Notas iniciais
boa leitura :)

A notícia acertou Arabella em cheio, trazendo perguntas sem respostas como tudo naquele lugar. Ela se despediu dos dois e subiu de volta para sua beliche. O travesseiro tinha um cheiro extremamente prazeroso e ela afundou a cara no material macio respirando exageradamente, deixando que o cheiro doce tomasse conta de seu olfato e os pensamentos foram aparecendo rapidamente em sua mente. Ela pensou em Gaspar acordando na casa de Patrick, sozinho, sem saber o que fazer. Provavelmente ele procurou a mãe de Arabella, já que os pais de Patrick estavam viajando, como sempre, e não podiam fazer nada a respeito. E sua mãe provavelmente arrumou uma desculpa bem bolada, que incluía papéis, atrasos e um ônibus. Na verdade Arabella ocupou-se de criar um bom plano ela mesma enquanto o sono não chegava. Ela fingiu estar no lugar de sua mãe, toda aquela responsabilidade encima de suas costas, agora ela entendia. Se ela pudesse apagar a memória de todos aqueles adolescentes que confiavam nela e a viam como uma futura líder ela o faria. Sua mãe estava, ao apagar a memória dos humanos, retirando a responsabilidade de si mesma, como eles poderiam apontá-la como responsável por apagar seu passado se eles não se lembravam de nada? Mais um plano extremamente bem bolado. E Arabella não conseguiu continuar de olhos abertos.

Um grilo despertou-a mas seus olhos continuaram grudados. Um grilo. Um grilo? Arabella nunca havia se perguntado o que estava do lado de fora do Centro. Quando ela estava sendo transportada seus olhos se fixaram na construção. O Centro deveria ter sido modificado pela magia negra, para os humanos e “Maus” não descobrirem sua localização. Provavelmente Arabella não havia visto a verdadeira aparência do lugar. Todos estavam adormecidos.

Ela desceu as escadas até a porta ao lado e adentrou no banheiro banhado ao ouro. Azulejos de porcelanas nas paredes iluminados de modos estratégicos proporcionando ilusões de ótica. Um lustre suntuoso que parecia feito de gelo pendurado no teto e logo abaixo uma banheira borbulhante cercada de pias antigas e uma série de cabines, onde se encontravam os sanitários. Arabella despiu-se de sua camisola de seda e adentrou na banheira. Aquela era a parte rica da qual a Rainha Branca se orgulhava. A água quente relaxava seu corpo e descontraía seus membros. Ela pegou algumas das embalagens de sal aromatizante em cima da mesinha ao lado da banheira e despejou na água. Seus olhos se fecharam e pela primeira vez desde que ela havia chegado lá ela sentiu que podia respirar. Todas as suas preocupações se foram. Uma música suave começou com seu ritmo viciante que embalou Arabella em um movimento repetitivo com seus pês remexendo a água. E ela já não ligava pra mais nada. Não ligava se iria morrer, se iria levar milhões de jovens para esse mesmo destino. Ela afundou sua cabeça dentro da água. A batida mais alta. O sentimento maior. A forma de um corpo se formou em meio as bolhas, seus cabelos loiros com mechas azuis e verdes se misturando à água, seu corpo parecia se dissolver. Ela cantava com um sorriso nos lábios. Palavras encorajadoras. Se aproximando. Os versos pareciam sonhos. Seus lábios pareciam delírios. As cores se misturavam. Um barulho interrompeu aquela fantasia, alguém se aproximando do banheiro. A criatura virou-se brutamente para o lugar de onde havia saído o ruído e rosnou, incrivelmente a batida continuou. Mas foi nesse momento de sanidade que Arabella pode pensar. Sereias. Ela levantou-se criando um tumor na água, a sereia virou-se para ela. Um pé fora da banheira. O outro. Seu corpo estava completamente gelado e cheio de medo. Aquela sereia podia matá-la com um ataque apenas.

A porta do banheiro se escancarou e Andrew apareceu com seu robe. Arabella agarrou sua toalha ao pé da banheira e enrolou-a em seu corpo enquanto ele tirava a espada reluzente da bainha e atacava a sereia. Seus corpos se chocaram e ela tentou persuadi-lo cantando e tocando seu pescoço. Ele brincava com a espada no pescoço da sereia.

– Safira – ele disse – querida.

Ela riu abobadamente. A música continuava.

– Pare! – Arabella gritou, as lágrimas escorriam de seus olhos ela mal sabia por que.

Safira sorriu.

– Você continua aqui, querida? – ela perguntou.

Andrew riu tanto que engasgou-se, como sempre fazia.

