Arcano
2 II
II
A febre me fazia delirar. Gritos de desespero ecoavam em minha cabeça, enquanto um vermelho escarlate manchava espadas, armaduras e o chão coberto pela neve. Cavalos relinchavam em seus saltos desgovernados, tentando fugir dos ataques disparados em todas as direções. Seus condutores caíam, esmagados por patas ou dilacerados pelas lâminas incansáveis, sedentas por mais e mais sangue. O horror que se mesclava ao som da fúria e das labaredas em carabinas. Para logo o fogo nos consumir, restando o silêncio genocida naquele campo devastado pela guerra. Não havia choro, lástima ou pedidos de misericórdia. Não mais.
Os pensamentos rodopiaram, me transportando novamente ao frio congelante que assolava os membros de meu corpo, prostrado no chão. Os dedos começavam a necrosar, eu podia ver o sangue coagulando em minha pele ferida e suja pela fuligem. Do céu, flocos de neve voltavam a cair lentamente, trazendo o desamparo ao perceber que tudo, muito em breve, acabaria. Sim, agora consigo me recordar. Contraditoriamente, eu ansiava por isso. Eu pedia pela morte, chamava-a para que me abraçasse no vazio daquele cenário a minha volta. Não adiantava mais resistir, meu corpo não sobreviveria à hipotermia – estava pronta para deixá-lo. Deixar a vida que em mim habita.
Foi quando senti o resvalar da túnica de seda macia. E me dei conta do quão trêmula estava. Meus olhos arderam, como se estivessem em chamas, abrindo caminho para que minha boca se entreabrisse desesperada, engolindo um sopro de ar com toda a urgência para aquele corpo que ainda lutava. Meu coração palpitou, acelerado, com dificuldades em bombear o máximo de corrente sanguínea que pudesse aos membros externos. Senti, então, um leve formigamento nos dedos. Não sabia dizer se ainda estava delirando, se aquela seria minha última miragem antes da morte derradeira. Forcei a visão na tentativa de distinguir algo ao meu redor – tudo parecia nebuloso ainda. Mas, de algum modo, pude jurar que estava sendo transportada pelo trotear de um cavalo, enquanto a neve insistia nos cobrir com seu véu de brancura.
Não sei quanto tempo depois daquilo havia se passado. As imagens em minha memória tornaram-se ainda mais confusas, irreais, perturbadoras. Intercalavam entre o vermelho pungente da violência bélica, com a mansidão de um azul claro nunca antes testemunhado por mim. Pensei se tratar do ancestral conflito entre a parte mais animalesca, selvagem, agressiva com alguma espécie de concórdia e harmonia que milagrosamente poderia haver em minhas entranhas. Seria isso o sinal de que eu era digna do céu? Sequer compreendia bem quem era ou onde estava naquele momento, entretanto pude sentir um amargor característico de negação. O vermelho clamava imperioso. Eu era parte responsável por isso. A morte não poderia me honrar com uma passagem acolhedora nos tons daquele azul. Então me dei conta da origem daquela lembrança. Não se tratava da morte, definitivamente. O azul... naqueles olhos...
Já não me importava a febre que ardia em mim, ou as ondas de dor que retornavam na medida em que meu corpo se revirava em sua batalha por sobrevivência. Tudo o que queria era encontrar mais uma vez aquele olhar. Isto bastou para que eu me apegasse novamente a uma força que, de algum modo, lá estava nas profundezas deste corpo. Uma força inquestionável que me impelia de volta à vida, contra todas as probabilidades. Devo ter resistido à morte por muitas e muitas horas, porque a exaustão me ameaçava a cada investida com maior intensidade. O suor escorria pelas minhas articulações, ao passo que meu coração batia no mesmo ritmo que os tambores da guerra. Não, não me permitiria morrer. Já havia presenciado tanto do horror, que aqueles olhos azuis não poderiam significar outra coisa senão alguma tentativa ingênua de renascimento, de redenção. Eu precisava urgentemente tentar!
Como que ouvindo minhas silenciosas preces, minha solitária luta, uma voz ressoou delicadamente – dissipando o turbilhão de imagens, limpando o ar pesado daquele espaço para dar vez a calmaria. E me disse:
— Você está reagindo bem. Não desista agora.
