Ardravan
1 Atalaia
Do alto da torre nada escapa aos olhos do Atalaia. Tudo vê, tudo percebe, a tudo observa. Seus olhos vigiam, de dia e de noite, o interior e os arredores da populosíssima cidade de Ardravan. Era impossível entrar ou sair da cidade sem o conhecimento do inigualável, o imbatível e nobilíssimo Atalaia do Rei que, ao mínimo sinal de perigo, fazia uso de um poder seu, secreto e inexplicável.
Tal habilidade era conhecida apenas por aquele que o atribuíra a esta função, a saber, o próprio rei Lucius. Seu nome, porém, apenas ele mesmo sabia, pois não confiava a ninguém a sua verdadeira identidade.
E de tudo sabia. Dos comerciantes que iam e vinham todos os dias à cidade, das donzelas que se punham a espiar os soldados da guarda real, do príncipe que, de madrugada, ia visitar sua amante plebéia no Beco das Formigas, até dos passeios noturnos da rainha, que tinha o costume de fazer uma ronda no castelo real e acabar no gabinete do capitão da guarda.
Houve, porém, um dia em que sua vigilância vacilou, de nada valeu sua habilidade contra a calamidade que veio a ocorrer.
Sua visão, por um instante, perdeu a nitidez ao ver aquela garota robusta escalar rapidamente a torre da guarda. Logo se recompôs e tomou posição de alerta, esperando pelo pior. Quem quer que fosse, se louco o suficiente pra ao menos se aproximar da torre, não viria com boas intenções. Pouco antes de completar sua escalada, ela ouviu uma voz alta, grave e ameacadora.
— Alto lá! Identifique-se!
A moça parou. Não respondeu, apenas dirigiu seus olhos amendoados, escuros e profundos para aquele ser que bradara. O Atalaia recuou um pouco sentindo, pela primeira vez em sua vida, insegurança. Poderia aquela jovem de olhar tão doce e cativante oferecer algum perigo à sua segurança e à da cidade?
Não soube responder de imediato. Lembrou de um velho ditado que seu antigo mestre costumava repetir: o Mal é uma mulher, meu jovem, ela seduz e engana até o mais forte dos homens.
— Identifique-se!
Gritou novamente, não obteve sucesso pois a moça continuou a subir em sua direção. Escalava energicamente, como se sua vida dependesse do quão rápido ela chegasse no topo. Chegou, finalmente. O Atalaia encarou aquela jovem que olhava para ele de maneira misteriosa, era bonita, mais do que a metade das donzelas da cidade. Percebeu que nunca a vira por ali, deveria ser de fora.
— Quem é você? O que quer? Por que escalou minha torre? Saia daqui ou sofrerá severas consequências!
A garota sorriu. Levantou um dedo e pôs nos lábios dele, calando-o. Em seguida o abraçou, um abraço longo, apertado e extremamente suspeito para o Atalaia que, após o primeiro susto, empurrou a moça para longe de si.
— Afaste-se!
Mas ela não estava mais à sua frente. Olhou e viu que a empurrara com mais força que o necessário. A terra, agora, aproximava-se cada vez mais rápido daquele corpo robusto porém frágil... mortal. Com um pouco mais de observação, percebeu imensa profundidade dos olhos da garota ceder lugar a um desespero ainda maior e mais insondável. Seus braços e pernas moviam-se inutilmente em todas as direções, procurando algo em que se apoiar. Não foram poucas as vezes que tentara agarrar-se à parede da torre, mas suas mãos escorregavam e seu esforço fora em vão.
Tamanho era o desespero da jovem que até o atingiu, porém ele não se mexia. Estava comovido, porém não havia nada que ele pudesse fazer naquelas circunstâncias. Estava começando a desejar que ela não morresse com a queda, pois nunca havia visto uma humana com uma beleza tão envolvente como a daquela moça.
Seu coração acelerava a cada segundo, suava, como se estivesse em uma fornalha. Não podia abandonar seu posto, mas uma coisa forçou-o a questionar sua responsabilidade: um alto, agudo e desesperador grito de socorro.
Era a moça, obviamente, e ele encontrou-se num dilema. Pensava em salvá-la, mas teria que abandonar seu posto para isso. A cidade ficaria desprotegida por cerca de dez ou vinte segundos, pouca coisa. Se em seus setenta anos como protetor da cidade nada acontecera, não seria em alguns segundos que aconteceria. Decidiu-se então, saltando rapidamente em direção à jovem cadente. Pôde ver o desespero diminuir no olhar da donzela que esboçou um leve sorriso com um toque de desespero ao ver que ainda havia uma esperança de salvação. Quando finalmente a alcançou, seu coração bateu mais forte e foi uma explosão de emoções. Primeiro, o êxtase, simplesmente por estar caindo pra salvar aquela bela moça, depois a confusão e por fim o desespero. Estes últimos vieram após um momento em que o tempo pareceu desacelerar e ele viu como se a queda fosse demorar por décadas. Os dois caíam de cabeças voltadas para o chão.
O Atalaia viu, no instante que chegou ao nível daqueles olhos amendoados, uma piscadela, demorada e confiante, como um flerte. Daí veio a confusão, ela não parecia nem um pouco desesperada ou temerosa, estava sorridente e cheia de alegria, na verdade.
O desespero surgiu logo em seguida, quando ela desacelerou a queda súbita e abruptamente, abrindo longas e ágeis asas douradas que surgiram em suas costas. A suposta donzela em apuros agora planava tranquilamente enquanto assistia seu bondoso benfeitor cair em direção à morte certa.
Agora tudo fazia sentido para o Atalaia, tudo havia sido planejado, até mesmo a atuação que o enganou, parecendo-lhe que a moça clamava desesperadamente por ajuda. Mas qual seria, então, a finalidade disso?
Enquanto esses pensamentos ocupavam sua mente, mal teve tempo de lembrar que era poderoso o suficiente para escapar daquela situação, apenas refletia sobre como fora enganado tão facilmente. Atingiu o chão com um baque surdo, quebrando todos os seus ossos instantaneamente.
“O Mal é uma mulher, meu jovem”, relembrou, “ela seduz e engana até o mais forte dos homens”
— Sábias palavras, mestre – disse ele.
Sua última visão foi de um exército de asas douradas povoando o céu de Ardravan e seguindo em direção ao castelo. Compreendeu, então, o objetivo da missão daquela adorável jovem dos olhos amendoados e profundos.
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