Aquele(a) Azul
1 One-shot
Notas iniciais
Pela primeira vez em uma semana, o céu noturno não parecia prestes a engolir Arcadia Bay em uma catástrofe da natureza totalmente desequilibrada. A Lua permanecia intacta, sem a sua irmã gêmea da noite anterior (Pode dizer que foi coisa da minha cabeça, mas eu realmente vi uma Lua duplicada. Nossa.) Era uma cena até bonita, para falar a verdade: a grama úmida reluzia o brilho da névoa invernal. Não havia um único indício de destruição iminente- sabe-se lá quanto tempo isso duraria.
Virei meu rosto da janela do quarto de Chloe e encarei os enormes pôsteres pendurados na parede. As bandas de rock e os grafites grosseiros combinavam com o estilo da garota punk. Até mesmo a bandeira dos Estados Unidos não me impressionava; ela realocou o tecido rasgado para servir de cortina. O tio Sam ficaria muito feliz com isso.
-Ei, hipster, sei que meu quarto é foda pra caralho, mas ver você aí olhando tudo como um zumbi tá me assustando- a garota de cabelo azul me puxou dos típicos devaneios.
Chloe, jogada na cama, acendia seu segundo cigarro. Mesmo segurando o celular próximo ao rosto com uma mão e a droga com a boca, tinha habilidade em usar o isqueiro rapidamente. Essa era uma capacidade que eu não gostava, mas já havia me acostumado.
-Ah, eu só tô pensando. Em tudo, para falar a verdade.
-Você parece mais chapada que eu, e olha que isso não foi um elogio- Chloe exibiu seu sorriso de malandra.
Apenas inclinei a cabeça e mostrei a língua.
-Posso ser hipster e tal, mas tenho certeza que maconha não é minha parada. Sacou?
Seu sorriso se transformou em uma careta.
-Puta merda, isso já foi demais. Estamos voltando pros anos oitenta?
-Seria tão legal! A gente poderia invadir uma loja de discos de vinil! Que sonho...
-Max, você não vai me voltar no tempo para fazer isso, ok? Tô fora de convenções nerds- ela afirmou, enfatizando o “nerd” no final.
Movi meus dedos com a mão espalmada, formando o sinal de paz.
-Não precisa dizer mais nada. A nerd aqui é da paz.
E caímos na gargalhada, como fazíamos quando éramos crianças. Pelo menos algumas coisas nunca mudam, assim como a antiga mancha de vinho que nunca saiu do tapete e do sofá de Joyce.
Enquanto eu retomava fôlego, Chloe me observava com uma expressão menos engraçada.
-Mas sério, agora me conta. Eu já tô acostumada com as suas brisas, mas você ficou uns dez minutos encarando minha janela. Devo perguntar se tá tudo bem? Depois dessa semana louca, né.
Suspirei, um pouco constrangida em saber que a deixei no vácuo por tanto tempo. Por que tenho que pensar tanto justamente quando estou com ela?
-Como você disse, essa semana foi do caralho. Eu só tô feliz que as coisas estão dando certo, pelo menos por agora. Conseguimos evitar a festa do Clube Vortex e avisar o David para ir atrás daquele psicopata. Então, finalmente tenho uma noite em que não preciso me preocupar com minhas cagadas na linha do tempo.
-Cagadas? Você tem sido uma puta salvadora nesses dias. Então, dá um tempo, Mad Max –ela fez uma pausa-Não era para ser um trocadilho.
-Não sou heroína coisa nenhuma. Eu só tenho ferrado com a linha do tempo. Sem contar com as realidades alternativas...- Percebendo a merda que estava falando, cobri a boca com as mãos.
Chloe ergueu uma sobrancelha.
-Do que você tá falando? Não precisa me esconder nada, Max. Eu não mordo, sabe?
Dei uma risada tensa, abafada pelas mãos.
-Hmfoof- sussurrei, torcendo pra que não me ouvisse praguejar.
Tarde demais. A garota punk já tinha pulado da cama e estava fazendo cócegas na minha barriga. Soltei as mãos e comecei a rir descontroladamente.
-Você não pode me pegar, pirata!- exclamei enquanto corria pelo quarto, fugindo da capitã dos mares da infância.
Após umas corridas ao redor do quarto, demonstrei minha incrível capacidade atlética tropeçando na caixinha de fotos de Chloe e caindo com tudo na cama. Ainda correndo, ela se jogou em cima de mim e segurou meus pulsos para que não pudesse mais fugir.
-Vamos lá, marujo, prometo não jogá-la na prancha hoje!
-Você é inacreditável- eu disse entre gargalhadas.
