Aquilo Que Não Me Deram

3 Capítulo 1 – O Nome da Ausência


Minha primeira memória concreta não começa com pessoas. Começa com uma casa verde. Uma casa de quintal longo e silencioso, onde o fundo se estendia até um morro que parecia infinito aos meus olhos pequenos. Dali, de dentro do meu quarto, havia uma janela. E foi através dela que, ainda criança, eu comecei a escapar de tudo aquilo que eu não entendia, mas já me machucava profundamente.

Era nessa janela que eu inventava mundos. Criava personagens, histórias e versões de mim mesma que pudessem sorrir sem medo. As fantasias não eram só um passatempo. Eram um tipo de fôlego. Meu jeito de expressar dores que, naquela idade, ainda não tinham nome. Brincar era o meu grito silencioso. Meu protesto particular. Meu modo de dizer: “algo está faltando aqui”.

Muitas vezes, quando contrariada ou frustrada, eu corria para sentar na janela. Minha mãe, avó ou minha madrinha viam como teimosia. Uma birra mimada. Mas, no fundo, era a única forma que eu encontrava de mostrar que não estava bem. Era o meu teatro íntimo de resistência — contra um mundo que me oferecia brinquedos, mas não escuta; presença, mas não acolhimento.

Lembro do dia em que tudo isso transbordou. Eu estava na janela novamente. Silenciosa. Sozinha. E, sem perceber, me inclinei demais. Caí. Meu corpo se arrastou pela terra e ralei as pernas ao tocar o chão. Em choque, caminhei mancando até a porta da cozinha, bati no vidro com as mãos pequenas e desesperadas. Esperando que alguém abrisse. Esperando que alguém me visse — de verdade.

E foi aí que algo me quebrou e me costurou ao mesmo tempo.

Ao abrirem a porta, não veio a bronca que eu imaginava. Não veio o castigo. Não veio o julgamento. Vieram dois olhares: o da minha madrinha e o da minha avó. Dois olhares cheios de susto e ternura. Um cuidado inesperado, que não veio de quem me deu a vida, mas de quem me ofereceu, mesmo que por instantes, um amor que parecia inteiro. Sem explicação, sem exigência. Instintivo.

E naquele momento, com o joelho ralado e os olhos vermelhos de chorar, eu só consegui dizer uma coisa: “desculpa”.

Porque até minha culpa era a forma de expressar um sentimento não nomeado.

Hoje, ao olhar para trás, entendo que o vazio emocional é como aquela janela. Quanto mais tempo se passa nela, mais fundo a gente vai ficando preso. Mais perigoso é o salto. E, inevitavelmente, em algum momento, a gente cai. A questão não é o tombo, mas o que vem depois. Quem te acolhe? Quem te escuta? Quem te ajuda a juntar os pedaços?

E talvez, naquele dia, eu tenha compreendido pela primeira vez o que significa amor não dito, mas sentido. Um amor que não veio dos meus pais. Mas veio. E por isso ficou.

Você me pergunta: qual é o nome desse vazio?

E eu te respondo: ele se chama ausência. Mas a dor dele só existe porque, um dia, a gente conheceu o que é presença. Mesmo que por um instante. Mesmo que de outra pessoa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.