Arco-íris de outro nome
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O despertador tocou às sete e dez da manhã naquele sábado. Rapidamente, estiquei minhas mãos com certa brusquidão e desliguei o som irritante que enchia meu quarto. Chutei as cobertas e coloquei os pés quentes contra o chão gelado. É, eu tinha que ir para a escola. E ver todo mundo, inclusive ele. Meu coração bateu de um jeito desconfortável, machucando meu peito e causando uma momentânea falta de ar. Eu já estava com raiva de mim mesma por ser tão sensível a qualquer coisa que estivesse relacionada a ele. Respirei fundo e com um esforço desumano, me coloquei de pé.
Nem fiz cerimônia no banheiro. Coloquei a chapinha para esquentar, amarrei o cabelo, vesti o uniforme e me virei para o espelho. Meu rosto era o retrato perfeito do que se passava dentro de mim. As olheiras particularmente saltadas, o resto de maquiagem do dia anterior manchando os cílios inferiores, uma espinha irritada em cima da sobrancelha esquerda, os lábios secos e cortados... Tanto faz. Não importava, não fazia diferença estar apresentável ou não. Só se as carteiras e o quadro da escola lembrassem da minha existência, talvez assim eu até me animaria. Não, eu estava sendo hipócrita. Meus amigos estavam lá. Eles se importavam... bom, eu acho que se importavam.
Tomei café da manhã mal sentindo o gosto de pão com chocolate e fui correndo escovar os dentes e dar uma ajeitada mínima no cabelo. Ignorei completamente o delinador e o gloss. Fiquei na sala até meu pai ficar pronto, e então fomos. É obvio que tive que usar a minha melhor máscara de “estou amando tudo e todos” para passar pelas catracas da entrada e erguer o rosto. Nem me interessa muito sobre que houve na aula de resolução da porcaria da lista de carnaval, só o fato de que consegui fazer meu primeiro desenho em monocromático só com lápis de escrever que pudesse ser chamado de “desenho”. O resto foi completamente idêntico. Infelizmente.
Ah, claro, o programa dos meninos. Eu já estava numa descrença para ir, já que nada mudara desde a semana passada, na verdade vinha regredindo num ritmo preocupante. Eu falei que ia, mas acabou que os meus dois melhores amigos furaram, e eu definitivamente não ia aparecer lá sem eles. Não depois de ele ter me ignorado a semana inteira, não olhou no meu rosto nem para falar “oi”. Eu ainda sofri pressão por telefone dos dois, mas acabou que, sensatamente, minha outra melhor amiga disse que era melhor não ir. Foi um alívio.
Entretanto, a sensação desconfortável não aliviava. Não conseguia sorrir mais. Toda expressão positiva era pura atuação e fingimento. E eu estava muito irritada comigo mesma por causa disso. Só de lembrar de alguma coisinha relacionada ao assunto, meu coração disparava de um modo um tanto doentio, e dramaticamente, eu começava a hiperventilar. Naquele momento em específico, quando minha respiração normalizou, dei um soco na bancada de madeira. Doeu pra caramba. Apertei os dedos murmurando
“bem feito sua idiota”. Depois disso, ignorei a dor e fui passar a segunda camada de esmalte preto que minha amiga emprestara. Quando terminei, ergui as mãos para contemplar meu trabalho cem por cento amador e então topei com meu reflexo no espelho. Encarei meus olhos castanho-escuros por um longo tempo, como se desafiasse a mim mesma, mas então vi que eles se enchiam d’água. Eu lutei, mordi o lábio inferior e continuei encarando, mas não consegui. Minha visão se embaçou e as lágrimas escorreram pela milésima vez naquela semana. Fiquei com raiva, soquei o travesseiro (eu não era idiota pra socar a bancada de novo), baguncei avidamente meu cabelo, pisei firme no chão várias vezes.
—Para de chorar... Para de chorar sua idiota... – eu repetia debilmente entre os soluços. Continuem chorando por alguns minutos, repetindo a mesma frase, até que perdi a paciência.
—Cala a boca sua retardada, para de chorar! Para de chorar!... Você sabe que de nada adianta!
Os soluços se interromperam por um momento e eu ergui os olhos. Meu reflexo assustado estava lá. Tremendo, obriguei meus olhos a girar por todo o meu campo de vista buscando um ponto de apoio. A que ponto eu chegara agora? Gritando comigo mesma, eu podia acordar minha mãe e chamar a atenção do meu irmão lá embaixo.
As lágrimas retomaram seu curso, escorrendo silenciosamente dessa vez, e eu murmurava baixinho:
—Idiota, idiota...
