Arcanum

2 Sem Saída


Aquele era um grande dia.


A cidade de Cinderhelm fervilhava com a rotineira sinfonia de engrenagens girando, apitos de vapor e o som distante de pressurizadores nas fábricas.


Seus céus estavam cobertos pelo permanente manto de fumaça das chaminés que cobriam a capital, iluminada pelas luzes pulsantes de lâmpadas alimentadas por eletricidade de corrente contínua.


Dentro da luxuosa moradia da família Altherion, o jovem engenheiro Adam ajustava as mangas de seu casaco formal enquanto um grupo de costureiros finalizava os últimos detalhes de sua roupa sob medida.


A mansão, situada no coração de Cinderhelm, era um símbolo de pura nobreza social. Os corredores eram decorados com quadros de inventores lendários, lustres que mesclavam bronze e cristais reluzentes, e relógios de parede que marcavam cada segundo com precisão mecânica. O som de engrenagens internas, um símbolo do avanço da cidade, ecoava pelo espaço como uma melodia constante.


No quarto de Adam, um espelho de corpo inteiro refletia sua figura: alto, parrudo, barba perfeitamente feita, com cabelos castanhos bem penteados e uma expressão de concentração visível. O casaco cinza-escuro com detalhes em dourado, símbolo de seu status como inventor nobre, destacava o prestígio esperado de alguém da sua descendência.


— Fique quieto, Adam. Se continuar se mexendo, vai estragar o alinhamento da gola — resmungou a costureira, enquanto ajustava um botão de bronze no colarinho.


Ele suspirou e ficou parado.


Naquele momento, seus pais, Lorde Caelan e Lady Adalyn Altherion, entraram no quarto, trazendo consigo a rigidez típica de sempre.


— Hoje é o dia mais importante da sua carreira, Adam. Você não pode errar — começou Lorde Caelan, cruzando os braços enquanto observava o filho com olhar crítico. — Os Conselheiros estarão lá. Não apenas para avaliar seu projeto, mas para julgar você. Sua postura, sua presença, tudo conta.


— E não esqueça de sorrir. Um sorriso confiante pode desarmar até os mais céticos — acrescentou Lady Adalyn, ajeitando uma mecha de cabelo no lugar. — Mas não sorria demais. Você não quer parecer um bobo otimista.


Adam lançou um olhar de cansaço para o espelho.


— Eu sei, mãe. Eu já ensaiei o discurso dez vezes esta semana. Não preciso de um manual de etiqueta agora.


Lorde Caelan ignorou o comentário, caminhando até a janela, de onde se podia ver parte da cidade.


— Você está carregando o futuro de Cinderhelm, Adam. Esta máquina que você idealizou pode transformar o modo como os Catalisadores são produzidos. Pense nisso: mais segurança para os trabalhadores, mais eficiência, mais lucro. É disso que o Conselho das Máquinas gosta. É disso que precisamos se quisermos fazer Neonith implorar por misericórdia comercial nos próximos anos.


Adam assentiu, ajustando os punhos de sua camisa.


— Eu sei o que está em jogo, pai. Confie em mim.


Lady Adalyn aproximou-se, segurando o rosto do filho entre as mãos.


— Nós confiamos, querido. Só queremos que você tenha sucesso. Afinal, você foi feito para isso. Todos da nossa família foram, e com você não será diferente.


Adam afastou-se gentilmente, pegando os óculos de proteção que estavam sobre a mesa e prendendo-os ao cinto.


— Feito para isso ou não, só quero mostrar que meu trabalho pode fazer a diferença. O Arcanum está cada vez mais instável, e o atual método de produção dos Catalisadores não é sustentável. Se continuarmos assim, vamos repetir os mesmos erros de sempre. — ele suspirou brevemente — Para uma terra de invenções, já vivemos no passado há 50 anos.


Quando a última costureira saiu do quarto, os passos da equipe ecoando pelo corredor, Adam sentou-se na poltrona próxima à janela, observando a fumaça que subia das fábricas distantes. Lá fora, a cidade continuava pulsando com vida, mas dentro dele, havia um aperto no peito. Ele não podia errar.


Seu pai colocou uma mão firme em seu ombro.


— Você tem o sangue da família Altharion. Lembre-se disso quando estiver diante do Conselho.


Lady Adalyn, já próxima à porta, virou-se para o filho com um último sorriso.


— Estaremos na plateia. Orgulhosos de você, como sempre.


Adam ficou sozinho por um momento, respirando fundo para se recompor.


Ele levantou-se, pegou o protótipo da máquina em miniatura que levaria para a apresentação e colocou-o com cuidado em uma caixa de bronze forrada de veludo. Antes de sair, lançou um último olhar ao espelho.


