Armário 118
2 Capítulo 2 - O Bilhete Anônimo
Segunda-feira, 07 de julho de 2014 às 23h52min
Por instantes sinto meu mundo parar, minha memória trás a tona momentos que vivi com Nick. Conversas, segredos, aniversários, que agora já não fariam mais parte das nossas vidas. Meus pensamentos são brutalmente interrompidos com socos em meu peito, doloridos por sinal, e gritos da tia Re, que infelizmente dizia:
– E tudo culpa sua Jeremy, maldito seja o dia que resolvemos vir para essa cidade. Maldito seja você. Eu te odeio, eu te odeio.
Geraldo, o pai de Nick com muita dificuldade a contia e a chacoalhava gritando:
– Agora e inevitável, esquece o Jeremy, tudo você o culpa.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa tia Re se volta para mim e exclama.
– Não quero vê-lo nunca mais. O culpado da morte do meu filho deve ir pro inferno! Pro Inferno!
Heitor entrando entre mim e tia Re, pega em meus ombros e me arrasta para fora do hospital.
– Jeremy, ela ta nervosa. Vamos pra casa.
Chorando complementei:
– Heitor não e minha culpa. Nick era um irmão pra mim cara.
– Eu sei disso Jeremy. Acalma-se.
No caminho pra casa, eu só conseguia chorar. Heitor não contia as lagrimas e a tristeza de sabermos que Nick já não estaria no nosso meio, para conversar brigar estudar, nos deprimia de uma maneira que a cada pensamento uma lagrima escorria de nossos olhos. Ao avistar minha mãe na porta de casa, meus olhos se afogaram ainda mais em meu pranto e a ânsia da tristeza só me fazia querer o abraço mais aconchegante do mundo. O abraço de minha mãe. O abraço que toda mãe sabe que acalma seu filho. Aquele abraço que tia Renata jamais poderia dar novamente em Nick. E por minha culpa? Mas não, não foi minha culpa. Mas eu que fiz a cabeça de Nick para que nós fossemos ao parque. Se eu não falasse pra ele que sua mãe não ficaria sabendo, ele não teria ido. E por mais que convulsionasse não estaria em um parque e sim estudando ou ate mesmo em casa. Sim é minha culpa. Eu Matei Nick.
Descendo do carro, eu só queria o abraço de minha mãe.
– Boa noite Heitor! Me mantém informado sobre o velório. Acho que vai ser agora pela manha né?
– OK Jeremy. Você também. Tudo que souber me avise. Cuide-se meu amigo. Amanha nos vemos.
Abraçando minha mãe o choro falava por mim. Não sei quanto tempo durou aquele abraço, sei que o tempo parou e nada mais.
– Mãe eu vou para o meu quarto. Qualquer coisa me chama.
Enquanto eu entrava em meu quarto, e fechava a porta, minha mãe tenta me acalmar com algumas palavras.
– Vai dormir filho. O travesseiro é nosso melhor amigo.
– Não mamãe. Meu melhor amigo era Nick. Mas como tia Renata disse e eu concordo com ela, eu o matei. Nunca irei me perdoar mamãe. Nunca!
Batendo a porta ouço minha mãe falando: ‘’ Pare de se culpar, Deus já tinha esse plano. Nada poderia salvá-lo. Nada.”
Tudo que eu mais queria era voltar no tempo e reparar o que aconteceu. Uma coisa me incomoda, eu não consigo parar de pensar em como aquele homem saiu de dentro do Banheiro. Ou será que ele estava do lado de fora? Não. Ele segurava a porta. Será que eu estava tão atordoado que ouvi coisas? Mas eu tenho certeza do que ouvi. Como aquela pessoa sabia que Nick ia morrer. E a causa da morte. Ele me falou exatamente como o medico me disse. E como sabia que ao final da contagem eu ia ouvir a verdade. Como tudo aquilo foi possível?
E tem mais. Ele disse que eu podia salvar Nick, mas não agora. Mas quando então? E por que só conseguiria salvar se girasse a chave duas vezes e colocasse a senha, 1-2… não me lembro agora. 1-2-1-4. Isso! 1-2-1-4. Vou anotar nesse livro de Genética Básica. Mas que chave é essa? E senha? Pra que senha? Colocar onde?
Olha Nick, eu não sei como, mas eu vou tentar fazer alguma coisa!
