Arcanum
1 O Viajante do Tempo
A torre de Merlin erguia-se solitária no amanhecer do litoral sul de Eldorwyn.
As pedras cinzentas de sua estrutura estavam desgastadas pelo tempo e sal, cobertas por trepadeiras que sopravam ao ritmo do vento marítimo. O ar ali era fresco, com um toque salgado, e trazia consigo o aroma das algas que se amontoavam nas rochas negras da costa.
Dentro da torre, a atmosfera era de silêncio puro. Paredes revestidas de estantes abarrotadas de grimórios em línguas antigas se destacavam ao redor de uma sala circular no andar principal. Espalhados entre os livros, estavam instrumentos alquímicos de vidro retorcido, globos de luz mágica que pairavam imóveis, e runas gravadas diretamente nas pedras do piso, brilhando suavemente em tons de azul e dourado.
O som da maré matinal reverberava pelos corredores, acompanhando o crepitar de uma pequena lareira mágica no centro do aposento. Uma mesa de carvalho, marcada por séculos de uso, sustentava pergaminhos abertos, com desenhos de constelações e fórmulas complexas. O aroma de ervas secas, penduradas em vasos belíssimos ao redor das janelas arqueadas, misturava-se ao cheiro de pergaminho envelhecido e cera derretida de velas do dia anterior.
No andar superior, Merlin repousava em sua cama simples, coberta por um tecido rústico de lã, bordado com padrões zaratharnianos. Ele dormia profundamente, as mãos cruzadas sobre o abdômen, enquanto seu peito subia e descia em um ritmo lento e constante. Seus cabelos brancos, soltos e finos como teias de aranha, espalhavam-se sobre o travesseiro. Seu rosto, marcado por rugas de quase um século de vida, estava sereno, quase juvenil em seu descanso.
A sinfonia da manhã preenchia o quarto. O som das ondas quebrando nas rochas abaixo misturava-se ao canto de pássaros que habitavam as falésias próximas. A brisa, carregada de sal e umidade, entrava pelas janelas entreabertas, movimentando suavemente as cortinas translúcidas que filtravam a luz dourada do sol nascente.
No entanto, o silêncio de sua paz foi muito mais breve do que se podia imaginar.
O sono de Merlin mergulhou abruptamente em algo denso e sombrio. Seus olhos, por trás das pálpebras fechadas, moviam-se rapidamente, enquanto sua mente era tomada por um pesadelo que parecia mais real que qualquer sonho que já tivera.
O som reconfortante das ondas foi substituído por um zumbido agudo e agoniante, que pressionava os ouvidos como um grito abafado. Merlin abriu os olhos em sua visão, encontrando-se em um mundo que não reconhecia. As terras de Runeforge estavam distorcidas, como um espelho quebrado que refletia fragmentos de desespero cósmico.
O céu, outrora vasto e cheio de vida, era agora um manto de cinzas. Fendas no tecido do espaço vomitavam luzes caóticas que rasgavam o horizonte, enquanto o chão, seco e rachado, pulsava como se estivesse vivo e sofrendo.
A torre onde Merlin vivia estava em ruínas. As estantes de livros eram cinzas espalhadas pelo vento furioso, os grimórios, antes intactos e cheios de saber, ardiam em chamas que não emitiam calor. Os sons da natureza haviam desaparecido, substituídos pelo ruído contínuo de algo além da compreensão, como sussurros enlouquecedores ecoando por todos os lados.
Enquanto tentava se mover, cada passo parecia exigir um esforço tremendo. Ele percebeu que não estava sozinho. No horizonte desolado, figuras sombrias surgiam, espectros de corpos contorcidos que rastejavam em sua direção. Eles não tinham rostos, mas suas formas eram humanas o suficiente para ser perturbadoras.
De repente, um grito de pura fúria soou em seus ouvidos. Merlin virou-se rapidamente e viu uma figura imponente ao longe, uma silhueta envolta em energia carmesim que se agitava como um manto vivo. No centro de seu peito, um núcleo pulsava com uma luz ofuscante e irregular, como um coração deformado alimentado por pura destruição.
Merlin tentou falar, conjurar algo, mas sua voz foi engolida pela opressão do ambiente. Subitamente, a figura estendeu a mão em sua direção, e a terra ao redor de Merlin começou a ceder. Ele sentiu-se cair, arrastado por uma força invisível.
