Armário 118

1 Capítulo 1 - A Cadeira do Terror


Se você encontrou esses registros, significa que irá dividir comigo todos os meus segredos.

Segunda-Feira 07 de Julho de 2014 – 18h39min

Meu nome é Jeremy Guerra Spindola Neto, tenho 19 anos e não gosto do meu nome. Ele se mantém na família a cinco gerações, assim como a profissão, para você ter uma idéia, o meu não-sei-o-que-lá-avô já era Jeremy e Médico; e esse é o meu medo, meu pai não resistiria em saber que na verdade quero ser professor e professor de Física pra piorar! Odeio aqueles nomes complexos da biologia ou decoreba de anatomia. Por que não chamamos logo o quadril de bacia ou quadril de quadril mesmo? Mas não, meu pai chega em casa e fala com a boca cheia: “Hoje atendi um paciente com um infracto ilíaco”. Eu me pergunto: Infracto o que? Só traduzindo, o cara quebrou a bacia.

Embora eu esteja desistindo do meu sonho, farei os gostos do meu pai. A propósito, meu pai, o Dr. Jeremy Guerra Spindola Filho é o melhor ortopedista de toda Termosópolis, (nossa cidade ganhou esse nome por registrar três dias seguidos a marca de 44,0 ºC em novembro de 1938) ele é chamado em várias partes do país e fora dele para realizar algumas cirurgias complicadas. Como pai ele é um pouco intransigente, embora sempre presente e muito conselheiro. Minha mãe é dócil, compreensiva e muito bonita, quando era mais jovem, foi Miss Termosópolis. Seu nome é Catarina. Só tem uma coisa que me incomoda: se você pisar na bola com ela, esquece, pra reconquistar a sua confiança leva um bom tempo. Ela é Assistente Social do juizado de Menores da nossa cidade. Resolve cada pepino que só vendo. Há umas três semanas atrás, ela chegou em casa com algumas manchas pretas pelo corpo, porque enquanto fazia uma visita de monitoramento, a criança que ela atendia, ateou fogo na casa durante a entrevista que, foi de tirar o fôlego.

Há dois anos estudo pra passar no vestibular de medicina. Às vezes sozinho e na maioria, acompanhado dos meus melhores amigos: Heitor e Nícolas. Ambos estudam para passar em direito. Pra não acontecer igual ao ano passado que nenhum dos dois passou, mas se tornou uma competição mortal, Heitor que tem 21 anos trabalha, é noivo e pretende casar em aproximadamente um ano, se passar, estudará a noite, para continuar na rotina; já Nícolas que tem 17 anos e não tem nenhum passarinho pra dar água, vai estudar de manhã mesmo, se aprovado. Todos nós almejamos a mesma universidade, a Universidade Azara, a melhor da nossa região e onde os homens da minha família se formaram, pra mim, mais uma culpabilidade, se não passar.

Hoje, às 19 horas, o grupo de estudos será na casa do Heitor, e quase sempre é lá. Ele mora sozinho e não tem aquela “encheção de saco” dos pais. Agora mesmo estou chegando na casa do Nicolas pra irmos juntos. Marquei às 18h45min com ele ali. Opa! Já posso escutar os berros de sua mãe, ela é um pouco histérica; na verdade, ela é muito protetora e mima demais o Nicolas, que a partir de agora chamarei de Nick. Além do mais, tudo que Nick for fazer comigo ela reprova. Tia Renata nunca gostou muito de mim. Nunca aceitou que eu fosse apaixonado pela Mábily, a irmã do Nick. Há uns anos, terminei um namoro com ela porque ela é muito ciumenta e acabou ficando muito mal com o fora que eu dei. Desde então tia Renata não me suporta.

– Nick, Cheguei.

– Espera um pouquinho, se sair de casa sem comer minha mãe me mata.

Nick e eu nos conhecemos a quase 14 anos, quando ele e sua família chegaram na cidade, nesse tempo eles moravam logo na casa ao lado de nós. Crescemos como se fossemos irmãos, o irmão que eu não tive. Pra falar a verdade, eu o amo muito.

– Nick, o Heitor vai matar a gente. Vem rápido cara.

– To indo. Fui Mãe, eu te amo.

– Eu também te amo filho, e não se esqueça, quero você às 21 horas, não as 21h01min! Exclamou a tia Renata, mãe do Nick.

– Minha mãe ta de mais Jeremy, não agüento mais. Ela me trata como se fosse um neném.

– Mas você é um neném Nick – respondi rindo.

– Que neném, eu já tenho quase 18 anos cara. Irritou-se Nick me dando alguns ponta pés.

