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2 Capítulo 2
A meia noite se aproximava e, por mais que fosse difícil de admitir estar errada, Hermione estava gostando da festa de ano novo. Os barulhos eram agradáveis, as pessoas estavam mais bem vestidas e a decoração tinha sido bem feita. Como Ginny dissera, Draco Malfoy sabia dar uma boa festa quando não sofria influência de Pansy.
Ela estava descansando um pouco em uma das poltronas mais ao canto do salão, observando os colegas de turma dançarem e conversarem, quando Rony chegou ao seu lado. Ele sorriu em sua direção e sentou-se ao seu lado, no braço da poltrona.
— Você não parece estar se divertindo. – ele comentou.
— Você tem purpurina dourada no cabelo. – ela disse, o que fez com que ele sacudisse os fios e derrubasse toda a purpurina nela, fazendo-a rir.
— Agora você também tem. Por que não está se divertindo?
— Eu estou. Apenas estou dando um tempo, sabe? Eu não consigo ficar agitada por muito tempo em uma festa, tenho que parar para recuperar minhas energias.
— Achei que veríamos a Hermione Furiosa igual ontem.
Os dois riem com o comentário. Ela não se lembrava em que momento descobriu que os garotos ganharam a competição no fliperama, mas se lembrava de não ter achado tão ruim quando Harry escolheu que o passeio seria no museu do vilarejo. Ela não era uma amante da arte, mas gostou quando soube que algumas réplicas fiéis de quadros famosos estariam em exposição.
A decepção veio quando ela viu os quadros. Ou melhor, quando viu aquele quadro. Mona Lisa era um dos quadros mais famosos do mundo, presente em todas as apostilas e sites; fazia parte dos três quadros que qualquer leigo em artes conhecia, ao lado de Noite Estrelada, de Van Gogh, e O Grito, de Edward Munch. Então é claro que Hermione ficou decepcionada quando viu o tamanho da pintura.
Ela agradeceu por não ter ido até o Louvre para ver aquela obra. Além de ser pequena demais para qualquer pessoa conseguir ver a distância, agora ela reparava detalhes que nunca tinha prestado atenção antes, como o péssimo sorriso e a falta de sobrancelhas. O olhar era bom, ela admitiria isso, mas não compensava todo o resto.
— Eu não fiquei tão furiosa assim. – ela disse, depois de recordar a tarde no museu.
— Hermione, eu não te via falar um palavrão há anos. Só ontem você xingou mais do que a Ginevra xingou a vida toda.
— Você está exagerando. – ela o empurrou com o ombro. – E eu não consigo controlar minha decepção.
— Exagerando? – ele jogou a cabeça para trás, rindo da tentativa falha da amiga de diminuir a situação. – Você disse que a Mona Lisa parece massa de pão antes de levada ao forno. Eu achei que Harry fosse te matar ali mesmo.
— Eu não tenho culpa que ela realmente parece uma massa de pão. E sobre o Harry, eu acho que descobri que tenho uma missão nesse planeta, e essa é irritar vocês. Vou descobrir algo que a Ginny seja obcecada e dizer que odeio.
— Você pode falar mal do Liverpool. Ela é a maior fã desse time que eu conheço, aposto que perderia a cabeça se você criticasse o time. – ele estica a mão para o cabelo dela, retirando uma purpurina dourada do fio. – Você já não gosta de futebol mesmo, vai ser fácil.
Hermione prendeu a respiração quando viu a mão indo em direção ao seu cabelo. Um gesto tão simples, mas que a deixou com o coração acelerado – de novo. Ela apenas sorriu como resposta ao comentário, para não correr o risco de gaguejar ou rir de nervoso no meio da frase. Era patético que uma pessoa que pudesse passar horas em um debate ou em uma simulação sem gaguejar, cometesse esse deslize justamente com o melhor amigo.
— Dez! Nove! Oito!
— Já? Eu nem vi o tempo passar nessa festa. – ela comentou, enquanto a contagem era feita pelos colegas.