— Não faça isso…! NÃO SE ATREVA A FAZER ISSO! — a figura dizia, estendendo um dos braços e avançando em velocidade assombrosa na direção de Merlin, que ergueu os braços para se proteger sem uso de magia.
Entretanto, ele não era o alvo. E isso ficou evidente com a sombra de um gigantesco martelo que se erguia atrás de si, tal qual a silhueta de uma monstruosa construção de metal pulsante. Uma máquina catalisadora.
Merlin olhou por cima do próprio ombro, embasbacado, vendo que uma outra figura segurava o martelo, seus olhos brilhando em feixes vermelhos de ira incontrolável, antes de efetuar um golpe devastador contra a máquina, a rompendo ao meio.
— NÃOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!! — a figura carmesim esbravejou, atravessando Merlin como se este fosse uma assombração, com uma explosão absurda se sucedendo logo após.
Merlin ficou momentaneamente cego com o brilho emanado de tal, enquanto caia no vazio, engolfado pela escuridão, até que tudo parou e milhares de sons diferentes se agruparam em gritos desesperados por socorro. Homens, mulheres, crianças, idosos, de diversas raças, implorando por misericórdia.
Até que, enfim, seus olhos se abriram no mundo real.
O despertar do mago ocorreu em um sobressalto, o peito arfando e os olhos arregalados. Seu corpo estava coberto de suor frio, e ele instintivamente levou a mão à testa. Sua pele estava quente, como se estivesse febril, mas o frio em sua espinha contradizia a sensação.
Ele sentou-se lentamente na cama, tentando recuperar o fôlego. As imagens de sua visão ainda estavam vívidas, como marcas ardentes em sua memória. Ele tentou racionalizar.
— Apenas um pesadelo... — murmurou, mas sua voz tremia, como se não acreditasse em si mesmo.
Quando tentou se levantar, uma vertigem intensa o atingiu. Merlin cambaleou, a mão esquerda agarrando-se à parede próxima. Ele fechou os olhos, respirando profundamente para acalmar o coração acelerado e a cabeça que girava como um tornado em uma tempestade.
— Isso foi mais do que um sonho... — pensou ele, enquanto as runas gravadas no chão da torre pareciam brilhar de forma irregular, como se também tivessem sentido o eco de sua visão.
Com esforço, ele endireitou-se, a mente já começando a ponderar o significado do que experimentara. Mas antes, tratou de preparar um chá para si.
Ele caminhou até a pequena cozinha circular da torre. De um armário esculpido em madeira de carvalho com runas entalhadas, ele retirou um pequeno frasco contendo pétalas secas de lúmen-flor, uma planta luminosa que florescia apenas sob a luz da lua cheia. Em seguida, pegou uma raiz torcida de caldena, conhecida por aliviar tensões mentais, e uma gota de essência de espinho-dourado, uma substância rara que amplificava a clareza psíquica.
Com um gesto de mão, Merlin acendeu as brasas sob um pequeno caldeirão. Ele murmurou um encantamento breve, e a água em um jarro ao lado da bancada fluiu sozinha, preenchendo o recipiente de ferro. Assim que a água começou a ferver, ele adicionou os ingredientes, mexendo com uma colher de prata adornada com um cristal em sua extremidade. O vapor que subia exalava um aroma suave, ao mesmo tempo revigorante e relaxante.
— Isso deve ajudar... — disse ele a si mesmo, enquanto despejava o líquido dourado em uma caneca simples de cerâmica.
Ele caminhou de volta ao salão principal, os passos ecoando no piso de pedra. Livros e pergaminhos estavam empilhados em prateleiras que alcançavam o teto. Algumas estantes eram parcialmente cobertas por cortinas de linho para proteger os volumes mais antigos do desgaste do tempo. Merlin colocou a caneca sobre uma mesa de madeira marcada por séculos de uso e puxou um grimório grosso, com a capa de couro rachada e runas desgastadas pelo tempo.
O grimório, intitulado “Os Sonhos e o Arcanum”, era uma obra ancestral que analisava como visões tanto de sonhos quanto de pesadelos poderiam ser interpretadas como mensagens do Arcanum. Ele passou os dedos pelas páginas amareladas, os olhos lendo rapidamente trechos sobre simbolismos e presságios.
"Quando o céu se rasga e a terra treme, o Arcanum grita exige equilíbrio..."
