Arkadia

9 Quando o coração já não bate.


Notas iniciais
Nos vemos lá.

O silêncio toca o âmago de minha alma e quando percebo que estou apenas só, sento-me em meio a escuridão daquela floresta e seu lodo, abraço meus joelhos e tento me confortar de forma que todas as minhas opções desapareçam e reste somente e unicamente eu. Caitlin.

Sei o que fazer. Sei o que é necessário que eu faça e sei que nunca mais deixarei alguém roubar as únicas pessoas que são importantes para mim. Há tanta coisa em jogo e ao mesmo tempo, nada. Não há nada que me impeça de ir e há tantas coisas que gritam para que eu faça o que está sendo cobrado e enfrente aqueles que me escravizaram. E, honestamente? A revolução, a rebelião era necessária.

Vejo, em minha mente, a cidadela que se tornou aquela região da floresta negra e todas as pessoas que nela moravam, todas as vidas e raças distintas que ainda sim se uniram de forma harmoniosa por um único objetivo e desta maneira, viveram bem. Era possível fazê-lo do outro lado? Era possível ter todos vivendo lado a lado sem ninguém sobrepujar ou julgar o outro? E mesmo que não fosse, até onde a desigualdade poderia chegar?

Nunca fui e tampouco seria ingênua numa situação deste tipo; tinha em mente que os planos de Veridiana eram falsos se comparado a paz que ela implicitamente prometia e que nenhum governo era justo de toda forma, um era pior que o outro. Um governo era o exilado, o outro estava no controle. Para mim, era fácil. Quando os exilados tivessem a chance, governariam para humilhar os outros e desta forma, um ciclo de guerras se formaria porque eram incapazes de compreender que todos os seres vivos dentro deste mundo deveriam ter voz. Precisavam ser ouvidos.

E tudo seguiria com rebeliões em tentativas de tomar o poder e em algum momento, alguém cairia de forma temporária, outro teria o poder e assim continuaria seguindo. Essa era a regra que regia a cobiça do mundo.

— Onyx, nós vamos acabar com isso de uma vez.— Aviso num fio de pensamento, tentando buscá-lo e deixá-lo alerta.

— Eu sabia que você faria isso.— Ele me devolve tão calmo.

— Mas não será como esperam que eu faça, não vamos seguir as regras deles porque regras de ninguém nos fez bem até hoje.

— E sua família?

— Vão viver, no fim.

— Deveria ir vê-los, Caitlin.

— Não faço mais parte de suas vidas há um bom tempo, Onyx, e acho que será melhor assim. Melhor do que tudo que descobri hoje, melhor do que o preço a se pagar pela presença delas de forma ativa em minha vida.

— Não entendo. Há sempre algo a ser pago, qual o problema agora?

— Você. Nós vamos morrer nesta guerra, Onyx. Não há saída, não há volta alguma. E se não morrermos lá, algo acabará por matá-lo. Eu… Estamos fadados a morrer no fim das contas, ou por suas mãos ou você pelas minhas. O coração que nos une é forte e frágil ao mesmo tempo, é a nossa glória e derrota, entende? Ainda que uma lança não o atravesse, eu serei capaz de fazê-lo de outra forma. Até sem querer.

— Você nunca iria me machucar. Você me salvou, Caitlin.

— Não, Onyx. Você me salvou. E agora nós vamos salvar todas essas pessoas que acreditam cegamente numa líder que lhes dá o que acham merecer, mas não o que precisam de fato.

— O que faremos?

— Você verá.

Os primeiros raios de Sol estão tocando as folhas das árvores enquanto deslizo para trás de uma e sigo fazendo isso até estar próxima o suficiente de Samwell. As correntes que o mantém amarrado naquela árvore estão deixando-o pálido e impedem que use seu poder.

Isso é assustador. É como quando encontrei Onyx da primeira vez e ele estava acorrentado, ou quase sendo acorrentado por aqueles elfos incapazes de compreender a liberdade da qual todas as vidas eram dignas.

Dou mais uma olhada para as casas que faziam aquele vilarejo existir em meio ao lodo e mato resiliente, tento sentir em qual delas está minha mãe porém desisto segundos depois por ter ciência de que as coisas não ocorreriam bem se eu continuasse tão racional e sentimental como agora. Olho para o céu e vejo a sombra do meu dragão se fazendo cada vez mais presente e então, não tenho outra opção senão bater na cara de Samwell até que ele acorde de vez.

