Arabella
2 Nightclub XS
Notas iniciais
Às duas horas da manhã um carro preto impecavelmente brilhante parou na porta da casa de Patrick Morgamter. Vinte minutos depois o sr. Morgamter e a srta. Blowcoop entraram no carro com suas máscaras e plumas pomposas. Eles partiram imediatamente em direção à boate nightclub XS sem nem imaginar como aquela noite mudaria a vida deles, para sempre.
– Deus, isso parece o inferno.
– Patrick – Arabella advertiu, e o nome do amigo quase soou como uma ameaça.
– Ok, ok vou pegar alguma coisa pra beber.
Arabella correu o olho pela boate, seus pelos se arrepiaram. Ela tinha o pressentimento de que Wagner não estava por trás daquela festa. Por mais que ele fosse bizarro as fantasias daquelas pessoas tinham um ar artificial e eram terrivelmente assustadoras, e seus olhos eram simplesmente... fendas. O medo de Arabella crescia cada vez que ela reparava em um dos convidados e até funcionários e garçons. Todos com olhos de fendas. Uma das mulheres que trabalhava no bar manejava um faca de modo letal cortando frutas azuis que Arabella não conhecia. Um garçom levava drinks borbulhantes para os convidados mascarados, os olhos medonhos dançando curiosamente pelo salão. Pessoas (ou sabe-se o que eles eram) se moviam de modos estranhos, como lagartos ou seres do mar, outros andavam com uma elegância superior e esboçavam sorrisos maldosos.
– SOCORRO! ARABEL...
– Patrick – Arabella sussurrou, e saiu em disparada seguindo às cegas o grito de socorro.
Patrick estava com um sorriso estranho no rosto, em um lugar onde não haviam muitas “pessoas”, devia ser perto de algum banheiro, no final da boate. Arabella não sabia, estava correndo desesperadamente à alguns minutos até aquele local sem olhar para os lados, sem ao menos saber o que a esperava.
– Patrick, vamos dar o fora daqui... acho que não é seguro... – disse Arabella realmente preocupada com a capacidade de Patrick de provocar brigas – você está bem? Ouvi gritos.
– Srta. Blowcoop – ele disse com uma voz completamente diferente da habitual, alargando ainda mais o sorriso – acompanhe-me por favor se não quiser que seu amiguinho termine morto – ele tomou uma postura digna de um homem, que Patrick, ou o corpo de Patrick não incorporava à muito tempo, e seguiu em direção ao banheiro masculino fazendo um sinal para que Arabella o acompanhasse.
– O que você quer de mim?
– Vocês, docinho. Você não sabe, mas seu lugar privilegiado nessa guerra ainda está guardado – respondeu o homem no corpo de Patrick, sério.
– Guerra?
– Você faz parte deste mundo – ele respondeu, indicando com a cabeça a boate que ficava para trás – e seu mundo, nosso mundo, Arabella, está desmoronando aos poucos.
Arabella e o homem no corpo de Patrick chegaram ao banheiro onde se encontrava uma coleção de desagradáveis privadas de homens e pias transbordando de “coisas nojentas”, mas Arabella não sabia dizer o que era, sabia ao menos que aquilo não era água. O-homem-que-não-era-Patrick-mas-estava-no-corpo-de-Patrick tirou uma taça de cristal do bolso, lotou-a da gosma que escorria da pia e à estendeu à Arabella.
– Beba.
– O que? Eu não vou beber isso...
Mas o-homem-que-não-era-Patrick-mas-estava-no-corpo-de-Patrick interrompeu-a: “você deve estar se perguntando: quem é essa gente? E como elas sabem que eu sou desse mundinho macabro em que elas vivem? Eu não me pareço nem um pouco com aqueles monstros... Deve ser um engano... normalmente as menininhas indefesas e assustadas pensam assim, normalmente elas se menosprezam e depois se revelam grandes lutadoras. Você quer saber como eu sei? Que você pertence ao nosso mundo? Porque você não se assustou quando eu tomei conta do corpo do seu amiguinho? Porque você não se assustou com aqueles olhos, as fendas... sabe, eu já suspeitava. Se não eu não teria te chamado pra cá mas... depois que você chegou, eu tive certeza ...”