— O tempo passa rápido quando você se diverte.
— Sete! Seis! Cinco! Quatro!
Ela observou enquanto os casais se aproximavam, olhando um nos olhos do outro enquanto faziam a contagem regressiva para se beijarem a meia-noite. Alguns eram namorados, outros apenas amigos que conseguiam se beijar sem fazer um escarcéu sobre isso. Hermione e Ronald não se enquadravam em nenhuma das duas categorias.
— Três! Dois! Um! Feliz ano novo!
O barulho de uma garrafa de champanhe sendo aberta inaugurou o novo ano que chegava. Abraços, beijos e copos brindando preencheram o salão. Rony, ao seu lado, a puxou para um abraço forte. A diferença de altura entre os dois sempre fez com que a garota se sentisse confortável naquele aperto, como se estivesse salva do mundo ao seu redor. Ela não ficava nervosa ali, pelo contrário, seu corpo relaxava quando acolhido pelos braços gigantes do amigo.
O desconforto veio quando eles se soltaram. Ao seu redor, a maioria dos casais ainda se beijava ou se abraçava, o que deixou os dois apenas se encarando em silêncio. Ela queria beija-lo, queria voltar para seus braços e nunca mais ter que sair dali. Mas não podia, claro, apenas ficaria no querer. Contudo, mesmo se acreditasse que desejos se realizavam quando feitos à meia-noite da virada do ano, não soube dizer se pediria para que ficassem juntos. E se ficassem juntos e ele percebesse que ela não era nada demais? Ou aquilo arruinasse a amizade deles? As chances de ela estragar tudo eram muito altas, não poderia correr aquele risco.
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Ginny e Harry, que os abraçaram e puxaram novamente para o centro do salão. As pessoas dançando, rindo, a música, a purpurina dourada, tudo isso fez com que ela parasse de pensar naquele momento em que quase se inclinou para beijar Rony. As horas foram passando e ela foi se esquecendo disso.
Assim como antes, teve um momento em que Hermione precisou se afastar do agito. Ela gostava do silêncio e da calmaria, era quando se sentia mais confortável. Havia um conforto no silêncio e em ficar sozinha com seus pensamentos, apenas ouvindo o que quer que o ambiente proporcionasse. Caminhou até o lago congelado do resort e sentou-se em uma pedra, observando a lua refletida.
Tudo o que ela ouvia era o farfalhar de folhas e seus próprios pensamentos. Ficou imaginando qual música Ronald colocaria para aquele momento. Alguma música calma, com certeza, provavelmente que envolvesse neve ou lua. Ou algo triste, melancólico – se bem que Hermione não o via ouvindo esse tipo de música.
Ela riu sozinha quando se pegou pensando a palavra música. Até outro dia, ela se referia àquilo apenas como barulho. Não podia acreditar que a insistência de Ronald estava dando resultados. Ele realmente tinha aprendido a ser insistente e argumentar como ela. Céus, ela tinha criado um monstro. E pior, estava perdendo uma aposta para ele.
— Rindo do vento?
Deu um pulo quando a voz de Ronald invadiu seus ouvidos. Estava tão perdida em seus próprios pensamentos sobre o garoto que nem reparou seus passos se aproximando. Observou enquanto ele sentava-se ao seu lado, fazendo uma careta quando sentiu o gelo da pedra contra a calça. Típico, ela pensou, ele sempre preferiu o verão.
— Ele me contou algo muito engraçado. – respondeu a brincadeira. – O que veio fazer aqui? Está um pouco frio.
— Um pouco? – sua voz esganiçou, o que fez Hermione rir. – Aqui tá parecendo o cenário de gravação de Era do Gelo.
— Era do Gelo é um desenho animado, não teve cenário de gravação.
— Você entendeu. – ele a empurrou levemente com o ombro. – Vim aqui porque achei que fosse querer companhia. E a festa ficou chata sem você.