— Vamos ver se esse reino está realmente pronto para algo revolucionário — murmurou para si mesmo, enquanto ajustava sua gravata uma última vez.


Adam se dirigia à porta do quarto, estendendo a mão para tocar a maçaneta, mas, antes que pudesse girá-la, uma dor aguda atravessou sua cabeça.


Era como se algo estivesse tentando rasgar seu crânio de dentro para fora. Ele grunhiu, recuando enquanto uma série de imagens atropelava sua mente.


Eram visões. Mas não dele.


Explosões de luz e escuridão. Um céu rasgado por fendas cósmicas, com uma energia caótica fluindo delas. Pessoas correndo, gritando, sendo consumidas por algo invisível. Estruturas de metal e vapor, que pareciam tão familiares quanto estranhas, desmoronando em poeira.


Entre os flashes, ele viu rostos: alguns reconhecíveis, outros completamente desconhecidos. Um deles era o seu próprio, mas com uma expressão de desespero que ele nunca imaginou usar, com uma barba grande, cabelos bagunçados e sujos, os dentes trincando uns contra os outros em uma demonstração de puro ódio. E, em meio a tudo isso, uma máquina gigantesca, pulsando com uma energia ameaçadora e uma presença opressiva que parecia atravessar a própria realidade, com algo, ou alguém, flutuando acima dela como um espectro escarlate.


— O que... O que diabos é isso?! — ele sussurrou, as mãos tremendo enquanto se escorava na porta para não cair, suor frio escorrendo de sua testa até o queixo.


Uma onda de náusea subiu por sua garganta, e ele quase perdeu o controle.


Seus joelhos dobraram, e ele deslizou pela porta até ficar semi-agachado, respirando pesadamente. Sua mão foi instintivamente ao peito, como se aquilo pudesse estabilizá-lo.


A dor começou a se dissipar lentamente, deixando apenas um eco surdo em sua cabeça. Ele piscou várias vezes, tentando focar no que estava ao seu redor. O quarto parecia estar girando.


Adam ficou parado ali por alguns segundos, encarando o chão enquanto sua mente tentava entender o que havia acabado de acontecer. As imagens ainda dançavam em sua memória, mas ele não conseguia organizá-las.


— Isso... Isso foi-... O quê...? — ele murmurou para si mesmo, sua voz fraca e hesitante, algo incomum para alguém que sempre tinha tanta certeza de tudo ao seu redor como um renomado inventor.


Ele respirou fundo, tentando se recompor.


"Talvez seja só o nervosismo"


Foi isso o que pensou, ainda que as visões fossem vívidas demais para serem atribuídas a algo tão simples. Ele passou a mão no rosto, molhado de suor frio, e levantou-se com esforço.


Caminhando até a cabeceira da cama, ele abriu a gaveta e retirou um pequeno frasco de vidro. Tirando a tampa, despejou dois comprimidos na mão e os engoliu rapidamente, sem água.


— Só preciso manter a cabeça no lugar. É só isso... — disse para si mesmo, tentando ignorar o aperto no peito.


Com uma última respiração profunda, Adam voltou até a porta, girando lentamente a maçaneta. Ele abriu a porta e saiu, os passos apressados ecoando pelo corredor.


Ele estava atrasado para sua apresentação, mas a preocupação com o tempo agora dividia espaço com a estranha sensação de que algo estava errado.


[.]


O automóvel a vapor seguiu percurso apressadamente pelas ruas movimentadas de Cinderhelm, sua estrutura metálica reluzindo sob a luz dourada dos postes a gás.


O barulho rítmico dos motores e o apito ocasional do vapor eram abafados pelos sons de vozes e passos apressados da multidão que cercava a Sede do Big Bang, a colossal torre-relógio que dominava o horizonte da capital.


A torre era um dos principais símbolos históricos da criação de Cinderhelm. Foi nela em que o ideal do Conselho das Máquinas foi forjado na antiguidade, e sua estrutura foi devidamente aprimorada de madeira com rochas a sustentando, para o atual cobre, ouro e aço que podiam ser vistos de longe.


Suas engrenagens externas giravam em sincronia perfeita, alimentadas por uma complexa rede de catalisadores energizados, enquanto o enorme mostrador do relógio exibia o avanço do tempo em uma dança intrincada de ponteiros. Seu interior era ainda mais impressionante, um labirinto de oficinas, salões de debate e escritórios. E claro, a sala mais alta de todas, no último andar, onde o Conselho das Máquinas operava suas decisões nacionais em prol da indústria, do comércio e da defesa civil.


Quando o automóvel de Adam parou diante dos degraus de entrada, o barulho da multidão ficou mais alto. Repórteres e fotógrafos já esperavam, armados com câmeras estilizadas com tubos de cobre e engrenagens decorativas que clicavam ao capturar imagens.