Abri devagar os olhos, deixando que a escuridão pouco a pouco fosse embora. Pude, então, captar algum relance de luz em volta daquele cômodo. Parecia uma lareira, emanando um calor confortável próximo à cama onde eu me encontrava. Os lençóis estavam encharcados, a mesma brancura maculada pelo vermelho do meu sangue. Inspirei com dificuldades, tentando balbuciar algo em resposta. Antecipando minha reação, uma mão enluvada se aproximou com cautela, retirando fios castanhos de cabelo do meu rosto. O suor pingava da testa, exasperada pela febre alta que não queria deixar meu corpo. Sentia sede, os lábios ressecados ardiam como nunca – talvez o frio tivesse lhes levado como minhas mãos. Me lembrando delas, tentei mexê-las de imediato, mas estavam atadas pelo peso das faixas, e eu não possuía forças suficientes para retirar seus curativos. Impossibilitada de fazer algum tipo de sinal, movi minha cabeça com impaciência, buscando por alguma orientação sobre que lugar era aquele e, além mais, sobre quem estava ao meu lado.
— Por favor, não faça esforço. – A voz me alertou, com uma permanente doçura ressoando pelo quarto. Ouvi em seguida o tilintar de uma garrafa de vidro despejando água, para depois me ser entregue pela mão enluvada. Tomei um gole com o seu auxílio, embora meu estranho anfitrião permanecesse com a face oculta pelo sombreado que o fogo da lareira incidia ao lado da cama. Era como se ele estivesse se escondendo propositalmente – escondendo aqueles olhos azuis que haviam me resgatado. Arrisquei, ainda assim, me virar na sua direção, ansiando pela confirmação de que fora ele quem me amparara ante o trágico destino naquele campo coberto pela neve. Contudo, senti-o se afastar num impulso, revelando apenas parte da máscara prateada que reluziu neste momento.
Soube, então, que era mesmo ele. A mesma figura fantasmagórica que havia me encontrado quando vagueava pela paisagem invernal. O enigma que trajava uma longa túnica de seda branca, cobrindo todo o corpo – tronco, pernas, braços e a cabeça por um capuz. As mesmas mãos enluvadas, que de algum modo me trouxeram até aquele quarto. E, o que me suscitava tamanha estranheza, a mesma máscara talhada em prata, inexpressiva e assombrosa, que ocultava a sua verdadeira face, além de encarcerar seus olhos supreendentemente tão gentis. Afinal, quem ele era? E por que se escondia daquela maneira?!
A afobação semeada por tantas dúvidas começava a me fazer mal. Meu corpo estava repleto de ferimentos e ainda prosseguia com seu desafio em sobreviver ao estado de choque pela recente hipotermia. O esforço de minha mente na tentativa de formular alguma frase ou pergunta apenas intensificava esta delicada situação de saúde. Senti meu coração acelerar ainda mais, ao passo que perdia o controle da própria respiração, ofegante. Minhas têmporas latejavam e eu pressentia que o desmaio seria certeiro. Ainda assim, teimei em buscar pelos olhos de meu anfitrião, pensando ser possível confidenciar, de alguma maneira, minhas consternações. Ele, por sua vez, permanecia imóvel protegido pelas sombras, observando silenciosamente o meu estado piorar. Embora me parecesse também ofegante, ainda que por um momento, apesar de sua máscara tentar ao máximo abafar sua respiração – que conflitos internos estaria ele passando?
O nervosismo me tomou por repleto, fazendo com que, numa última medida de desespero, juntasse o restante de minhas forças para finalmente expressar um gaguejo:
— Q-quem é você?
— Desculpe-me. – Respondeu, como se todo o peso do mundo padecesse em seus ombros naquele mesmo instante. – Não posso me aproximar de ti.
Sua voz continuava delicada como outrora, porém não conseguia desmentir o tom de sofrimento. Por que aquela máscara lhe afligia? Por que ele não poderia se aproximar? Meus olhos rodopiaram pelo quarto, desistindo num último suspiro em me manterem lúcida. Antes que meu corpo cedesse por fim, alguma ideia me surgiu de repente. Aqueles que vagueiam sozinhos pelos campos estavam fadados a se esconderem por toda a vida. Era claro, como eu não havia pensado nisso antes?! Ele não poderia se aproximar de mim – caso contrário, estando debilitada daquela forma, eu também contrairia a sua doença.
A lepra.
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