Merlin franziu a testa, mas o texto era vago demais. Ele continuou folheando, encontrando anotações sobre sonhos compartilhados, mas nada se aproximava da catástrofe que ele testemunhou.
Com um suspiro frustrado, Merlin tomou um gole de seu chá, o calor tranquilizando sua garganta e clareando sua mente.
Porém, antes que pudesse voltar ao livro, o som de trovões reverberou ao longe. Merlin levantou os olhos, surpreso.
— Uma tempestade…? Ora essa… O Sol estava nítido até agora pouco… — ele murmurou, olhando para a janela mais próxima, alisando a própria barba.
O céu estava mudando rapidamente. As nuvens negras se formavam no horizonte, avançando em direção ao litoral. As ondas, antes calmas, agora batiam com força contra as rochas. Havia algo de estranho naquela tempestade, ela não parecia natural.
Deixando o grimório de lado, Merlin se levantou e caminhou até as janelas de arco alto. Ele começou a fechá-las uma a uma, protegendo o interior da torre contra os ventos que já começavam a rugir. No entanto, ao fechar a última janela, algo chamou sua atenção na praia ao longe.
Muito abaixo da torre, em meio da areia nas margens do mar, havia uma figura caída de bruços. Merlin estreitou os olhos. O corpo parecia inerte, mas ao lado dele, algo brilhava com intensidade peculiar: um martelo gigantesco, sua cabeça adornada com runas incandescentes que brilhavam em pulsos voláteis, distorcidos.
— Mas que diabos... — Merlin murmurou, sua voz misturando espanto e preocupação — Espere um pouco… Aquele martelo-... Oh, céus! — ao se dar conta da implicação do que estava acontecendo, o mago, instintivamente, pegou seu cajado que estava encostado em um canto e abriu a porta da torre quase que em um chute.
A ventania soprou com força contra ele, mas Merlin avançou sem hesitar, descendo a longa escadaria em espiral que levava à praia, tendo que erguer sua túnica mágica para não acabar tropeçando nos próprios pés.
Quando chegou à areia, Merlin aproximou-se da figura caída com cautela, os olhos fixos no martelo reluzente. O homem era jovem, mas seu rosto estava sujo e marcado por exaustão, além de ter uma barba bem grande e cabelos desleixados.
Merlin ajoelhou-se ao lado dele, tocando de leve o ombro do desconhecido.
— Oh, graças ao cosmos… Está vivo... — constatou Merlin, sentindo a respiração fraca do outro, aliviado, mas ao mesmo tempo repleto de dúvidas.
Seus olhos voltaram ao martelo, que parecia irradiar uma energia antiga. Ele hesitou por um momento antes de tentar movê-lo, mas, ao finalmente o fazer, não mexeu nem sequer um centímetro. Era pesado, absurdamente pesado, como se estivesse tentando arrastar um elefante que foi transmutado e esqueceram de alterar a densidade da massa dele.
— Pelo visto vou ter que fazer um esforcinho extra… Oh, bom. — Merlin disse, com um suspiro suave, olhando para o céu tempestuoso enquanto as primeiras gotas de chuva começavam a cair — Venha, meu rapaz. Vamos tirá-lo dessa chuva. — o mago então, usando de sua magia, fazia com que tanto o corpo quanto o martelo do homem desconhecido levitarem pra fora da areia, além de entornar a silhueta do mais novo com uma camada fina de proteção aquática para prevenir que a tempestade o ensopasse, tal qual fazendo isso a si próprio para não ter que arruinar sua túnica.
[.]
A chuva tamborilava no telhado da torre enquanto Merlin ajeitava o corpo desacordado do homem em uma cama improvisada no salão inferior.
O jovem estava envolto em cobertores simples, e o martelo gigantesco repousava encostado na parede, em um canto seguro. O mago, com gestos firmes mas cuidadosos, aplicava uma pomada verde espessa sobre os cortes e arranhões no rosto e nos braços do recém-chegado.
— Você é resistente, isso é certo… Poucos estariam respirando em ritmo normal com aberturas deste tipo perto de regiões vitais… — analisava Merlin, enquanto limpava uma ferida particularmente profunda no peito do visitante.