Ela sorriu em sua direção, seu coração se aquecendo enquanto ouvia aquelas palavras. Podia ouvir a voz de Ginny no fundo de sua mente, quase que como a sua consciência, dizendo “ele não disse com esse sentido”, mas ela não se importava. Sabia que estava sendo patética quando se agarrava nessas palavras, sabia que ela não era a personagem principal de um romance e, principalmente, sabia que Ronald não seria nada mais que seu amigo. Contudo, sem ninguém mais ao redor dos dois, ela permitiu-se imaginar que aquelas palavras significavam algo a mais.
Para preencher o silêncio – algo que o amigo abominava – eles começaram a conversar sobre a viagem e seus melhores momentos. Hermione riu quando ele elencou seu ataque de raiva no museu em primeiro lugar.
— Eu sempre gostei de te ver com raiva. Menos quando a raiva era pra mim, claro.
— Eu não fico com raiva tanto assim.
— Não mesmo. Mas se lembra quando socou a cara daquele garoto que estava atormentando o cachorro do meu vizinho?
— Meu Deus, Ronald. – ela riu com a lembrança. – Isso já faz quase quatro anos.
— Não deixa de ser incrível. O Hagrid não aguentava mais ter que expulsar aquele garoto da porta de casa.
— O Bicuço era um ótimo cachorro. Ele não tem culpa de ser...
— Feio? – ele interrompeu.
— Eu ia dizer um Whippet. Eles não são feios.
— São sim.
A discussão continuou, como Hermione já esperava que acontecesse. Em algum momento, eles pararam de discutir e recordaram a infância. Eles cresceram na mesma vizinhança, apenas dois quarteirões de distância, mas só se tornaram bons amigos aos onze anos, quando passaram a estudar juntos novamente e Hermione tirou uma aranha – minúscula, diga-se de passagem – da mesa dele; ele ficou tão grato que a considerou sua heroína e sua nova melhor amiga.
A partir daí, não se desgrudaram nunca mais. Passavam todas as tardes juntos, fazendo lições e trabalhos, brincando de jogos de tabuleiro, videogame. Competiam corridas de bicicleta pelos quarteirões, rendendo algumas cicatrizes no joelho de Ronald, que era inconsequente e competitivo o bastante para não parar quando algum obstáculo aparecia no caminho. Claro, Hermione cuidou de todos seus joelhos ralados, apenas porque ele se recusava a pedir ajuda dos pais e ser obrigado a ouvir um sermão junto – ele sempre disse preferir as lições de moral da garota.
Na medida em que foram envelhecendo, os assuntos mudaram, mas a dinâmica entre eles jamais se alterou. Eles ainda passavam quase todas as tardes juntos, estudando ou competindo no xadrez, esse último era apenas para quando Rony ficava frustrado por não entender a matéria da prova do dia seguinte. Hermione percebeu que, quando ele tinha sua confiança renovada ao vencê-la no jogo, ele passava a ser mais receptivo às suas instruções sobre a matéria, então tornou isso uma tradição.
— Queria que tivesse um tabuleiro de xadrez por aqui. – ele comentou, após falarem sobre o jogo. – Me faria bem ganhar mais uma coisa de você.
— Você não vai ganhar essa aposta. – ela reforçou, mas sem ter certeza no que dizia. – E eu acho que vi a Brown jogando hoje com uma das gêmeas.
— É mesmo? – ele respondeu, com os olhos no celular pesquisando alguma coisa. – Vou falar com ela depois. O vestido que ela usava hoje era bonito, não achou? Era azul, você fica bem naquela cor também.
Ele tinha achado Lavender Brown bonita, claro que tinha. Quem não acharia a capitã das líderes de torcida bonita? Era um crime que aquela garota tivesse usado um vestido tão bonito naquela ocasião. Até Hermione tinha olhado para ela por tempo demais. As pessoas costumavam usar dourado ou branco na véspera de ano novo, mas Lavender, claro, teve que se destacar estando de azul. Ela disse que era para atrair tranquilidade e saúde. Até parece. Ela causou uma parada cardíaca em metade dos garotos daquele lugar.
