Aquilo Que Ficou de Nós
1 O Silêncio Depois da Última Respiração
O som contínuo do monitor cardíaco cessou de forma abrupta, deixando o quarto do hospital mergulhado num silêncio pesado. Erika permaneceu imóvel, sentada ao lado da cama, com a mão entrelaçada na de Seiji. Ainda estava quente. Ainda era a mão do homem que amava. O corpo dele parecia ignorar a realidade que os médicos acabavam de confirmar com um simples olhar carregado de pena.
Foram anos de luta contra o cancro. Anos de consultas, tratamentos, noites passadas em cadeiras desconfortáveis e promessas sussurradas ao ouvido. Erika lembrava-se de cada sorriso forçado de Seiji, de cada tentativa dele para a tranquilizar, mesmo quando era ele quem precisava de conforto. Apesar de tudo, nunca acreditou verdadeiramente que aquele momento chegaria. Não daquela forma. Não naquele dia.
O funeral passou como um nevoeiro espesso. Pessoas conhecidas, vozes distantes, abraços que não sentia. Tudo lhe parecia irreal. Quando regressou a casa, o silêncio recebeu-a como um estranho. As paredes pareciam maiores, o ar mais pesado. Cada divisão carregava a ausência de Seiji.
Desde então, o trabalho tornara-se o seu único refúgio. Chegava cedo ao escritório e saía quando a noite já tinha tomado conta da cidade. Estar ocupada era a única forma de não pensar. Quando finalmente regressava a casa, era Seki quem a aguardava.
— Boa noite, Erika — dizia o robô, com a voz neutra de sempre.
Ela respondia com um aceno ou um simples “boa noite”, evitando qualquer conversa desnecessária. Apesar da presença constante de Seki, Erika sabia perfeitamente o que ele era: um robô doméstico programado para executar tarefas. Nada mais. Não havia ali espaço para sentimentos ou consolo real.
Nessa noite, o cansaço venceu-a. Tomou um banho longo, deixando a água quente misturar-se com as lágrimas que escorriam livremente pelo rosto. Não tentou contê-las. Já não fazia sentido. Vestiu a camisola de Seiji, demasiado larga para o seu corpo, e sentiu um conforto silencioso, quase impossível de explicar. Tomou um comprimido para a dor que a afligia e dirigiu-se para a cama, tentando encontrar algum sono entre os pensamentos confusos e a dor persistente.
O quarto estava envolto na penumbra. O relógio marcava horas que pareciam não avançar. Erika virou-se para o lado, fechou os olhos, mas o sono recusava-se a chegar. As lágrimas voltaram a cair, silenciosas, quando sentiu algo inesperado. Um calor familiar, uma presença que parecia envolver-lhe o corpo como um abraço delicado. O aroma era inconfundível. O toque invisível fez-lhe prender a respiração.
O coração acelerou-lhe no peito.
— Seiji… — sussurrou, com a voz trémula.
Não houve resposta. Nenhuma palavra, nenhum som. Apenas aquela sensação inexplicável que a envolveu por breves instantes, suficiente para que Erika sentisse-se segura, pela primeira vez desde a sua morte, como se não estivesse verdadeiramente sozinha. E, nesse abraço invisível, entregou-se ao sono, finalmente, deixando que a noite levasse consigo a dor imediata, mesmo que apenas por algumas horas.
O mundo exterior continuava a girar, indiferente, mas naquele quarto silencioso, Erika encontrou um pedaço de consolo impossível de nomear, e pela primeira vez desde a morte de Seiji, permitiu-se adormecer sem medo.
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