Aquelx que não pôde ser salvx

1 Capítulo Único - Loucura Doce Obsessão.


Eu não ligo para como você se sente.
Você nunca me perguntou se eu estava bem.
Você nunca olhou em meus olhos com a sinceridade de quem sequer se incomodaria em fazê-lo.
Mas nada disso serve-me de algo. Não mais. Não agora que seu sangue gela meus dedos dos pés.
O vermelho é uma cor muito interessante de se observar, sim! Vermelho. Minha cabeça roda em vermelho quando penso coisas que me fazem questionar minha própria existência. Mas não se preocupe, não! Eu logo darei um jeito de puxar o plugue da tomada.

Não como se de algo me servisse a sua piedade. Não como se eu implorasse pela sua existência, não seja tolo. Seus gemidos de dor ecoam pelos meus ouvidos, enlouqueço novamente.
Berro seu nome, você não está aqui. Por que você não está aqui? ONDE VOCÊ ESTÁ? Você está mortx. Eu matei você? Sim, matei. Não me lembro do motivo. Talvez eu tenha sido egoísta novamente. Não que isso devesse te surpreender.

Você sempre disse que eu era egoísta. Uma batida agonizante faz minha cabeça rodar novamente. Eu não sei o que estou fazendo, eu não sei onde estou, o que está acontecendo? O que fazes deitadx nesse chão frio, nesse rubro líquido que graciosamente se faz presente em todo o cômodo?
Eu não sinto pena de você. Acho graça. Estremeço. Sorrio.
Pois você fez por merecer. Ou não fez. Eu não lembro. Ou só não importa? Pode ser isso. O clima mórbido toma conta da sala. De que sala se trata? Bem, eu não me lembro. Eu sequer lembro seu nome. Não mais. Não lembro o que fizeste. Não lembro o que fiz. Lembro que dancei, e vi o sangue escorrer pelas paredes, e pelo chão, e por minha pele... Seu sangue. Meu sangue. Sangue frio, sangue mórbido. Sangue quente que corre em minhas veias, já o que escorre suavemente pelos meus dedos me passa uma sensação surpreendentemente desesperadora. Você quis brincar comigo de uma brincadeira terrivelmente desagradável, e você me viu chorar. E você riu abafando meu choro. Agora eu choro novamente, choro a sua morte. Lágrimas, suor, e sangue, e agonia, e ansiedade, e culpa, e satisfação, e justiça. Que justiça?
Você não quis brincar comigo, e isso me magoou. Eu deixei você brincar comigo e perdoei todas as vezes em que você me fez chorar. E você não quis brincar comigo?!
Agora eu brinco com um cadáver do que um dia foi você. Seguro sua mão gelada e penso. E penso, e relevo os detalhes, concluindo que você não era tão ruim assim. E você me fazia feliz. E você me fazia rir. Agora eu rio, rio porque me recuso a chorar novamente. E ainda por sua causa...? Não, não agora. Não comigo nesse estado.
Tanto eu te avisei. Tentei de várias formas avisar que eu não estava bem, e que precisava de sua ajuda mas novamente você insistia em falar sobre aquela pessoa cuja companhia você parecia apreciar mais que a minha, ou sobre aquelas pessoas com quem você se divertia muito mais que quando estava ao meu lado. Sempre era os outros, e os outros, e nunca eu. Não, nunca eu. Sempre em último plano. Sendo que mesmo que você não ligasse, eu ainda assim mataria por você. E eu morreria por você. E veja só quem eu acabei matando. Agora não mais. Não mais.

Talvez você estivesse certx. Talvez eu seja mesmo louca. Mas não se preocupe: você não terá de lidar com isso. Nunca mais. Porque eu não irei pra onde você foi. E sempre soube disso. Talvez por isso eu sempre insistisse um pouco mais pela sua atenção: eu temia o momento em que eu não pudesse mais estar ao seu lado. E eu acabei causando isso. Porém não divagarei. Basta. Seguro o revólver a altura da minha cabeça. Você abre os olhos. Eu os encaro uma última vez.

Desculpe... Não mais que isso sai de minha boca. Engulo em seco. X observo tentar, em vão, me impedir de fazer o que desde o começo fora a solução de tudo. Tanto para mim, como para você. E não só para nós: para mais gente do que meus dedos podem contar. E você não sabia o quanto eu x amaria. E você nunca vai saber. Me perdoe, por favor.

Seus gritos foram abafados por causa do som causado pelo gatilho agora puxado. Eu espero que você ache mais alguém para culpar. Ou qualquer coisa que o favoreça. E o melhor da felicidade. Mas "nós" acabou. Eu sinto muitíssimo. E mais, eu fiz o que pude. (In?) Felizmente essa foi a única saída para mim. Adeus, XxXxX.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!