Depois de um tempo, lembrei das palavras de Jéssica para mim:
—Não quero ver, ouvir, ou ficar sabendo de você chorando por causa disso, ouviu?
A voz maternal da amiga já foi suficiente para eu engolir o choro e ir lavar o rosto. Era verdade. Eu tinha que parar com aquilo...
Mas a quem eu conseguiria enganar? E até onde eu iria?
Ter paciência sim, mas qual encorajamento me faria continuar de pé ali, esperando? Eu já havia esperado demais, e feito demais também. O Alexandre me advertiu disso, todos me advertiram. Eu já tinha chegado ao limite. Mas eu simplesmente não podia parar agora, não com a situação daquele jeito. Ninguém sabia o que ele queria, mesmo com um time completo de “espiões e detetives” me ajudando. E nos últimos dias, ele sequer olhara para mim, e repetira a mesma ladainha para os meus dois amigos: “não sei o que sinto por ela”. Pelo amor de Deus! O menino diz que quer me conhecer melhor, se aproximar de mim para ver se define o sentimento, e aí começa a me ignorar, me tratar como uma leprosa ou simplesmente como alguém que sequer existia. Isso doía mais do que uma rejeição explicita. Por que eu nunca sabia se ele estava fazendo aquilo por timidez ou porque me queria longe. Eu não sabia, e eu odiava não saber.
Pulei sobre a cama escondendo o rosto no travesseiro. Eu pensara que dessa vez algo daria certo. Ele era diferente dos outros meninos, tanto os que eu gostara antes e os que andavam à minha volta. Eu tinha uma admiração profunda por quem ele era, tímido, engraçado, meio criança e ainda assim conseguia ser dedicado, estudioso e forte. E foi dessa admiração que surgiu um outro sentimento, algo que eu jamais sentira de verdade antes. Foi algo que surgiu sem eu perceber, sem pedir licença, mas que tinha uma justificativa para estar ali dentro do meu peito. Pela primeira vez eu podia explicar o porquê de um sentimento. Era algo saudável, equilibrado, alimentado pelos poucos gestos de ambos os lados. Todos os dias, ver o sorriso dele, era o suficiente para que eu me sentisse quente e feliz. Se ele estava feliz, então estava tudo certo.
Mas eu queria mais. Eu sentia como se ele estivesse fora do meu alcance. Mesmo engraçado e meio escandaloso, ele era uma pessoa muito fechada. Ele escondia coisas que talvez ninguém soubesse. Sentimentos que ele nunca mostrou, lados escondidos e selados. Eu queria me aproximar disso. Ser a primeira menina a se aproximar dele de verdade, ser alguém importante para ele. Alguém que passasse confiança a ele e que estivesse do lado dele em todos os momentos. Eu queria ser amiga, namorada, companheira, colega de sala, colega de estudo, de tardes e noite na Internet, de jogos online...
Virei o pescoço e vi um dos meus desenhos sobre a bancada. Depois fitei meus dedos da mão direita. Os vestígios avermelhados de calos ainda estavam lá, mas não tão nítidos como as lembranças do feriado de carnaval que eu perdera para fazer um presente de aniversário para ele. Um desenho. Foi o mais bonito e bem trabalhado que eu já tinha feito. Gastei cinco dias inteiros para terminar, e mais dois dedos. Mas valeu a pena. Pelo que eu sei, ele gostou bastante do meu presente, e o mais importante: eu lembrara do aniversário dele. E eu mesma fui atrás de algo para dar a ele, algo que representasse meu sentimento. Então tive a idéia de desenhar. E quando estava trabalhando no presente, na segunda-feira à noite, me lembro de estar conversando com ele, e eu avisei que tinha de sair para terminar um desenho. Ele disse “se esforce”. Aquilo significou tudo para mim. As palavras dele me fizeram acreditar e me esforçar em seguir em frente em todos os aspectos. Eu iria me esforçar porque eu queria alcançar ele, o coração dele.
Eu queria alcançar algo que ninguém tinha alcançado antes.
Foi exatamente no momento que formulei essa frase que ouvi o primeiro estrondo. Ergui a cabeça e fui ver o que tinha batido na minha janela. Quando olhei para baixo, vi dois bocós olhando para cima com uma careta: meu irmão e meu amigo de infância, o Marcelo, mas todo mundo o chama de Marcelinho por aqui.
—Ou, o que vocês estão fazendo?
—Desce!
—Não! Tenho que fazer umas coisas aqui.
—Afff, você é muito chata.
