Argonautas I

12 Aldo Víctor


Tudo aconteceu quando eu tinha 10 anos. Tive um pesadelo onde eu passava por uma ponte em ruínas, a ponto de desabar. Antes disso, eu era um pássaro e voei sem direção específica, apenas um pássaro perdido usufruindo das suas capacidades aéreas. Quando me vi consciente, estava numa floresta densa e a beira de um abismo. Comecei a explorar caminhando paralelamente à imensa e profunda fenda quando encontro a ponte, esta era de madeira e corroída por cupins, que ligava um lado ao outro do abismo.

O pesadelo piorou quando movido pela curiosidade, caminhei pela frágil ponte. Sim, ela desabou. Acordei.

Era madrugada, o que não era novidade para mim, já que esse mesmo pesadelo interrompia o meu sono há diversas noites atrás. Lá fora estava frio e calmo como sempre àquela hora. Fechei os olhos, dormi de novo.

Levantei onze horas, banhei e fui para a escola. Alan me esperava na recepção, coisa bem anormal, já que sempre chega após o sinal de início das aulas às treze horas.

Alan é meu melhor amigo, bem desajeitado com as pernas e sua barriga avantajada não o ajudava. Pele negra e rosto redondo, olhos marrons, uma boca incrivelmente grande.

Ele olhou pra mim e disse algo como “fica calado e faz o que eu digo”. Pelo tom de voz que ele usou, percebi que era coisa séria e me contive para não responder ou lhe encher com várias perguntas sobre.

Ao longe, dois caras vestidos em terno preto nos observavam. Pela expressão de Alan, eles não eram gente boa.

Para minha surpresa, caminhamos em direção ao carro da diretora da minha escola, ela girou a chave e arrancou o carro. Passamos pela área comercial e rumamos à saída da cidade, a que dá acesso para a pista de decolagem. Ao dobra uma esquina, percebi estavam nos seguindo, um carro preto, que me lembrei ter visto no caminho para a escola.

Senhora Marry dirigia com habilidade o seu Agile, o que não reduziu a minha tensão ao passarmos por ruas movimentadas a mais de cem por hora.

Percebi que queriam nos capturar quando atiraram apenas pneus, o que apenas reduziu a nossa velocidade e logo estávamos subindo no avião que nos esperava já em funcionamento.

O avião decolou sem problemas e logo o carro ficou para trás, a cidade ficou para trás e perdi a noção de localização e direção.

Como no meu pesadelo, acordei numa densa floresta, a beira do abismo (parecia maior quando o vi de verdade). O avião estava em destroços e nem sinal de Alan ou Sra. Mary. Acompanhei as bordas do abismo até alcançar a ponte, que mesmo lembrando que no sonho ela desabava, avancei sobre as ruínas.

Não, não podia ser possível. O meu pesadelo estava se tornando realidade. Quando estava atingido a metade da ponte, após ter desviado de inúmeros buracos na superfície de madeira, pisei numa tábua fraca e desabei.

Eu fui em queda livre por mais de cinqüenta metros. Continuei caindo, a luz ficando escassa. Ao fim do buraco, aterrissei lentamente no solo frente a frente com um homem que não consegui distinguir a face. Apenas posso dizer que ele usava trajes negros e tinha pele branca como a neve.

Ele olhou para mim por um tempo, ponderou e depois falou “você não se parecesse em nada comigo”.

Aí sim, minha cabeça ferveu. Era tanta coisa num dia, eu mal podia pensar. É verdade que não tive nenhuma informação do meu pai, mas seria ele, aquele estranho homem, o meu pai?

“Eu acho que você já deve ter percebido que isso aqui não é normal” disse ele. “Eu sou Hades, o senhor dos mortos e seu pai.”

A essa altura, eu apenas podia acenar com a cabeça. Ele continuou “Você é um semideus e deve ir ao acampamento meio-sangue. Lá, receberá treinamento e proteção.”

Deu uma pausa e depois voltou a falar. “Acho que você merece uma explicação. Aqueles homens que seguiam vocês de carro são meus subordinados e também foram eles que derrubaram o avião. Não se preocupe, o sátiro e a veterana estão bem.”

“Veterana?” perguntei.

“A velha é uma semideusa” ele disse. “Agora vá. Monte nele.”

Ele ordenou apontando para um cachorro de três cabeças que estava vindo em nossa direção. Além das anormais três cabeças, o bicho era enorme, talvez do tamanho de uma vaca ou maior. Montei e ele deu uma última instrução “segure firme”. Sensação horrível que nem sei explicar, achei que ia cair da bizarra montaria antes da chegada.

Quando cheguei, já era noite. Estavam todos ao redor da fogueira num animado jantar. O local se calou quando se deram conta que um menino estava montado em um cão infernal em frente a todos.

Contei minha história a Quíron e fui apresentado a todos. Encaminharam-me ao chalé 13 e me acomodei.

Os outros dias foram de treinamento. Aprendi a manejar minha espada negra, de aço do Estige. Enquanto todo mundo estava na expectativa para que chegasse o dia da captura à bandeira.

Fui informado que os vencedores eram liberados das tarefas diárias, o que só aumentou o meu desejo de triunfo.

O meu chalé tinha como aliado o chalé de Hefesto, com todas as suas armadilhas e apetrechos. E é lógico que o iniciante tinha que ser lançado na linha de frente. Desarmei dois, acertei um filho de Apolo que estava de tocaia com o cabo da minha espada. Por fim, ouvi o grito de vitória de um garoto de Hefesto. Vencemos.