Assim que Adam desceu do veículo, foi cercado por milhares de perguntas.


— Senhor Altharion! Qual a principal inovação desse projeto em relação ao anterior?


— Adam, os rumores são verdadeiros? A sua nova invenção pode mesmo causar uma revolução na produção dos Catalisadores? Vai reduzir o custo de produção pela metade?


— Senhor Altharion, o Conselho já aprovou os primeiros protótipos? Como acha que os trabalhadores vão reagir à implementação da tecnologia? Eles receberão um pagamento menor por seus esforços?


Adam ajustou o colarinho de seu casaco enquanto atravessava a multidão, tentando manter a compostura. Sua expressão era confiante, mas por dentro, sua mente ainda ecoava as estranhas visões que tivera mais cedo.


— Este projeto é mais do que uma inovação. É uma promessa de segurança e eficiência para a nossa indústria — respondeu ele, sua voz firme apesar da pressão. — As máquinas devem servir ao povo, não o contrário. Estou certo de que poderei trazer incentivo para que as indústrias e seus respectivos representantes possam investir mais na produção dessa tecnologia que somente Cinderhelm possui. É hora de sair um pouco da zona de conforto.


Mais perguntas vieram, mas Adam continuou avançando, oferecendo respostas breves e educadas enquanto tentava não perder o ritmo.


Então, uma figura familiar surgiu por entre os repórteres.


— Chega de perguntas por enquanto, pessoal. O Conselho não gosta de atrasos, e Adam tem um cronograma apertado! — disse Clara Gildspring, com um sorriso travesso enquanto afastava gentilmente os repórteres.


Clara era inconfundível, mesmo em meio à multidão. Seus longos cabelos ruivos estavam presos sob um chapéu decorado com pequenas engrenagens douradas, e suas vestes de relojoeira eram impecavelmente ajustadas, com detalhes que refletiam seu trabalho duro na manutenção meticulosa da torre. Seus olhos azuis-escuros brilhavam com carisma típico, e ela exalava uma energia autoconfiante que fazia as pessoas ao seu redor prestarem atenção.


— Vamos, Adam. Eles vão continuar te cercando até você entrar no salão — disse ela, estendendo a mão para puxá-lo suavemente.


— Obrigado, Clara. Eles estão mais insistentes do que o normal hoje — respondeu ele, aliviado.


— É o peso de ser o gênio da vez — brincou Clara enquanto o guiava para dentro do edifício.


Assim que atravessaram as imponentes portas de bronze do Big Bang, o barulho da multidão ficou para trás.


O interior da torre era tão grandioso quanto seu exterior, com o teto decorado por elaborados vitrais que deixavam entrar a luz do sol em tons multicoloridos. Engrenagens gigantes moviam-se lentamente ao longo das paredes, produzindo um som constante de cliques e zumbidos que ecoava pelo salão principal.


Clara conduziu Adam para uma entrada lateral que levava aos bastidores da cerimônia. Ali, o ambiente era mais tranquilo, com engenheiros e assistentes ajustando os últimos detalhes para a apresentação.


— Aqui está mais calmo. Agora você pode se concentrar sem ser bombardeado — disse Clara, soltando a mão de Adam e cruzando os braços. — Está tudo pronto para sua grande estreia.


Adam respirou fundo, finalmente sentindo-se um pouco mais à vontade.


— Agradeço, Clara — Adam sentou-se em um banco próximo, tendo de desabotoar o palitó no processo, repousando os antebraços acima dos joelhos — Então… Chegou o dia.


— É, chegou — respondeu ela, com um sorrisinho suave, pondo as mãos nas laterais do quadril — Devo dizer, eu estaria uma pilha de nervos se fosse você. Já fico meio desconcertada quando estou sozinha no topo da torre. Quem dirá ficar na frente de toda aquela gente.


Adam olhou para ela, com um riso breve.


— Então acho que somos a mesma pessoa e ainda não nos demos conta — ele disse, de forma irônica, arrancando um risinho breve da ruiva — Mas sinceramente, estou mesmo nervoso… Não é a primeira vez que faço uma coisa dessas. Mas, ao contrário das outras, que eram tentativas para convencer apenas os Conselheiros, agora toda a cidade está de olho… E as manchetes não vão pegar leve com qualquer mínimo erro.


Clara suspirou de forma suave, puxando um banquinho para si e se sentando ao lado do mais velho.


— Olha, eu não sou lá muito boa em dar conselhos nesse tipo de situação… Mas… — Clara mordeu o canto do lábio inferior de leve, unindo as digitais dos próprios dedos — Eu realmente acredito no seu potencial, Adam. Eu já te vi tantas vezes a visitar essa torre que eu sinto que já te conheço faz anos. E deixe-me te dizer: em todas as vezes, eu sempre soube que algo em você te tornava especial. Talvez fosse a sua insistência, ou o seu ego-… — ela abriu um sorrisinho de canto.