Dei de ombros e fechei a janela. Mal dei as costas e ouvi o segundo estrondo. Virei tão rápido por causa do susto que pude ver o que tinha acertado minha janela: um balão cheio de água. Abri o vidro e gritei:
—Vocês vão quebrar o vidro desse jeito.
E eles só ririam da minha cara enquanto resgatavam o balão que não havia estourado.
Depois disso, eles não pararam por um bom tempo. Meu irmão conseguiu acertar o timing do abrir e fechar da minha janela para gritar com eles e acertou um balão dentro do meu quarto. Felizmente, não estourou. Depois de uns dez minutos vivendo no meio da 3ª Guerra Mundial de Balões D’água do Edifício Roland Garros, me irritei de vez e fui chamar minha mãe. Nem precisou. No minuto seguinte eles haviam desistido de chamar minha atenção.
Mais meia hora se passou, e eu decidi ir comer alguma coisa na cozinha. Quando passei pela sala, ouvi gritos e estouros. Subi no sofá e olhei lá fora. Meu irmão estava sentado na escada que dava na área da piscina olhando para cima. Um saco de plástico despencou de algum lugar e se espatifou no playground, esparramando água para todos os lados.
—Joga mais um! – gritou meu irmão.
Deu para ouvir nitidamente o riso maléfico do adolescente cheio de espinhas que morava no oitavo andar. Ergui os olhos e vi que a Celina, a mulher que cuidava da casa da avó do Marcelinho, estava na janela.
—Celina!
—Oi filha!
—Oie!
Nesse momento, o maluco do Marcelinho apareceu na janela.
—Oiiii!
—Oi! Ei, o que vocês acham de sair para tomar sorvete? – sugeri sentindo uma súbita necessidade de sair de casa.
—A Celina tem que ir embora daqui a pouco. – interrompeu Marcelinho.
—Não, tem como ir sim.
—É, vamos agora! – meu irmão entrou na conversa sem pedir licença como de costume.
Corri para o quarto e fui trocar de roupa. Claro que não pude esquecer da minha correntinha da sorte com o desenho do meu herói desajeitado preferido. Calcei havaianas, peguei o dinheiro e desci com eles. Em resumo, a ida a sorveteria foi tranqüila. Falei muito de colégio com o Marcelinho, já que ele estava no Ensino Médio agora. Tomei milkshake de ovomaltine, mas admito que não consegui tomar tudo. E acabei esquecendo de passar na Subway para comprar meus cookies.
Depois que saímos de lá, Marcelinho teve uma idéia:
—Vamos para o horto?
—Vamos! – eu apoiei.
Descemos pela Rua 7, e corremos pela avenida para não sermos atropelados por uma maluca que passou correndo. Chegando ao parque, fomos andando até o outro lado, onde há o lago e a praça perto do corpo de bombeiros. Lá, corremos para os aparelhos de ginástica instalados pela prefeitura. Brincamos um pouco, corremos para o parquinho, invadimos o balanço. E isso tudo fizemos conversando sobre os velhos tempos de quando ainda éramos crianças, e brincávamos todos juntos. Infelizmente, dois de nós cinco não estavam mais ali. Por vários motivos, eles foram se afastando, se tornando cada vez mais estranhos e distantes, até que enfim, parecia que jamais havíamos nos conhecido. Era triste lembrar daquilo, era chato. Divertíamos-nos tanto, cada final de semana era uma caixa de supresas completamente nova. E desde aquela época eu não sabia, não lembrava como era ser completa. Como crianças, éramos felizes e não tínhamos que nos preocupar com nada, com notas, escola, trabalhos, vestibular, status social e nem sentimentos mal interpretados. A nossa preocupação absoluta era sempre a próxima brincadeira.
E aqui estava eu, uma adolescente feita, dezesseis anos bem vividos, um coração jovem desiludido e apertado se escondendo dentro do peito. Tão poético e tão dramático ao mesmo tempo. Que coisa irritante. Mas estar ali com os três, a Celina, meu irmão e o Marcelinho, todos eles me traziam uma nostalgia que aliviava temporariamente a sensação desconfortável do bater do meu coração.
—Eu queria poder voltar no tempo só por um dia, para lembrar como era. — disse meu irmão.
—Uhum. — fez Marcelinho tentando esconder o rosto.
Eu não o condenaria se chorasse. Eu também estava com muita saudade daquele tempo.
