Aqueles que se renegaram

1 Aqueles que se renegaram


Ao ruar, avistei belas mulheres vagando pelas ruas, bolsas incandescentes, cigarros apagados e um brilho retido num saco de borrachas.

Véspera de ano novo, a cidade desértica lembrava-me uma bolha impenetrável que só a luz poderia interpelar a verídica escuridão criada pelo homem aprisionado em uma garrafa pet.

A vida é diferente além das muralhas, nos carros vemos famílias felizes festejando o ir e vir de mais um ano, nos pontos de ônibus a nula perplexidade dos cidadãos, as luzes de uma praça qualquer substituída por sombras que ocultam seus seguidores.

Em copos fundos de bebidas, homens e mulheres se encontram, exaurem-se por uma dose a mais que custa as suas preciosas vidas. Após a impetuosa noite que procede o álcool e as drogas, há cadáveres esparramados pelo chão, tingindo a grama de cinza aparência.

Percorrendo o lixão, você encontra almanaques, e na hora morta o que existe é longe de felicidade. É implosão, invigilância, um tributo ao Dionísio. Num saco de arroz, um morador de rua encontra seu saco de pancadas.

Confundo o natal com o ano novo e tudo aparenta ser a mesma coisa, é necessário um trabalhador da última hora para mostrar o lado pérfido da sociedade? Os olhos fundos e os carros rápidos.

Os indivíduos de um culto oculto esperam o passe-livre para terem permissão de se entregarem de corpo e alma aos vícios, desta vez com uma explicação. Comemoração, afinal, o mesmo álcool que é ingerido é o que limpa o sangue grudado no para-brisa.

Meninas novas chorando no chuveiro. Ainda há esperança, a minha motivação é tão motriz como o amor, mas aqueles que se cobrem com papelão, encontram a maior dor em um terço quebrado esquecido no carrinho de compras, por mais um ano descobrem o inevitável, a morada que já puderam chamar de lar, agora tem outro nome: Rua.

Necessitam de amparo, e não de um trago. Quem sou eu agora para desejar um feliz ano novo quando a logoterapia só dita caos aos outros? A minha felicidade não será plena enquanto o irmão ao lado, preso as truculentas correntes dos seus penumbrosos pensamentos, é pisoteado feito um animal sem pudor, ainda assim senciente.

Elevo um abraço, e por um momento acredito que ele engolfa os dois mundos que se juntam em uma festividade fluídica, fatal ou revigorante.

Espero que da água, o monstro se transforme em cisne, e a gota se transforme em oceano.

Que o mendigo encontre a felicidade no pão, o avarento na precariedade, e o puritano em suas orações.

Um imaculado recomeço a vocês, companheiros de caminhada.

FIM
01/01/2015

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