O Mago era o meu trunfo.

Com um assobio baixo, Onyx entende o sinal e solta um grave rugido que atrai toda a atenção para nós, fazendo com que janelas sejam abertas de algumas casas e das tendas, guardas e guerreiros de tão variados tipos surgissem. Mas não há um sinal de Veridiana ou sua corja de vampiros. É dia e querendo ou não, a menção dos raios ultravioletas é o suficiente para afetá-los.

— Avisem ao seu líder que atacaremos ao anoitecer desse dia. Quero que marchem em direção ao castelo, que passem pelo bosque das fadas, que façam-se ser vistos e temidos. Os dragões irão pelo céu, ocultos pelas nuvens e surgirão no momento exato em que Onyx fizer raios aparecerem. Deixem os civis de fora, foquem somente naqueles que os aprisionaram. E soltem o meu mago pois ele vem comigo. — Os digo alto o bastante para ser levada a sério e com um rapaz de cachos negros amarrado numa árvore bastante surpreso para o meu gosto.

Não há contestação. Não há hesitação. Eu sou o que eles querem e se me querem, deverá ser do meu jeito.

Cruzo os braços, esperando que sigam minhas instruções e enquanto retiram as correntes do mago que me seguiu por um tempo absurdo, sinalizo com o braço para Onyx descer e nos pegar. É isso. Iriamos embora.

— Não diga nada, apenas suba e fique calado.— Resmungo para Samwell enquanto o ajudo a montar no dragão porque sei que suas forças não foram totalmente recuperadas e logo em seguida, faço a mesma coisa.

Nenhum de nós três diz mais alguma palavra.

Durante muito tempo, achei que ao reencontrar minha mãe tudo seria resolvido, me enganei. Toda a minha rebeldia durante esse tempo sem ela foi a prova mais viva de um amor simplesmente puro e de uma esperança que às vezes eu sabia não existir, mas agora, indo embora e abrindo mão tão facilmente de tudo o que ainda poderíamos ter, percebo que há coisas mais importantes do que simplesmente estar junto de alguém. Não a amo menos por fazer o que faço e demonstro isso ao estar indo embora de bom grado com uma promessa de derramar sangue de outros. Eu a amo mais, cada dia mais, só que entendi que os fios do destino foram cruéis o suficiente para fazer com que sempre estivessemos distante.

Tudo o que passei até agora apenas me fortaleceu para o momento. Tudo o que passamos até agora apenas nos uniu para que não fugissemos quando chegasse a hora certa de batalharmos. Meu estômago está embrulhado.

As próximas horas serão tão longas que já nem sei mais o que fazer ou dizer.

Temos que nos preparar.



Nós vamos para o meio da floresta que fica entre o caminho necessário para chegar ao castelo e a Floresta Negra, e é por lá mesmo que nos instalamos até o dia passar.

Não há conversas porque todos nós sabemos o que irá acontecer e que cada um aqui tem o seu lado. O silêncio então toma conta de tudo e acaba por criar uma tensão exagerada; eu não estava com medo ou com raiva ou com algo que não fosse aceitação. Simplesmente aceitei o que pode acontecer e que deverei conviver com isso.

Quando eu era pequena, ouvia inúmeras histórias sobre como a guerra nos destruiu e nos uniu ao mesmo tempo. Sobre como os humanos caíram e deram lugar aos elfos. Minha mãe sempre me disse que heroísmo ou ato não heróico estava apenas nos olhos de quem o vê: pontos de vista. Qualquer um podia pensar qualquer coisa que jamais iria significar a verdadeira imagem por trás do que foi feito e apesar de não ter compreendido isso quando ela dizia, hoje sei que consigo entender.

Ouvi histórias sobre guerras e sobre a reconstrução de uma raça, de uma nova cidade, de um novo povo, um novo mundo. Essas histórias eram enganosas porque o mundo nunca mudou, porque apesar de existir uma diversificada gama de raças, todas elas eram tão iguais que buscavam se diferenciar em algo. Me conformei com isso. Achei, até pouco tempo, que eu era diferenciada por uma lasca de orelha arrancada, porém não sou.

Sou igual a todos eles.