Parei de me debater quando ela cravou os olhos nos meus. Ah, aqueles olhos. Azuis, mas não como o mar da praia de Arcadia. Azuis como as ondas tempestuosas de um oceano violento. Eram quase selvagens, de uma maneira diferente de quando éramos apenas crianças e víamos tudo com nossa visão ingênua.
Fiquei sorrindo, afogada naquele oceano. Ela também parecia atolada em meu rosto, observando cada detalhe. Senti as mãos de Chloe apertarem meu pulso- ela parecia tensa, conseguia ouvir sua respiração.
Foi quando percebi que minha respiração estava muito bem audível também. Nossos rostos estavam próximos como nunca estiveram antes. Com uma última olhada no rosto dela, me inclinei e a beijei suavemente.
Instantaneamente, Chloe me correspondeu. Começou suave, mas logo estávamos nos empolgando nisso. Ela libertou meus pulsos e se fixou em minha cintura. Eu não queria soltá-la, apenas desejava me aproximar cada vez mais. O desejo tinha tomado o lugar do nervosismo de ambas.
Não sei dizer quanto tempo ficamos assim, até Chloe agarrar minha camiseta e tirá-la do corpo. Ela mordeu meu lábio suavemente, e eu só conseguia suspirar como resposta. Foi descendo da boca até minha clavícula, onde começou a fazer uma trilha de beijos e mordidinhas vampirescas. Não havia mais nada de pirata nela, a não ser a vontade de desbravar novos territórios (Muito nerd? Não sinto muito por isso)
O aroma das mechas azuis era embriagante e familiar. Seu shampoo com certeza estava funcionando. E enquanto eu admirava o cabelo, ela já procurava com os dedos leves a alça de meu sutiã. Teria conseguido se não fosse a batida repentina na porta.
-Chloe, Max, venham comer alguma coisa! Estou esperando na sala- a voz de Joyce paralisou nós duas no ato.
Esperamos o som dos passos na escada sumirem para retomarmos fôlego. Chloe acariciou meu pescoço e me beijou mais uma vez.
-Porra, acho melhor descermos. Minha mãe pode entrar no quarto para nos arrastar a qualquer momento.- Ela falava entre suspiros.
Eu simplesmente concordei com a cabeça. Se não fosse a Joyce, nós com certeza continuaríamos nossa conversa. Chloe deu uma piscadela e saiu de cima de mim. Ao me levantar, percebi que minha camiseta estava jogada a alguns metros de distância e meu sutiã de bolinha dava um “oi” para o quarto. Cobri com os braços, um pouco tímida.
-Relaxa, Super Max. Achei seu sutiã incrivelmente brega muito sexy.
-Quem diria... Uma punk e uma hipster.
-Nada a ver, né?- Ela estreitou os olhos, mostrando novamente o lindo sorriso.
Antes de pegar a blusa do chão, Chloe se aproximou e deu um tapa de leve no meu traseiro. Que ousada!
-Ainda precisa me contar o que estava pensando.
Ajeitei rapidamente a peça de roupa semiaberta e me vesti. Encarei Chloe e não via motivos para continuar escondendo minhas aventuras. Contei tudo: desde a bizarra cena de olhar para a foto das duas crianças até a realidade alternativa em que William não havia morrido e a garota punk passara pelo acidente. Mesmo trêmula e apreensiva com a reação, falei todos os fatos com firmeza. Chloe parecia surpresa, mas não irritada.
-Eu não queria te contar porque isso com certeza poderia te abalar mais ainda. Então... Desculpa, Chloe.
Ela se aproximou, praticamente colando o rosto no meu.
-Max... Deve ter sido horrível. Eu que sinto muito. Mas obrigada por salvar minha pele. De novo.
-Não está chateada?
Ela me olhava como seu fosse louca.
-Com o quê, garota? Porra, eu gosto dessa realidade. Apesar do meu padrasto de merda. Mas tente não se preocupar, Super Max. Eu estou aqui.
Mesmo com lágrimas rolando pelo meu rosto, ela abaixou a cabeça e me deu um beijo. Dessa vez, não foi nem um pouco suave.
-Vamos, hipster. Antes que minha mãe venha com qualquer discurso sobre usar camisinha e blá blá blá.
-Ah, Chloe, achei que tivesse comprado dessa vez.
E, pela milésima vez, tornamos a rir. Eu queria parar o tempo. Queria estagnar nesse momento, e nunca mais sair dele. Afinal, acho que voltar no tempo tem suas vantagens (nota mental: voltar no tempo mais de dez vezes vai criar uma poça de sangue no meu nariz. Má ideia).
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