Aqueles Mesmos Olhos Azuis

1 E talvez ninguém nunca ficasse sabendo.


Sempre fui excêntrico.

Nunca do tipo que passa horas inteiras confinado na ausência de luz, mas excêntrico a ponto de, em determinado momento, não me lembrar dos acontecimentos das horas — ou mesmo dias — anteriores. Já me vi acordando na cama de pessoas das quais não me lembrava de ter conhecido; acordei também em países diferentes, em aeroportos ou hotéis baratos que cheiravam à poeira e desinfetantes de má qualidade. Talvez eu bebesse demais. Talvez eu fosse sonâmbulo. Ou quem sabe as duas coisas.

A verdade é que nunca quis realmente saber. A vida deve ser uma aventura e a minha, de um jeito não convencional, o era. Então resolvi não me importar.

E não me importei até aquele dia.

Acordei com a sensação de ter tido uma boa noite de sono. Meus músculos estavam relaxados e minha mente, calma, como a de quem acorda de um sonho bom. Um sonho que já havia se perdido nos becos da minha memória.

Quando abri os olhos, não havia nada para ser visto. A escuridão era total. Ou pelo menos foi total até eu perceber os poucos raios de luz que entravam ali por um estreito vão ao meu lado. Fechei os olhos novamente e, tentando permanecer calmo, inspirei profundamente o ar quente e quase pegajosamente palpável que me circundava. Tateei ao redor e entrei em pânico ao perceber que meus movimentos eram limitados pelo espaço pequeno. Sentir o chão áspero e empoeirado sob meus dedos em lugar de lençóis familiarmente macios me fez ter certeza de que algo saíra terrivelmente errado durante meu último período de inconsciência. Meu coração já batia mais depressa e minha mente tentava me pregar peças, criando situações, absurdas em sua maioria, que explicassem aquele momento, e todas elasme enchiam de medo.

Então, descobri que não me importava de acordar em lugares desconhecidos, contanto que pudesse vê-los.

Abri os olhos apenas para encontrar a mesma escuridão com a qual eu havia me deparado anteriormente. Tentei mover uma de minhas pernas, mas não consegui levantá-la mais de alguns centímetros. Aos poucos, a assustadora realidade foi se materializando ao meu redor. Era uma realidade sólida, úmida e sufocante e, de repente, os pensamentos absurdos que me vieram à mente momentos antes passaram a fazer algum sentido. Eu estava preso. Eu estava em um caixão. Meu coração batia com força e depressa, parecia se sentir preso dentro de mim, assim como eu me sentia naquele cubículo.

Imaginei-me sufocando.

Sem ar.

Morrendo aos poucos.

E talvez ninguém nunca ficasse sabendo.

Nervoso, tentei inspirar profundamente aquele ar denso e, temendo que isso fizesse o oxigênio disponível acabar mais depressa, me arrependi de imediato. Continuei a respirar o mais lentamente possível, mas me faltava ar e meus pulmões pareciam se contorcer, pedindo por mais.

Foi só quando, minutos depois, momento em que a razão se sobrepôs à euforia, soube que, durante todo aquele tempo, eu não podia ter estado mais errado.

Cometi o erro de entrar em pânico antes de pensar claramente e perceber que, obviamente, a julgar pela luz que entrava pela fresta próxima, eu com certeza não estava enterrado. Outro erro foi achar que eu estava preso antes de me certificar de que não havia mesmo como sair dali, e me surpreendi ao, na primeira tentativa, conseguir empurrar a pesada tábua de madeira que fechava o caixote em que eu me encontrava. E então eu estava finalmente livre daquela sensação de claustrofobia e pânico.