Por muito tempo, ouvi histórias em que outros eram herói, todos eles aparentavam ser perfeitos e dignos do seu heroísmo, contudo, a música não soa da mesma maneira atualmente. Cansei de fugir e me esconder pelas árvores, cansei de aceitar viver entre as sombras, entre as migalhas, sem dignidade, sem vida. A partir do momento em que cruzei o caminho de Onyx, eu soube que ainda deveria viver com esperança. Eu soube que tinha uma chance. Havia uma chance para mim, para nós, para todos.

Desde pequena, ouvi inúmeras lendas sobre heróis. Hoje, aqui, decido que serei uma.

Não há mais espaço para Caitlin.

Não sou mais a Caitlin.

A partir de agora, viverei como aquela caçava os dragões outrora. Sou o que me foi dado. Sou o que me foi destinado. Sou uma DragonSlayer.

— O Sol está se pondo.

— Eu sei.

Ficamos em silêncio enquanto prendo meus fios brancos em uma trança e me recuso a lhe encarar. Samwell é um mago e escondeu-me suas intenções até esse ponto, sua origem até que fosse revelada, seus reais anseios até que me fosse eficaz usar.

— Ouça. Preciso que faça algo.— Lhe digo enquanto tenho meu dragão guardando suas forças e descansando até que seja o momento exato de aparecermos.

— Diga.

— Vá na frente e leve uma mensagem a Shagar, ou a qualquer um que se ache o líder supremo de toda a nação. Apenas faça com que te ouçam e repassem isso aos outros.

— Por que eu o faria?

— Porque é a única maneira de evitarmos um banho de sangue.

Concordamos então e no fim, sussurro em seu ouvido todo o meu plano a com Onyx e o que ele realmente precisa fazer para que evitemos o máximo de mortes possível, ciente a todo momento de que sua confiança iria se provar agora e que curar meus machucados não revelava suas verdadeiras intenções.

Ainda há muito que ser feito. Ainda é necessário que uma série de eventos ocorram, porém fechamos um acordo mudo de que a vida dele estaria em risco se não o fizesse e lhe dou as coordenadas, indicando o caminho livre pelo qual deveria seguir embora não precisasse.

Onyx retorna de seu sono minutos depois que Samwell vai embora e percebo que essa poderá ser a nossa última vez.

Acaricio-lhe o rosto escamoso e fito seus olhos enigmáticos, sombrios e amigáveis ao mesmo tempo.

— Preciso que saiba de algo antes de irmos, Onyx.— Por mais que eu tenha jurado parar de chorar, sinto meu olho lacrimejar e há algo na minha garganta que parece prender as palavras e soluços ali dentro. Eu sei que ele sabe, porém nunca disse isso.

— Não é preciso, Caitlin. Eu conheço o seu coração como nenhuma outra pessoa o conhecerá.

— Ainda que saiba o que meu coração lhe diz a todo instante, as palavras existem para serem lançadas e eternizadas pelo vento, pela brisa. E eu quero lhe dizer coisas diante esta floresta para que cada alma que ousar passar por aqui, seja capaz de se sentir tão querido como você é para mim. Para que as árvores sejam testemunhas do quão grata estou por ter lhe conhecido.

— Cait…

— Desde o momento que você surgiu naquele céu junto de uma explosão tão colorida quanto o arco-íris, a árvore da vida resolveu que sua folha deveria cair próxima da minha e nos uniu. Quero que saiba que eu não me arrependo de ter lhe ajudado, de ter ouvido suas histórias e imaginado um maravilhoso mundo com você. Às vezes você é irritante, outras é tão silencioso e obediente que me dá nos nervos, ou que me faz ser capaz de querer estar com você. Foram dias, não estações ou meses que estamos juntos, mas dias e eu nunca realmente tive algum laço assim com alguém, com algo. Você foi o meu primeiro amigo e sinto que não estarei sendo sua amiga se você lutar naquela guerra por mim. Se os seus morrerem naquela guerra. Por isso, Onyx, não interfira na minha escolha ou ache que estarei sendo egoísta, morrer por você e por minha família é algo extremamente digno. Eu jamais deixaria meu coração se corromper para que você caísse comigo. Eu jamais o deixaria não existir. Preciso que exista, preciso que continue existindo e que cuide de minha irmã, de minha mãe. Preciso que diga para elas que as amo tanto e que nunca desisti. Preciso que voe para onde elas estão e as leve para um lugar seguro. Preciso que diga aos dragões que não se rebaixem aos féericos, as criaturas ou humanos. Que reinem da forma mais justa e sábia que sei que são capazes de conseguir. Preciso que continue existindo para que eu não tenha sofrido em vão.