– Você era a mulher no telefone.
– Sim, eu posso, além de penetrar no corpo de um humano copiar com perfeição a voz de uma atendente de supermercado – ele deu um sorrisinho – agora, queridinha, por que você não bebe isso logo?
– Por que você suspeitava que eu era uma de vocês, antes de chegar aqui?
– Você é filha de Marylin Blowcoop – ele disse baixinho, como se fosse um segredo.
Arabella estremeceu, pensou em sua mãe, com certeza ele faria algum mal à ela se Arabella não bebesse a droga do líquido no cálice.
– Tudo bem, eu bebo, mas se você machucá-la...
O-homem-que-não-era-Patrick-mas-estava-no-corpo-de-Patrick soltou uma risadinha.
– Sua mãe sabe se cuidar melhor do que você imagina queridinha – ele respondeu, zombeteiro.
Sem entender, Arabella agarrou o cálice e entornou o líquido na boca. Um gosto terrível de peixe estragado com lixo e abobrinha recheada de vômito tomou conta não somente de sua garganta mas de seu corpo por inteiro, queimando com o desgosto daquele suco. Ela se deixou ser levada. Imagens de relance passavam por sua mente, uma construção enorme.
– Isso vai me transportar para outro lugar, não vai?
O-homem-que-não-era-Patrick-mas-estava-no-corpo-de-Patrick balançou a cabeça em concordância, com seu típico sorrisinho.
Ela podia ver os detalhes da construção agora, aquela imagem tomando conta de sua visão, arrastando-a para sua nova realidade.
– Ah, e só pra você saber – disse Arabella – eu não sou esse tipo de menininha, indefesa e assustada.
E Arabella vislumbrou um sorriso, não um sorriso sarcástico ou desafiador, um sorriso cativante, jorrando aprovação.
*
Arabella abriu os olhos lentamente, borrões de luz acima de sua cabeça cegavam sua vista. Sentia-se anestesiada e grudenta, na verdade não existia palavra para descrever a sensação, sentia-se terrivelmente diferente. Um rosto luminoso surgiu, tampando as luzes e trazendo Arabella de volta para a realidade.
– Bom dia – disse uma voz masculina.
– O que aconteceu comigo? – perguntou Arabella, sentando-se no que ela descobriu ser uma maca.
– Desmaiou assim que chegou ao Centro de Treinamento, efeito colateral de ser uma menininha indefesa e assustada – ele disse e exibiu um sorrisinho razoavelmente familiar.
– Você é “possuidor do Patrick”.
– Soa ameaçador, não?
– Achei que fosse mais velho.
– Por isso não me agarrou lá mesmo não é? Ah, esqueci que eu estava terrivelmente deplorável dentro do corpo do seu amiguinho.
– Não, por isso eu não tentei te acertar com uma privada, achei que você era capaz de me matar com um piscar de olhos.
– Eu ainda posso, agora vista-se, April quer conhecê-la, ela explicará melhor... tudo.
O “possuidor do Patrick” andou até a porta e bateu-a com força atrás de si. Arabella encontrou uma muda de roupas depois de alguns minutos, em cima de uma mesinha no meio do salão. Uma enfermaria na verdade. Várias pessoas se encontravam deitadas nas macas, em estados terríveis. Uma enfermeira cuidava dos feridos, que urravam de dor. Nenhuma tinha olhos de fenda ou usava fantasias, pareciam humanos, humanos terrivelmente machucados. Arabella pensou no que o “possuidor do Patrick” havia falado: “Você não sabe, mas seu lugar privilegiado nessa guerra ainda está guardado”. Ela balançou a cabeça, tirando aquele pensamento de sua mente e vestiu a sua roupa. Uma blusa preta decotada, um jeans largo e surrado e um par de tênis que no passado talvez fossem brancos, se não fosse a sujeira que os cobria. O “possuidor de Patrick” entrou novamente na enfermaria, cumprimentou a enfermeira e tirou Arabella de lá.