Ao terminar, ele pegou uma pequena vasilha de barro contendo um líquido azul brilhante. Essa mistura era uma poção de restauração básica, feita a partir de essências colhidas no litoral de Eldorwyn. Com cuidado, despejou algumas gotas nos lábios do desconhecido, esperando que o efeito fosse suficiente para estabilizá-lo. E em questão de alguns segundos, isso provou-se certo com o fechamento acelerado das feridas.
Enquanto o observava, a mente de Merlin fervilhava com perguntas. Quem era aquele homem? De onde vinha? E, mais importante, por que ele carregava um artefato tão peculiar, com uma energia que parecia ressoar com o Arcanum?
Merlin sentou-se em um banco próximo, esfregando sua barba enquanto seus olhos permaneciam fixos no jovem desacordado. O martelo, apesar de estar afastado, parecia irradiar um calor quase imperceptível. A aura que emanava dele era ao mesmo tempo fascinante e alarmante.
De repente, o rapaz mexeu-se levemente, um gemido baixo escapando de seus lábios. Merlin imediatamente se inclinou para mais perto, tocando-lhe a testa com as costas de uma das mãos.
— Acalme-se, minha criança... Está seguro agora. Você está no litoral sulista de Eldorwyn, caso tenha essa dúvida pré-pronta em mente. — Sua voz era baixa e tranquilizadora, como se falasse com um paciente à beira do pânico, um sorriso amigável em seus lábios.
O homem abriu os olhos lentamente, piscando contra a luz fraca das velas. Ele tentou se erguer, mas Merlin pressionou seu ombro com delicadeza, o fazendo se deitar outra vez.
— Não desperdice as forças que já não tem, meu jovem. Seu corpo parece ter recebido um baque e tanto, estava coberto de feridas quando lhe encontrei. Deve aguardar até que a poção termine de restaurar o tecido dos músculos e os ossos quebrados. — Merlin explicou calmamente, reclinando-se mais uma vez, com as mãos sobre o colo.
O rapaz respirou fundo, os olhos fixando-se no teto da torre por alguns instantes antes de virar o rosto em direção ao mago.
— Onde... Está o martelo? — Sua voz estava rouca, mas carregava uma urgência que Merlin notou de imediato.
— Está ali, na parede. Ninguém o tocou além de mim, e confesso que ele não me deixou movê-lo muito. — Merlin apontou atrás de si com o polegar para o canto onde o artefato repousava, com um riso descontraído e abafado.
O homem relaxou visivelmente, mas apenas por um momento. Ele tentou falar novamente, mas tossiu, a voz falhando. Merlin pegou uma caneca de água fresca e ofereceu-a ao jovem, ajudando-o a beber.
Depois de alguns momentos de silêncio, ele finalmente falou, a voz um pouco mais firme:
— Eu não tenho muito tempo... — Ele pausou, olhando diretamente para Merlin. — Eu... — por um momento, hesitou, fechando os olhos, como se estivesse em conflito sobre se deveria ou não dizer algo que poderia soar, no mínimo, absurdo.
— Meu jovem, seja lá o que tenha a me contar, prossiga. Quero entender como veio parar aqui. — Merlin o assegurou, seu semblante sereno e compreensivo.
O homem abriu os olhos, respirando fundo.
— … Eu não sou daqui… Quero dizer… Não deste tempo. — ele clarificou, suspirando pesadamente.
A afirmação pairou no ar. Merlin inclinou a cabeça, um misto de curiosidade e preocupação cruzando seu rosto.
— Como assim, “não deste tempo”? — perguntou o mago, alisando a barba, intrigado.
O jovem respirou fundo, visivelmente lutando para organizar seus pensamentos.
— Eu sou de um ano à frente... Um futuro onde o mundo que você e eu conhecemos… Já não existe mais.
Ao ouvir aquilo, Merlin franziu o cenho, mas não o interrompeu.
O mago sabia que, por mais absurda que a declaração pudesse parecer, as visões que tivera na noite anterior davam peso às palavras daquele estranho. Além do quê, se tratando de Runeforge, uma terra mágica, o impossível já tinha perdido o sentido há muito tempo atrás.
— O que causou essa destruição? — perguntou Merlin, desta vez com mais seriedade, ajustando sua postura.
O fato de o mago ter se disposto a ouvir o homem naquelas condições o fez ficar bastante surpreso de início, mas logo tratou de providenciar a resposta para a pergunta do mais velho.