– Ei Jeremy. Olha só o Heitor está no gramado de casa e não está de pijama hoje.

Sempre que vamos estudar, Heitor chega em casa, toma um banho, põe o pijama e não sai pra fora até o dia seguinte. Mas hoje está diferente.

– Heitor, não vai estudar hoje? Não ta de pijama. — Perguntou Nick dando risada.

– Eu não. E nem vocês dois. Exclamou Heitor. E Ainda continuou.

– Nós estamos estudando como loucos há quase meio ano todas as noites a fio. Estamos cansados de mais.

– E o que você dizer com isso? Perguntei interrompendo Heitor. E ele respondeu.

– Já sei! Vamos ao Parque de Diversões.

Nícolas, com ar de reprovação já não foi tão a favor assim:

– Vocês conhecem minha mãe, se ela descobre que tirei os olhos do livro, ela me mata.

– Só hoje, depois de quase 7 meses a fio estudando nós merecemos! Exclamou Heitor, entrando no carro decidido. – Quem vai comigo?

Pensei bem, e concordei:

– Eu vou! Nick?

– Ai, ai, ai piazada. Não sei se devo.

Eu queria tanto ir, que soltei a frase que jamais devera sair da minha boca:

– Ela nem vai ficar sabendo. Vamos!

Ótimo, Nick concordou. Então só faltávamos ir. Heitor dirigia e tinha um carro, um Monza 1992, bordô 4 portas. Era de babar. No caminho, Nick da um grito estarrecedor. Fazendo com que Heitor freasse bruscamente o carro.

– Pare!

– Que foi Nick? – perguntou Heitor assustado.

– É que agora já são quase 20 horas e lembrei que minha mãe pediu pra que eu chegasse em casa às 21 hoje. Não vai dar tempo.

– Relaxa amigão, eu ligo pra sua mãe e falo que você vai dormir lá em casa hoje.

– Não sei Heitor, ela vai encher o saco.

– Chegando la no parque eu ligo pra ela.

Chegamos ao parque e fomos logo para a fila da A Cadeira do Terror, que era sempre muito grande, porque todo mundo queria ir no brinquedo mais radical do parque, já que as poltronas são seguras por um calibroso cabo de aço e depois dessa poltrona ficar suspensa a quase 100 m de altura elas são soltas em queda livre ao mesmo tempo em que gira ao redor da estrutura do brinquedo. É extremamente radical. E enfim, depois de quase 40 minutos esperando chega a nossa vez.

Cada poltrona cabe duas pessoas. Eu e Nick fomos em uma e Heitor foi sozinho em outra. A cada cm que se afastava do chão a adrenalina era liberada em meu corpo. E eu com os olhos fechados esperava até o momento em que seríamos lançados de cima a baixo. E sem avisar, sinto meu corpo ficando lá em cima e minha alma descendo tão rápido que não conseguia nem pensar. Calma aí... o que está havendo com o Nick. Acabo de olhar pra ele do meu lado e vejo seu corpo tremendo como se fosse uma vara verde. Seu rosto pálido, seus lábios roxos, e sua boca salivando em excesso formando uma espuma. Logo lembrei. Nícolas é epilético, quando tem crise devemos deitá-lo de lado para não se engasgar com a saliva ou vômito, e aguardar a crise passar. Mas o que eu faço? O brinquedo ainda não parou...

– Heitor! – Gritei o chamando. — Olha só o Nick.

Nesse momento acabo de lembrar que não ligamos para sua mãe. E vamos ter que ligar para dizer que teve uma crise. Ai meu Deus. Ajude-nos! Heitor gritava para o operador do brinquedo e apontava para Nick. Quando aquele senhor entendeu o que acontecia, parou imediatamente o brinquedo e Nicolas agora estava desmaiado. O tiramos do brinquedo e levamos para o ambulatório do parque, onde tem outra crise e cai da maca de cabeça no chão.

Dessa vez, Inconsciente.

– Moça ele caiu, ele caiu – gritava Heitor chorando para a enfermeira que nos disse.

– Vamos ter de chamar a ambulância – ele não tem respiração.

Antes que esperássemos a ambulância, Heitor teve a idéia de levá-lo de carro. Assim o fizemos. Nícolas é do tipo magro, sem muita massa, o que facilitou para Heitor transportá-lo no colo até o carro.

No caminho, Heitor fica desesperado e começa a gritar:

– É tudo minha culpa.

– isso não é o pior Heitor.

– E pode piorar Jeremy?

