Aquele último ano
18 Especial 3
Notas iniciais
Não sei o que estava acontecendo comigo, quando isso começou?
Lembro de vê-la crescer. Comecei a conversar com ela quando tinha por volta de seus 10 anos de idade. Mas já a via muito antes disso, eu a vi crescer tanto quanto seu irmão, eu era basicamente um irmão de Marco! Consequentemente um irmão mais velho para ela também, e foi assim que a tratei por todos esses anos.
Eu a vi começar o fundamental, Marco vivia dizendo o quanto se preocupava com a integração dela com os outros alunos. Eu a vi fazendo seus primeiros trabalhos de escola, chorando quando tropeçava e caía, assistindo desenhos, brincando de ser uma jedi. E a vi crescendo e se tornando uma mulher aos poucos, deixei escapar quatro anos de seu crescimento quando fui fazer faculdade e, quando voltei, ela já era uma mulher e eu nem vi. Ela já trabalhava por conta própria, sua personalidade estava mais sólida e isso se percebia nos seus cabelos azuis. Ela andava como uma mulher, olhava como uma, sorria como uma. Ela era atrapalhada e descuidada, mas sabia lidar com isso, pelo menos as vezes. Ela tinha crescido, mas eu não vi. Ou pelo menos não queria ver, porque de alguma forma eu sabia, que a partir do momento que aceitasse que ela cresceu, as coisas iriam mudar dentro de mim. E, bem, antes que eu percebesse eu havia aceitado.
Me sentia um grande idiota por isso, me sentia tudo, menos um adulto de 21 anos. E convenhamos, a idade as vezes não diz muita coisa, nem sempre amadurecemos tanto quanto deveríamos e isso não é um problema, ou pelo menos não deveria ser, em alguns sentidos.
Davi era um cara ótimo, eu dava aula para ele e sei muito bem que ele é diferente, sempre com notas altas e um porte atlético que nem todos tem a sorte de ter. Não me preocupava com a relação dele com ela em questão de caráter, porque Davi tinha e muito. Me preocupava em outro sentido, em um sentido mais egoísta.
Cada vez que ela passava por mim, tanto na escola quanto na hospedaria, e me ignorava sentia algo quebrar dentro de mim, mas ignorava. Porém, no dia em que a abordei no corredor da escola estava mais do que decidido a colocar um ponto final nisso. Mas assim que ela me olhou com lágrimas escorrendo pelo rosto e os olhos vermelhos marejados, foi como levar um soco no estômago, e aí sim algo se quebrou dentro de mim, pude ouvir até o barulho.
Algo que poucos sabem sobre mim é que sempre achei essa questão de romance/namoro uma grande besteira. Não besteira, mas algo cansativo demais, então nunca me importei muito em namorar na época do ensino médio, preferia a companhia dos meus amigos e, bem, se surgia uma garota interessante rolava de nos beijarmos vez ou outra mas só, nunca deixei passar disso. Com exceção de Sasha, foi a primeira e até hoje a única que conseguiu mudar isso, ela era incrível! É até hoje, mas na época da escola, era extremamente inteligente e boa nos esportes! Como isso? De jeito nenhum eu podia deixar uma menina dessas escapar. Claro, era o pensamento de um menino de 16 anos. Assim, me aproximei dela e começamos a namorar. Foi muito bom na verdade, ela dava o espaço de que eu precisava e entendia, passei a entende-la também e nossa relação era muito boa. Mas ai ela percebeu, primeiro que eu, que éramos amigos, mas não namorados amigos, apenas amigos, e dificilmente evoluiria para algo além disso. As vezes isso acontece, não é por você se dar muito bem com a pessoa que necessariamente um namoro dará certo, as vezes até dê, mas sempre estará faltando algo, algo que um amigo não pode dar. Então Sasha conversou comigo e entendi ela sem problemas e até concordei com tudo o que ela disse, assim terminamos o namoro e passamos a ser apenas amigos. E isso foi até melhor para nós, não tínhamos mais a obrigação de pensar em coisas que "deviam" haver em um namoro, nossa relação ficou até mais leve.
