com barba grisalha, uma arma em sua cintura.

–Na "estrada para o inferno". Aquela mesma de semana passada. -Luciana falou. Os homens arregalaram os olhos. Pararam de bebericar suas xícaras de café. E a encararam. -Vamos mostrar uma coisa para os novatos. -ela gargalhou.

Seus companheiros também soltaram um sorriso desconfortável. Nessa mesma hora chegaram mais dois meninos à mesa. Um jovem e um adolescente. O jovem era bruto, moreno como Luciana, olhos caramelados e abarrotado de armas e munições. O outro, mais novo. Era baixo, usava óculos por entre seus olhos azuis.

–Ei todo mundo. Me passa a manteiga? -O mais novo falou.

O mais velho apenas se sentou e começou a abocanhar o que via pela frente.

–Vá com calma, Victor. Com tantos zumbis por aí, morrer engasgado será uma humilhação. -O mais novo zombou e levou um empurrão do mais velho.

–Então vocês chamam essas coisas de zumbi?! -falou Ramón.

–Nós já conhecíamos eles antes, com todos os jogos e filmes. Ainda bem que eles me prepararam. Se não fosse ele eu não... Bem... -O menino mais novo abaixou a cabeça e se concentrou em comer os pães a sua frente.

–Cala a boca, Will.

–Comam logo que vamos sair! -O homem da barba esbranquiçada alertou, lhes dando um tapinha em suas cabeças.

Deveria ser meio-dia, pensou Ton. A julgar pelo Sol estonteante que gritava lá fora. O menino mais novo,chamado Will, percebeu que ao Sol o que era lento se tornava ainda mais devagar. E talvez fosse mais seguro sair nesse horário. A única coisa ruim era que aquele calor faziam todos ficarem mais lentos também, então Luciana decidiu que sairíamos quando o Sol abaixasse.

Na hora de ir, seguiram por uma parte das vielas. Subiam e desciam escadas. Olhando para cada casa desprotegida. Como de se imaginar alguns zumbis saiam e eram degolados por facões. Eles estavam descendo do morro e partindo por uma rua enorme; sem saída. A única construção do lado esquerdo dava a volta pelo quarteirão. No início Ton achou que fosse uma garagem para ônibus ou coisa assim, porém ao olhar com mais atenção, se assustou.

Era um... Um cemitério.

O sol começando a esconder seus primeiros feixes de luz.

–É a única passagem, meninos. -Luciana avisou.

Havia um portão de grade de ferro. Todos olharam descrentes.

Haviam dezenas de zumbis lá dentro. Caminhando, grunhindo e prontos para abocanharem a primeira coisa viva que virem. Eles andavam de um lado para o outro. Negros, pela sombra que formava quando o Sol refletia neles. O por do sol ao fundo, denunciava mais deles e mais catacumbas. Mármores, estátuas e muitos cruzes.

Era o pôr do Sol mais mortal que Ton já presenciou.

Os homens do grupo de Luciana começaram a escalar o portão e pular para o outro lado. Ela, em cima da grade olhou para Ton e seus amigos.

–Bem vindos ao lugar onde os mortos levantam do chão...