Arisu
2 Capítulo 2: Amigos
Notas iniciais
Haruka se afastou, deixando Arisu arfante. Nunca havia beijado alguém daquele jeito... Beijado... Beijado...?
O mais velho enfiou sua mão por baixo da camisa do menor, e finalmente Arisu se deu conta do que estava fazendo. Automaticamente se afastou.
― O que foi? ― Resmungou Haruka meio decepcionado. ― Você já me deixou beijá-lo mesmo...
― P-para com isso! ― Arisu gaguejou confuso.
― Que chato... Você estava tão empolgado...
― C-como é que é?!
― Você é muito mau... Me deixa provar de um doce delicioso e depois o leva embora...
― Cala a boca!
Afinal, por que tinha deixado aquele cara beijá-lo? E... Tinha participado... Colaborado... Sentiu o rosto esquentar mais e mais...
― Então, se sente melhor?
A voz sensual de Haruka o despertou de sua reflexão. O sorriso zombeiro dele havia sumido, e ele olhava o pequeno com sinceridade e uma pontinha de pena.
Arisu então se lembrou do motivo de tudo aquilo. Sentiu o estômago afundar. Pequenas gotas salgadas desceram por seu rosto antes que ele pudesse pensar em controlá-las.
― Ugh... ― Gemeu triste.
Haruka mirou o rosto dele agora com pena. Existiam realmente pessoas sinceras como ele que se feriam tão facilmente...
― Ai ai... ― ele suspirou e afagou a cabeça do outro mantendo a distância.
Arisu abriu um pouco os olhos, e começou a chorar mais ainda.
Haruka suspirou novamente, e passou com delicadeza o braço pelo ombro quase feminino do menor. Este se assustou, mas logo percebeu que não era um gesto agressivo. Haruka o tocava sem segundas intenções, apenas tentando consolá-lo, de um modo até... Carinhoso.
Ele fungou e encostou a cabeça no ombro do mais velho. Era tão confortável... Não conseguia parar de chorar. Estava triste... Na verdade, fazia dias que queria chorar... Estava se contendo... Mas aquilo fora a gota d’água.
― Que tonto... ― disse Haruka afagando o ombro dele bem devagar.
...
Naquela noite Arisu dormiu perfeitamente bem. Acordou com a cabeça vazia, um pouco pesada, e se levantou devagar para evitar uma possível tontura. Olhou no espelho o cabelo bagunçado e a expressão descansada.
― Arisu, acorde! Vai se atrasar! ― A voz da mãe ecoou vinda da escada.
Escola...?
Como uma descarga elétrica as lembranças do dia anterior passaram voando por sua mente. A declaração, o fora, as lágrimas e... O beijo.
Arisu viu o rosto ficando rubro em frente ao espelho, e tratou de correr para o banho para tomar uma ducha fria. Estava confuso novamente. Muitos sentimentos o invadiam ao mesmo tempo. Tristeza, raiva, vergonha, medo. Sim, medo.
Seria um péssimo dia na escola.
Ele entrou na sala, abatido. Era verdade que tinha dormido muito bem, o que não acontecia a um bom tempo, mas mesmo assim sentia o corpo e a mente cansada.
Algumas meninas, sentadas nas carteiras da frente, o encararam e soltaram risinhos indiscretos. Eram amigas de Rika, a garota que Arisu havia se confessado no dia anterior. Provavelmente Rika já havia contado tudo para elas...
Corando e abaixando a cabeça, ele foi para seu lugar no fundo da sala. Gostava de sentar-se lá, ninguém o importunava.
Tirando que Rika sentava duas cadeiras à sua frente.
― Bom dia, Arisu-kun... ― Falou ela colocando a mochila na carteira com uma expressão meio tímida.
― Bom dia... ― Ele conseguiu encontrar forças para responder, não sabia como. As garotas soltaram mais alguns risinhos.
Foi exatamente como ele imaginava que seria. Um dia horrível, aulas chatas, professores irritantes, e colegas mais irritantes ainda. Não prestou atenção em nada do que foi dito em frente ao quadro negro, e nem se esforçou para tal ato. Não estava a fim de fazer qualquer coisa.
O sinal tocou indicando o intervalo, e Arisu sentia que havia passado décadas sentado naquela carteira dura e desconfortável. Pegou o almoço que trouxera de casa e começou a comer devagar, ali mesmo, ignorando o movimento à sua volta. Até que alguém chamou por seu nome.
― Arisu-chan! ― Disse a voz zombeira de um dos detestáveis garotos da sala. ― Não quer dividir seu lanche comigo? Ele parece delicioso...
Arisu o encarou com desprezo, e obrigou-se a não responder.
― Ei, olha só, que almoço mais bem feito! Não me diga que além de cuidar de jardins você também sabe cozinhar! ― Falou outro garoto, maldosamente.
