Arabella

2 Dead and Gone


Notas iniciais
P.O.V. Ari

A chuva caiu brutalmente no finalzinho da tarde, porém parou. Raios e trovões fazem-se presentes vez ou outra no céu cinza-escuro. Sempre temi a escuridão. A música em meus fones de ouvido não torna as coisas muito melhores.
Diante de mim, vejo uma estrutura majestosa, mas não tenho vontade de passar pelo grande portão dourado e adentrar o local.

–Você deve ser a nova residente – Uma mulher alta de cabelo estilo Chanel e olhos muito escuros me oferece um sorriso, mas não retribuo de maneira tão amigável quando ela esperava. Um meio sorriso é tudo que lhe ofereço, então ela continua. – Venha por aqui. Vou lhe mostrar o lugar.

Sinto um inevitável frio na barriga assim que meus pés tocam a grama molhada do pátio do Right Arrow, e a mulher começa a me guiar por entre corredores escuros ao entrarmos na "recepção". Ela veste roupas formais e sapatos de salto alto, e seus lábios estão envoltos em batom vermelho. O exagero chega a fazê-la bonita.

Ela me conduz até uma sala em um dos blocos mais distantes do portão de entrada, a qual não possui porta, somente as dobradiças, e ambas entramos.

Um homem somente alguns centímetros mais alto do que eu está falando em tom alto com um garoto de cabelos castanhos, creio que seja uma briga, lição de moral, ou coisa do tipo. Ele para de falar e nos encara.

– Desculpe, senhor — Diz a mulher, e suas bochechas coram. – esta é a nova residente do bloco quatro.

– A garota que acordou do coma, certo? – Diz ele. Não posso deixar de franzir a testa, rejeitando a ideia de ser conhecida como “a garota que acordou do coma”. – Creio que teremos que começar o processo de iniciação com você, senhorita Moretti. – Ele gesticula para que eu lhe entregue minha mochila, mas recuo. – Por favor.

Depois de um longo suspiro e entrego-lhe.

Ele parece se esquecer de que o garoto com quem estava “conversando” ainda permanece, e leva um susto ao olhar para ele. O moreno reprime um riso.

– Você já pode ir. Eu lhe chamo mais tarde.

O garoto então deixa a sala em passos rápidos, e permanecemos somente eu, a mulher que me guiou e o Sr. Hood.

Ele remexe em minha mochila e tira todas as poucas roupas que exibiam pelo menos algum vestígio de cor, deixando somente a que derivam de preto ou branco. O frio na barriga retorna quando ele abre o zíper do bolso da frente, mas logo fecha novamente. Um alívio percorre meu corpo todo. Recebo novamente a mochila, e o diretor estende a mão para mim, esperando algo.

Com outro suspiro, entrego-lhe meu celular, e ele me entrega um folder vermelho com procedimentos da escola para educação, horários de aulas e horários de intervalo. Juntamente com a pasta com as regras que me é entregue em seguida, vem uma pequena chave dourada com o número 86.

– Realmente queria ter tempo para lhe explicar todos os procedimentos, senhorita Moretti, porém tenho reunião com os professores em dez minutos. Sugiro que vá para seu quarto, veja os horários e esteja na aula amanhã de manhã. Lizzie leve-a até seu bloco.

Balanço a cabeça e a mulher, Lizzie, me guia para fora do edifício desta vez. Puxo o capuz de meu moletom enquanto andamos, e então ela me deixa, correndo de volta para o bloco de trás. Adentro o prédio, com a mochila no ombro esquerdo e a mala bordô com as roupas oferecidas pela Right Across na mão direita. Tudo aqui tem uma arquitetura cinzenta, bege ou branca às vezes. Tudo claro demais. Entretanto, alguns prédios chegam a parecer envelhecidos devido às partes sujas em suas superfícies e topos. Talvez sejam mesmo. Este lugar existe desde 1843, e os Hood vêm cuidado dele desde então.

A chave se encaixa perfeitamente na fechadura da porta de número 86, que possui um tom dourado pouco desbotado, e libera um quarto pequeno e claro. É aqui que eu vivo de agora em diante.

(...)

De madrugada, ainda não consegui pegar no sono. Encaro minha mochila, o teto, a janela de vidro, qualquer coisa, mas o sono não é meu companheiro esta noite. Tudo aconteceu rápido demais. Minhas memórias são muito vagas antes de os pesadelos e de acordar naquela maca desconfortável e encarar a branquidão da sala em que estava. A voz masculina que eu ouvi por meses revelando-se, todas as outras vozes, cheiros. Foi realmente perturbador permanecer esse tempo todo sem poder nem mesmo abrir meus olhos, mas acordar foi mais do que qualquer coisa. Creio que meu antigo eu está morto e enterrado.