— Já que estamos aqui, vamos ouvir uma música. – ele aperta o botão de iniciar em seu celular. – E nada de reclamar.
Os tons calmos e – para a surpresa de Hermione – tristes invadiram os ouvidos dela. Era uma música romântica e triste ao mesmo tempo. Um eu lírico que implorava pelo amor de alguém. Ela não se atreveu a olhar para o rosto ao seu lado, apenas encarou a lua refletida no lago.
Ronald estava colocando uma música romântica após eles terem conversado sobre Lavender Brown. Não importava que ele lhe dissesse palavras bonitas, ou que eles fossem melhores amigos. No fim do dia, era a capitã das líderes de torcida que ficava com o garoto. Todos sabiam disso.
Give a little time to me or burn this out
We’ll play hide and seek to turn this around
All I want is the taste that your lips allow
My, my, my, my, oh give me love
Ronald não sabia o que estava sentindo naquele momento. Ele tinha apenas colocado uma música para aumentar suas chances de ganhar a aposta e fazer com que Hermione se apaixonasse pelas músicas, não pretendia que o mesmo efeito ocorresse nele.
Ela estava linda naquela noite. Rony sempre a vira como uma garota linda, mas agora ele realmente a enxergava. Não soube explicar como nem o porquê disso ter acontecido agora. Foi como se algo em sua mente tivesse finalmente se encaixado. Ele apenas tinha decidido seguir a amiga até o lago, naquele frio que ele odiava, porque não queria deixa-la sozinha. Agora, não queria sair daquele lugar nunca mais. Pouco lhe importaria se alguma coisa acontecesse naquela festa, a pessoa mais interessante estava ali com ele, e era tudo o que ele precisava.
O que isso significava? Ele não poderia estar apaixonado. Poderia? Aquela era Hermione. Eles eram apenas melhores amigos, certamente a garota o via assim. Era vergonhoso que estivesse com vontade de segurar sua mão naquele momento. Pior, ele queria abraça-la novamente, como fez à meia-noite, mas não faria aquilo.
Definitivamente o que estava sentindo não era paixão. Não poderia ser. E daí que ele a achava a garota mais bonita que já tinha visto em toda a sua vida? Certamente outras pessoas naquela escola também pensavam isso. Aquele intercambista búlgaro do ano passado não tirou os olhos dela. Bufou irritado com a memória. Ainda sentia uma pontada no peito quando se lembrava de como Hermione olhou para aquele garoto. Nunca tinha visto a amiga olhar daquele jeito para ninguém, e aquilo o deixou, por algum motivo, apavorado. Ele sabia que estava sendo ridículo, afinal, ela não iria parar de ser sua amiga se começasse a namorar. Seu alívio foi quando o visto do intercambista expirou e tudo voltou a ser como antes.
Aquilo teria sido ciúme? Não, definitivamente tinha sido medo de ser deixado de lado. Se bem que amigos têm permissão para sentir ciúmes um do outro. E amigos podem achar outros amigos bonitos também, não podem?
Sentimentos deveriam vir com um manual de instruções.
— É uma linda música. – ela comentou secamente, ainda fitando o lago.
— Época em que Ed Sheeran ainda fazia músicas boas. – ele pausou antes que outra música pudesse começar e confundir ainda mais seus pensamentos. – Espera aí. Você disse “música” e não “barulho”?
— Saiu sem querer. – ela voltou a olhar para ele, reprimindo um sorriso. – Eu quis dizer que é um barulho aceitável.
— Já vou ligar pro Cabeça de Javali e fazer a reserva.
Ela revirou os olhos e murmurou um “convencido”, que fez com que Rony sorrisse. Adorava quando ela fingia ficar brava com ele, pois ela sempre virava o rosto em seguida para esconder um sorriso. Ela fingia ficar brava e ele fingia acreditar, para lhe deixar feliz.
— Acho que ficamos conversando aqui tempo demais. – ela comentou, fitando o horizonte. – O sol está nascendo.
