Já era noite quando Marie chegou à entrada do prédio onde morava. Ela se dirigiu as escadas, pois o elevador estava em manutenção. Era uma subida bem longa, já que ela morava no décimo sétimo andar. No meio do percurso algo lhe chamou atenção. Um homem alto subia as escadas muito apressado. Passou espremendo-a contra o corrimão. Passou quase que correndo. Assustada ela acelerou os passos. Chegando ao corredor de seu apartamento, ela escutou alguns gritos. Não sabia do que se tratava, mas sabia que vinha de seu apartamento. Apressou para abrir a porta. Ela estava entreaberta. Quando a empurrou deu de cara com um homem magro segurando uma pistola, aquele mesmo homem que passou por ela na escada. Escorados na parede ao lado, estavam seus pais com as os braços erguidos. Sua mãe chorava silenciosamente enquanto a olhava. Então houve dois tiros seguidos. Marie foi banhada por respingos de sangue, sangue de sua mãe que jazia chão junto com seu pai, ambos com um enorme buraco na cabeça. O homem largou a arma no chão e saiu apressado esbarrando no ombro esquerdo de Marie, que permanecia imóvel, mal respirava, e assim ficou até que começaram a chegar curiosos atraídos pelo barulho.

A irmã do pai de Marie foi chamada, seu nome era Marina, uma solteirona de quase quarenta anos. Ela e Marie não se davam muito bem, pois diferente de Marta, sua mãe, Marina era um pouco menos interessante e via as pessoas apenas como objetos para serem usados, e este era o tipo de pessoa que Marie mais detestava.

– Eles não tinham muitos amigos, mas nenhum inimigo que eu soubesse – disse Marina, tia de Marie. – Mas matá-los assim, de forma tão cruel e covarde, não imagino quem e nem o motivo.

– Qual era a profissão da senhora Marta Oliveira? – perguntou o investigador.

– Escritora.

– E o senhor Carlos Oliveira, a senhora poderia me dizer?

– Pode me chamar de senhorita – disse ela, com os dentes a mostra. – Carlos era professor de matemática.

– eles comentarão com a senhorita, se tiveram algum desentendimento com alguém recentemente?

– Não, eles tinham uma vida completamente normal, muito tranquila, era de dar inveja em muitos casais.

– É só isso por enquanto. Quando a garota estiver mais calma, ela poderá nos ajudar mais um pouco. A garota só tem dezessete anos e ficará com a senhorita, já que é único parente próximo que ela tem. Tudo bem para a senhorita?

– Sim, sim, claro – disse Marina, tentando parecer o mais solidária possível.

Marie acompanhou sua tia até seu apartamento que ficava no centro da cidade. Lá ela se banhou e passou a noite. Não comeu, não chorou e nem dormiu, apenas ficou deitada, com os olhos quase sempre fixos no teto.

No dia seguinte no velório, ela não derramou uma lágrima, e também não disse uma palavra, exceto após o velório quando o investigador lhe fez algumas perguntas, que ela respondeu espontaneamente.

Ela voltou com sua tia para o apartamento, onde passou o resto da tarde e o início da noite. Era quase meia-noite quando sua tia então apareceu na sala, estava toda arrumada, como se tivesse indo a um encontro.

– Você está bem? – disse ela, com um sorriso falso na cara

– Sim – disse Marie, sem demonstrar nenhuma importância a presença da tia, ou como ele se vestia

– estou indo a um jantar muito importante. – disse ela tentando justificar sua saída – Fique bem, minha querida.

– Sim, tia Marina – disse Marie, não demonstrando nenhuma importância ao que dizia sua tia.