Adam arqueou uma sobrancelha.


— Está querendo me motivar ou me dar uma indireta?


— Eu ainda não acabei de falar, bobo!


Ela deu um tapinha leve no ombro dele, fazendo-o rir de forma descontraída.


— O que quero dizer é que… Adam, na vida, principalmente na que nós temos nessa cidade, mesmo quando não temos fé em nós mesmos, sempre vai ter alguém, que você conheça ou não, que sempre vai crer no que você pode fazer. Por mais impossível que possa parecer pra você. — ela dizia, pondo uma mão no ombro do outro — Então, se por algum momento duvidar de si quando for lá encima… Lembre-se de que eu, e muitas outras pessoas que vão estar na platéia, sabemos que esse é o seu lugar. E use disso para falar conosco, ao invés de um discurso planejado.


Adam ficou em silêncio por alguns segundos, piscando devagar, surpreso com o impacto que aquelas palavras tiveram em si.


Com um sorriso mais relaxado e genuíno, ele pôs uma mão no ombro de Clara também, afagando-lhe de leve.


— Obrigado, Clara… De verdade. — ele disse, antes de abaixar sua mão lentamente — Chega até a parecer inacreditável que alguém com uma inteligência emocional como a sua esteja trabalhando justo com engrenagens de várias toneladas. — brincou, com uma gargalhada abafada.


Clara retribuiu o sorriso, recuando a própria mão.


— Que isso, imagina. — Clara deu de ombros, passando uma mecha dos cabelos para trás da orelha — Quando se fica tanto tempo no topo da torre suando feito uma condenada, a gente aprende umas coisas ou duas sobre como lidar com a pressão.


Agora, sentindo-se mais leve, Adam ajeitou seu penteado com uma mão, ouvindo os muitos aplausos no lado de fora dos bastidores com a apresentação inicial, enquanto Clara se levantava para ir checar os últimos preparativos.


Alguns minutos depois, ela retornou até o inventor, um pouco apressada.


— A máquina já está posicionada, Adam! Testamos tudo. Está perfeitamente alinhada — disse ela, dando um leve tapinha em seu ombro para incentivá-lo.


— Perfeito, porque não posso errar — respondeu ele, tentando soar confiante, mas o peso da responsabilidade estava evidente em sua voz, mesmo após a conversa de ambos, ainda que mais superficialmente do que conseguia admitir.


Clara deu um pequeno sorriso.


— Você vai impressionar todos lá fora. Só respire e se lembre do que te disse.


Do lado oposto, no meio do grande salão, os pais de Adam criavam vários burburinhos entre si.


— Todos os membros do Conselho estão aqui — murmurou Lorde Caelan para sua esposa, gesticulando discretamente para os homens e mulheres vestidos com roupas ornamentadas e adornadas com engrenagens e detalhes metálicos — Eles raramente comparecem todos juntos. Isso é um teste muito maior do que esperávamos.


— Ele vai ficar bem — respondeu Lady Adalyn, tentando manter a calma, mas sua expressão a traía. — Ele é um Altharion. Está no sangue dele. Mesmo que tentasse errar, seria impossível para um descendente da minha linhagem.


— Você quer dizer da nossa linhagem, querida. — Lorde Caelan retrucou, cruzando os braços.


— O-Oh, sim… Sim, é claro. — Lady Adalyn assentiu, com um sorrisinho sem jeito, mas murmurando bem baixo para apenas ela mesma ouvir logo após — … Mas principalmente do meu lado da família.


Enquanto isso, de volta aos bastidores.


Adam fechou os olhos por um breve momento, respirou fundo e os abriu lentamente.


Ele ouviu seu nome ser anunciado com entusiasmo no palco. O momento havia chegado.


Com passos firmes, ele subiu ao palco e foi recebido por uma salva de palmas educada, mas moderada. Ele parou no centro, encarando a multidão. A visão da plateia lotada e, especialmente, a presença imponente do Conselho das Máquinas na primeira fileira, fez seu coração acelerar.


Adam inclinou ligeiramente a cabeça em respeito antes de falar.


— Boa tarde, senhoras e senhores. Antes de mais nada, agradeço a todos pela presença hoje, especialmente aos membros do ilustre Conselho das Máquinas, que nos honram com sua atenção.


Outra salva de palmas se seguiu, com os membros do Conselho das Máquinas assentindo e erguendo suas mãos de leve em apreciação pelo gesto de todos.


