Argonautas I
14 Frederico Machado
Olá, sou Frederico Machado, filho de Júpiter.
Aqui vai minha história, mas antes você precisa saber alguns fatos sobre mim. Primeiramente: sou um semideus romano, filho de Júpiter, e pertenço a 5ª coorte.
Tenho um anel inquebrável que se transforma em uma espada de ouro imperial. Grafada nesse anel, e em todos os artefatos originados dele, está a denominação “Honorem rome” (a honra de Roma). Meu pai quem o chamou assim, sendo também ele quem me presenteou com tão poderoso objeto. Bem, eu tinha 8 anos e estava vagando pelo jardim da minha residência. Minha casa era pequena, mas situava-se em lugar bem isolado, rodeado por bosques.
Eles sempre atraíram minha curiosidade, e eu tentava descobrir o que se ocultava entre as árvores, contemplando-as através do portão. O que mais gostava era de encontrar pássaros.
Havia em mim uma vontade de ser como eles, pertencer aos céus. Naquele dia, eu vi muitos pássaros em uma revoada. Mas lembro de que não fiquei contente por isso, pois todos pareciam assustados e muito apressados. Alguns minutos depois, o céu escureceu. Eu ainda não tinha almoçado, provavelmente não era nem mesmo meio dia. Pensei que uma tempestade estava por vir, por que não? Isso justificaria as aves amedrontadas.
Porém, quando olhei para cima, deparei-me com uma criatura gigante e escamosa, que voava em círculos acima da minha cabeça. “Um dragão”, imaginei, até com um pouco de animação por identificar o animal lendário. Achava-os fascinantes na época. Contudo, o ser voou até minha casa e começou a cuspir fogo no telhado. Não era algo incrível. Era um monstro. Eis que vi minha mãe saindo da nossa casa, correndo em minha direção. — Pegue ! Ela lançou um objeto reluzente pelos ares, como se não pudesse me alcançar para entregá-lo, apesar de estar há poucos metros de mim.
E não pôde mesmo. Velozmente, o dragão veio em nossa direção e traçou uma enorme faixa de fogo separando-a de mim. O anel que ela arremessou desesperadamente não foi engolido pelas chamas, pois consegui pegá-lo. Mas a própria não teve a mesma sorte. Eu não podia hesitar.
“Nas situações extremas, em que a vida se confunde com a morte, precisamos ouvir, sobretudo, a voz do instinto”, lembrei-me de uma das frases prediletas de minha mãe. O instinto naquele momento era o de garantir a sobrevivência de mim mesmo. Movido á adrenalina, atravessei o portão na maior velocidade de que fui capaz e me refugiei em meio as árvores próximas. Não era um esconderijo eficiente, eu sabia, mas precisei parar para analisar o anel.
Minha mãe não se arriscara assim por algo que nada valesse. Já tinha visto a jóia em meio aos pertences dela. De acordo com suas histórias, ele pertencia originalmente ao meu pai.. Coloquei-o no dedo, com o coração aos saltos. Um misto de medo e pressão. Como isso me ajudaria a escapar? Foi então que senti um cabo sobre a palma da minha mão. Uma bolinha maciça e dourada caiu aos meus pés.
Um estilingue. E um alvo voador. A questão é que este era grande demais perante a uma arma tão pequena. Uma voz serena e firme soou na minha cabeça. “Essa é sua prova, prole de Júpiter. Destrua o Drakon, construa a sua honra. A resposta está ao alcance do olhar.” Não era um enigma difícil. Olhar, olhos...
Quando pequeno, por volta de 5 anos, quando a avó Melaine ainda vivia, eu resolvia muitas charadas com ela, enquanto ouvia-a repetir que um homem esperto é aquele que encaixa o problema na solução, e não procura a resolução por si só. Porém, a copa das árvores restringia o meu campo de visão. Voltei para o gramado, havia uma pequena parte ainda não tomada pelo fogo.
O animal percebeu rapidamente minha presença, e estava preparado para o ataque. Uma explosão de calor veio em minha direção. Esquivei-me, mas senti o ardor na perna. Nem avaliei o estrago. O importante era proteger as mãos e os braços. Percebendo a minha imobilidade no chão, o Drakon se aproximou. Eu estava cabisbaixo, porém sentia seus olhos sobre mim. Os olhos...Se eles são a fraqueza, devem estar protegidos, pensei. Resolvi não fitá-los diretamente, o que mais tarde descobri ser um ato decisivo no combate, pois eles poderiam me paralisar.
– Por...Júpiter – murmurei, pouco confiante de que um tiro ás cegas traria uma vitória. Em um baque surdo, o animal tombou no solo e, logo, se desfez em pó. O fogo ainda consumia a casa e seus arredores e percebi que deveria sair dali. Todavia, avistei lobos adentrando o portão. Sim, lobos. E eu não poderia me defender.
– Você completou a missão que lhe foi designada, filho de Júpiter. Está apto a fazer parte do acampamento romano, desfrutar da glória de possuir sangue divino e arcar com as responsabilidades provenientes dessa mesma característica. Siga nossos rastros e encontre o local.
Entretanto, desde já, boas vindas! – uma loba pôs-se á frente e, depois de terminar o discurso, guiou a alcatéia para fora novamente. Senti-me desnorteado, mas...era aquela voz que me orientou !
Também instintivamente, segui os comandos da loba – descobri depois, já no refúgio de semideuses romanos, que seu nome era Lupa. Foi uma grande jornada. Encontrei alguns monstros, aprendi técnicas de batalha somente enfrentando os desafios que o anel mutável me propunha.
Se eu dominasse a arma que ganhei, derrotava a ameaça. Caso contrário, eu quem era derrotado. Felizmente, até lá, isso não aconteceu. Hoje, sei que a mitologia romana é tão real quanto eu mesmo. Posso me preparar, no acampamento Júpiter, ou quartel, como preferirem, para lutar – e vencer — qualquer coisa.
A força e a honra de Roma estão na vitória!
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