— Por que diz isso com tanta certeza? Não sabe se irá falecer nessa batalha, minha amiga. Nunca vi um coração tão bravo e esperançoso como o seu, então não seja pessimista. Não se entregue antes da hora e quando a hora chegar, diga para a morte que hoje ainda não é seu dia.

— Preciso que me prometa, Onyx. Prometa que não vai interferir na minha decisão essa noite e que fará como combinamos. Prometa.

— Você tem a minha palavra, Caitlin. O meu coração.

Grudo minha testa em seu focinho e fecho os olhos. Eu sei que uma despedida significa que iremos nos encontrar novamente, o mais rápido possível, porém é doloroso saber que talvez aquilo seja um definitivo adeus com o qual devemos conviver. Me sinto em casa quando estou com ele e espero que tenha essa sensação outra vez.

— Eu espero que não me dê seu coração hoje. Guarde-o.

— Ele é seu desde que nos cruzamos.

— Não, Onyx. Ele é seu. Não deixe que uma ligação dite as regras com as quais você tem que viver.

— Caitlin, você pode chorar agora.

— Ainda não é o momento.

A lua está em seu auge quando as primeiras luzes no céu explodem anunciando a chegada da batalha. Nós estamos voando mais alto do que costumamos e tentamos não ser vistos embora eu seja capaz de ver o que está ocorrendo. A visão de Onyx é simplesmente a mesma que a minha e enquanto ele observa, as imagens passam como um flash na minha cabeça.

O lindo castelo cinza estava rodeado de guardas e os elfos usam suas armaduras douradas, bem posicionados um ao lado do outro na frente, enquanto a parte de trás está dotada de cajados e luvas. Magos. Não há nenhum sinal das fadas e tampouco do meu mensageiro. E enquanto a esquerda é toda coberta pelo exército real, pelos governadores de Valkyria, é a direita que mantém se movimentando e sem armadura alguma, ousa ameaçar a outra parte.

Eu entendo aquilo como a minha real deixa e balanço a cabeça para Onyx. Bastou um gesto para que ele voe na direção daquele centro de batalhas e quando se aproxima o suficiente, cospe fogo por toda a parte livre que os separa, criando de fato uma barreira para que ninguém avance. Eu realmente pensei que era capaz de controlar a situação e me vejo fazê-lo perfeitamente bem naquele momento, por isso Onyx pousa entre os governantes e os renegados, e eu deslizo para fora dele lentamente.

Não há um rosto conhecido no geral e tampouco ouso olhar para trás para saber se elas estão lá. Meu coração me diz o que é o certo e eu me deixo levar por ele, cruzando os braços e respirando fundo. Busco a calma que nunca vem. Busco uma pequena chance da esperança ser real.

— Diante de toda essa gente, desafio o mais forte dos guerreiros que vos representa a batalhar comigo até a morte para que sangue de nenhum outro inocente seja derramado sem necessidade. Se eu ganhar, os dragões governarão. Se for o meu coração que deixar de bater, nada muda.

— Se o seu coração deixar de bater, nós queremos os dragões.

Dou um passo para trás ao ouvir aquela voz conhecida e ao bater as costas nas escamas de Onyx, Samwell ri com escárnio.

— Não achou mesmo que eu estava com você por ser doce e gentil, certo?— Ele questiona bastante irônico e eu cerro as mãos em punhos. — É pegar ou largar, Caitlin.

— Vá embora, Onyx. Isso é entre eu e ele.— Rosnei baixo e ainda que meu dragão esteja se negando mentalmente, eu caminho em direção ao rapaz. — Eu pego.— Aviso certa da minha decisão e então, minha testa vai de encontro ao nariz dele com tanta força que eu vejo o sangue sair enquanto ainda estou um pouco tonta, mas não posso ser ingênua: ele virá com tudo, não apenas com as mãos.

As coisas acontecem lentamente, porém quando dou-me conta e estou seguramente afastada, Samwell desaparece diante meus olhos como uma fumaça e surge atrás de mim. Suas mãos enlaçam minha trança e ele puxa meu cabelo tão forte para trás que sinto a cabeça latejar, porém não para por ai. Há uma lâmina em meu pescoço que não faço ideia de onde ele havia puxado e ela se afunda em um ponto que começa a arder e a derramar um pouco de sangue.