— Um homem... ou algo que costumava ser um homem… Adrian… Ele manipulou o Arcanum de uma forma que nunca deveria ter sido possível. Ele... Quis se apossar do núcleo central de todo o Arcanum… — o estranho engoliu em seco, a voz tremendo levemente. — … Ele agiu por trás das costas de todos os reinos, junto de seus seguidores, tão insanos quanto o próprio. Ninguém nem sequer desconfiou do que pretendiam até que fosse tarde demais… — ele suspirou pesadamente, passando uma mão por seus cabelos bagunçados — Todas as civilizações foram apagadas do mapa em questão de poucos dias, e depois… A realidade passou a colapsar ao nosso redor… Até que tudo chegasse ao fim.
O silêncio na sala era quase tangível, quebrado apenas pelo som da tempestade que começava a enfraquecer lá fora.
O homem sentou-se com calma na cama, enquanto Merlin o auxiliava.
— Aquele martelo… Entrou em contato direto com a máquina que Adrian usou para se conectar com o Arcanum… Uma obra profana… Que eu destruí antes que não restasse mais nada do pouco que já tinha sobrado do nosso mundo. — ele indicou a arma com a cabeça, com Merlin seguindo a linha de sua visão.
— Máquina…? — Merlin repetiu, pensativo e abismado ao se recordar de seu pesadelo anterior.
Tudo estava claro agora.
— Um presságio… O Arcanum estava me alertando… — Merlin murmurou consigo mesmo, engolindo em seco.
Repentinamente, o estranho pôs uma mão no ombro do mago. Isso o fez voltar para a realidade, piscando algumas vezes.
— Senhor… Preciso que me ajude a impedir que ele construa aquela abominação… Pelo bem de Runeforge, eu tenho que impedi-lo! — ele franziu o cenho, visivelmente determinado, os traumas de sua linha temporal enraizados em si — Sei que posso parecer um completo lunático lhe dizendo isso… Mas por favor, tem que acreditar em mim. Eu juro por tudo o que me é mais sagrado…!
Merlin o encarou em silêncio por alguns segundos, antes de respirar fundo e pôr uma mão acima da dele, com suaves tapinhas de conforto.
— … Acredito em você, meu jovem. — Merlin assentiu em concordância — Em todos os meus anos de vida, jamais pensei que viveria o suficiente até o dia em que o Arcanum se comunicasse comigo de modo tão íntimo quanto antes de sua chegada nesta praia. Indiretamente ou não, eu já estava ciente… Mas agora compreendo o que meu pesadelo significava. — ele explicou, retirando o próprio chapéu de bruxo da cabeça, suspirando — De qual reino você é? Pelas roupas… Julgo que talvez do continente Queen. — perguntou, olhando-o de cima a baixo.
O estranho assentiu, se virando na cama enquanto estava sentado, assim ficando na borda dela, retirando os cobertores de cima de si.
— Sim. Sou um cinderhelmiano. — o homem assentiu em concordância.
— Oh, Cinderhelm. Faz tempo que não visito tal lugar. — Merlin sorriu de canto dos lábios, antes de coçar levemente a ponta do nariz — Então imagino que não me reconheça totalmente. Não querendo me exibir, mas… Eu sou Merlin.
O estranho arregalou os olhos, visivelmente chocado.
— Merlin…? O mesmo Merlin da Ordem dos Magos, o Mago Supremo?! — ele indagou, piscando algumas vezes — E-Eu sou Adam, Adam Altharion! É uma honra imprescindível, senhor…! — ele fazia uma breve reverência de cabeça em respeito.
— Oh, bom… Não sei se me consideraria “supremo”, mas com certeza acima da média dos anciãos. — Merlin gargalhou de forma breve — É um prazer mútuo, Adam. Ainda que em circunstâncias infelizes. — ele então adquiria um semblante mais sério, limpando a garganta — De qualquer modo, foquemos no agora. Você possui algum tipo de plano sobre como exatamente pode impedir esse homem do qual fala?
Os olhos de Adam tremeram de leve, apertando os punhos acima dos joelhos.
— Sei do que ele precisa para fazer a máquina funcionar… As Runas Ancestrais.
A citação das runas fez com que Merlin se surpreendesse, franzindo o cenho.
— Por um acaso se refere às que estou imaginando…?
— Sim, essas mesmas.
— Oh, pelo cosmos…
Merlin reclinava-se, passando uma mão por seus cabelos grisalhos.