Adam fez uma pausa para organizar seus pensamentos, umedecendo os lábios de forma breve.


— Estamos vivendo um período de grandes avanços em Cinderhelm. Nossas inovações transformaram o mundo de uma forma que nenhuma outra civilização foi capaz de fazer até os dias de hoje. E continuamos sendo referência no que diz respeito a explorar a ciência em sua essência mais pura, mais diversa e, acima de tudo, mais vantajosa para o bem do nosso povo. — ele dizia, em tom firme, recebendo olhares de aprovação dos muitos nacionalistas presentes em maioria — Todavia, nosso modo de operar o andamento destes mesmos inventos trouxe-nos desafios que não podemos ignorar por mais tempo do que já fizemos. — respirou fundo, mantendo o foco na plateia, procurando rostos familiares, encontrando o de Clara, que lhe mandou um joinha com o polegar, o que o fez quase sorrir pelo gesto tão simples e bobo, mas mantendo a postura — Um dos maiores problemas enfrentados pela nossa sociedade é a instabilidade de produção dos Catalisadores, os quais são inegavelmente um dos produtos mais cobiçados de toda a Runeforge devido a sua complexidade tanto no desenvolvimento quanto no seu uso prático. Cinderhelm é o único lugar em todo o planeta em que esse tipo de tecnologia é produzida, e só nós sabemos o quão vasto é seu potencial. Mas nossa visão sobre o futuro do que ela pode ser, não é equivalente aos meios que adotamos para que siga o percurso desejado.


Ele fez uma pausa, observando as expressões de curiosidade na plateia.


— A instabilidade desses processos tem colocado em risco não apenas a produção, mas a vida dos nossos trabalhadores. Casos como a destruição de fábricas por qualquer mínimo erro na condução da energia contínua do Arcanum e a morte de diversos inocentes que apenas cumpriam com seus deveres por erros mínimos que jamais deveriam ser relevantes o suficiente para causar tanta catástrofe, são os principais pontos nos quais foquei quando desenvolvi meu projeto. Nós precisamos de uma solução que garanta eficiência, segurança e estabilidade. E é por isso que estou aqui hoje.


Adam respirou fundo, sua voz carregando uma determinação firme.


— Senhores e senhoras, é com imenso orgulho que apresento minha resposta a esse problema: o Núcleo Arcanum.


Ele virou-se para os bastidores e fez um gesto para Clara, que rapidamente deu o sinal. As cortinas vermelhas começaram a se abrir, rangendo levemente enquanto revelavam, lentamente, a máquina colossal por trás delas.


O Núcleo Arcanum era uma obra-prima, uma estrutura monumental, com várias camadas de engrenagens entrelaçadas, tubos de cobre pulsando com luzes azuladas e runas brilhantes entalhadas em seus componentes. No centro da máquina, uma esfera pulsava com uma energia quase viva, emanando uma aura vibrante que parecia quase hipnotizante.


Houve um murmúrio generalizado entre a plateia. Alguns membros do Conselho se inclinaram para frente em suas cadeiras, examinando a máquina com olhares analíticos.


Adam se aproximou da máquina imponente, suas engrenagens gigantescas brilhando com um leve tom azul, e colocou a mão sobre uma das alavancas.


Ele olhou para a plateia, que estava absolutamente silenciosa, aguardando cada palavra.


— O Núcleo Arcanum, senhoras e senhores, é mais do que uma máquina. É a materialização da teoria de que magia pode sim ser controlada e replicada por meio da tecnologia.


Ele gesticulou para a enorme esfera energética no centro da máquina.


— Esta máquina foi projetada para resolver os dois maiores desafios que enfrentamos na produção de Catalisadores: tempo e segurança. Atualmente, o processo de lapidação e energização de cristais mágicos é incrivelmente demorado, exigindo semanas para uma única unidade e colocando em risco os trabalhadores devido à instabilidade das energias envolvidas. Além de ser necessária a participação de indivíduos altamente habilidosos no manuseio da magia para garantir que nada saia do controle, o que significa mais mão de obra custosa e escassa, pois Cinderhelm infelizmente não conta com a presença de tantos magos assim.


Ele pausou, observando a atenção plena da plateia antes de continuar.


— O Núcleo Arcanum, no entanto, utiliza um sistema de estabilização rápida e autorregenerativa. Graças às suas runas arcanas integradas e ao avançado sistema de simulação neural, ele é capaz de captar a energia bruta do Arcanum e lapidar um cristal mágico em uma esfera lisa com precisão total em questão de minutos.


Houve um murmúrio de surpresa entre os presentes. Adam sorriu levemente, prevendo essa reação.


— Mas isso não é tudo. — Ele gesticulou para Clara, que estava de volta aos bastidores operando os controles. — Este processo não apenas cria um cristal seguro, mas também energiza artificialmente a esfera com runas calibradas, adaptadas para manter a energia autoestável e contínua.