Rony tinha se esquecido do mundo ao seu redor a partir do momento em que se sentou naquela pedra. Ficou surpreso quando encarou o mesmo ponto que Hermione e viu o céu tomando cores azuis claras, que antecediam os tons alaranjados dos primeiros raios de sol. Ele preferia esse azul, lhe lembrava o vestido que Hermione tinha usado no baile de Homecoming ano passado.
Pare de pensar em como Hermione estava bonita!
— É a coisa mais linda que já vi. – ele disse, enquanto a encarava. Sentiu as bochechas esquentarem, mesmo que ela não tivesse percebido seu gesto. – O nascer do sol, claro. Gosto dos tons de azul que ficam nesse começo.
— Claro que gosta de azul. – ela bufou, irritada por algum motivo. – Acho que vou dormir.
Rony repassou as últimas conversas em sua mente, tentando decifrar o que teria deixado a garota brava de verdade. Ela se levantou rapidamente, dando batidinhas na calça para que retirar as sujeiras da pedra, e começou a andar decidida para dentro do resort. Ele não tinha dito nada, pelo menos dessa vez. Talvez estivesse irritada por estar perdendo a aposta, ou porque estivesse com sono. Provavelmente uma combinação dos dois.
— Do que está rindo? – ela parou de andar quando entraram, fuzilando-o com os olhos.
— De você. – o olhar dela piorou quando ele disse essas palavras, deixando-o nervoso. – Não é algo ruim! Eu só acho engraçado como você fica irritada com sono.
— Isso não é verdade.
— O jeito que você cruzou os braços agora, como uma criança revoltada, prova o meu ponto.
Ele riu mais ainda quando ela desfez o gesto. Sua risada ecoou no salão e ele percebeu que a festa tinha acabado. Algumas garotas ainda estavam ali, carregando os sapatos nas mãos em direção ao dormitório, mas não se importaram com a presença dos dois. Era como se estivessem sozinhos.
— Se lembra de quando fizemos aquela festa do pijama lá em casa? – ele continuou a falar, enquanto pegava copos no chão. – Você foi de oito pra oitenta em questão de segundos quando ficou com sono.
— Isso já faz uns dois anos.
— E dai? Você ainda fica mal humorada com sono. Naquela noite você estava assistindo Rei Leão com a gente, cantando todas as músicas...
— Eu não estava cantando. – ela interrompeu, com as bochechas vermelhas.
— Estava sim. Muito mal, na verdade. – ela jogou um dos copos vazios nele com o comentário. – Ei! Tudo bem, mas você sabe que eu apenas constatei um fato. O ponto é: você estava se divertindo e, do nada, começou a ficar mais rabugenta que o Scar.
— O Scar não é rabugento.
— Ele é o leão mais rabugento que já existiu. Ficava reclamando o dia todo e matando ratinhos para se divertir. E se um daqueles ratos fosse o Perebas? Já pensou nisso?
— Ronald, você precisa superar o Perebas. Ele foi apenas um rato que apareceu na sua casa e que você não devia ter pegado para criar.
— Ele estava sozinho no mundo!
— Eu não vou discutir isso de novo.
Ele sorriu, vitorioso, enquanto jogava mais alguns copos no lixo. Em seguida, se apoiou com o cotovelo no balcão, observando Hermione fazer uma pilha de purpurina dourada que estava no chão com o pé. Mesmo com os cachos castanhos caindo em seu rosto, ele conseguia vê-la mordendo o lábio, como sempre fazia quando estava concentrada. Às vezes, Rony perdia tempo nas provas da escola porque passava minutos demais observando o tique de concentração da amiga.
Pela primeira vez em sua vida, não desejou que nenhuma música tocasse. O silêncio deixava que ele se concentrasse apenas nos movimentos de Hermione. Ela parecia perdida em seus pensamentos, embora ainda fizesse a pilha com os pés. Queria saber no que a amiga pensava, apesar de deduzir que, provavelmente, seria sobre algum de seus livros favoritos. O que ela faria se soubesse que ele estava pensando nela? Sairia correndo, com toda certeza. Ela era boa demais para ele, e Rony sabia disso.
