Argonautas I
31 Aldo II
Nunca fui muito sortudo. Para ser sincero, sou bem azarado. Dificilmente ganho algum jogo que envolva a sorte. E para completar, também sou desafortunado no dia-a-dia, como banhos de lama e perda de objetos pessoais
Antes de Desdêmona, manejei espada curta com dois gumes feito com bronze celestial e forjada por um dos filhos de Hefesto. Está não era muito adequada para mim. Ela era desproporcional e me sentia como se estivesse lutando com um graveto.
Desdêmona foi um presente de meu pai. Infelizmente, ele não veio em um embrulho de presente ou em uma caixa decorada. Agora pensando, está mais para uma recompensa. Fui submetido a um fazer uma tarefa, se conseguisse, ganharia meu prêmio, senão, não estaria lhes contando isso.
Após alguns dias passados no acampamento, Hades apareceu em meus sonhos. Ele dizia precisar de meu auxílio e para isso, queria que eu fosse ao submundo. Eu não fazia a mínima idéia de como ingressar novamente lá. Depois disso, não me lembro bem. Acordei e estava saindo do chalé, mas quando abri a porta, não era bem a área externa. Deparei-me com o Estige a minha frente, correndo lenta e suavemente.
Na mesma margem que eu estava logo depois de alguns cães infernais e uma ou duas almas que vagavam se encontra um homem baixo, pálido e em vestes negras esfarrapas. Pude sentir a áurea do seu poder. Era Hades.
Antes que eu pudesse dar o primeiro passo, ele apareceu na minha frente, vindo de uma nuvem de fumaça negra.
– Cães infernais podem ser perigosos, jovem rapaz.
– Com...mo voc....cêê fez is...soo? – minha boca quase não mexia.
– Vamos ao que interessa. – disse apressadamente – Quero que recupere algo que me pertence. Um semideus teve a ousadia de subornar Caronte e chegou até meu castelo. Invadiu-o, não sei como, e roubou meu Elmo. E por fim, saiu voando num daqueles tênis idiotas que Hermes usa. Sua missão é recuperá-lo.
– Como? – a essa altura, eu já conseguia falar, mesmo que baixinho e reprimido.
– Ora, se eu soubesse como, faria isso pessoalmente. Agora se lhe serve de incentivo, ele também roubou uma das foices de Tânatos e pode ficar com ela caso obtenha sucesso na missão. [RISOS] Ele não vai querê-la mesmo, ninguém quer.
Oi, como assim, como ninguém quer a foice da morte?
Não esperou nem que eu respondesse se aceitava ou não. Ele sabia a resposta. O senhor da morte sumiu numa nuvem de fumaça que me tirou a visão por alguns segundos e quando ela se foi, eu estava saindo do dormitório.
Mais que a pressa me dirigi à casa grande. Lá estava Quíron na varanda e para minha surpresa, ele estava em sua cadeira de rodas mágica e de terno. Pelo que me pareceu, pronto para sair.
Após tomar conhecimento da minha tarefa, mandou que eu escolhesse dois campistas para me acompanharem e então fosse a oráculo.
Não foi difícil escolher quem me acompanharia na missão. Alan, meu protetor até ingressar nos limites do acampamento e minha amiga Isah, filha de Nyx. Patrik, um filho de Hefesto que me deu algumas lições sobre o que ocorria no acampamento também insistiu em ir. Ele já era campista há cinco anos e nunca tinha partido em uma missão. Por todas as maneiras, tentei fazê-lo desistir, sem sucesso.
Rachel Elizabeth Dare me aguardava em sua úmida caverna. Fui o mais rápido possível.
Com seus olhos verdes, uma voz esquisita, agarrou meus ombros e sussurrou a profecia.
Quatro irão partir
Perante um inimigo, o horror irá cair
Da ajuda da noite, precisará
E no fim, a má-sorte lhe pertencerá.
As linhas da profecia ficaram em minha cabeça. Minha mochila já estava abastecida com ambrosia, néctar dos deuses, uma camisa laranja do acampamento extra e algumas barras cereais. Também levava alguns dracmas e minha espada curta de bronze celestial enrolada em alguns retalhos de tecido, já que não cabia completamente na mochila.
Fui ao chalé de Hefesto, para avisar Patrick dos últimos preparativos da partida. Ele estava no subterrâneo, nas forjas. Enquanto o procurava, Thiago Cesar, o romano, forjava um escudo de batalha, que após a missão descobri que era para mim. O escudo tinha o formato arredondado, com desenhos de cães infernais e no centro, Cérbero, com suas enormes três cabeças. Patrick estava ajustando o cabo do martelo de batalha dele para nossa missão. Avisei-o quando partiríamos e o que era básico para levar em uma missão.