— Nunca pensei que algum ser-vivo seria tolo o suficiente para tentar ir atrás delas… Todas são excepcionalmente protegidas por escrituras rúnicas praticamente inquebráveis em seus selos! Deveria ser impossível que alguém que não fosse um mago da mais alta patente pudesse acessá-las… — Merlin dizia, ainda embasbacado por dentro.
— Aí é que está. Ele possui alguém desse nível ao lado dele… — Adam dizia, sério como nunca.
— O quê? Mas quem? Somente um indivíduo próximo de meu nível de experiência poderia fazer tamanho feito! — Merlin perguntou, visivelmente curioso e alarmado.
— Eu não sei… Nunca tive a chance de ver o rosto desse mago, ou maga, antes que fosse consumido assim como o resto do mundo… Nem os aliados dele conseguiram escapar. — Adam suspirou, passando os dedos pelos cantos dos olhos — A única coisa da qual tenho certeza é de que ele possui especialistas trabalhando pra ele, um para cada reino. É dessa forma que conseguiu acessá-los e se apossar das runas com tanta facilidade.
Merlin, ouvindo isso, ponderou em silêncio, cabisbaixo, com as mãos unidas em frente da testa.
— Neste caso… Se quisermos ter chances de impedir com que esses eventos se concretizem, apenas consultar potenciais aliados em Eldorwyn não será suficiente. Principalmente ligados ao governo. Ao contrário de mim, a maioria das pessoas não terá o mesmo nível de compreensão quanto ao que me contou. E já não restam outros veteranos da Ordem dos Magos aos quais eu possa consultar… — Merlin suspirou pesadamente, ficando em silêncio por alguns segundos, antes de levantar sua cabeça — Mas talvez… — ele se levantou do banco em que estava sentado, rapidamente indo em direção de sua estante de grimórios, buscando na ordem alfabética minuciosamente e pegando um em específico.
— O que está fazendo, Sr. Merlin? — Adam perguntou, se levantando da cama, o seguindo.
Merlin se sentou em uma cadeira, de frente para sua escrivaninha, abrindo o grimório e passando suas páginas apressadamente.
— Este, meu jovem, é um grimório muitíssimo antigo que tenho em minha coleção faz séculos, desde que me isolei. — Merlin explicava, procurando uma página em específico — Ele é intitulado de “Chamadas Arcanas”. É um conjunto de estudos acerca de rituais, feitiços e teorias a respeito do uso do Arcanum por meio dos sonhos para conseguir se comunicar com absolutamente qualquer indivíduo, independentemente de sua distância. E mais do que isso: com pessoas cujo espírito sejam compatíveis com o desejo do Arcanum para variados meios, dependendo daquilo que o autor do feitiço mais almeja. É muito raro que seja feito, principalmente por ser considerada uma invasão de privacidade mental até certo ponto, mas é exatamente do que precisamos neste momento.
Conforme Adam ouvia os dizeres do mais velho, ele espiava as páginas a serem folheadas, até que Merlin por fim encontrava a que queria, de número 335.
— Oh, aqui está! — Merlin acompanhou as linhas do parágrafo enquanto lia minuciosamente — Essas são as instruções que preciso para realizar o feitiço. Levará uma hora de preparação, no mínimo. — ele alisou a própria barba, seus olhos atentos em cada palavra para não cometer nenhum erro de interpretação do qual pudesse se arrepender — Recomendo que tome um pouco do chá que deixei perto do caldeirão.
Adam olhou em direção do fogão a lenha ainda aceso do lado do fogão, logo após retornando o foco ao mago.
— Agradeço, mas vou ter que dispensar por agora.
— Oh, tudo bem então. Neste caso, tenho alguns aperitivos mágicos guardados na cozinha, pode ficar à vontade. Deve estar com o estômago vazio, afinal.
Adam abriu um sorriso de canto dos lábios, mas que logo desapareceu, indo em direção das gavetas, enquanto Merlin decorava as instruções do feitiço.
[.]
Uma hora depois.
O salão principal da torre estava repleto de uma energia inquietante. A tempestade lá fora diminuía gradualmente, mas dentro da torre, os ventos de mudança pareciam estar apenas começando.