– Por que eu...

Os olhos da tal Safira ficaram brancos. O sorriso não saía de seu rosto. A sereia estava cada vez mais poderosa, ela sentia isso.

– Andrew! – Arabella gritou.

Ele parou de rir imediatamente. Andrew cravou a espada no coração de Safira. A música parou por um instante e foi retomando o ritmo, cada vez mais alto.

– Nós... – ele riu – A gente... t-tem que... – ele apontou pra porta.

Arabella agarrou seu braço e saiu pela porta do banheiro. As pias explodiram. Formas, animais formavam-se a partir da água que voava para fora do banheiro de acordo com o som da música, cada vez mais alta.

Ela arrastou Andrew até o fim do corredor e desabou. Caindo no chão junto à ele, sem ao menos pensar. Assim como ela faria com os milhões de jovens, só que invés do chão frio de pedra, seu destino e de todos os outros guerreiros seria a impiedosa morte, independente se fossem enforcados, queimados ou decepados.

*

Arabella boiava na água cristalina, quase inconsciente.

– Andrew?

– Eu estou aqui – sua voz não veio do chão ao lado de Arabella onde seus próprios braços dormiam, ele estava ao lado do corpo da sereia, ainda um pouco atordoado – sereias são terrivelmente perigosas e possuem o poder de induzir a vítima a ter delírios com seus piores pesadelos e maiores desejos. O que você viu? – ele perguntou sem tirar os olhos da criatura.

– Você parecia conhece-la e vocês... eram bem íntimos... então eu gritei o seu nome e então você pareceu acordar e...

– Você está bem?

– Nós podemos ir a enfermaria?

– Nós precisamos sair daqui, se nos virem no local do acontecido...

– Não fizemos nada de errado Andrew.

– Você não entende? Essa sereia foi mandada especialmente para matar você, se a Rainha Branca souber mandará você embora, ela ainda tem medo, não colocaria seu reino em perigo apenas por uma jovem e o que ela representa para Voltar.

– Você acha que Voltar enviou essa... – Arabella lembrou-se de algo – Safira, você a chamou assim.

– Safira Von Trier? Você não estava sonhando quando disse que parecíamos nos conhecer, Safira deve ter poder limitado sobre você...

– Espere, Safira Von Trier, eu... eu conheço ela. Por que ela estava... – A cabeça de Arabella explodia, tudo ainda parecia um sonho terrível.

– Vamos, temos que sair daqui, vou cuidar de você.

Andrew na frente e Arabella atrás seguiram até o salão principal e subiram uma escada em espiral que encontrava-se no canto do cômodo, assim como faziam para ir ao dormitório. Mas dessa vez eles saíram no telhado em diagonal do Centro, a neve encobria tudo, devia ser inverno.

– Vou pegar uma roupa para você – ele disse sorrindo do medo de Arabella, certamente estampado em seu rosto.

– Por que você simplesmente não me deixa ir agora mesmo? – ela perguntou, sem conseguir conter-se.

– Eu gosto demais de você para fazer isso – ele respondeu e logo depois desceu a escada de volta ao Centro.

Aquela foi a primeira resposta de Andrew em que ele não falava sobre estatísticas de guerra nem nada acadêmico, parecia simples demais: a hora não havia chegado ainda.

Ela se ajeitou na toalha de banho e sentou-se na neve fofa, a aparência do mundo lá fora era tranquila, uma floresta virgem e uma casinha de campo de onde saía uma fumaça que aqueceu o coração de Arabella dentre todo aquele frio. Andrew voltou com dois casacos de lã. Colocou um nos ombros de Arabella e vestiu o outro.

– Posso me sentar com você?

Arabella concordou com a cabeça. Andrew sentou-se ao seu lado e tirou alguma coisa dos bolsos.

– Beba – ele disse dando-a um frasco com líquido roxo.

– Da última vez que eu bebi o que você me ofereceu eu fui transportada para um Centro de Treinamento, descobri que a minha mãe apagou a memória dos humanos e tomei banho com uma sereia que queria me matar.

– E o que você acha de uma nova aventura?

Arabella agarrou o frasco e derramou na sua boca, mas dessa vez ela não foi transportada, apenas deitou a cabeça no neve. O gosto era doce e o líquido morno e ela sentiu seu corpo se esquentar lentamente dos pés à cabeça.

– Isso vai me fazer...

– Dormir. Quando você acordar já estará bem melhor. Eu estarei aqui... Sempre...

Mas ela adormeceu antes que ele pudesse dizer algo mais.

Notas finais
espero que tenham gostado :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.