Eu só posso estar louco. Agora já não é possível mais salvá-lo. Bom, amanha será o seu velório e eu quero homenageá-lo de alguma forma. Um discurso. Isso. Um discurso seria ótimo. Por algumas horas me dediquei ao discurso que leria no momento do velório.
Terça-feira 08 de Julho de 2014 às 9h30min
De repente abro os olhos, e percebo que dormi em cima do discurso e olho para o relógio que já marcava 9h30min da manha. Entendi também que acordava com a conversa da minha mãe e do meu pai. Aproximei-me com o ouvido na porta e podia ouvir:
– Mas Catarina, como vou dizer isso a ele?
– Eu não sei Jeremy. Renata não tinha direito de fazer isso.
– Claro que não. Ela não teve consideração. Quase 15 anos de amizade. Catarina o Jeremy vai enlouquecer.
Interrompendo meu pais, eu pergunto:
– Por que eu vou enlouquecer papai?
– Jeremy, meu filho. Eu não sei por onde começar.
– Pai o que ta acontecendo? Vai direto ao assunto, não enrola pai. O que houve?
– Filho, o Heitor acabou de sair aqui de casa? Não o chamamos porque você tava dormindo. Ele veio nos dar informações sobre o velório do Nícolas.
– E aí papai onde vai ser? Que horas?
– Filho vai ser no Cemitério Central de Termosópolis. E Já começou às 9 horas.
– Então o que estamos esperando para irmos. Vamos papai! Exclamei voltando para o quarto para pegar o discurso.
– Filho volta aqui. Seu pai ainda não terminou.
– O que foi papai.
– Jeremy. Heitor nos disse que Renata, contra todos até mesmo contra o pai do Nícolas, nos proibiu de assistir ao velório e ao sepultamento.
– Mas ela não pode fazer isso papai. O cemitério é publico.
– Sim ela pode Jeremy, não só pode como já deu ordem aos seguranças para que nós não entrássemos.
– Seguranças?
– Isso mesmo filho; seguranças. Ela contratou seguranças.
Eu não podia crer que a última lembrança que teria da face de Nick, era uma face submetida a todos os sintomas de uma crise convulsiva. Mesmo assim eu vou tentar entrar nesse velório. Onde está meu celular? Aqui está. Deixa-me procurar o numero do Heitor. Esse aqui.
– Alô? Jeremy?
– Eu mesmo Heitor. Onde você está?
– Estou estacionando o carro aqui no cemitério.
– Cara você tem que voltar aqui. Eu quero ir junto.
– Jeremy, seus pais não falaram com você?
– Sim Heitor, eles me falaram. Mas Heitor, se fosse você cara? Eu e Nick éramos irmãos de mães diferentes cara. Não faz isso comigo. – Supliquei chorando.
– Ai cara. Você me põe em apuros. Aguenta uns 20 minutos. Eu já chego.
– Te espero.
Peguei o meu discurso e enquanto me dirigia para fora de casa, punha meu casaco, já que amanheceu muito frio em mais um dia de inverno. Meu pai se levantou de onde tomava café e me alertou:
– Jeremy, meu filho não vá até lá.
– Papai eu não posso deixar de ir.
– Mas você vai ser barrado meu filho.
– Eu só acredito depois que for levado para fora a força pelos seguranças.
– Como você vai?
– Heitor esta chegando aqui. Vai me levar. — ouvi o carro de Heitor chegando. — Ou Melhor ele já chegou.
– Mas filho…
Tive que deixar meu pai falando sozinho e entrei no carro de Heitor que me dizia no caminho:
– Jeremy, a tia Renata me ligou hoje para me informar e disse ainda que você não poderá entrar lá. Deu seu nome, suas características e uma foto sua aos seguranças que não permitirão a sua entrada. Tem certeza de que quer ir?
– Sim eu tenho.
Eu não podia esperar para entrar naquele lugar.
Desço do carro, apoio meu braços nas costas de Heitor e me dirijo ao salão que está acontecendo a cerimônia. É possível perceber o ecoar de uma caixa de som. Alguém deve estar discursando. Enquanto me aproximo consigo ver aos poucos: Mábily e em seguida Tia Renata. Neste momento ouço a voz de Tio Geraldo, realizando o seu discurso em homenagem ao seu filho. Enquanto choro com as palavras de Tio Geraldo, penso como faria pra conseguir entrar.
Antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa, Heitor me diz:
– Cara, eu vou entrar, tome cuidado. Pense no Nick.
Meu pensamento não chega a lugar nenhum. Enquanto isso, Tia Renata sobe ao tablado para se pronunciar. Suas palavras são marcantes. De cara a cara com os seguranças que já vinham com um ar mais agressivo, eu só pude falar:
– Não vou entrar. Fico daqui de fora Mesmo.
Tia Renata, lá da frente me vê, e no microfone mesmo, em tom altíssimo expressa-se levantando o braço e apontado para a porta do salão onde eu estava:
– Ali está quem matou o meu filho. Eu disse que não o queria aqui dentro.
Os seguranças me seguram pelos braços e me levam para fora do portão do cemitério. Um deles observando as minhas lágrimas, me da um bilhete e diz.
– Olha, há uns 30 minutos, um rapaz pediu pra entregar um bilhete para o jovem que eu trouxesse a força pra fora. A Princípio achei tudo besteira, mas agora parece que ele já sabia tudo que ia acontecer. Bom aqui está o bilhete.
Em um papel simples, a mensagem era clara.
“Desista! Você não verá desta vez o rosto de Nick. Se contente visitando o Túmulo de Nick que é o túmulo 76B da Rua 3. Ontem no banheiro você acreditou no que disse e viu que não estava mentindo. Dessa vez não será diferente. Preste bem atenção: Heitor está atrás de você agachado amarrando os cadarços do tênis. Seu telefone irá tocar. É sua noiva avisando que está grávida. Não conte nada a ninguém. Nem ao Heitor. Não se esqueça. Para salvar o Nick gire a chave duas vezes e coloque a senha 1214.”
Enquanto termino de ler o bilhete olho pra trás e lá está Heitor, parando e abaixando para amarrar o tênis. Nessa hora me arrepio dos pés a cabeça. E pensava comigo: não toque o celular! Não toque o Celular. E de repente “trinnn”, “trinnn”. Minha boca seca e aguardo a reação de Heitor. Sua expressão mudou, sentou-se no meio-fio e pude ouvir a confirmação:
– O que? Grávida Daniella?
Eu só queria sair correndo. Começo a olhar para os lados e tenho a sensação que estou sendo observado. Essa impressão já é horrorosa, já pensou em um cemitério?
Heitor desliga o telefone e fala:
– Cara, você não vai acreditar . A Dani ta grávida. A gente vacilou cara. E agora? Ela tem só 18 anos.
– Que ótima notícia meu caro. Fique feliz. A vida é assim. Uns se vão e outros vem, para nos suprir a falta que o outro nos faz. – Falei isso como se fosse um robô, de tão assustado que estava com a situação.
– Suas Palavras não são verdadeiras Jeremy eu te conheço.
– São sim amigão. Só to um pouco trêmulo com o frio e a tristeza de não ter mais o Nick para comemorarmos mais essa. Ei, você não vai voltar à cerimônia?
– Não! Você não entrar eu não entro também. E o pior é que nem divulgaram qual túmulo ele será sepultado.
76B da rua 3. Pensei assustadíssimo. Mas não falei. Concordei com Heitor, era o melhor que eu podia fazer.
– É verdade, não divulgaram. Mas depois a gente descobre.
Heitor me deixou em casa ao Meio-Dia e foi ver a Daniella. Agora eles precisam de muita força para encarar a família de sua noiva. Que é muito conservadora afinal.
Ao entrar em casa peço a minha mãe que me acorde às 15 horas. Vou ao cemitério tentar achar o túmulo de Nick.
– Não quer almoçar meu filho?
– Não Mãe, mais tarde.
Acordo antes do tempo e mesmo sendo ainda 14h10min me arrumo e de ônibus me dirijo ao cemitério. Depois de uns 35min, desço e caminho mais uns seis até chegar ao cemitério. Entro e percebo que o salão onde Nick situava já estava vazio. Aproximo-me do porteiro e pergunto:
– Qual o túmulo de Nícolas Bitway Brás? Ele foi sepultado hoje.
– Posso verificar, mas acredito que ainda não entrou em nosso sistema. Demora por volta de uns dois ou três dias.
