Arckisys ( Fic Interativa)
2 Desaparecimento
Notas iniciais
Era madrugada.
O mediano imóvel quadrado da casa não era iluminado pela lamparina movida a fogo pendurada na parede. Tudo era escuro. Mal se podia enxergar o guarda-roupa de madeira encostado na parede frente à cama, ou até mesmo os pequenos enfeites: tapetes, quadros. O pouco que se via era graças ao forte brilho da lua que vinha da pequena janela de madeira à direita, que por sinal estava aberta.
Um suave barulho veio da cama, onde um corpo estava depositado calmamente. Este corpo era feminino, com curvas delicadas e longos cabelos ruivos jogados e esparramados. Novamente o barulho soou pelo cômodo, era um suave suspiro que a jovem soltava enquanto dormia, provavelmente sonhava algo de forma profunda.
A noite era serena e os barulhos de cigarras entoavam. Poucas, quase ninguém, pessoas ainda se encontravam acordadas. As maiorias se tratavam de embriagados que resolveram acalmar suas mágoas na bebida, esquecendo suas famílias e mulheres. Talvez algum ladino estivesse perambulando em busca de bens matérias ou qualquer necessidade. Mas, mesmo assim, os únicos barulhos audíveis eram das cigarras.
A jovem fez um leve movimento com seu corpo, talvez estivesse desconfortável com a sua antiga posição, ficando de barriga para cima. Ato inconsciente. Seus lábios se entreabriram, a respiração tornando acelerada, firme. Tão firme quanto um vulto que passara pela janela aberta. O barulho de passos ecoou pelo quarto e, institivamente, a moça abriu os olhos, deixando livre o azul do mar que invadia suas íris. Respirou fundo ao sentir um calafrio percorrer seu corpo e então percebeu que deixara sua janela aberta. Que perigo! Isso fora um ato insano, e se alguém entrasse, invadindo seu lar? Teria posto em perigo a si mesma, e pior, a sua família.
Levantou rapidamente, rangendo a cama e caminhou serena até a janela. Parou um instante frente a ela, observando o ambiente a fora, sereno e frio. O céu escuro era iluminado por diversas estrelas e pela lua, que era cheia e amarelada. Não havia indícios de alguma vida acordada há essa hora, mas mesmo assim era perigo demais deixar qualquer passagem aberta para adentrar na casa.
Fechou a janela, fazendo um ruído com a madeira e trancou-a. Andou calma, calculando cada passo e lutando contra a escuridão que invadia o ambiente. Quando aproximara de sua cama, sentou-se e ajeitou os lençóis que iria lhe aquecer durante a noite. Antes mesmo de encostar sua cabeça no travesseiro, sentiu um par de mãos segurar-lhe firme os braços. A penumbra do ambiente não lhe permitiu ver de quem se tratava, enxergando apenas uma sombra, mas um desespero invadiu o seu corpo. Desespero por sua vida. Temor pela morte. Estava para abrir seus lábios em um grito que chamaria a atenção dos moradores da casa, talvez até mesmo da vizinhança, mas uma das mãos lhe tampou a boca. Sua respiração era firme, seus batimentos cardíacos frenéticos.
Este desconhecido colocou algo por suas narinas. Algo de estado sólido e gelado. Não sabia identificar o que era, mas possuía um cheiro estranho, diferente, amargo. Em pouco tempo seus olhos pesaram e sentiu-se fraca, seria um desmaio se aproximando e nesse momento temeu mais. Não teve tempo para imaginar o que seria de seu futuro, ou se teria um futuro, pois entrara em um sono profundo.
***
O dia amanheceu tranquilo. O sol brilhante ao céu, os galos cantando, o pequeno movimento já se formando na cidade. Pessoas se preparavam para sua rotina diária, seja ela a de um mercador ou de um soldado do Rei. Mas uma pessoa via sua vida mudada, para ser específico, uma família. A mulher de olhos azuis e de aparência de uma mulher de 40 anos chorava constantemente. O senhor, um homem que aparentava seus 50 anos de idade e de cabelos ruivos com alguns fios grisalhos se desesperava. Onde estava Muriel? Muriel, sua filha jovem e delicada, uma moça responsável e que sempre ajudava as pessoas, desde seus pais até aos seus vizinhos, porém, ela não estava mais lá.
Joseph Colharini, juntamente com sua esposa, Merida Colharini, demonstravam desespero em sua busca, eu seus olhos. Todos se apiedavam da situação desgraçada do qual o casal estava por passar, afinal, perder um filho não era fácil para ser humano algum. Principalmente para eles, que eram pessoas maravilhosas e bondosas.
O senhor Colharini a procurava por todos os lugares, ninguém sabia de seu paradeiro, muitos até julgavam que alguém poderia ter lhe sequestrado. Enquanto perguntava pela sua filha, um homem alto, de cabelos escuros e olhos esmeraldas observava o acontecimento. Usava uma roupa nobre, utilizando as cores verdes e vermelhas, mas estranhamente escondia seu rosto por debaixo de um capuz. Capuz de uma capa marrom. Seu porte físico era forte, possessivo como um leão, até mesmo no andar. Dirigiu seus passos até Joseph, tocando-o no ombro.
– Com sua licença – falou suave e Joseph Colharini, claramente desesperado, lhe encarou com olhos assustados. – Quando sua filha desaparecera?
– De ontem para hoje... – respondeu com a voz baixa, quase em um sussurro, tentando segurar as lágrimas. – Todos nós fomos dormir e, quando amanheceu... ela...
– Meus pêsames... – sussurrou o homem alto, lamentando com sinceridade. – Existe algum objeto estranho no quarto de sua filha, uma erva talvez? – Colharini lhe encarou assustado. Por que existiria uma erva no quarto de sua filha? E o que isso tem a ver com o desaparecimento de Muriel?
– Eu não sei. Não vi! – falou, a voz demonstrando confusão e incerteza.
– Se não for incomodo, se importa em que eu veja? – perguntou suave o homem alto e Joseph estranhou tamanha pergunta, mas qualquer ajuda nessa hora seria importante.
– Eu permito!
Então se dirigiram até sua casa, pisando com passos duros pela estrada de pedra, sempre atento nos passos e atos do estranho. Poderia ser um ladino fingindo se importar com sua desgraça para poder aproveitar da situação e roubar-lhe alguns pertences. Já era um homem humilde, vivendo em uma casa humilde, e tudo que lhe pertencia era de tamanha importância pois conquistou com trabalho duro.
Sua casa era muito simples, objetos com pouco valor ou nenhum. Um vaso repleto de flores acima da mesa central na sala era realmente magnífico, pois tornava aquele lar tão simples em formidável. Os móveis de madeira, meio envelhecidos, possuía um cheiro campestre.
Quando adentraram no quarto da garota, o homem de capa observava todos os espaços, desde as paredes até as cômodas. Parecia muito suspeita a sua atitude, mas o homem aparentava possuir experiência em alguma coisa. Talvez fosse realmente um ladino. Quando tocou a cama, em dedos suaves e segurou algo, Joseph franziu o cenho, procurando compreender a situação.
O homem encapado, segurando algo entre seus dedos, observou com cuidado aquele pedaço de algodão que possuía um aspecto diferente. Não era um algodão macio, estava endurecido. Talvez porque alguém colocou um líquido nele. Elevou o algodão até as narinas e inspirou o cheiro amargo e fraco devido ao tempo que esteve no algodão. Olhou para o senhor Colharini, que encarava-o confuso. Decidiu falar-lhe a conclusão que chegara, mesmo parecendo loucura aos olhos de qualquer um.
– Elfos negros...
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