Nós descemos do brinquedo de madeira e fomos nos sentar na sombra, já que o sol das quatro da tarde não aliviava de jeito nenhum. Ergui momentaneamente os olhos: o céu estava tão limpo hoje, dava gosto olhar. Era como eu queria estar, limpa, sem dúvidas, clara e bonita. Voltei a olhar adiante, e vi todos se sentando na grama, à sombra de uma árvore descascada e velha. Ao invés de segui-los, me sentei no balanço novamente e olhei para o céu. A tarde estava tão linda, talvez eu me inspirasse para um poema.
Olhei para a direita. Um casal estava de passagem pela praça. Meu coração me deu um belo soco de novo, e eu lutei para não arfar.
—Você é tão boba. — murmurei com uma pitada merecida de malícia para mim mesma.
Eu ali, naquela tarde incrível, me divertindo, finalmente colocando as más energias para fora, mas mesmo assim, a dor não passava. Por quê? Valia mesmo a pena? Será que aquele sentimento tão bonito que me fizera ficar tão viva e alegre nas últimas semanas se tornaria meu pesadelo por longos meses daqui pra frente? Será que eu olharia para ele todos os dias, e a única sensação que restaria era a dor e a raiva de uma rejeição lenta e gradual? Eu preferia mil vezes que ele chegasse em mim agora e me dissesse que não sentia nada por mim, que não queria nada, e que eu nunca fui nem serei nada para ele do que continuar a pôr em cheque meus sentimentos todos os dias que eu acordava! Eu não aguentava mais aquela aflição contínua de não saber o que iria acontecer... Era pior do que qualquer tortura para mim.
Minhas mãos tremiam no meu colo. Eu estava tensa, as costas arqueadas de um jeito forçado. Talvez eu não tivesse direito nenhum de me sentir triste. Minha vida era perfeita, e aquilo não passava de um drama adolescente. Mas do fundo do meu coração, eu queria acreditar que aquilo era algo mais, que ia além de um sentimento vazio que apenas buscava uma satisfação da vida de um jovem. Queria acreditar que aquilo tudo, o coração batendo, as lágrimas, os sorrisos, os gestos, fosse verdadeiro. Eu queria que tudo valesse a pena, e que não se resumia em apenas mais um drama da nossa vida. Queria quebrar essa ideia que eu tinha de que sentimentos nessa idade não passavam de mentiras teatrais. Eu queria que fosse possivel amar alguém sem ser julgado como adolescente melodramático e mesquinho.
Eu queria provar que eu o amava de verdade, não para os outros, mas para ele e para mim mesma.
—Mana, vamos para lá. — a voz do meu irmão interrompeu o redemoinho de emoções que me assolava por dentro.
—Tá.
Sentei ao lado dos três na grama. Observando o movimento da avenida Anhanguera, lentamente, o assunto retomou o ritmo, até que meu irmão fez uma sugestão:
—Ei, olha lá! Eles ligaram as coisinhas que jogam água. Vamo passar lá no meio?
—Eu vou, mas acho que sua irmã não vai não.
—Eu vou sim! — retruquei ofendida.
—Então vamos!
Saímos correndo pela grama em direção aos irrigadores, e passamos correndo pelo primeiro. Nos refugiamos na passarela de pedra que ficava fora do alcance da água e olhamos em volta.
—Olha ali!- eu gritei. — Tem um bando enfileirado!
Fui na frente, arranquei as havaianas e saltitei buscando os respingos d'agua. Quando me virei, vi que meu irmão já estava particularmente ensopado.
—Lucca! Sai daí, você vai se molhar demais!
Ele continuou pulando feito um macaco na frente do irrigador. Quando me toquei, o Marcelinho também tinha entrado na brincadeira. Olhei para um lado, para o outro, dei de ombros e entrei também.
Eu não me lembro qual foi a última vez que eu me diverti tanto. Eu ria enquanto corria pelos jatos d’água, e em poucos minutos, estava ensopada. Meu cabelo respingava no meu rosto com meus pulos e giros, e meus risos contagiaram os dois meninos que me acompanhavam. Competíamos para ver quem se molhava mais em menos tempo, e ríamos alto sem nos importar se brigariam ou não. O guarda não veio brigar conosco, e nos transformamos na atração da praça e de quem parava no sinaleiro da avenida. As pessoas abriam os vidros do carro, apontavam, riam e sorriam. As crianças olhavam com assombro nossa brincadeira, e imploravam aos pais que o deixassem brincar também. Em resumo, eu me tornara uma menina de novo naquele momento. Pouco me importava o que pensariam de mim, pouco me importava se eu parecia criança demais para os olhos deles. Naquele momento, eu estava colocando tudo para fora, lembrando de um tempo em que o mundo era tão colorido quanto um livro de histórias fantásticas. Eu estava tendo um vislumbre de uma dimensão acessível apenas para os pequenos. Era esse o segredo das crianças. Elas tinham acesso a um mundo que ninguém via, ouvia, cheirava, sentia. Um mundo tão maravilhoso e inacreditável que ele nunca era o mesmo para duas pessoas diferentes. Regido pelo pensamento e a capacidade de criar, esse lugar transformava a nossa triste realidade num lugar interessante e vivo. Os sentimentos se misturavam e ganhavam forma, na luz se viam criaturas estranhas e inimagináveis, as árvores dançavam, os pássaros falavam, tudo parecia melhor e mais bonito...