Sai do chalé nove. Lá fora, filhos de Apolo praticavam com o arco e flecha. Não os conhecia muito bem devido ao pouco tempo no acampamento, conhecia apenas Ricardo, que me mostrou como atirar com um arco algumas vezes, só que sempre preferi armas de combate. Algumas filhas de Afrodite passavam exalando seu perfume enjoativo.
Partimos logo após minha visita não tão agradável a Rachel, sem nenhuma direção. Já era por volta do meio dia. Isah e eu conversávamos, decidindo qual rumo tomar enquanto Alan caminhava tagarelando coisas sem importância. Patrick permanecia calado, nada diferente do que era no acampamento.
– Acho que devemos ir para Nova York procurar alguém ou algo que nos dê uma pista – disse eu sem pensar bem.
– Recorda-se da profecia – disse Isah num tom que não era de pergunta – diz que a maldição guiará, e a única maldição de que conheço pertence a você.
– Eu suponho que o ladrão esteja em algum lugar em Manhattan. Sinto que sim.
– Então é para lá que iremos.
Encontramos carona depois de uma curta caminhada. Uma velha parou o carro e ofereceu-se para nos levar até a cidade. No princípio Allan ficou relutante em aceitar, mas quando percebemos Patrik já havia entrado no carro.
O carro dela era um clássico dos carros, um cadilac rabo de peixe azul. A pintura já estava desgastada com o tempo, só que o interior estava em perfeitas condições, e me permiti pensar que o carro estará a muito abandonado e sofrendo a ação das intempéries. A velha exalava um odor fétido e Allan insistia ser cheiro de monstro. A pela da velha já tinha havia a muito perdido a flacidez, e as rugas cobriam todo o seu rosto que mais parecia ter formato triangular. Olhos amarelos e pupilas finas e compridas posicionadas na vertical que percebi não serem humanas. Era tarde demais, o velho Cadilac já estava em movimento acelerado.
Todos nós ficamos em silêncio, num clima tenso, até a velha parar o carro no acostamento. Seu corpo começou se mexer freneticamente e as suas roupas, do século passado por sinal, começaram a perder a forma do corpo dela. Uma gigante serpente emergiu do lugar antes ocupado pela mulher.
O primeiro a ser atacado foi Patrik que ocupava o banco da frente. Atingiu seu braço e o veneno penetrou no seu sangue. Saí o mais rápido que pude. Allan e Isah já estavam fora também. Procurei a espada na bolsa e empunhei-a enquanto a cobra descia do carro para um segundo ataque.
O monstro se movimentava rápido e logo já estava há dois metros de Isah prestes a dar o segundo bote. Allan estava do lado dela e foi se afastando de costas devido ao medo. Tropeçou desajeitado pelo uso dos pés falsos e caiu. Foi o bastante para tirar a atenção da serpente e lhe desferi um golpe que penetrou pele, carne e osso, partindo-a em duas e por fim dissolvendo-se em poeira dourada.
– Todo mundo bem?
– Eu estou morrendo – disse Allan.
Não dei muita importância a ele. Nem atacado havia sido, só um arranhão devido à queda sofrida. O sátiro sempre foi muito exagerado em tudo.
– Patrick está ferido no carro – lembrou Isah
Ao vê-lo, minha alegria pelo triunfo acabou. Ele estava suado, com muita febre e o local da picada enegrecera. Mal podia falar, mas no fim soltou suas últimas palavras. Completem a missão, foi o que eu ouvi.
Entrei no carro e sentei no banco do motorista. Dei a partida no carro. Havia dirigido uma ou duas vezes alguns anos atrás. Meu padrasto havia me dito como fazer. Arranquei o veículo em uma saída brusca tentando aprumar na estrada.
Depois da alguns quilômetros, já estava mais tranqüilo e o veículo fluia pela estrada.
Quanto mais andava, mais sentia que estava próximo do elmo. Não sei como podia saber isso, mas sabia. Podia ser mesmo a maldição me guiando? Foi uma hipótese que não compartilhei com ninguém.
Tive a certeza quando avistei a enorme quantidade de prédios que compunham Manhattan. Meus dois amigos e companheiros de missão permaneciam calados desde o ataque da serpente. Queria perguntar se algum deles saberia dizer o que era o monstro, mas no fundo eu sabia, acho que era Píton o nome dela. Na mitologia, era uma guardiã do oráculo e foi enviada por Hera para atacar Apolo como vingança.
Avistei o Empire State e meu faro dizia que era para lá que eu deveria ir.
– Foi sua intuição que indicou o rumo a tomar, não foi?
– Sim, ela mesma Isah.
– Só espero que ela esteja certa. – disse ela finalizando o diálogo.