Enquanto ele verificava, eu só pensava em ir direto a rua 3 no túmulo 76B. Meus pensamentos foram interrompidos pelo porteiro:
– Infelizmente não consta em nossos registros ainda.
– Obrigado.
Virei-me e fui tentar achar a rua e o túmulo de Nick.
– Aonde vai? — Perguntou o porteiro.
Para despistá-lo falei o que veio a frente naquela hora.
– Minha tia está sepultada aqui também e eu sei onde é o tumulo dela. – Na verdade não tinha nenhuma tia sepultada lá.
Olho para a placa e vejo a flecha indicando “Rua 2 e 3 para a esquerda”. Com passos largos, a ansiedade de verificar a veracidade do bilhete era tamanha. Chego a tal rua 3 e Realmente esse corredor tinha um letreiro que indicava: “56 ao 80”. Cada túmulo é dividido em 3 gavetas. A gaveta A que fica mais em cima. A gaveta B que se posiciona ao meio e a gaveta C, que se localiza em baixo. Vou me aproximando: 61, 64, 71, 73 e enfim 76. Posso ver à minha frente, um túmulo revestido de mármore negro, com as tampas das gavetas em quartzo amarelo ouro. E bem na parte superior do túmulo, antes de iniciar as gavetas, o número 76 em aço escovado.
O que estava em cima estava marcado com a Letra “A” e uma Placa banhada a ouro que dizia o seguinte:
“Pedro Alcântara Bitway — ✡26/02/1922 — ✞01/12/2010”
Percebo que o sobrenome Bitway pertence também a Nick, e que há alguns anos o seu avô morreu vítima de câncer.
O Túmulo do meio o 76B, estava ainda apenas com uma placa de concreto, fixada por massa de cimento, ainda fresca.
O Debaixo o 76C estava com uma placa também banhada a ouro e nela escrito:
Vivian Terberot Brás. — ✡18/01/1980 — ✞21/01/1980.
Vendo que as datas de Nascimento e morte são muito próximas, concluo que era uma bebezinha e me recordo um dia de tio Geraldo dizer que teve uma irmã que nem chegou a sair do hospital. Imagino que seja essa menina.
Mas o que me intriga é o segundo Túmulo. Com certeza é de Nick. As evidências são claras. Seu avô e sua tia enterrados no mesmo túmulo. E logo o 76B estar com a massa fresca.
– Com licença rapaz! Nosso serviço será Rápido. — Era um homem trajando uniforme cinza e uma estampa na frente onde dizia Marmorearia Termosópolis.
– Fique a vontade.
Aquele homem tira um mármore negro idêntico ao do túmulo, do mesmo tamanho da tampa da gaveta. Fixa a pedra à gaveta do meio e em seguida tira uma placa banhada a ouro de um plástico bolha e fixa ao mármore. E como eu já podia imaginar estava escrito. “Nícolas Bitway Brás — ✡30/11/1996 — ✞07/07/2014. Foi assustador. Como é possível a pessoa do bilhete saber tantas informações.
Logo depois do homem ter ido embora, peguei o discurso que havia preparado para Nick no bolso da jaqueta e sem mais delongas eu comecei.
– Nick, a vida não é fácil pra ninguém – no decorrer dessas palavras sinto os pingos de chuva que molhavam o meu rosto. – Há quase 15 anos, nós nos tornamos os melhores amigos de todo o mundo. Aprendemos muitas coisas juntos, como andar de bicicleta, nadar, andar de patins. Ajudamo-nos também quando aprontávamos coisas erradas, já que nossas mães se transformavam em uma fera. Lembra quando você quebrou o braço pulando o muro da escola e eu tive que ajudar você a mentir que caiu do pé de manga? Ou quando você me levou pra casa arrastado depois de apanhar de uns caras lá do bairro? – A chuva já se tornara fortíssima e minhas lágrimas se misturavam a ela. Continuei lendo no resto do papel, que era consumido pela água. — E você sempre teve esse dom de justiça, ajudando as pessoas naquilo que precisavam. E não era a toa que você tinha o sonho de ser advogado – o lamento me cala e meus alentos se abrandam me levando de joelhos ao chão. — Mas meu caro Dr. Nick, eu não sei como mais eu vou te salvar cara... Eu só posso estar louco. Mas eu vou te salvar.
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