– Você deve ter esquecido de perguntar, meu nome é Andrew Marin, seu instrutor.
– Pra mim você ainda é o “possuidor do Patrick”, e a única coisa que eu esqueci de perguntar é onde ele está?
Andrew abriu um sorrisinho e saiu andando pelo corredor enorme, seus passos ecoando enquanto ele olhava atentamente para os lados, procurando alguém os observando.
Ele parou.
– Eu não deveria estar te contando isso mas ... eles pegaram ele.
– Eles pegaram quem?
– P ... Patrick, é esse o nome não é?
Arabella manteu a sanidade.
– Eles quem? – ela perguntou, afiada.
– April e seus homens... não sei o que eles pretendem!
Mas Arabella já estava andando à sua frente.
– Onde fica a sala dessa tal de April?
– Você não vai querer chegar lá ameaçando-a, acredite.
Arabella agarrou a lança de um dos soldados de metal, que cercavam o aposento onde eles haviam chegado, estava vazio, provavelmente aquele era o salão principal, Arabella pensou.
– Eu não vou simplesmente ameaça-la Andrew, eu vou enfiar essa droga de lança na garganta...
– Já passou pela sua cabeça que eles podem estar curando-o?
Arabella virou-se para Andrew, a lança à centímetros do seu peito.
– Você o machucou.
– Eu não sou lá o melhor em penetrar no corpo de humanos, mas não, eu não o machuquei Arabella, ele está no máximo desacordado. Nós estamos do seu lado, acredite.
Andrew tirou a lança das mãos de Arabella e a posicionou na mão do cavaleiro de metal.
– Podemos ir agora?
Arabella confirmou com a cabeça e eles seguiram até uma porta pesada feita de ouro puro, um pouquinho enferrujada mas ainda assim sua beleza impressionava Arabella. Andrew bateu três vezes e então a porta começou a se derreter.
– Andrew...
– A porta era muito pesada e nada prática então tivemos que usar magia negra.
E então segundos depois, nada restava da porta de ouro. Arabella e Andrew entraram em uma sala enorme. Pássaros dourados que forneciam luz, trabalhando como luminárias voavam onde as pessoas os chamavam, para iluminar seus relatórios, encima das várias mesas, que elas preenchiam sem parar. No meio da sala, banhado de ouro, com detalhes incríveis esculpidos, um trono. Sentada com um manto branco e um vestido vermelho que realçava suas curvas, o cabelo loiro caindo pelos ombros, uma mulher de beleza incrível exibia uma expressão de superioridade e desprezo.
– Arabella, essa é April Cathelines, mais conhecida como a Rainha Branca – disse Andrew demonstrando todo o seu respeito pela mulher.
– Prazer em conhecê-la querida – ela disse se dirigindo a Arabella com um sorriso inteiramente falso e desprezível.
– Tia Cathelines, eu gostaria de saber por que a galera daquela boate era tão feia e você é tão artificialmente bonita, você fez algum tipo de plástica é claro, mas será que você podia me passar o endereço eu gostaria de aumentar a minha bunda.
Andrew soltou uma risada misturada com um sinal de alerta o que gerou um engasgo e ele teve que se retirar da sala pois estava incomodando os homens e seus pássaros.
– O que foi que você disse querida? – ela perguntou com aquele ar artificial e um leve toque de ódio.
– Sabe, April, eu só queria entender tudo isso se você puder me explicar.
– Bem, é uma longa história, sugiro que você se sente.
E logo depois da Rainha Branca ter dito o que ela disse uma poltrona aconchegante apareceu ao lado de Arabella, que acomodou-se, esperando o pior.
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