Encostei o carro na calçada e corri a vista nos arredores do enorme prédio, mas nada me pareceu estranho. Entramos no saguão do prédio, e no elevador, um rapaz, não mais velho que eu discutia com porteiro. Insistia que queria ir ao seiscentésimo andar e o homem continuava a afirmar não existir tal pavimento.
Ao ouvir nossos passos, o rapaz virou e quando nos avistou, franziu o cenho e bateu em fuga o mais rápido possível. O garoto apesar da idade, era baixinho, magricela e estava bastante sujo. Usava jeans e uma camisa preta sem estampas. Isah e eu desatamos a correr em perseguição enquanto Allan ficava para trás sem conseguir correr com o disfarce.
O garoto era rápido. Correu pela calçada até encontrar um beco. Entrei nele e percebi que era longo e havia uma série de outros becos. Seguimo-lo até ficar encurralado num beco sem saídas. Só tinha uma porta grande, mas esta estava trancada. Irei recuperar o elmo, receber minha recompensa facilmente, ingênuo, pensei.
Com um estrondo, a porta se abriu e de lá, uma criatura monstruosa saiu. Era um ciclope, e tive a certeza quando a névoa se dissipou e vi seu único e enorme olho. Tinha dentes grandes, imundos e tortuosos. Também cheirava como um porco num chiqueiro.
– Me entregue isso, João! – disse ele olhando para o menino.
Mais que a pressa, o ladrão tirava o elmo e o entregara para o ciclope.
– Vocês não precisam saber meu nome. Só é necessário saber que o seu fim chegará por estas mãos – disse ele, levantando as duas mãos.
Calado estava calado fiquei. Olhei para Isah e ela sabia o que fazer. Deixei o medo de lado e partimos juntos em direção ao ciclope. Ele ficou atordoado sem saber a quem dar atenção primeiro, e decidiu investir sobre mim. O golpeei na barriga, porem ele foi rápido e colocou o elmo para receber todo o impacto.
Enquanto isso, Isah preparava-se para um golpe letal. Sua espada acertou a lateral do corpo dele. Não foi suficiente para destruí-lo, mais ficou bastante avariado.
Quando ele se virou para ver quem tinha atacado, dei-lhe o golpe de misericórdia, com a espada atravessando o seu peito e saindo pelas costas. Explodiu em pó. O elmo caiu no chão.
Peguei o pertence de meu pai e parti para arguir o garoto.
– Quem é você, semideus? – interroguei.
– João Vitor, filho de Ares.
– Estamos em missão, e não hesitarei em destruir aquele que se atreva a interferir -
O rapaz estava desarmado e só restou a ele a rendição.
Já estava escuro quando resolvi investigar a porta por onde o ciclope havia saído. Ela dava acesso a uma pequena sala. Nela não havia quase nada, uma cadeira bem velha, alguns papelões, um colchão e no final da sala, uma caixa comprida, de mais ou menos um metro e meio. Abri-a.
Lá estava uma foice de aço estígio e ornada com algumas safiras. Possuía o corte afiado como um bisturi.
– O nome dela é Desdêmona – falou o ladrão – aquela que possui má sorte.
Uma explosão de fumaça negra irrompeu a sala. Então Hades apareceu do meio dela nos mesmos trajes do nosso encontro anterior, só que agora sua feição parecia muito melhor que antes. Caminhou em minha direção e estendeu a mão para receber o elmo.
– Bom trabalho, filho.
Desapareceu de novo em fumaça negra, dessa vez cobrindo todos os cantos da sala. Quando a fumaça foi embora, estávamos de volta ao acampamento e todos já estavam ao redor da fogueira para o jantar. Thiago, Ricardo, meu irmão Renan e outros falaram conosco ao nos avistarem.
Não sei que fim tomou João Vitor. Hades transportou de volta ao acampamento apenas Isah, o atrasado Allan e eu.
No fim, tivemos sucesso. O horror da profecia era o filho de Hefesto. Ajuda da noite veio da filha de Nyx e a posse de Desdêmona, a que possui má-sorte, é minha.
Descobri que era sim a maldição que me guiava. O aço do elmo de Hades me atraíra até ele no edifício Empire State. Ah! E Desdêmona é a má-sorte dos que me desafiam.
No café da manhã do dia seguinte o Thiago veio conversar comigo.
– Aldo, podemos conversar?
– Sim, claro.
– Estamos montando uma equipe de semideuses, são os Argonautas. Quero você nessa equipe, meu amigo! Você aceita?
– E o intuito seria?
– No tempo certo tudo será revelado, filho de Hades! Só preciso saber: Você aceitará ou não?
– Sim, eu aceito!
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