Vi-me em um cômodo amplo e sem mobília. Os raios alaranjados do sol de fim de tarde atingiam as paredes de madeira e as deixavam com aspecto avermelhado. Era comose, repletas de pequenas chagas abertas pela luz que as atingia como uma navalha, sangrassem. Levantei-me prontamente, deixando para trás o medo e emergindo com esperança. Aproximei-me da janela e tudo o que pude ver até onde a visão podia alcançar eram árvores. Metros e metros de vastas folhagens sacudidas pela brisa. Próximo à casa, estava parado um carro, e foi a primeira coisa familiar que vi. Me enchi com a certeza de que tudo ficaria bem e dei meia volta, pensando em alcançar a porta e sair logo daquele lugar. Entretanto, não dei mais de três passos. Cometi — novamente — um erro: não estava atento o suficiente e tropecei em meu peculiar leito que estava estrategicamente colocado no caminho entre a janela e a porta. Caí como se tivesse sido arremessado. Apoiei os braços no chão para que não batesse com a cabeça ou, quem sabe, fraturasse uma costela. Deslizei por alguns centímetros no chão áspero e sujo e só parei quando colidi com a parede escura, na qual os últimos raios de sol ainda eram refletidos. Enquanto tomava consciência dos hematomas em meus braços e canelas, amaldiçoei aquele dia, aquela casa e meu maldito hábito de acordar em lugares desconhecidos. Foi só depois de ter certeza de que, apesar da dor, estava tudo bem, que a ânsia de deixar aquele lugar voltou a tomar conta de mim. Apoiei a mão na parede com o intuito de me levantar, mas ainda havia algo errado. Senti minhas mãos estranhamente frias e, quando as olhei, estavam pintadas de vermelho. Um vermelho um tanto quanto pegajoso e escuro.

Sangue que se coagulava cobria parte da parede.

Procurei, alarmado, por feridas em meu corpo, mas nada encontrei. Nem feridas ou manchas de sangue nas minhas calças ou camisa. A essa altura, o entusiasmo que a ideia de sair do aposento me provocara anteriormente havia se transformado em receio: talvez houvesse alguém do lado de fora. Amedrontado, desisti da ideia de me levantar e permaneci sentado, atento a qualquer som. No mais absoluto silêncio e tentando me manter calmo a todo custo, procurei, em minha mente já incapaz de se utilizar de todo seu discernimento, por uma possível explicação.

A parede estava pintada de sangue, um caixão de madeira podre ocupava o centro do recinto e a luz alaranjada que ainda vinha do lado de fora fazia daquele um ambiente de aspecto incomum e, então, eu finalmente soube do que se tratava.

Aquilo não podia ser nada que não um sonho, daqueles nos quais não se pode correr por mais que se tente. Daqueles que chegam ao fim assim que o pior está prestes a acontecer e, então, só o que resta são lembranças confusas, alívio e suor. Eu acordaria em breve e não me lembraria de nada, mas ao menos estaria a salvo.

Permaneci imóvel e em silêncio. Inquietos, apenas meus olhos que buscavam ao redor por qualquer coisa, qualquer pista, qualquer chance. Atentos, meus ouvidos procuravam registrar qualquer som. Entretanto, ao fim de minutos, nada houve para ser visto ou ouvido e o temor que preenchia meu peito anteriormente, estava adormecido.

Resoluto, levantei-me tendo o chão como apoio. Minhas mãos vermelhas não deixaram qualquer marca no piso escuro: o sangue já havia secado. Deixando de me importar e já de pé, ignorando as pontadas de dor nas canelas que me incomodavam enquanto eu me concentrava em dar alguns passos, eu era uma figura desgrenhada e suja de poeira e vermelho que atravessava o quarto laranja para chegar à porta que se abria para a escuridão.

A cada passo que dava, me distanciava daquele quarto com o qual já havia me familiarizado. O nervosismo se tornava novamente parte de mim. Já não sentia a dor. As palmas de minhas mãos suavam, tornando-as, novamente, pegajosas. Meu coração palpitava, agitado.

Tum-tum

Eu podia ouvi-lo. Mais alto que meus pensamentos.

