Aqueles que nasceram dentre os livros
4 Capítulo 4
Naquela noite, Mathias se viu contemplando o teto, antes de dormir, em seu quarto no seminário. Repassava em sua cabeça aquele encontro com a bibliotecária Lina na arquidiocese.
Após o que pareceram longos segundos, Lina afastou sua mão do rosto do seminarista.
-D-desculpe... — ela parecia totalmente encabulada. — Eu achei mesmo você uma gracinha, mas... é inapropriado. Me perdoe.
-Não tem... problema — disse Mathias, suprimindo um soluço. O animal em seu peito se agitou novamente, farejando o ar, como que movido pela curiosidade. — Não vou contar pra ninguém.
-O-obrigada! Então... aqui está a lista com os livros — disse ela, entregando o documento para o rapaz. — Para te ajudar... posso providenciar que sejam deixados ainda hoje, mais tarde, lá no seminário. O que acha?
Ela o fitava com aquele olhar perfurante, hipnotizante. Mathias precisou de alguns segundos para se lembrar de como articular as palavras.
-Ahn, sim, claro, seria ótimo — disse ele. — Normalmente eu não me incomodaria, posso conseguir uma sacola grande com o pessoal da igreja e levaria os livros eu mesmo...
-Mas é muito peso, Mathias! — contrapôs Lina. — Não pode se forçar tanto. É mais prático se mandarmos entregar lá. Minha chefe vai entender... ela me deve alguns favores. O carro disponibilizado pela catedral vai deixar rapidinho.
-Ah — Mathias estava genuinamente surpreso. A moça era tão bem conectada que já estava colocando o carro da catedral e os favores com a chefe à sua disposição... Aquilo o estava deixando sem jeito, mas também um pouco lisonjeado. — Bom. Já que insiste... Acho que seria melhor, também.
-Perfeito! Vou fazer umas ligações. Eu o acompanho até a saída...
Ela estendeu a mão para ele. Pareceu hesitar um momento, mas ofereceu-lhe a mão. Mathias aceitou e trocaram um leve aperto.
-Estive pensando — disse ela, enquanto saíam da biblioteca, Lina já com o documento de obras raras em mãos para proceder com o encaminhamento dos livros para o reitor Padre Wanderson. — Posso dar uma passadinha no seminário amanhã. Para conferir se... se tudo deu certo com o envio.
-Hmm. Acho que sim, acho que não tem problema — disse Mathias em resposta.
-O Padre Wanderson vai gostar — disse ela. — Ele sempre elogiou muito o trabalho daqui da equipe da biblioteca... E nossa equipe é bem unida. Vai gostar de ver que um de nós veio conferir que os livros foram entregues certinho, e em segurança.
De repente Mathias se deu conta de algo. O dia seguinte... Seu aniversário.
-Ahn, Lina, mais uma coisa, sobre amanhã...
-Ah, espera, já sei! Quer que eu avise quando eu estiver chegando? Espera, já sei o que fazer.
Ela puxou uma caneta do próprio bolso e riscou um número de telefone na mão de Mathias.
O rapaz ficou olhando, encabulado e estatelado, para o número desenhado a tinha em sua mão.
-Ah... Obrigado.
-Você consegue ser formal demais às vezes... rsrs — Riu-se ela com a postura de Mathias. — Até mais, carinha... Nos vemos amanhã.
Ela se esticou na ponta dos pés e deu-lhe um beijo na bochecha. Em seguida se virou, acenando para ele ao se afastar, e desapareceu em meio às estantes da biblioteca.
Mathias estava parado em frente à porta, mas demorou ainda para sair. Passou a mão de leve no rosto, acariciando o ponto aonde ela beijara-lhe na face. Quase não podia acreditar no carinho, simpatia e atenção que ela tivera.
...
...
...
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No seu quarto, sozinho na noite, esperando o sono lhe atingir, Mathias se lembrava de cada detalhe daquele encontro surpreendente. O animal em seu peito por vezes ronronava, por vezes se sacudia como se quisesse se libertar; como se ansiasse retornar para a biblioteca para encontrar a moça. Mathias sentia martelar constantemente em sua cabeça a informação de que ela estaria no seminário no dia seguinte — o dia do seu aniversário.
A tinta em sua mão havia derretido com o calor da cidade enquanto retornava para o seminário mais cedo. Porém, Mathias conseguira anotar em sua agenda e no seu telefone o contato dela. Havia automaticamente decorado o número da garota.
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