Logo após sua tia sair, ela foi até parapeito. Com uma brisa balançando seus cabelos, e finalmente uma lágrima saiu, caiu até sumir de vista na escuridão da rua que ficava logo abaixo. Junto com essa lágrima, saiu de Marie toda vontade de viver que ainda lhe restava. Não tinha nenhum amigo, os únicos que tivera em toda sua vida foram seus pais, principalmente sua mãe, pois era com ela que dividia todos os seus segredos e incertezas sobre a vida. Nenhum deles agora estava presente. Sua tia seria a última pessoa de quem ela seria amiga, já que esta, só pensava em si e mais ninguém, a menos que a pessoa tivesse algo de seu interesse, que não era o caso de Marie. Ela achava as pessoas estranhas, incompreensíveis, esquisitas e todo tipo de coisa ruim o suficiente para dar a ela vontade de se manter o mais afastado possível. Ela não achava que sua vida fosse útil a mais alguém, já que para ela, não era mais. Não acreditava que fosse capaz de fazer algo de importante para a humanidade que ela pouco gostava. Continuar vivendo não fazia sentido algum para ela.

Ela escorou no parapeito e olhou para baixo, via apenas um pequeno beco escuro. Eram doze andares até o chão. Ela olhou para trás, via uma sala vazia, não havia ninguém que pudesse fazê-la mudar de idéia. Então ela foi para o canto e se apoiando na parede, subiu na grade. Por alguns segundos ela olhou para baixou, e sem hesitar, pulou.

Nos poucos segundos que durou a queda, ela não sentiu medo ou tristeza, ela se sentia livre, como se tudo de ruim tivesse passado. Por fim, seu corpo alcançou o chão. Seus ossos estilhaçaram como vidro e o chão foi banhado com seu sangue. Ninguém veio para socorrer, pois o lugar era um beco escuro, somente gatos de rua passavam por ali. Seu corpo ficou estirado sobre aquele chão vermelho por alguns minutos. Foi quando um gato acinzentado e muito curioso foi se aproximando bem devagar, ele parou a poucos centímetros da cabeça de Marie e ficou observando. Subitamente a cabeça ergue-se fazendo com que o gato pulasse mais de um metro de altura, e quando aterrissou saiu disparado, sumindo na escuridão do beco. Mas seu rosto estava diferente, não tinha nenhum ferimento da queda, estava mais magro e meio acinzentado, sua boca parecia ter mais dentes e todos tortos, seus lábios formavam um sorriso esquisito e medonho, seus olhos redondos, estavam arregalados, a pupila e a íris estavam completamente pretas, cercadas por um amarelo-escuro da esclera. Ela foi se levantando devagar enquanto seus ossos iam estalando, suas pernas tinham afinado, seus braços magros alcançavam os joelhos, seus dedos tinham esticado bastante, e deles saiam garras de mais de vinte centímetros, seus cabelos que antes eram castanhos e curtos, agora estavam pretos e suas pontas tocavam seu quadril, e seus olhos eram parcialmente cobertos por algumas mechas.

A criatura, que de Marie não tinha mais nada, apenas as roupas, ergueu o nariz como se farejasse algo, de repente ela parou como se encontrasse algo, seus grandes olhos ficaram ainda maiores, acompanhados pela boca que formava um sorriso ainda maior e mais assustador que antes. Então como um relâmpago desapareceu.

Em outro canto da cidade, em baixo de uma ponte, num lugar pouco iluminado, andava em círculo, uma figura inquietante. Era um homem de uns sessenta anos, meio careca, segurava uma com todo cuidado uma maleta preta. Quando de repente apareceu a criatura, de um ponto pouco iluminado veio correndo, corria de uma forma assustadoramente rápida. Com as costas curvas e as garras quase tocando o chão, ela se aproximou mais devagar. O homem que estava de costas, não percebeu sua chegada, mas virou rapidamente quando escutou seu gemido.

– Quem é você? – disse o homem quase gritando de medo.

– Eu? – disse numa voz fina, mas rouca e muito compassada – Eu não sei que sou! — disse ela, esticando o pescoço na direção do homem.

– O que vovocê qquer? – Disse o homem gaguejando e recuando devagar.

– Hum! O seu cheiro é bom – disse a criatura alargando o sorriso.