Merlin ajustava os preparativos com uma precisão meticulosa, movendo-se entre pilhas de grimórios e recipientes de vidro contendo ingredientes raros e reluzentes. No centro do salão, um círculo mágico já havia sido traçado no chão, brilhando com runas que pareciam pulsar ao ritmo da respiração do mago.
Adam permanecia próximo à parede, observando em silêncio, bebendo uma xícara de chá com o mindinho levantado por costume. Ele estava curioso e cauteloso em igual medida, reconhecendo que o que estava prestes a acontecer não era um feitiço comum.
Merlin começou a espalhar os ingredientes no interior do círculo, suas mãos precisas enquanto murmurava palavras arcanas. Ele começou com um pó dourado extraído de minerais raros das montanhas de Eldorwyn, traçando linhas finas entre as runas do círculo mágico. Em seguida, colocou cristais de Arcanum azulados em pontos estratégicos ao redor das runas principais, posicionando-os como âncoras para o feitiço.
— O Arcanum precisa de um canal sem brechas ou obstáculos para fluir. Não há espaço para erros aqui — explicou Merlin, mais para si mesmo do que para Adam.
A próxima etapa envolvia uma pequena esfera de prata líquida, uma substância chamada Aetherium, altamente instável e usada apenas em rituais avançados. Merlin derramou gotas da substância no centro do círculo, observando-a espalhar-se como tinta sobre a superfície das runas. Com cada gota, o brilho das runas aumentava, os símbolos ganhando uma intensidade quase ofuscante.
Por fim, ele levantou um bastão entalhado com runas intrincadas e o posicionou no centro do círculo, fincando-o no chão com um gesto firme. A madeira ressoou com um som grave e profundo que ecoou pelo salão.
— Agora começa a parte delicada — disse Merlin, enquanto segurava um grimório aberto em uma das mãos. Ele recitou palavras em uma língua antiga, a voz soando como um eco distante.
As runas no chão começaram a girar lentamente, como engrenagens de um relógio místico.
O círculo brilhou mais intensamente, e um vento sobrenatural surgiu dentro do salão, levantando os mantos de Merlin e fazendo Adam apertar os olhos para proteger-se da luz, pondo o antebraço na frente do rosto.
— Arcanum, ouça-me neste momento! Estou enviando esta mensagem que permeia minha mente diretamente para aqueles dignos de lutar por seu equilíbrio. Guiai as rotas dos meus pensamentos!
Merlin levantou as mãos acima da cabeça, conectando-se à energia do feitiço. O som de vozes distantes, sussurros, gritos, risos, começou a preencher o salão, vindos de todos os lados.
Ele fechou os olhos, canalizando sua vontade para moldar a mensagem:
"Se você está recebendo esta visão, é porque foi escolhido pelo próprio Arcanum. Seu destino foi decidido. A existência está em perigo, e seu papel será crucial para salvá-la. Venham para o Sul de Eldorwyn. O tempo é curto!"
Os sussurros se intensificaram, e as runas começaram a emitir uma luz pulsante que parecia atravessar as paredes da torre. Merlin manteve-se firme, despejando sua energia no feitiço enquanto o Arcanum espalhava a mensagem para mentes distantes.
Quando a energia atingiu seu ápice, houve um clarão. As runas no chão explodiram em uma onda de luz azulada que preencheu todo o salão antes de desaparecer de repente, deixando apenas o som de respirações ofegantes.
Merlin baixou os braços lentamente, os ombros caindo de exaustão. Ele limpou a testa com a manga e virou-se para Adam, que o olhava com uma mistura de fascínio e apreensão.
— Funcionou? — perguntou Adam, abaixando o antebraço.
Merlin assentiu, pegando o bastão do centro do círculo e apoiando-se nele por um momento.
— Se o Arcanum aceitou a mensagem, aqueles escolhidos terão recebido a visão. Quando sincronizarem suas mentes comigo, sentirei suas presenças.
Adam arqueou uma sobrancelha, olhando para as partículas mágicas azuladas e cintilantes a flutuarem ao redor do salão.
— Então, agora é só esperar?
Merlin encarou o jovem, enquanto se sentava em um banco próximo, deixando escapar um suspiro profundo.
— Não apenas esperar. É confiar que a vontade do Arcanum trará pessoas capazes de fazer a diferença.
Merlin então deixava uma risada abafada e discreta escapar, balançando a cabeça.
— Só espero que saibam ao menos onde fica o Sul… Oh, céus.
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