― Eeeh? Arisu-chan vai ser uma ótima esposa, não? ― O primeiro menino riu, e o outro o acompanhou, fazendo mais colegas caírem na gargalhada também.
Arisu abaixou a cabeça, tentando controlar-se. Não brigue com eles... Não brigue... Eles são muito maiores e mais fortes... Ele repetia para si mesmo.
― Arisu-chaaaaan!
Dessa vez ele se encheu, e levantou-se de supetão, assustando todos na sala.
― O que é?!
Percebeu que quem o chamava era Haruka, que estava em frente à porta olhando-o com aquele ar malicioso e brincalhão.
As meninas pararam para vê-lo, e começaram a cochichar freneticamente umas com as outras. Os garotos não gostaram disso, e amarraram a cara.
Arisu o encarou aborrecido, e andou até ele.
― O que foi sempai? ― Disse mal humorado.
― Não que almoçar comigo?
O mais novo corou, e virou a cara.
― Não, obrigado. ― Falou pondo um fim na conversa e indo sentar-se novamente.
Rika chegou perto dele antes que pudesse voltar para sua mesa, olhando cobiçosa para Haruka.
― Arisu-kun, quem é esse...? ― Perguntou baixo.
― Hã? ― Arisu ficava confuso e chateado quando a menina falava com ele. Tentou acalmar-se para responder. ― Hashimoto Haruka, terceiro ano... ― Falou por fim.
Haruka franziu as sobrancelhas para a menina, e agarrou Arisu pelo braço, puxando-o para fora da sala.
― Ei...! Sempai...! Me larga!
― Venha comigo. ― Falou ele num tom imperativo.
Ele o arrastou até o terraço. Chegando lá, soltou o braço do menino, e sentou-se no chão, voltando à sua expressão de deboche habitual.
― Então, aquela é a garota que te deu um fora ontem? ― Perguntou quase rindo.
― C-como você sabe...?
― Foi só olhar para sua cara patética quando ela veio falar com você.
― Seu...!
Haruka riu, vendo o outro constrangido.
― Mas você tem realmente um péssimo gosto, sabe? ― Continuou com a provocação. – Ela pode até ter o rosto bonito, mas é uma tábua. Mulheres que valem à pena são aquelas que têm peitos grandes. Se for pra sair com as retas, prefiro pegar um menino. ― Disse olhando para ele de modo pervertido.
― Desgraçado... Pelo jeito se divertiu bastante ontem, não é? ―Arisu estava furioso.
― É, me diverti bastante sim.
― Quer dizer que só fez aquilo para seu próprio prazer?!
― Sim.
O mais novo ficou chocado com a resposta direta e sincera. Não havia dúvida na voz de Haruka, que olhava para ele sem pestanejar.
― Como pode dizer uma coisa dessas desse jeito...? ― Ele desistiu de gritar, e colocou uma das mãos no rosto, sentando-se também.
― Vamos, pare com isso. Foi só um beijo.
Arisu corou ao lembrar-se pela milésima vez do que acontecera. Haruka reparou na reação exagerada dele.
― Não me diga que aquele foi seu primeiro beijo?
― Uhg...!
Ele corou mais ainda, e tentou disfarçar o constrangimento. Isso só deixou o outro mais exaltado.
― Tá brincando! Nunca tinha beijado? ― Ele riu se divertindo ― Que gracinha...!
― Não enche...
Haruka continuava rindo e deixando o colega mais envergonhado.
― Tá decidido! ― Ele falou com tanto ênfase que fez Arisu arregalar os olhos para vê-lo. ― Se eu roubei seu primeiro beijo, então também vai ser comigo a sua primeira vez, ok?
― D-do que está falando?!
― Da sua primeira vez, oras! ― O mais velho ainda ria da situação ― Não vai perder a virgindade com mais ninguém, viu?
― Seu pervertido...!
O pequeno o encarou perturbado, e depois virou o rosto ainda em choque, tentando esconder a face avermelhada. Haruka emitiu pelos lábios um som harmonioso que poderia ser um coro dos anjos, mas na verdade era seu riso.
― Calma... É brincadeira... ― Falou ele se segurando para não rir mais enquanto pensava “Não é brincadeira não”.
Arisu simplesmente soltou um resmungo.
― Sabe... ― Continuou Haruka ― É verdade que me aproximei de você só porque te achei bonitinho... Mas você é um cara divertido no final das contas. Eu gostei de você. Por que não ficamos amigos?
― Amigos? ― Ele não pode esconder que havia ficado feliz. Alguém o havia elogiado. Haruka disse que gostou dele dele. E Arisu não tinha tantos amigos assim, portanto não estava acostumado com esse tipo de coisa...
― Ou será que quer ser mais que isso? ― Perguntou o loiro lambendo os lábios.
No final das contas ele era mesmo apenas um pervertido. Arisu amarrou a cara de novo, abrindo a boca para dar uma resposta mal educada.
― Cala a boca!
Fale com o autor