Vejo uma rosa branca no vaso de vidro ao lado de minha mochila. Ela deve estar aqui há muito tempo. Sinto-me como ela. Bela, superficial, porém, despedaçada.

Meu moletom branco grande me conforta um pouco, mas as lembranças de Sheffield me doem às vezes. São poucas as coisas de que me lembro, mas lembro de que fui feliz no Reino Unido até o primeiro acidente. Agora, estou longe de casa e de todos os lugares em que já estive – pelo que consigo recordar -, longe de pessoas que podia ter conhecido ou conheci e longe de minha vida anteriormente. Agora, é como se tivesse um precipício separando minha vida atual da “anterior”.

Lembranças vagas, dores contínuas e lágrimas contidas nos olhos são o que venho tendo há tempos. Mas não consigo evitar. Desabo.

Enterro o rosto nas mãos e deixo que elas caiam, depois desse tempo todo. Tudo parece novo mais uma vez, até porque é. Mas isso me amedronta. Além de a escuridão, outra coisa que temo é a incerteza. Não sei se essa mudança vai ser boa ou ruim. Mas infelizmente, a incerteza é algo dominante em minha vida. Algo que chegou sem que eu ou qualquer um percebesse depois que papai recebeu a notícia de que iria viajar para a França a negócios.

A luz da Lua se faz presente em minha janela, e torço para que ela tenha trazido o sono para me atingir mesmo sabendo que, provavelmente, eu acordaria em um sobressalto algumas horas depois devido a um pesadelo que parecia muito real. Eles vêm aparecido bastante nas últimas semanas.

Entretanto, tenho aula logo às 08h00, e deveria ter pelo menos algumas horas de sono antes disso. Não quero baixar mais minha reputação, até porque creio que já estou no fundo por ser conhecida como “a garota que acordou do coma”. Imagino se, este tempo que estive desacordada, a gentileza desapareceu das pessoas, e elas se tornaram ainda mais mesquinhas, odiosas e invejosas do que já eram.

Um pequeno pedaço de papel desbotado desliza pelo vão de minha porta e toma minha atenção. O relógio de ponteiros ao lado de minha cama indica que são duas e cinquenta e três da madrugada.

(...)

A aula de estudos sociais não podia ser mais insignificante para mim. A sala consiste em dezessete pessoas vestindo roupas brancas, e somente a minoria delas realmente presta atenção na aula. Não faço parte dela.

Observo pela janela a rodovia, sempre vazia, e a nostalgia bate em minha porta. Lembro-me quando papai e eu viajamos para Chicago uma vez, e paramos no meio da estrada para olhar as estrelas. Era mês de julho, e uma suave brisa pairava no ar enquanto deitávamos em cima de sua Range Rover preta para observar o céu. Agora cá estou eu. Em um internato no meio do nada em uma rodovia não utilizada na província de Ontario enquanto vários outros estão curtindo suas vidas em outros lugares do mundo. Mas, é claro, não sou comum como eles.

Andei pelos arredores da propriedade, encontrando várias coisas que poderiam ser interessantes, mas não são devido às circunstâncias. Dentre elas, vi um poço que não parecia exatamente um poço. Seria mais como uma poça interminável. Tentei imaginar se nela teria um significado, ou se foi somente algo criado pela natureza para tomar seu espaço em meio às paisagens cinzentas criadas pelo homem. Talvez, queira nos dizer que tudo tem um final, e creio nisso, porque é a verdade.

Depois da última aula, à tardinha, vou andar para o lado oeste do terreno. Encontro um pequeno mausoléu branco ao lado do muro, um enorme e deslumbrante jardim de rosas vermelhas coberto por uma grade, um pinheiro alto e, finalmente, uma pequena casa de madeira depois de um caminho de terra. Há câmeras na entrada dela, e imagino o que seria tão importante a ponto de ser vigiado em uma casa aparentemente inocente, pequena e vazia. Imagino se alguém mora ali, mas creio que não. Não parece ter luz nem encanamento, nem mesmo nenhum vestígio de vida aparente em volta dela. Caminho de volta para o bloco 6, cujo consiste em uma junção de refeitório, restaurante e salas de artes. Não comi muito bem nos últimos dias. Peço por um croissant de queijo na cafeteria e um copo de chocolate quente. Me admira que em um lugar como estes tenham tantas comidas agradáveis, já que as regras são tão rigorosas.

Sento-me na bancada da janela, não sabendo exatamente para onde olhar, já que arquitetura cinzenta deste local não é muito atrativa, e meus pensamentos acabam parando no pequeno pedaço de papel que deslizou pelo vão de minha porta quatro dias atrás. Um papel levemente amassado, por ter passado pela porta, com uma letra cursiva não uniforme, porém bonita. Foi escrita com uma tinta preta, como se fosse nanquim. Nela, somente algumas palavras:

“Arabella,

Ouvi falar de você. Acho que não é tão entediante quanto as outras.”