Não me mantenho parada, tampouco refém do medo. Minhas mãos puxam aquela que me ameaçava com a lâmina e ao ter seu braço bem a minha frente, desço o dente nele para me soltar com tanta força que sinto o dragão em mim acordar. Ele aproveita do seu braço na minha boca para se soltar e sem mudar a posição, acerta meus dentes em cheio e sinto o interior dos lábios um pouco metálico.

Onyx fora embora.

Samwell se aproveita que sou mais lenta do que ele e derruba-me no chão com uma rasteira, chutando-me em seguida. Ele está se divertindo, porém eu não era burra. Na primeira oportunidade que surgira, agarro seu pé e acabo por derrubá-lo devido a falta de equilíbrio causada e engatinhando, ponho-me sobre ele.

Minha mão tem um único alvo: seu rosto. Início uma onda de socos na região de seus olhos, de sua bochecha, tento deixá-lo atordoado. Tento deixá-lo com mais dor do que eu estava sentindo, tento provar que sou dura na queda, porém seus lábios se movem e apesar de não sair som algum, meu corpo é lançado magicamente para trás e erguido no ar.

Ele se recompõe e me analisa. Seus olhos estão mais negros que o comum e seu rosto está feio assim como aposto que meu abdômen também está e com uma risada macabra até demais para mim, sinto que vou vomitar.

— Toturus Edipolus.— Ele murmura e eu grito sentindo uma maldita e aguda dor na minha perna. Lágrimas saem sem que eu realmente queira chorar e a dor não para. Quando abaixo o olhar, noto que minha perna esquerda está quebrada. ‘’Onyx, aguarde mais um pouco.’’ Eu digo mentalmente enquanto tento me concentrar em qualquer coisa que não seja aquela maldita dor.

Samwell solta outra palavra e meu coração se aperta, o que me faz tentar levar as mãos até lá porém parece que estou estagnada numa posição de crucificação até que isso chegue ao fim.

— Você acha que sabia de tudo? Que eu fui estúpida ao ponto de lhe contar tudo?— Questiono gargalhando meio dolorosamente.

— Não, mas você foi estúpida ao ponto de acreditar que eu já não estava um passo à frente.

— Aprenda algo sobre mim, Samwell. Eu sou tão instável quanto as tempestades.

Nesse momento, o céu explodiu em raios e trovoadas. Onyx havia entendido que eu era tão parecida com ele quanto jamais imaginamos.

— E eu não tenho medo de tempestades, Caitlin.— Ao dizê-lo, do centro de suas mãos fora lançado uma energia azul intensa que atingiu em cheio o meu peito.

Meu corpo caiu do encanto no mesmo tempo e eu apenas abracei o chão como minha nova cama. Ainda não havia me rendido, eu sentia. E diferente do que ele esperava, levantei-me. Percebi que minha perna já não estava quebrada, percebi que em algum momento ela se curou e quando olhei para minhas mãos, elas brilhavam.

— O seu erro, Sammy, foi ter achado que eu era fraca.— Ao dizê-lo, corri em sua direção e com minhas mãos brilhantes, empurrei a região do seu peitoral e o vi ser lançado para longe. Seu corpo caiu próximo a multidão que outrora morou na Floresta Negra. Eu ri. — Ele é todo de vocês.— Foi o que disse, anunciando quem realmente havia vencido aquele embate.

Girei meus calcanhares, pronta para unir-me aos que haviam abrigado minha família.

— CAITLIN.— O grito de Onyx ecoou na minha cabeça e quando me virei, foi tarde demais.

As lembranças não correram pelos meus olhos e eu tampouco vi uma luz, porém soube que aquela ainda não era uma despedida digna de lágrimas. Ainda não poderia ser uma despedida.

Meu corpo tomba sobre os joelhos e ambas as mãos vão em direção a espada. É automático, eu escuto os trovões ecoando e eu sei que ele sentiu, ainda que nada mude. Ainda que ele viva. Eu sei que ele sentiu. E eu também.

Notas finais
Espero que tenham gostado do bônus, embora eu não concorde com as ideias e ações tão ligeiras da personagem. Mas ela tem vida própria e cabe a nós respeitar, então deixem seus comentários e aguardem os próximos. Beijão.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.