O retângulo de trevas que me levaria ao corredor estava cada vez mais próximo e

Tum-tum

Eu ainda podia ouvi-lo, cada vez mais alto.

E então, o que me separava do laranja e da escuridão era um passo apenas. E eu estava sonhando, então o que tinha a perder? Apenas um passo.

Tum-tum, ele batia e uma gota escorreu de minha mão quente.

Mais um passo e só o que havia ao meu redor era escuridão. O laranja ainda estava ao meu lado, então eu podia enxergar. Mas a escuridão tocava meu rosto, meus braços e minhas mãos.

Meu coração batia.

E a janela estava aberta.

O vento alaranjado tomou o quarto como se fosse tão sólido quanto a porta que bateu com força, aprisionando, para sempre, aquele que fora meu último leito.

E então só havia escuridão e

Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.

A escuridão tocava meu rosto, meus braços, minhas mãos e meus olhos não enxergavam nada. Eu poderia esticar um braço, dar um passo, gritar, tentar abrir a porta que acabara de se fechar. Mas nada fiz. Permaneci imóvel, paralisado, sendo tocado pela escuridão. Meu coração ainda batia. Eu ainda estava – estava? — vivo. Mas eu não sentia, não via, não ouvia.

Dei um passo. Nada. Sem rangidos ou surpresas. Meus olhos tocavam o ar procurando por algo que quisesse ser visto, apesar de eu torcer para que o que quer que fosse, não quisesse ser encontrado. Mas só vi o nada. Estava abafado e o suor começava a brotar sobre minhas sobrancelhas.

Dei mais um passo e meus pés ficaram para trás enquanto meu corpo, em um movimento incerto e desajeitado, atravessou o espaço até chegar ao chão. Mas o chão não era apenas o que deveria ser. Era chão, sujeira, líquido, sólido e mau cheiro. Meu rosto repousava sobre uma poça de metal e o que meus lábios tocavam era morno e úmido. Limpei o rosto com meu antebraço e permaneci deitado.

Tum-tum. Tum-tum.

De onde eu estava, tudo parecia como de início, a não ser pelo líquido, sólido e o mau cheiro. As paredes pareciam próximas demais, o teto parecia estar logo acima do meu nariz e então eu estava novamente confinado em meu próprio caixão de alvenaria.

Movi os pés e eles chutaram algo pesado e inerte. Levantei as mãos acima do corpo e confirmei que, ao contrário do que eu havia imaginado, o teto ainda estava onde havia estado o tempo todo.

E aquele ainda era o corredor de trevas.

Inspirei profundamente aquele ar pegajoso e quente e ignorei a sensação desagradável de senti-lo atravessar minhas vias aéreas e chegar a meus pulmões como um fardo.

O líquido metálico encharcava minha camisa, meus cabelos e minha mente: apesar da escuridão, tudo o que eu via era vermelho. Peguei em meu bolso um isqueiro e o acendi. A chama trouxe, por apenas um segundo, o cômodo laranja para o corredor vermelho. Paredes vermelhas, braços vermelhos, pernas vermelhas, troncos vermelhos, poças vermelhas. Minha mão vermelha. Uma faca em minha mão vermelha.

O terror que tomava minha mente me impedia de pensar.

Fogo. Vermelho. Faca.

Eu.

Inspirei profundamente, mas não conseguia respirar.

Olhei para a esquerda. Eu beijara um braço sem vida. E uma cabeça, logo ao lado, me olhou com desdém.

A luz se foi. A escuridão havia vencido.

A luz voltou.

Olhei para a direita. Um pedaço quebrado de espelho refletia a claridade da chama vermelha.

Inspirei profundamente, mas não conseguia respirar.

Meu pescoço doía. Ele estava vermelho.

Eu não conseguia respirar.

Tentei ver alguma coisa e finalmente consegui: eram olhos azuis.

Aqueles mesmos olhos azuis que haviam me encarado de volta sempre que eu olhava para o espelho.

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