Aquilo Que Nunca Foi Dito
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Faltava pouco mais de uma hora para o ano novo. O Jounnin, à luz do luar, retornava pela floresta de uma longa e frustrada missão nos limites do País do Fogo. A ordem era que Hyuuga Neji, entre outros ninjas, percorressem as fronteiras em busca de um viajante de cabelos amarelos, franja longa cobrindo um dos olhos e trajando manto preto, acusado de assassinar três guardas de fronteira alguns dias antes. Porém, mesmo após uma minuciosa varredura, não encontraram ninguém que pudesse levantar suspeitas.
As comemorações de ano novo traziam a Konoha um número muito grande de visitantes, atraídos pelo popular Festival dos Fogos que acontecia à meia noite do ano novo. Centenas de explosões multicoloridas iluminavam os céus da vila num espetáculo que já havia se tornado tradição no País do Fogo. Geralmente todos se reuniam no centro da aldeia para contemplar o Festival, mas Neji tinha um lugar especial que gostaria de compartilhar com uma única pessoa: Tenten Mitsashi.
Neji e Tenten eram companheiros de time há muito tempo. Participaram juntos dos exames Chunnin, treinavam nas horas vagas e estiveram nas mesmas equipes em diversas missões, mas raramente se encontravam para conversar algo além do trabalho ninja. Alguns dias atrás, o Hyuuga havia convidado a kunoichi para ver os fogos do festival, e ela de bom grado aceitou o convite.
Neji havia dedicado sua vida a se tornar um ninja de altíssimo nível, e para isso trabalhou duro por anos com muito treinamento e dedicação. Desta forma construiu uma carreira sólida e admirável como Jounnin, mas paulatinamente foi se afastando emocionalmente das pessoas, inclusive Tenten, por quem desde cedo nutria um afeto especial. Depois da morte de Asuma Sarutobi, que se tornou um memorável exemplo de sacrifício pela aldeia, Neji havia pensado muito sobre cuidar mais dos assuntos pertinentes à própria vida e a dos que o cercavam. Também chegou à conclusão que renunciar de si e dedicar-se exclusivamente ao trabalho não valia tanto a pena.
Foi aí que teve a ideia de convidar Tenten para ver o Festival de Fogos, de ficarem mais tempo juntos e contar que a amava. Durante toda a viagem pensava em como diria a ela tudo o que sentia, e que, a partir dali, gostaria de compartilhar uma vida com a Chunnin.
Neji estava a apenas mais algumas centenas de metros da aldeia quando viu um grande clarão, seguido de uma forte corrente de ar e poeira advindos de uma súbita explosão ocorrida logo à frente. Tapou o rosto com a manga da camisa enquanto os estilhaços ainda pairavam no ar. Quando eles finalmente cessaram, o Hyuuga mirou o céu à sua frente: estava iluminado, porém não pela lua, mas pelas chamas.
— Konoha... – Sussurrou apreensivo.
O shinobi percorreu os últimos metros até a aldeia correndo entre os destroços de árvores e edificações, até chegar à entrada da aldeia. O que antes era um grande portal agora não passava de uma pilha de entulhos destruída. Sem fazer ideia do que havia se passado ali, o Jounnin continuou a caminhar pela cidade em direção ao monumento de Konoha. Quanto mais se afastava da periferia, maior era a destruição. Havia prédios em chamas, pessoas soterradas e gritos de agonia por onde quer que ele olhasse. De repente Neji foi agarrado em uma das pernas com firmeza. A moça de cabelos rosados, caída no chão, proferiu ofegantemente:
— Foram eles, Neji. A Akatsuki... — Era Haruno Sakura. — Aproveitaram as distrações do Festival de Fogos e implantaram dezenas de bombas na vila. E depois uma monstruosa onda de energia veio para derrubar o que ficou de pé.
O Hyuuga, empurrando alguns destroços que estavam sobre Sakura, cuidadosamente a apoiou num muro parcialmente destruído. Usando o Byakugan visualizou três costelas quebradas e o braço esquerdo deslocado, além de uma fratura exposta na perna. A garota colocou sua mão direita sobre o membro inferior, ajeitou a posição do osso e, após um discreto gemido de dor, usou de jutsu médico para recuperar-se do ferimento. Repetiu o procedimento no ombro deslocado e ignorou as costelas quebradas, pois colocá-las no lugar requereria muito tempo e uma kunoichi médica como ela, naquela situação, não poderia "desperdiçar" tempo com si mesma.
- Nós temos que ajudá-los Neji. Todos eles... — O Jounnin sabia que sua responsabilidade era com todos da vila, mas não conseguia tirar Mitsashi da cabeça. Precisava saber se ela estava bem, se havia sido atingida pela explosão, se continuava viva. Viu-se novamente confrontado entre os deveremos de um ninja exemplar e seus assuntos pessoais. Fez sua escolha.
— Sakura, eu preciso ir ao Monumento dos Hokages primeiro. Preciso muito ir...
Haruno logo entendeu do que se tratava. Tenten, que era sua amiga íntima e confidente, lhe havia dito que se encontraria com Neji na noite de ano novo no topo do Monumento aos Hokages. Sakura levantou-se do chão frio e disse ao Hyuuga:
- Vá, Neji. Eu cuido destes daqui.
O Jounnin balançou a cabeça em sinal de agradecimento e rapidamente foi em direção ao Memorial Hokage. Enquanto percorria aqueles cenários destruídos, em especial os locais em que, nas raras vezes, havia se encontrado com Tenten, se lembrava dos bons momentos que passou ao lado dela e da lástima em nunca tê-la dito o quanto a estimava. Também pensava que poderia nunca mais ter a chance de olhar naqueles olhos castanhos por quem nutriu um sentimento reprimido e latente durante anos.