– O que? – disse o homem sem entender o que estava acontecendo – O que você quer de mim? – disse ele andando de costas.

– De você? – disse a criatura se aproximando – De você, eu quero os olhos! – disse ela erguendo os braços finos e mexendo as garras, como se brincasse com elas, ao mesmo tempo em que um sorriso ainda maior que antes, surgia, dando a impressão que sua cara fosse de borracha.

Percebendo o perigo, o homem tentou correr, mas antes que se virasse, recebeu um golpe, sua maleta caiu no chão junto com metade de seu braço direito, a maleta se abriu e com ajuda do vento um punhado de notas levantou vou grudando na criatura que ainda estava melada de sangue, ao mesmo tempo em que o homem gritava ao perceber que seu braço tinha sido cortado ao meio. Com as pernas bambas, ele ainda tentou fugir, mas recebeu um segundo golpe, dessa vez foi sua perna esquerda que foi cortada ao meio. Caindo de bruços, apenas gemeu, já não conseguia gritar. A criatura se aproximou, e o virou, subiu em cima, e com os pés apoiados em seu peitoral, agachou-se e começou a brincar com suas garras.

– Agora quero seus olhos – disse ela, olhando para o homem que apenas gemia enquanto arregalava os olhos. – Você não vai mais precisar deles – disse a criatura, ao mesmo tempo em que enfiava as garras dos dois indicadores nos olhos do homem, que morreu instantaneamente.

Limpando o espelho com a mão, Marie viu seu rosto, estava perfeito. Olhou para seu corpo nu, e viu algumas manchas de sangue, então as tocou, vendo que não eram feridas, se espantou.

– Estou morta?! – disse ela sem entender o que tinha acontecido.

Ao lado do chuveiro que ainda estava ligado saindo um jato de água quente, estavam suas roupas. Por cima estava sua que blusa, que antes era azul e cinza, agora era cor de sangue, e nela estava grudada uma nota de cem dólares.

Nesse momento Marie se sentiu completamente perdida. A última coisa que vinha em sua mente era o vento enrolando em seu corpo, enquanto caia para morte.

Ela escutou uma porta bater forte na sala, que ficava perto de seu quarto, seguido da voz de sua tia e uma outra voz, uma voz de homem. Ela fechou o chuveiro para poder escutar melhor. Outra porta bateu e as vozes desapareceram.

Marie limpou como pode o sangue de suas roupas, assim como a nota de cem dólares. Depois de todo trabalho que teve para achar um lugar onde pudesse escondê-las, ela finalmente deitou em sua cama. Ela ainda não sabia se tava viva ou morta, mas imaginava que a morte fosse bem diferente. E se estava viva, se perguntava, como poderia sair de uma queda daquela altura sem nenhum arranhão? E aquelas roupas meladas de sangue, enquanto seu corpo estava inteiro? E aquela nota de cem dólares? Eram perguntas que ela não tinha idéia de como iria achar as respostas. Sem perceber ela adormeceu. Já não dormia a mais de um dia, e foi um dia muito triste, sobretudo, muito esquisito.

Quando acordou ficou sem saber se tinha sonhado tudo aquilo e seus pais ainda estavam vivos, mas se entristeceu quando percebeu que não estava em seu quarto. E tudo se confirmou quando sua tia entrou pela porta e arreganhou-a

– Já são onze horas – disse ela, abrindo a janela e deixando a luz do sol invadir o quarto. — Já está na hora de levantar.

– Está bem, tia Marina! – disse ela, protegendo os olhos da luz enquanto se dirigia ao banheiro.

– Trate de arrumar sua cama – disse a tia enquanto saia do quarto.

Marie chegou à cozinha. Atrás de uma pequena bancada, estava sua tia brigando com as panelas. Ela se aproximou e se sentou. Fixa na parede, tinha uma televisão ligada num canal de noticiário. Uma notícia em particular lhe chamou atenção.