Ele era sincero consigo mesmo, afinal de contas. Sabia que Hermione merecia alguém melhor que ele. Em toda a sua vida, achou que ela e Harry ficariam juntos em algum momento. Quem não iria preferir o amigo? Ele era capitão do time de futebol de Hogwarts, tinha notas aceitáveis, era divertido e tinha a aparência que deixavam todos atrás dele. Céus, até Rony ficaria com ele.
A maior surpresa foi quando viu Harry beijando Ginevra. Nunca, em um milhão de anos, imaginou que sua irmã caçula ficaria com seu melhor amigo. Ele não ficou irritado quando descobriu, apenas surpreso e... aliviado. Percebeu agora que talvez o alívio viesse não somente de saber que sua irmã teria um bom namorado, mas também de saber que Hermione e Harry não estavam juntos.
Será que era nele que Hermione estava pensando? Ela parecia genuinamente feliz pelo casal, mas talvez apenas soubesse esconder bem. Talvez essa viagem, ver os dois juntos e mais apaixonados do que nunca, tenha feito perceber que gosta de Harry. Seria irônico que ela percebesse gostar de Harry ao mesmo tempo em que Rony percebeu gostar dela. Uma péssima piada do destino.
Uma chuva de purpurina dourada caiu em cima de si mesmo, e ele foi trazido de volta para a realidade. Hermione o olhava com um sorriso brincalhão no rosto. Meu Deus, ele pensou, eu amo esse sorriso. Gosto! Não amo. Nada de amar. Eu gosto desse sorriso. Gosto muito.
— Por que essa cara emburrada? Achei que era eu quem ficava irritada com sono.
— Você fez toda aquela pilha só para jogar em mim? – ele ignorou a pergunta, sacodindo seu cabelo e espirrando algumas purpurinas nela.
— Claro que sim. O que mais eu faria? Jogar no lixo não tem tanta graça quanto jogar em você. – ela se apoiou com o cotovelo do outro lado do balcão, olhando para ele. – Ficou parecendo uma coroa.
— Ou caspa dourada.
A risada dela ecoou pelo salão, alegrando o peito de Rony. Nenhuma de suas músicas favoritas se comparava àquele som. Ele adorava, principalmente, quando causava aquele efeito nela. Hermione não costumava rir de qualquer coisa, mas sempre ria de suas piadas ruins, e isso fazia seu dia. Ronald podia não ser bom em muitas coisas, mas se orgulhava de ser bom em arrancar um sorriso de Hermione.
O riso dela sumiu imediatamente quando ela pegou o celular e correu os olhos pela notificação da tela. Suas bochechas adquiriram um tom avermelhado, como se tivesse envergonhada. Como uma mensagem a deixaria sem graça?
— Harry me mandou uma mensagem achando que era para você. – ela disse, entredentes, lendo a mensagem em seguida. – “Cara, estou com a Ginny aqui. Durma na Hermione, por favor.”.
— Ele conseguiu digitar assim estando bêbado?
— Não, eu fui corrigindo enquanto lia. – ela bufou, guardando o celular novamente no bolso. – O que fazemos agora?
— Eu durmo no seu quarto. – ele disse enquanto saía de trás do balcão, andando em direção às escadas que levavam para o lado dos quartos femininos.
— A mãe do Malfoy disse...
— Mione, eu duvido que Harry seja o único a estar quebrando as regras hoje. – ele a interrompeu. – Os pais do Malfoy só fizeram isso para tentar segurar um bando de adolescentes de dezessete anos, mas todos sabiam que não ia funcionar. Aposto que o próprio Malfoy tá quebrando as regras agora.
Assim que pisou no corredor dos quartos das garotas, notou que estava em uma ala mais chique do resort. A distância entre as portas deu a impressão de que os quartos deveriam ser maiores do que o que ele fora designado. Talvez Harry estar com a sua irmã não fosse tão ruim assim – apesar de que ele estava negando em sua cabeça que sua irmã caçula estava sozinha com um garoto.
