Argonautas I
3 Erick Mantovani
Saudações, quando vocês virem isso, talvez o mundo como conheça possa estar em sério perigo. Sou Erick, Filho de Hefesto. Descobri que era semideus há pouco tempo. Exatamente dois meses atrás. Olha, eu até gosto de ser semideus, mas com grandes poderes vem grandes responsabilidades. Aprendi isso com um cara da TV. Tudo começou quando eu e minha mãe estávamos em uma lanchonete chamada de O Sétimo Planeta. Era um lugar bem alegre, com paredes azuis-claro, e com um ar condicionado muito gelado. O mais estranho é que esse ar condicionado deixava o lugar, sei lá, com um cheiro estranho. Minha mãe é uma pessoa muito alegre, que não deixa de passar um minuto sem sorrir. Ela tem olhos castanhos e cabelos da mesma cor. Tem uma aparência muito agradável, porque sua face sempre estava cheia de rugas de tanto sorrir. Eu lembro de ter pedido um combo Pepsi com hambúrguer quando ouvi uma voz rouca, fria na minha cabeça.
— Você — Ela dizia — tem uma mente forte. Forte demais. Confesso que fiquei assustado, mas resolvi deixar pra depois. Quando acabamos de comer, perguntei a minha mãe: — Mãe — disse eu — você ouviu alguma coisa na lanchonete? Seus olhos me fitaram com preocupação. — Filho, você deve estar delirando. Fomos embora, pra longe daquele lugar. Minha mãe estava alegre como sempre, mas com um ar mais preocupado. Quando estávamos quase chegando a nossa casa, começou a ventar bastante. E não era um vento normal, era um vento gélido, igual aquele da lanchonete. O vento era bastante forte pra fazer trailers capotarem. Eu e minha mãe não pudemos evitar e seguramos num tronco de árvore próximo. — Filho — gritou minha mãe — não solte esse tronco por nada! Deveria ter ouvido o que ela havia dito, mas eu avistei uma figura azul, gigante, em minha direção. Ela tinha uma voz rouca e fria, igual a que eu ouvi na minha cabeça. Então ele disse algo que me assustou de verdade: — Não pode fugir do seu destino. Ninguém pode. Eu gritei e segurei o tronco com uma só mão, pois a outra havia escorregado. Então a força do vento aumentou e minha mãe segurou minha mão. A dela havia escorregado também. — Alguma hora não vai poder segurar mais — o ser azul disse — e então sua vida será caótica para sempre. Me assustei com o terror e soltei a outra mão, sem querer. O vento era tão forte que minha mãe não conseguiu me segurar. Acabei mergulhando rumo a lugar nenhum. Quando acordei, o lugar não era mais o mesmo. Acordei numa casa de madeira, com um gosto da minha bebida preferida na boca, Pepsi, perto de um adolescente e...um cavalo. Bom, pelo menos a parte de baixo dele era um cavalo. O adolescente tinha pele clara, era alto, magro e tinha um olhar de comédia, me olhava como se eu fosse um teatro humano. [Pelo visto, minha descrição dele foi boa, porque ele não encheu o saco]. Eu perguntei, intrigado: — Que gosto bom, o que é essa bebida na minha boca? — É néctar — respondeu o adolescente — Bebida dos deuses. Eu sou Gustavo. — Onde estou? — perguntei — Porque bebida dos deuses não me faz mal? — Você está no Acampamento Meio-Sangue — respondeu — Você é um meio- -sangue. Talvez seja pelo fato de minha família ter raízes nativas, mas eu não gostei muito desse nome. — O que exatamente é um meio-sangue? — É o filho de um deus com uma mortal. Tudo bem, eu nunca cheguei a conhecer meu pai, mas de imediato, achei que estava numa clínica psiquiátrica. — Calma, garoto.