“Mais informações sobre a morte do médico e empresário, Ernesto Franlini, de sessenta e quatro anos, que foi encontrado morto esta manhã, de forma muito cruel, tendo membros decepados, e também os dois olhos arrancados. A polícia informou que junto ao médico, foi encontrada uma maleta como cerca de cinquenta mil dólares, e isso chamou muito a atenção, pois foi uma quantia de dinheiro considerável que foi deixada para trás. A polícia acredita que foi uma morte encomendada. Lembrando que o médico foi acusado de envolvimento em dois esquemas de corrupção há dois anos, no qual foi inocentado por falta de provas.”

Essa noticia ficou algum tempo em sua cabeça, mas foi esquecida quando sua tia começou a falar.

– Quando pretende voltar a estudar?

– Ainda não sei tia – disse Marie, imaginando como seria sua volta.

– É bom você já ir pensando nisso! – disse a tia, se aproximando de Marie com uma panela numa mão e uma espátula na outra – Também acho bom aprender a cozinhar, pois não pretendo ser sua cozinheira.

Marie não disse nada apenas abaixou a cabeça e ficou imaginando o que seria aquilo que sua tia pôs em seu prato, pois não parecia nenhuma comida que já tivesse comido antes, o cheiro não era nada agradável, e o gosto parecia ser ainda pior.

O restante do dia foi gasto por ela, tentando compreender a estranheza do dia anterior e como seria sua vida a partir de agora sem os seus pais, vivendo com sua tia. Também imaginou sua volta para a escola, que era a última coisa que queria nesse momento. Também não pensava mais em se matar. Mas vontade de ver seus pais foi aumentando e lágrimas começaram a brotar em seus olhos.

A noite chegou e como a anterior, sua tia saiu toda arrumada. Marie então foi para seu quarto, o sono começou a lhe tomar a consciência. Quando ela acordou estava em frente a um espelho, mas agora ainda estava vestida, mas banhada de sangue como antes.

– De novo? – disse ela se afastando até tocar a parede com as costas – O que está acontecendo comigo? – disse ela chorando, enquanto ia escorregando até se sentar no chão.

Ela se limpou e limpou as roupas como pode. Quando foi escondê-las junto com as outras ela viu a nota de cem dólares, e automaticamente, se lembrou do noticiário mais cedo e imaginou se aquela nota teria alguma coisa haver com a morte do médico.

Então terminou de esconder as roupas e correu para a cama. Em seu quarto tinha uma pequena televisão em frente sua cama. Sentou-se na cama e a ligou no noticiário local, mas não tinha nenhuma notícia bizarra como a que viu na cozinha, que lhe chamasse atenção, mas por mais de uma hora, quase sem piscar ela continuou. Um estrondo na sala a assustou era uma porta batendo. A voz da sua tia parecia cada vez mais próxima de seu quarto. Então a porta abriu, era sua tia, atrás dela aparecia figura, que recuou ao ver Marie.

– Desligue a televisão, já está na hora de dormir – disse a tia, aparentando está um pouco embriagada.

– Já vou desligar, tia – disse Marie desligando a televisão.

Sua tia então fechou a porta, e foi para seu quarto. Quando Marie escutou a porta bater, pegou uma camisa e pôs no chão ao lado da porta, para impedir que a luz da televisão que saía pela frincha da porta a denunciasse que ainda estava acordada. Ligou a televisão, pôs no mudo, e ativou a legenda. O tempo foi passando e não teve nenhuma notícia que chamasse a atenção de Marie, que já estava quase caindo para frente, nas cochiladas que dava. Ela despertou, quando começou ler uma notícia que já estava pela metade.

“… e também teve os olhos arrancados. Foi um assassinato parecido com o do médico Ernesto Franlin, que acorreu ontem pela madrugada, exceto pelo fato de que nesse a vítima foi morta em seu apartamento que foi invadido, tudo indica quem cometeu a assassinato entrou e saiu pela janela que estava toda estilhaçada…”

Ao ouvir isso, Marie sentiu como se tivesse levado um soco na barriga. Ela se lembrou do pedaço de vidro que caiu de sua roupa quando a tirava.