— É esse. – Hermione girou a chave na porta, um pouco nervosa.
Por que o nervosismo? A teoria de que Hermione tinha se apaixonado por Harry se tornava cada vez mais possível. Talvez a mensagem tivesse sido um choque para ela. Ele sentiu raiva do amigo por deixa-la desse jeito.
Quando seguiu Hermione para dentro do quarto, seus olhos focalizaram diretamente a bagunça no canto direito do quarto, que certamente pertencia à sua irmã. Hermione nunca deixaria suas roupas jogadas em cima da mala, muito menos sapatos virados de ponta cabeça; ela sempre organizava suas roupas por cores. Continuou analisando o quarto, passando pela penteadeira, a porta do banheiro – uma suíte? Os garotos não dormiam em suítes. Foi quando ele olhou para o outro extremo do quarto.
Ah, ele engoliu em seco, só tem uma cama.
— O meu quarto tem duas camas. – ele comentou, de repente sentindo-se um pouco claustrofóbico. – Por que eles não usaram esse aqui?
— Porque eles são idiotas.
Ele concordou enquanto pensava no que fazer a seguir. O chão não parecia muito confortável, mas certamente não ficaria tão gelado se ele se enrolasse em alguns moletons jogados da irmã. Não poderia dormir com Hermione. Ele queria abraça-la a noite toda, acariciar seu cabelo enquanto ela caísse no sono, mas não podia fazer isso.
Eles ignoraram o objeto pelo maior tempo que conseguiram. Revezaram o uso do banheiro para escovar os dentes, Hermione trocou de roupa para um pijama, e então voltaram para o problema principal. Nenhum dos dois sabia o que fazer com relação àquilo.
— Me empresta um travesseiro? Eu coloco aqui no chão e me enrolo em algumas blusas, não vai ser nada demais.
— Ronald, está congelando e você odeia frio. – ela foi até o lado esquerdo da cama, levantando o edredom. – A cama é grande o suficiente. Eu e Ginny nem nos esbarramos durante a noite.
— Eu sou maior que ela.
— Você está sendo mais teimoso do que o normal. – ela bufou irritada. – Deita logo. Sou tão desprezível assim?
O tom irritado em sua voz o deixou assustado. Decidido a não contrariar, contornou a cama até o lado direito, deitando-se ao seu lado.
— Eu apenas estava com medo de você ter bafo matinal.
— Você é ridículo.
— Eu sei, é uma das minhas qualidades. – ele sorriu para ela, virando de lado para observa-la.
Ela tinha razão, a cama era mesmo grande. As chances de se esbarrarem durante a noite eram mínimas, ele não deveria se preocupar com isso. Preferia não descobrir como seria dormir abraçado com Hermione, afinal, não poderia sentir falta de algo que não soubesse a sensação.
— Espero que você não ronque.
— Engraçadinha. Eu durmo igual a um anjo, você vai ver.
Relutante, ele percebeu, Hermione se inclinou para apagar as luzes. Ela murmurou um “boa noite” antes de apertar o interruptor, virando-se de costas para o garoto imediatamente.
Ele podia ouvir a respiração da garota, tão pesada quanto a sua. Sabia que deveria relaxar para conseguir adormecer, mas seu coração nunca esteve tão acelerado. Ele nunca tinha ficado nesse estado, nem mesmo na final do seu primeiro campeonato de futebol.
O que estava sentindo, afinal de contas? Seu estômago estava tão agitado que nem conseguia pensar em comida. Seu cérebro só conseguia pensar que Hermione estava ali, ao seu lado. Sua mão parecia querer ter vida própria, pois ele sentia que, a qualquer momento, seguraria a mão da garota ao seu lado.
Na extremidade direita da cama, Rony adormeceu, derrotado pelo cansaço. Ele não percebeu quando foi o momento em que parou de pensar em Hermione, pois a encontrou novamente em seus sonhos.
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