Com um puxão firme na alavanca principal, a máquina começou a trabalhar. As engrenagens internas giraram com precisão perfeita, enquanto feixes de luz mágica se movimentavam por dentro dos tubos transparentes.


Uma peça bruta de cristal mágico foi depositada no compartimento central, onde runas douradas começaram a brilhar, cercando a peça.


— O que vocês estão vendo agora é o cristal bruto sendo lapidado em uma esfera perfeita — explicou Adam, enquanto a plateia observava fascinada. — Simultaneamente, o Núcleo analisa os pontos de ignição do cristal, simulando falhas de energia em um ambiente controlado para identificar o melhor formato para isolar sua energia.


O processo parecia quase sobrenatural. Em menos de três minutos, o cristal bruto foi transformado em uma esfera lisa e brilhante, que parecia pulsar levemente com uma luz azulada.


— E aqui está o que torna o Núcleo verdadeiramente revolucionário. — Adam aproximou-se da máquina, que expeliu suavemente a esfera para uma plataforma metálica. Ele pegou a esfera com a mão sem hesitação, erguendo-a para que todos vissem.


A plateia engasgou coletivamente. Todos ali sabiam que segurar um cristal mágico recém-energizado, mesmo lapidado, era algo incrivelmente perigoso. A energia instável poderia causar queimaduras severas ou até explosões.


Mas Adam estava firme, segurando a esfera como se fosse algo completamente inofensivo.


— Normalmente, algo assim seria impensável. Mas o Núcleo Arcanum não apenas estabiliza a energia do cristal, como também a isola de forma tão precisa que eu posso segurá-lo sem nenhum risco.


Ele deu alguns passos à frente no palco, mostrando a esfera mais de perto aos membros do Conselho das Máquinas.


— Este é o futuro. Um futuro onde a produção de Catalisadores será mais segura, mais eficiente e, acima de tudo, a chave para pôr Cinderhelm no topo do mundo, onde sempre pertenceu desde sua fundação!


Os murmúrios se transformaram em aplausos estrondosos. Mesmo os membros mais céticos do Conselho pareciam impressionados.


Adam segurou a esfera por mais alguns segundos antes de colocá-la de volta na plataforma. Ele inclinou a cabeça respeitosamente para a plateia, enquanto os aplausos continuavam a crescer.


Mas, enquanto ele permanecia ali, algo dentro dele parecia vacilar por um momento. Uma sensação estranha, quase como se uma energia familiar e desconcertante estivesse no ar, o cercando.


Adam ignorou o desconforto, mantendo sua postura confiante até o encerramento do evento.


[.]


O salão de festas da Sede do Big Bang era grandioso, com lustres dourados movidos a energia de catalisadores pendiam do teto abobadado, enquanto as engrenagens ornamentais das paredes giravam lentamente e passavam vapor pelos seus tubos que o expeliam para fora da estrutura.


A sala estava repleta de convidados da alta sociedade, todos vestidos com roupas impecáveis.


Taças tilintavam, vozes ressoavam em conversas animadas, e o som suave de uma orquestra a vapor preenchia o ambiente.


Adam, cercado por um pequeno círculo de nobres e inventores, exibia um sorriso modesto enquanto recebia elogios pela apresentação impecável do Núcleo Arcanum. Em meio aos parabéns, Lady Adalyn e Lorde Caelan se aproximaram, atraindo a atenção de todos do grupo, que lhes deram licença para falar com o filho.


— Ah, meu querido, que orgulho você nos deu hoje! — disse Adalyn, segurando as mãos de Adam com um sorriso radiante. Seus olhos brilhavam com um misto de admiração genuína e vaidade. — Você provou ao mundo que a linhagem dos Altharion é sinônimo de excelência! Seu pai não conseguia parar de ficar murmurando mil e uma preocupações no meu ouvido o evento todo, céus.


— Eu simplesmente estava expressando preocupação com o meu filho pródigo, pra essa. — Lorde Caelan cruzou os braços, seu tom sério suavizado por uma satisfação evidente. — Não só você demonstrou seu valor como inventor, mas também solidificou nossa posição na história de Cinderhelm. Isso era o que esperávamos de você, filho. Não é à toa que puxou o meu lado da família.


— O seu lado? Pfft. A idade já está lhe afetando, querido. — Lady Adalyn retrucou, rolando os olhos.


Adam sorriu, agradecendo com um aceno humilde.


— Só fiz o que precisava ser feito. No final das contas, é uma conquista nossa como um todo.


Adalyn balançou a cabeça, seu sorriso maternal nunca vacilando.