– Com certeza, pois a agente não avisou a tia Renata que ele ia posar na sua casa. Cara agora são 22 e 30. Ela está o esperando há 1 hora e meia.

Heitor se cala e começa a correr para chegar mais rápido. Em 4 minutos chegamos ao hospital.

Enquanto Heitor retira Nicolas do carro vou indo até a recepção pra que eles já se preparem.

– Socorro, socorro. Meu irmão teve várias convulsões e em uma delas bateu a cabeça. Precisamos de ajuda.

Uma enfermeira muito prestativa em poucos segundos pegou a maca e pediu ao Heitor:

– Coloque-o aqui. E peça a outra enfermeira que chame os médicos. Precisamos dos pais dele aqui urgente.

Assim Heitor o fez. Agora Nícolas estava nas mãos dos médicos. Mas e para avisar a tia Renata? Como faremos?

– Jeremy, você é que quer ser médico aqui, e tem que ta preparado pra dizer qualquer coisa a qualquer pessoa. Toma o celular. Vai fundo.

Pego o celular de Heitor e observo que já são 23h02min. Começo a discar o número pausadamente. Chamou!

– Alô? Heitor, eu vou matar o Nicolas. Onde ele se meteu?

– Oi tia Re, é o Jeremy. – Antes que eu pudesse terminar fui interrompido por ela.

– Tinha que ter a tua mãozinha nisso né Jeremy. Passa agora pro Nícolas.

Sem conseguir conter o choro prossegui.

– Tia, sabe o que é? Nícolas teve uma crise daquelas.

– Ai meu Deus, já virou ele de lado?

– Tia já fizemos tudo. Ele ta aqui no hospital central de Termosópolis.

– Hospital? Então foi grave?

Já não consigo mais falar, meu choro cala a minha voz. Nesse momento passo o telefone ao Heitor, que continua a conversa.

– Sou eu tia Rê, o Heitor. Jeremy não consegue falar está chorando muito. Vem pra cá. Aqui nós te explicamos tudo.

– Estou indo pra í agora. Fala tia re desligando o telefone.

– Jeremy, vou avisar sua mãe também.

Enquanto Heitor falava com meu pai. Fui ao banheiro lavar o rosto, a hora que levantei meu rosto, ouvi uma voz que vinha de uma das cabines do banheiro.

– Jeremy?

Assustado respondi.

– Heitor? O que você está fazendo aí? Já falou com eles?

– Não sou o Heitor. Não faça perguntas. Apenas escute o que eu vou falar:

Nesse momento ouço o que jamais quis ouvir.

– Jeremy, nesse momento você precisa ser forte. Nick aspirou a saliva e vômito ainda no brinquedo do parque e perdeu a capacidade pulmonar, deixando menos oxigênio disponível para o cérebro e o coração, que sem energia para de funcionar. Jeremy, nesse momento Nick está tendo uma parada cardíaca e não vai resistir.

Nessa hora tenho vontade de quebrar a porta da cabine e espancar quem falou uma besteira dessa. Enquanto esmurro a porta para entrar, continuo ouvindo:

– Ao sair do banheiro conte lentamente até 10 e ouvirá a verdade. Jeremy. Você pode salvá-lo, mas não agora. Jeremy lembre-se: você pode salvá-lo, mas não agora, para você conseguir fazer isso gire a chave duas vezes e coloque a senha 1214.

Eu ainda achando tudo aquilo absurdo ouço a mesma voz que vai desaparecendo:

– Não se esqueça, gire a chave duas vezes e coloque a senha 1214.

Começo a sentir que quem falava aquilo solta a porta e devido a força que eu aplicava contra a porta da cabine, entro e caio lá dentro e sem mais nem menos não tem ninguém dentro do banheiro além de mim.

Estarrecido saio do banheiro e lembro-me do que ouvi e começo a contar sussurradamente lentamente até 10 enquanto caminho em direção ao Heitor, que nesse momento já estava com a mãe de Nick.

– 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8,9 e 10.

Nesse momento ouço tia Renata gritando:

– Não! Não. Eu quero meu filho de volta, Ele não morreu.

Eu não conseguia acreditar, com os olhos arregalados observava Mábily, tia Rê e o pai do Nick chorando, enquanto Heitor estava com a testa na parede dando socos e suas lágrimas caindo no chão.

Olhei para o médico e perguntei:

– O que aconteceu?

E o médico respondeu:

– Nícolas aspirou a saliva e o vômito ainda no brinquedo do parque e perdeu a capacidade pulmonar, deixando menos oxigênio disponível para o cérebro e o coração, que sem energia para de funcionar. Nicolas teve uma parada cardíaca e não resistiu.