– Será que eu estava lá? – questionou ela, firmando os dois braços na cama – Não tem como, como eu iria chegar até lar e não me lembrar – disse tentando se conformar.

Ela desligou a televisão e deitou. Ficou pensando em tudo que aconteceu, e se ela estava envolvida de alguma forma nesses assassinatos. Como teria ido até La? E por qual motivo? E ela passou a manhã todo pensando nisso. Mas chegou a conclusão de que estava delirando, mesmo sem entender como todo aquele sangue foi parar em suas roupas suas roupas.

Enjoada de ficar deitada, sem sono algum, ela se levantou pra ir a cozinha beber água, mas antes de chegar à cozinha, ela notou algumas gotas de sangue no chão. Mais adiante perto da porta da sacada tinham mais algumas, ela puxou a porta que estava entreaberta, e na grade branca do parapeito, colado na parede, ela viu mais sangue, como se uma mão melada de sangue tivesse agarrado a grade. Ela começou a pensar novamente se teve algum envolvimento com os assassinatos ou se estava ficando maluca.

– Minha tia não pode ver isso! – disse ela baixinho, saindo atrás de algo para limpar o sangue.

Quando se agachou para limpar as gotas de sangue no chão da sala com um pedaço de pano, sua tia saiu do quarto. Marie ficou esperando que mais alguém saísse ao mesmo tempo em que escondia o sangue com o pano, mas isso não aconteceu. Sua tia foi se aproximando, quase não a viu ali agachada.

– Isso mesmo! – disse a tia com cara de aprovação – já que vai morar comigo é bom se acostumar ajudar em casa.

Ela se sentiu aliviada, pela tia não ter notado nada de diferente. Enquanto sua tia preparava alguma coisa na cozinha, ela terminou de limpar todo o sangue. Então ela foi se sentar na cozinha. O noticiário começou a falar sobre os dois casos de assassinato, Marie ficou desconfortável, quando sua tia parou o que estava fazendo para prestar atenção, mas quando terminou ela voltou ao que estava fazendo sem falar nada. Então ela serviu Marie, mas não comeu nada. Deixando a panela na pia ela saiu. Mas antes pediu para que Marie lavasse a louça.

Enquanto lavava a louça ela começou a pensar no que acontecia com ela para não se lembrar de como sujava aquelas roupas de sangue. Distraída em seus pensamentos, ela se cortou com uma faca, que escorregou de sua mão. Foi um corte na ponta do dedo indicador direito. O corte nem doeu, para o susto que ela levou. Então ela pôs o dedo na boca, costume que aprendeu com sua mãe, mas não sentiu gosto de sangue. Procurou com a língua o corte, mas não achou, então tirou o dedo da boca para ver, não tinha corte algum. Ficou imaginando se tinha visto coisa demais, mas logo esqueceu voltando seu pensamento ao que ela considerava mais importante naquele momento, o que estava acontecendo com ela durante a noite.

Deitada em seu quarto ela tentou se lembrar das últimas coisas antes de aparecer ensanguentada. A primeira foi ela pulando da sacada, e que por sinal havia um grande mistério para ela, como ela sobreviveu sem nenhum arranhão? Na segunda noite ela se lembrava que estava deitada, com muito sono.

– Na queda, no mínimo eu devo ter desmaiado! – sussurrou para si – E na noite passada, com certeza, devo ter adormecido! É isso alguma coisa acontece quando estou desacordada.

Depois de ter planejado o cronograma, que era ficar acordada a noite toda, ela desviou seus pensamentos para outras coisas.