— disse o "cavalo" — Tudo será explicado até o final do dia. Droga, pensei, esqueci do cavalo. Tipo, tem um homem cavalo que fala, bem pertinho de você. Aterrorizante, não é? E tinha ainda um cara com cara engraçada perto de você. Parece legal pra alguém como você que está lendo, mas se estivesse em minha situação, estaria em dúvida do que fazer. Mas fui esperto, agi naturalmente. — Você é meio cavalo? — Hã, não, sou um centauro. — disse ele, visivelmente irritado — E também sou o diretor de atividades desse acampamento, Quíron. — Não pode ser o mesmo Quíron das histórias—murmurei baixinho— Então, se centauros realmente existem, eu posso ser filho de um deus? — Não só é possível, mas você é. — Como você sabe? — Só criaturas não totalmente mortais conseguem passar pela barreira da Colina Meio-Sangue. — Mas de que deus eu sou filho? — Não sabemos ainda. — Como podemos saber? — Bom, você tem quantos anos? — Tenho 13 anos. — Você já deveria ser reclamado pelo seu pai, a maioria dos semideuses é reclamada a essa idade. — Aliás, você além de diretor de atividades é algo aqui? — De fato, sou o tutor aqui. Só morrerei quando eu for desnecessário para treinar heróis. — Então você é mesmo Quíron, que treinou Hércules... — Sim, eu sou — disse ele — Gustavo vai te ajudar a levantar desta cama. Bom, como não sei de quem sou filho, saí da cama onde estava e fui andar pelo acampamento. Então, eu vi uma figura meio gordinha, com uma roupa com pintas de leopardo, e ele estava usando sapatos roxos de corrida (apesar de parecer nunca ter corrido na vida), e ainda estava com uma lata de Coca Diet na mão, sentado em uma cadeira. Eu pensei, deve ser um semideus. Não tive tanta sorte. Eu fui até lá e ele disse:
— Então você é a nova pr... digo, novo semideus no acampamento... — Sim, meu nome é Erick. — Sou o Sr. D. — O que esse D significa? Denisvaldo? Dezêncio? Dozolino? Minha curiosidade irrita muito as pessoas. E até os que não são pessoas. — Grrr... Significa Dioniso, o deus do vinho! — Nossa, você é ele? Eu sempre imaginei ele mais magro. Aliás, o que está fazendo nesse acampamento? — Zeus me puniu por eu perseguir uma ninfa do bosque. Eu vou ter que administrar essa espelunca por 100 anos. — Ninguém manda ser safado. — Cuidado com o que fala, Derek, ou seja lá qual for o seu nome. Acima de tudo, ainda sou um deus e sou capaz de te fulminar com um dedo. Aprendi a nunca ofender um deus. Depois dessa conversa, fui até o campo de treinamento de esgrima. Lá estava deserto, só tinha um cachorro lá. Era um cachorro enorme. Quando entrei levei um susto tão grande que fechei a porta sem querer e fiquei preso lá. O cachorro correu atrás de mim violentamente, então percebi que tinha alguma coisa presa em minhas costas. Era um boneco-alvo com armadura. Na cabeça do boneco estava escrito: Pegue o Grego. Eu achei aquilo tudo muito estranho e decidi jogar o boneco pra o cachorro, que era uma cadela afinal de contas. O cachorro foi parar no bosque, enquanto eu treinava lá, com uma espada de ferro, sem ponta. De repente, decidi eu mesmo fazer uma espada, coisa que seria basicamente impossível para alguém normal. Arranjei uns materiais que pareciam com bronze, que estavam em fornalhas perto do campo de treino. Moldei uma espada lá e decidi dar o nome dela de Apistefta — em chamas — em grego moderno. Era uma espada comum, só que com mais guarda do que é normal em uma espada. Depois disso, corri para a Casa Grande pra falar com Quíron. Quando fui falar com Quíron, ele estava rodeado de semideuses, e todos olharam surpresos para mim. Eu disse: — Para que estão olhando? Tem ferro na minha cabeça? No mesmo instante, Quíron disse: — Esse símbolo na sua cabeça... Ave Erick, filho de Hefesto, deus das Forjas e do Fogo, Senhor da Criatividade e dos Construtores. E daquele dia em diante, minha vida nunca mais foi a mesma...
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