Eu parei de girar e olhei fixamente para frente. Quando aquilo acabasse, meu coração voltaria a doer, e eu me esqueceria de novo o segredo de uma dimensão a qual já pertenci. Mas se tudo que era bom acabava, então o que me restava afinal?
A resposta veio imediata e curta: seus sonhos, seus desejos.
Suspirei. Novas palavras soaram dentro de minha mente:
—Se esforce.
Ergui os olhos. O sol saiu detrás de uma nuvem e bateu nos jatos d’água, criando inúmeros arco-íris aqui e ali. Por um momento, observei deslumbrada, o efeito da decomposição da luz através das gotas de água. Depois, me lembrei do significado do arco-íris. Uma aliança, um sinal de que o tempo ruim estava passando, e que agora, uma nova etapa ensolarada estava chegando. Sol... Eu queria ver o Sol. Queria poder sentir meu coração bater quente e satisfeito, sem ter medo de transformar um amor em um pesadelo, uma pessoa importante num inimigo.
Eu queria ver o arco-íris também.
Corri em direção ao arco colorido mais próximo e, como fazia quando pequena, tentei agarra-lo. Não consegui.
Uma verdade súbita tomou conta de mim. O arco-íris, mesmo sendo um sinal de bonança, era abstrato e irreal. Era algo que não podíamos controlar ou forçar a aparecer. Ele simplesmente aparecia quando a situação era oportuna. Assim como a certeza.
Voltei a correr em círculos, já sentindo o frio pregar nos meus braços cobertos de gotículas transparentes. Tentei ir mais longe, pulei mais alto, tentei esticar ao máximo os braços. Senti o peso da minha corrente no pescoço, um peso que me dava inspiração para nunca desistir, o peso que me fizera ir com esse sentimento até onde eu pude. E eu tenho certeza que ele vai fazer com que eu siga além. Eu não tinha certezas, pistas, ou sequer uma estrada para seguir. Mas eu tinha amor, amigos, um objetivo, e a coragem pra seguir adiante. Se eu posso ver esse arco-íris aqui entre as plantas e água, se posso vê-lo no céu, acho que posso encontrá-lo em algum outro lugar. Eu ia encontrá-lo.
Corri para junto dos outros dois e me refugiei no Sol.
—Você acha que a mamãe vai brigar? – perguntou Lucca.
—Sei lá, eu acho que não. – respondi confiante.
—Ah fala sério, a gente se divertiu pra caramba. Ela não vai ficar brava. Conseguimos te tirar de casa.
Eu ri.
—É verdade.
Celina se levantou.
—Vamos antes que esfrie. Vocês vão pegar um resfriado molhados desse jeito.
Colocamos-nos prontamente de pé, calçamos os chinelos e nos colocamos a caminho de casa. Ensopados, fomos fazendo piadinhas, fingindo que tínhamos caído no lago. Coisa de criança.
E falando nisso, acabou que no final, eu não consegui achar uma resposta ao certo. Todas as minhas antigas palavras de consolo e encorajamento não valiam mais. Eu estava sem um plano e sem saber o que fazer. Mas se tudo aquilo for real, meu amor era sincero. E se meu coração bate tão forte por causa disso, deve haver algo a mais. Está doendo agora, e eu sei que, dependendo da minha sorte, vai doer mais. Mas alguém me disse que a vida não é feita só de decepções. Então, com toda a minha humildade e sinceridade, vou carregar esse pequeno coração dolorido, enquanto dou passos hesitantes. E eu acredito que se for para ser, mais adiante, vou ver alguma coisa boa.
Naquele momento, parei e olhei para trás. Os jatos d’água continuavam jorrando contra a luz do sol, criando uma cadeia colorida inacreditavelmente linda. Um leve sorriso brincou nos meus lábios. Aqueles arco-íris eram lindos mesmo, mas eu estava procurando um outro. É maior, tem mais cores, não tem começo nem fim definidos, nunca se sabe o que ele pode trazer, e tem um outro nome...
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