— Não seja tão modesto, Adam. Este é o seu momento. Você merece todo o reconhecimento. — ela dizia, lhe dando um leve afago nos cabelos — Mas que fique bem claro que eu tenho crédito primário porque fui eu quem o pariu.


— Adalyn! Isso lá é modo de se expressar? — Lorde Caelan disse, embasbacado por um momento.


— Oh, mil perdões! É o sucesso falando alto. — Lady Adalyn respondeu, ruborizando de leve em vergonha, sacando seu leque para se abanar com um riso descontraído.


Adam conteve uma risada genuína, balançando a cabeça, antes de abraçar ambos gentilmente.


— Eu realmente adoraria ficar com vocês pelo resto da noite, mas agora preciso cumprimentar algumas pessoas. Nos encontramos no buffet?


Lorde Caelan assentiu respeitosamente.


— Com toda a certeza.


Adalyn depositou um beijo na bochecha do filho, abrindo espaço para ele passar.


— Se cuide, meu filhote. Vamos ir falar com os Draenel enquanto isso.


Ao se afastar de seus pais, os olhos de Adam captaram Clara, que estava escorada em uma parede ao fundo, longe da agitação principal.


Ela segurava uma taça de suco na mão, o líquido âmbar contrastando com suas vestes práticas, mas elegantes, de relojoeira. Adam caminhou até ela, aliviado por finalmente encontrar um momento de tranquilidade em meio à multidão.


— Clara, não sabia que você sabia se esconder tão bem.


Ela sorriu, levantando a taça em sua direção.


— Não sou muito de multidões, e você sabe que não bebo. Prefiro estar sóbria para amanhã, caso tenha que consertar alguma coisa que você quebre.


Adam riu, pegando uma taça de suco de uma bandeja próxima e brindando com ela.


— Bem pensado. Saúde.


Os dois brindaram suavemente antes de se escorarem na parede, observando a festa de longe.


— Foi um dia e tanto — disse Clara, olhando para ele com uma expressão de leve orgulho. — Você sabia que os Conselheiros estavam comentando sobre você? Ouvi dizer que planejam alavancar seu status de relevância assim que as fábricas começarem a implementar os protótipos.


— É mesmo? Pensei que ainda estivesse em pauta. — Adam arqueou as sobrancelhas, claramente intrigado.


Clara assentiu.


— Muitos fabricantes já estão interessados em investir no projeto. Até mesmo os que nem sequer são da área. Parece que o mercado vai estar bem concorrido na corrida pelo ouro, se é que me entende. — ela sorriu, balançando a taça de leve.


Adam sorriu, confiante.


— Bem, é um começo. O importante é estarem adotando pela medida mais segura. — ele disse, bebendo um gole da própria taça — Ainda há muito o que fazer, mas saber que estamos no caminho certo é... Reconfortante.


No entanto, antes que Clara pudesse responder, Adam de repente sentiu uma onda de calor subir por sua cabeça.


Ele cambaleou levemente, segurando a taça com mais força para evitar derrubá-la.


— Adam? Você está bem? — perguntou Clara, sua voz preocupada, arregalando o olhar ao notar o desconforto do outro.


A dor veio como uma descarga elétrica, irradiando por sua mente. Sua visão embaçou, e flashes começaram a surgir diante de seus olhos.


Fragmentos de imagens desconexas: uma torre em ruínas, um céu rasgado por luzes qzuis, gritos de pessoas que ele nunca conheceu. E, no centro de tudo, uma máquina gigantesca, parecida com o Núcleo Arcanum, mas distorcida e coberta de runas brilhantes e instáveis de cores diversas.


Adam apertou os olhos, tentando focar na realidade ao seu redor, mas as visões continuavam.


Ele viu um homem idêntico a si mesmo, ensanguentado, segurando um enorme martelo com ambas as mãos, lutando para ativar algo em um ambiente desolado. A sensação de perda, desespero e caos inundou seus sentidos.


— Adam! — A voz de Clara parecia distante, como se ele estivesse submerso em água.


Com um esforço tremendo, ele piscou rapidamente, a dor começando a se dissipar. Ele colocou uma mão no peito, tentando controlar sua respiração.


— Estou... Bem. — Sua voz estava rouca, e ele tentou sorrir para tranquilizar Clara, embora claramente abalado.


Ela o olhou com desconfiança.


— Tem certeza? Você ficou pálido de repente… Quer que eu chame um médico? Há vários disponíveis nos bastidores.


— Não é necessário… Só... O dia foi longo, apenas isso. — Ele passou a mão pela testa, suando levemente. — Acho que o nervosismo ainda está tentando me alcançar.


Clara hesitou, mas acabou assentindo.


— Talvez seja melhor você se sentar um pouco.


