Argonautas I

28 Lanna Marin


Sou Lanna Marin, uma filha de Hades.



Se o interior do Texas não me fazia tão bem, realmente não imagino o que mais me traria felicidade. Acho que morar tanto tempo só com a minha mãe pode ter sido bom. É lógico que eu sentia falta de presenças masculinas em minha casa, como quando eu precisava matar uma barata, não era minha mãe quem viria me ajudar.



Mas afundo, assim, bem no fundo, pode ter sido bom. Eu conheço de fato minha mãe e ela me conhece, eu nunca fui de me comunicar e talvez seja por isso que é pra minha mãe que conto as coisas, quando há algo interessante para contar, claro… ou seja, nunca.

Eu até tentava ir para escola, mas eu arranjava confusões frequentemente e minha mãe era chamada quase todos dias, além do que, eu tinha um único amigo. E manco. Eu não o vi nunca mais desde que minha mãe decidiu que eu sairia da escola para estudar em casa. O que sentia que não iria me ajudar muito, já que ela praticamente me ensinava apenas sobre mitologia greco-romana. Ah, e claro, o próprio grego, que falo quase fluentemente.

Minha avó nos visitava frequentemente, ela me dizia que eu era um erro, minha mãe fez a pior besteira se apaixonando pelo meu pai. Geralmente é complicado para uma garota ouvir isso da sua própria avó, mas eu não ligava muito. Minha mãe me dizia que algum dia eu poderia salvar o mundo, só não salvaria se preferisse destruí-lo.

– Lanna, corre aqui! — minha avó me acordara às cinco da manhã novamente — Um gato preto, outro! — Nossa, vovó, vai ter mais sete anos de azar. Com esse já são quantos? Ahn… 28 anos? — eu sorria ironicamente enquanto tirava o gato de cima do baixo muro que dava para o quintal e o imenso "nada" por trás da minha casa.

– Seu sarcasmo me comove, criança. Tira esse nojo daqui. Obra do seu pai, com certeza. — eu não entendia nunca porque diabos era obra do meu pai. Mas meus deuses, papai, você é um gênio, obrigada. — Até entendo meu pai odiar a sogra…

Eu acariciei o gato e coloquei-o para o lado de fora, ele foi andando para sair do quintal de nossa casa quando se virou para um ultimo "miau" que em segundos se transformou em um grande rugido. Eu pisquei muitas, muitas vezes mesmo para ter certeza de não ser um delírio por causa do sono.

O lindo gatinho preto que aparecera ali por culpa do meu pai, segundo a minha avó, se transformara em um tipo de leão com pelo dourado e mais duas cabeças, que em minha opinião, estavam fora do lugar, mas presas em seu corpo. — Maldito Hades! — minha avó berrou e pude ver minha mãe abrindo a porta desesperada atrás de mim. — Uma quimera, meus deuses! Estávamos paralisadas, as três.

Minha mãe tirou o cinto de taxas que usava, ela era um tipo de coroa descolada, usava o bendito cinto sempre. Ela o bateu no chão e o entregou-me depois, ele havia deixado de ser um cinto e se tornará um chicote, preto e de aparência mortal. — Você sabe o que fazer. — ela me olhou com confiança e temendo que eu não soubesse.

– Não, eu não sei! — olhei perplexa para o cinto, sem nada entender — Como que…? Não pude terminar a frase, o monstro se aproximou e por um impulso eu manuseei o chicote para atacá-lo. Foi certeiro ao pescoço em forma de serpente que se desfez em um pó dourado e desapareceu. Só isso? Sério? Eu queria sangue, não pó dourado.

Eu percebi que o chicote tinha algum tipo de lamina, isso com certeza ajudaria. "Só mais duas!", eu ouvia minha mãe em sua torcida deplorável para que por um milagre eu derrotasse a quimera. Eu chicoteei mais uma vez. Errei. Mais algumas e errei.

Ela não ia simplesmente aceitar ser atacada então partiu para cima de mim, senti o sangue escorrer da minha testa, eu não conseguia sentir dor, só sentia o desespero. Meu, da minha mãe e da minha avó. Eu fazia algumas coisas com o chicote que nunca imaginei fazer, não sei usar isso, não é pra mim.

Eu ia chicotear mais uma vez a quimera, quando para a minha surpresa ela voltou a forma de um pequeno gatinho preto, mas agora sem uma das orelhas. Eu não nego, senti uma vontade imensa de segura-lo e cuidar dele, mas lembrei do que realmente se tratava. "Já é a hora, Lanna, filha de Hades.

Se não o Acampamento, o Submundo te espera", eu não sei ao certo, mas poderia jurar que a voz sussurrando que arranhava meus ouvidos havia vindo do gato. Ele sussurrou mais uma vez a mesma coisa e virou-se para sumir da minha vista algum tempo depois.

– Ok, vocês já podem me explicar. — eu sentei no murinho e esperei uma das duas começarem, de preferência, minha mãe. Meus olhos estavam cansados e eu queria fecha-los, queria deitar, queria sumir por um tempo, senão para o resto da eternidade.

Estava tudo tão... irreal. Nenhuma das duas se prontificou a me explicar, minha mãe retirou um vidrinho de dentro do bolso, um liquido meio amarelado, meio esverdeado e onde no vidro estava escrito "Néctar". Ela me deu um pouco e eu me senti melhor rapidamente, o gosto era ótimo, gosto de M&M.

– Ah Maria, não vai falar mesmo? Sua filha esta esperando a resposta. Quer que eu comece? — Ligando para os meus interesses agora, vovó? — ela olhou-me com aquele mesmo olhar de sempre depois de uma ironia minha e eu sorri com orgulho por irrita-la mais uma vez. — Você é filha de Hades, parece que ha algo errado novamente por ai, precisam da sua ajuda, Lanna. Precisamos da sua ajuda.

– Eu incrivelmente não estou tão surpresa por isso, mas… um chicote? Sério? Minha mãe sorriu e me deu um abraço. Eu não retribui, eu não consigo, eu não sei abraçar. Nunca soube. — Está na hora, minha filha. — Já passou da hora. Faça algo útil, pelo menos. — minha avó forçou um sorriso e esse foi seu máximo.

Ela me colocou dentro do carro e eu adormeci. Adormeci por muito tempo, eu acho. Acordei já dentro do Chalé 13, era um lugar escuro e desmotivador para outras pessoas, mas fez-me sentir bem por estar lá, mesmo naquele tempo, não parecendo ser ali o meu lugar… Mas eu estava bem, eu estava muito bem. Eu estou bem.

Receptivos ou não, as pessoas do acampamento são as que tenho por agora. Faz dois anos que estou aqui, estou com 15 anos e acho que encontrei o meu lugar.

Hoje o acampamento esta uma bagunça, estão se preparando para algum tipo de missão, não me informaram nada, mas há rumores de que estou incluída.