Como sobrevivi? Pensou ela. E do nada lhe veio à mente o corte que sofrera mais cedo. Levantou imediatamente e foi até a cozinha. Um pequeno corte não vai doer, pensou. Então pegou a faca e fez um pequeno corte. Não sentiu dor e nenhum sangue saiu. Rapidamente o corte se fechou e nenhuma marca ficou. Ela repetiu e aconteceu a mesma coisa. Então ela fez um corte mais fundo, ela sentiu o corte, mas não sentiu dor alguma e o corte se fechou rapidamente. Quando ela se preparava para cortar novamente, ouviu uma voz.

– Se cortou querida? – disse sua tia do meio da sala, mas se aproximando.

– Não, tia! – respondeu rapidamente de susto.

– Pensei que tivesse! – disse a tia virando-se para a sacada.

Marie guardou a faca e correu para seu quarto. Agora ela tinha muito que pensar. Ela achou a resposta de como sobreviveu, já que seus ferimentos se curavam tão de pressa, mas junto veio outra pergunta: como ela se cura tão depressa? Isso a ocupou o resto da tarde, mas nenhuma resposta, ela encontrou.

Mais a noite sua tia tornou sair, como das noites anteriores. Marie ficou em seu quarto e começou a pensar na morte de seus pais, e qual motivo aquele homem teria para matá-los. Sem perceber o sono foi chegando e ela começou a cochilar. Para acabar com o sono resolveu tomar um banho frio. Depois voltou para sua coma, não sentia mais sono. Ligou a televisão e ficou assistindo a um filme qualquer que passava. Depois de uma hora mais ou menos, ela sentiu o sono voltando, então se levantou para lavar o rosto. Foi então que seu braço direito começou a tremer seguido pelo esquerdo. Ela sentia como se seus braços estivessem sendo puxados. Percebeu que estavam crescendo, assim como suas unhas. Então perdeu a consciência.

Ela acordou em um lugar frio, úmido e muito escuro. Sentiu que seu corpo estava pegajoso, mas não sabia o que era. Foi quando um carro passou. Ela notou que estava em um beco e que estava coberta de sangue. E agora o que eu faço? Pensou. Se ela saísse dali alguém poderia vê-la e não poderia justificar todo aquele sangue, mas se ela ficasse alguém iria vê-la quando amanhecesse. Sua mente foi tomada por tanto pensamento ruim, que ela desejou estar morta. E para aumentar seu desespero, um carro parou em frente ao beco, que só tinha uma saída. Um homem saiu de dentro do carro com algo na mão, que na mente de Marie, parecia uma arma, já que só dava para ver uma figura escura. Foi se aproximando de Marie e quando estava bem perto ergueu a mão que carregava o objeto, Marie fechou os olhos e escutou um clique, então percebeu uma luminosidade através de suas pálpebras.

Quando abriu os olhos viu que era uma lanterna.

– Tudo bem, não vou machucá-la – disse o homem mirando a lanterna para si.

Marie viu que era um rapaz de dezoito a dezenove anos, era alto e vestia uma jaqueta preta, que no momento estava tirando-a.

– Só vim para te ajudar – disse ele cobrindo ela com a jaqueta.

– Quem é você? – perguntou ela, ainda assustada.

– Me chamo Jonas – disse ele com um pequeno sorriso no rosto – e só estou aqui para ajudar você.

– Como vai me ajudar? – disse ela desconfiada.

– Primeiro te tirando daqui! – disse ele, se esforçando para convencê-la.

– Como você me achou aqui? – disse ela, se negando a acreditar nas boas intenções do rapaz.

– Olha! – disse ele, ficando sério – Eu sei quem é você e o que você é capaz de fazer, mas acho bom a gente falar sobre isso em outro lugar, pois se alguém nos ver aqui, tudo se complicará.

Marie não confiava nele, assim como no resto da humanidade, mas ela não tinha escolha, não tinha pra onde ir ou pra quem pedir ajuda. E ele parecia saber sobre ela mais do que ela mesma.

– OK, vamos.

Ela o seguiu até o carro. E ele saiu todo apressado, como se estivesse fugindo da morte.

Continua.

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