— Não, estou bem. — Adam colocou a taça de volta em uma mesa próxima e endireitou-se. — Vou me recuperar. Prometo.


Clara continuou a observá-lo com preocupação, mas decidiu não insistir. O silêncio pairou entre eles, enquanto Adam tentava entender o que acabara de acontecer. As imagens ainda ecoavam em sua mente, mas ele as afastou, convencendo-se de que não passavam de exaustão.


— Preciso ir ao banheiro… Com licença.


Com essas palavras, Adam se retirou dali, antes mesmo que Clara pudesse dizer algo a mais.


[.]


Adam entrou no banheiro luxuoso do evento de forma apressada.


As paredes eram revestidas de bronze polido, com tubulações expostas correndo ao longo do teto, liberando vapor ocasionalmente. Um espelho grande ocupava uma das paredes, com um brilho amarelado de lâmpadas a gás ornamentando sua moldura.


Ele se apoiou na pia de porcelana branca com detalhes em cobre, tentando se recompor.


Seus pensamentos estavam confusos desde o que acontecera com Clara. As imagens que vira não faziam sentido, mas a sensação de urgência ainda apertava seu peito.


Ele abriu a torneira de água fria, deixando o líquido escorrer pelas mãos antes de jogá-lo no rosto.


— Só preciso me acalmar... — murmurou para si mesmo, respirando fundo.


Ele ergueu o olhar para o espelho, encarando seu reflexo. Lá estava ele: o mesmo rosto bem-aparado, com cabelos perfeitamente arrumados e uma expressão de cansaço evidente. Mas, de repente, algo mudou.


O reflexo no espelho não era mais apenas ele.


Era um homem mais velho, com barba desgrenhada e olhos que pareciam carregar o peso de um mundo destruído. Suas roupas estavam rasgadas, manchadas de sangue e fuligem. Ele parecia furioso, a raiva em seu rosto queimando como brasas vivas.


— VOCÊ! — o homem gritou, a voz ecoando no banheiro vazio como um trovão.


Adam deu um passo para trás, chocado, mas não conseguiu desviar o olhar.


— Quem... Quem é você…?! — perguntou, mas as palavras saíram como um sussurro.


O homem no espelho inclinou-se para frente, como se estivesse tentando atravessar a superfície do vidro.


— Você ainda não entende, não é? — ele rugiu, os olhos ardendo com uma intensidade que fez Adam tremer. — Você causou isso! Toda essa dor... Toda essa destruição! VOCÊ é a chave para isso tudo!


Adam balançou a cabeça, confuso e assustado.


— Eu não sei do que você está falando!


De repente, a dor de cabeça voltou, mais forte do que antes, como se sua mente estivesse sendo partida ao meio. Ele gritou em agonia, caindo de joelhos enquanto pressionava as mãos contra as têmporas.


— Você não pode escapar de quem você realmente é! — o homem no espelho continuou, agora golpeando a superfície de vidro com os punhos, querendo o quebrar.


Quando Adam olhou para cima novamente, seu reflexo começou a mudar. Seu corpo parecia se dissolver, as bordas de sua figura tremulando como fumaça. Ele tentou se levantar, mas sentiu seu próprio corpo começar a ceder, cada fibra sendo transformada em energia pura.


— O QUE ESTÁ ACONTECENDO COMIGO???!!! — ele gritou, a voz se perdendo em meio à dor crescente.


O homem no espelho deu um último rugido, um som de puro desespero e fúria.


— VOCÊ NÃO PODE FUGIR DO DESTINO!


E então, tudo ficou escuro.


Quando Adam abriu os olhos novamente, ele não viu o banheiro luxuoso ou qualquer coisa que lembrasse Cinderhelm.


Ele estava deitado na areia úmida de uma praia, o som das ondas quebrando suavemente ao fundo. O céu acima era de um azul profundo, tingido de tons dourados pelo sol nascente, mas que aos poucos ia sendo engolido por uma súbita legião de nuvens tempestuosas vindas dos mares.


Ele tentou se mover, mas cada músculo parecia pesado, como se ele tivesse sido esmagado por uma força impossível. Próximo a ele, um enorme martelo descansava na areia, suas runas brilhando fracamente com uma luz azulada.


Adam olhou para suas mãos, agora calejadas e cobertas de cicatrizes que ele não reconhecia. Seus cabelos estavam mais longos, e uma barba rala cobria seu rosto. Ele não era mais o mesmo.


Enquanto tentava processar o que acontecera, a única coisa clara em sua mente era o som de uma voz distante, ecoando como um sussurro na brisa do mar.


“Você não pode fugir do destino...”


E antes que pudesse se dar conta, o seu corpo cedeu, o rosto caindo sobre a areia.

Notas finais
<3