De repente ouviu um bater de asas. Olhou para o céu escuro, mas a noite e a fina cortina de poeira que cobriam a vila não o permitiram ver a olho nu. Ativou o Byakugan e só aí visualizou: era o Akatsuki de cabelos amarelos sobre uma coruja branca enorme. Ele segurava algum tipo de ovo que concentrava uma imensa quantidade de chakra. Jogou-o sobre a cidade e rapidamente o objeto se expandiu. A alguns metros do chão explodiu e provocou mais um imenso clarão, bem sobre a área em que Sakura se encontrava. A explosão foi tão forte que arremessou Neji alguns metros. Sobre ele caíram dezenas de destroços empurrados pela pressão da bomba.
O Jounnin sangrava muito na cabeça e no tórax. Arrancou um estilhaço de metal do braço direito que havia se cravado em sua pele por pelo menos seis centímetros adentro. Um corte largo na testa provocava um incessante escorrimento de sangue que percorria de sua sobrancelha ao queixo. Um grande bloco acertou em cheio seu pé esquerdo e, com muita dificuldade, conseguiu retirar o membro inferior de lá. O pé estava esmagado e latejava muito, mas não podia desistir. Caso contrário nunca se perdoaria.
Olhou para frente e viu o Monumento aos Hokages parcialmente destruído. Não faltavam muitos metros até lá. Com o braço esquerdo, se apoiou no chão e tentou se levantar. Uma dor insuportável no pé esmagado o fez ir ao chão de novo. Agarrou uma barra de metal próxima e usou-a como apoio, só assim conseguiu ficar de pé. A cada passo doloroso pensava no porque daquele esforço, buscando determinação para continuar.
- Eu preciso lhe dizer... — Rumorejava a si mesmo.
Alguns minutos depois estava em frente à escadaria que levava ao topo do monumento. Deu uma pausa sentando-se em um dos degraus e novamente avaliou seus ferimentos. O pé não estava nada bom e o corte na testa não parava de sangrar. O braço direito só cessou após ele amarrar um pedaço da camisa branca, que nesse momento se encontrava totalmente encharcada de seu sangue. Retomou a subida. Na escadaria havia alguns respingos de sangue. Alguém ferido passara por ali.
- Tenten... – Pensou apreensivo.
A perda progressiva de sangue fez com que Neji começasse a perder a consciência. Num tropeço, deixou que a barra de ferro que usava como apoio cair escadaria abaixo. Agora seria necessário se arrastar até o topo...
— Eu não posso desistir... Não antes de te falar. – Sussurrava.
Às vezes, olhava para aquela vila em chamas, que outrora foi palco de boas lembranças com seus amigos. Pensava nos momentos e nas pessoas que teria perdido a partir dali. Ouvia estalos e ao mesmo tempo gritos de desespero e piedade.
- Seriam eles pedindo por socorro? Tenten, Gai, Lee... – Se questionava onde seus amigos poderiam estar em meio a tanta destruição. Fechou os olhos buscando ainda mais forças, e quando se tocou já estava no topo do monumento.
O Memorial dos Hokages estava melhor do que qualquer outro ponto da aldeia. Apenas alguns detalhes dos rostos se encontravam destruídos e o cume, um lugar plano excelente para se deslumbrar a grandiosidade de Konoha, incrivelmente intacto. Era ali que eles haviam marcado de se encontrar.
Neji tentava mirar seus olhos cansados para cada canto daquele lugar. Estava muito fraco para usar do Byakugan. Teve que contar exclusivamente com a luminosidade naquele luar, um luar tão bonito e imponente, perfeito para um encontro como o que planejara, mas que se tornou o pano de fundo de uma desgraça terrível a Konoha e a seus habitantes.
-Tenten, você está aqui? - Foi aí que ouviu baixos gemidos que ansiavam por seu nome.
— Neji-kun... Por favor, eu estou aqui... – Era Mitsashi.
O Hyuuga tentava usar do que sobrou de sua força para ir até Tenten, mas seu corpo já não o obedecia tão bem. A visão túrgida, os músculos fadigados, a dor latente. Precisava chegar até ela, dizê-la tudo o que nunca havia dito. Arrastou-se por mais alguns metros, longos e dolorosos metros, tanto ao corpo quanto a alma. Ela estava encostada na grade que cercava o topo do Monumento. Com muitas dificuldades conseguiu sentar-se ao seu lado. A kunoichi se encontrava em estado crítico. Boa parte do lado esquerdo de seu corpo se encontrava dilacerado e os ouvidos sangravam muito. Certamente estava próxima de uma das explosões para se encontrar assim.
— Como você chegou até aqui? – Questionou ele surpreso ao vê-la sozinha.
- Da mesma forma que você, me arrastando pelas escadas... – Disse ela ofegante enquanto esboçava um sorriso. – Era o nosso trato, certo?
O ninja sorriu. Abraçou-a da melhor forma que pôde. Foi o primeiro abraço em anos de convivência. Um abraço que descrevia o que aqueles dois sentiam um pelo outro, mas que nunca chegaram a dizer: carinho, cuidado, amor. Uma lágrima escorreu pelo rosto do Hyuuga. Também ouviu soluços dela. De repente escutou outro bater de asas e, logo em seguida, um terceiro clarão surgiu sobre as suas cabeças. Antes de serem consumidos pela luz, ele só teve tempo de dizer:
— Tenten, eu te...
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