Aqui ou em lugar nenhum
1 Capítulo 1
Notas iniciais
– Você acredita no amor? — perguntou Mei Lin. — Não acreditava até te conhecer.
Desespero. Não. Tristeza. Talvez uma mistura desses dois sentimentos. Desde pequeno sofro de depressão, então, resolvi buscar um desses grupos coletivos de ajuda. Talvez essa tenha sido uma das decisões mais importantes de minha vida. Suspirei. Era hora de entrar na sala. Fitei as pessoas ali sentadas, praticamente todas mantinham a cabeça virada para o chão, quase todas.
Uma jovem, cabelos castanhos, rosto corado, aparentava ter 20 anos, não mais que isso, mantinha seu olhar reto e fixo em uma cadeira na frente das outras, provavelmente a cadeira em que a pessoa responsável pelo grupo ficaria. Seu olhar não expressava nenhuma emoção, apenas olhava fixamente para a cadeira.
Resolvi entrar na sala e me sentar, escolhi uma das cadeiras que não fazia contato com outra que estava sendo usada, assim, poderia me sentir um pouco mais confortável, fazer amigos nunca foi meu forte.
– Muito bem, aqui estão todos vocês. — Um homem corpudo e de no máximo 1,50 m de altura entrou na sala. — Me chamo Hao Min, sou eu quem ira conduzir as reuniões. Disse em tom alto, mas demonstrava vergonha ao mesmo tempo. -Sei que alguns de vocês foram trazidos por vontade de pessoas próximas, mas também sei que outros em particular vieram por vontade própria.
– Agora, para iniciar a primeira reunião, quero que cada um de vocês se apresente, contem seus problemas, compartilhem seus medos, isso ira ajudar vocês a se sentirem mais confortáveis aqui. — disse Hao Min. — Primeiramente vou me apresentar.
Esse era um dos momentos pelo qual eu já esperava, sempre fui extremamente tímido, nunca fui de fazer amigos e muito menos esperar ter de me apresentar na frente de outras pessoas. — Vamos começar com você. — falou Hao Min.
A medida com que as apresentações iam sendo conduzidas meu nervosismo só aumentava, era um dos últimos junto com a moça que continuava olhando fixo para a cadeira em que Hao Min estava sentado.
– Pois bem, estamos chegando aos dois últimos que vão se apresentar, tenho mantido foco em um deles durante as demais apresentações. -entrei em pânico nesse momento, por um segundo pensei que ele estava falando de mim. -Essa pessoa em especial veio conversar comigo antes da sessão, a mesma pediu para ser a primeira a se apresentar, mas achei melhor deixar sua apresentação para o final, então, você é o próximo. — Hao Min apontou em minha direção. — Compartilhe o que desejar. — Terminou.
Encarei Hao Min e levantei. — Olá a todos. -disse observando o restante da sala. — Meu nome é Jin Yan, tenho 22 anos, com 3 anos fui trazido para um orfanato em Guangdong. — Fui interrompido por Hao Min. — E sua família? O que aconteceu com eles? -disse cruzando as pernas. — Minha mãe morreu momentos após o parto, e meu pai, pois bem. — respondi encarando Hao Min, que percebeu o meu jeito de repetir suas palavras. — O mesmo teve um colapso nervoso e se enforcou dias após meu nascimento.
Hao Min e o restante da sala ficaram me olhando por um tempo, menos a moça que continuava fitando a cadeira de Hao Min com seu olhar sem expressar emoções. — Fiquei nesse orfanato até meus 12 anos de idade. — continuei. — Fui adotado por uma senhora que veio a falecer quando tinha 17 anos, desde então vivo sozinho aqui em Pequim. — Todos continuavam me olhando, exceto por aquela moça. -Sofro de depressão profunda desde criança, tenho crises de ataque de ansiedade e pânico constantes. — Disse enquanto encarava o chão. — Acredito que seja apenas isso. — Terminei dando fim a minha apresentação.
– Pois bem. — Hao Min me encarava com um sorriso no canto de sua boca. — Agora que nosso amigo Jin Yan terminou de se apresentar, queria que vocês conhecessem essa moça aqui sentada. — Todos viraram a cabeça em direção a cadeira onde ela continuava fitando o acolchoado, inclusive eu. -Alguns de vocês já devem ter reparado nela. — Disse virando-se imediatamente para mim.
Hao Min se levantou e foi até o canto da sala, onde havia uma bengala envolta a uma fita azul, ele a pegou e foi até a moça, entregando-a a bengala. — Essa era a pessoa com quem eu queria que vocês conhecessem. — Terminando sua frase o mesmo voltou a se sentar.
A moça agora apoiada a bengala levantou-se. — Meu nome é Mei Lin, tenho 21 anos, fui abandonada pela minha família aqui na frente desse prédio, onde Hao Min me acolheu, com 12 anos fui brutalmente estuprada por um dos zeladores aqui do prédio, após esse dia, como alguns já devem ter percebido, me tornei cega, fato que não mudou minha vida em muita coisa, apenas minha maneira de ver o mundo. — Disse dando uma risada sarcástica. Hao Min agora encarava Mei Lin com um sorriso desajeitado. — Como nosso amigo Jin Yan, também sofro de profunda depressão, e acredito que isso nunca vai desaparecer de mim, independente de comparecer as reuniões ou não.
Então após terminar sua fala, Mei Lin fez o movimento contrário de quando se levantou, depositou sua bengala nas mão de Hao Min que agora de pé a colocava no canto da sala. — Pois bem, acredito que após esse inspirador discurso. — Mei Lin soltou outra risada em tom de sarcasmo. — Posso dar a reunião como encerrada. — Continuou Hao Min. — Espero vocês aqui, amanhã, onde daremos continuação aos temas que serão debatidos. — Terminou voltando a me encarar.
Junto aos outros fui em direção a porta para me retirar da sala, provavelmente aquele tenha sido um dos momentos mais constrangedores e inesquecíveis de minha vida, ver como aquela moça cega enxerga o mundo é algo que não conseguiria explicar a ninguém que não estivesse presente naquele momento.
– Ei, Jin Yan. — disse Mei Lin, agora de pé apoiada a sua bengala. — Venha cá.
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