Mas algo em relação ao que eu sentia agora pela Eloisa era diferente. Não sei o que era e nem o que causava isso. Talvez os cabelos dela? Sua voz? Sua risada? Seu jeito de andar? Seu jeito irônico de falar? Seu rosto quando está com vergonha? Ou quando está orgulhosa? Não sei. E isso me irritava.
Acordei com um objetivo em mente, iria trabalhar e depois assistir ao começo do campeonato de vôlei. Depois disso iria ajudar Davi a conquistar de vez ela, e largar esses sentimento para lá, era o certo na verdade, por vários motivos.
Mas deu tudo errado, naquela manhã chuvosa tive vários motivos para não sair de casa, o primeiro era a própria tempestade que caía do lado de fora, o segundo era que eu havia perdido as provas que deveria entregar aos alunos (grande professor) e o terceiro era meu capacete, estava quebrado porque o vento o derrubou. Fiquei irritado e joguei ele no lixo, a escola não era longe, a chuva me atrasaria um pouco, as provas eu poderia dar uma desculpa qualquer e achar quando tivesse tempo e o capacete não iria fazer muita diferença, a não ser deixar minha cabeça livre para ser completamente molhada pela chuva. Da proxima vez darei mais ouvidos aos avisos que o universo me dá.
Não lembro de muita coisa, apenas de estar em minha moto e, assim que virei uma rua vi uma luz muito forte na minha direção, depois uma buzina alta e alguns gritos desesperados. Depois disso, nada.
Comecei a despertar sentindo algo quente sobre o meu braço esquerdo. Não sabia aonde estava e nem o que estava acontecendo, abri o olho aos poucos porque a claridade incomodava, então ouvi a chuva do lado de fora e como um filme tudo passou pela minha cabeça. Então estava no hospital, suspirei com preguiça de pensar nos estragos que deveriam ter me acontecido. Olhei para o lado e vi, e senti um calor me aquecer. Lá estava ela, deitava apoiada no meu braço enquanto segurava a minha mão, dormia tranquilamente como se estivesse na própria casa. Não me mexi e deixei ela ali. Passado alguns minutos ela se mexeu e abriu os olhos, estava tão perdida quanto eu, levantou aos poucos raciocinando devagar tudo o que a rodeava, queria rir, mas me segurei.
— Acordou? — Perguntei, ela me olhou e seua olhos arregalaram como eu nunca vi antes. Ela levantou afobada e olhou para a sua mão que segurava a minha e a soltou rapidamente, não gostei disso. Sem saber o que perguntar primeiro ela me fez uma pergunta atrás da outra quase emendando todas em uma só. Pensei que não poderia deixar essa oportunidade passar e fingi que havia perdido a memória.
— Desculpa, quem é você? — Perguntei e vi o corpo dela enrijecer. Fiz a pergunta novamente e ela me olhava como se eu fosse um fantasma. Daria qualquer coisa para saber o que se passava na cabeça dela, não aguentei fingir mais e comecei a rir. Aos poucos vi ela entender o que acontecia, seu rosto se transformou numa carranca e ela me xingou, o rosto vermelho e os olhos brilhando marejados. Me desculpei e ela veio até mim e me deu um abraço, forte mas ao mesmo tempo acanhado. Nesse momento eu percebi, claro como água, que não era o cabelo dela que me fazia sentir diferente, muito menos a voz ou o jeito de andar. Era ela. E isso incluia tudo, até o detalhe mais imperceptível.
Ela estava chorando de novo e mais uma vez por culpa minha. Me desculpei novamente e sequei algumas de suas lágrimas. Então vi o que mais me assombrou, ela estava molhada da cabeça aos pés. Os cabelos umidos e as roupas meio amarrotadas. Não acreditei por um segundo mas com certo medo perguntei se ela havia ido até lá na chuva, quando ela confirmou algo derreteu dentro de mim e senti escorrer pelo meu corpo inteiro. Olhei para ela, estava tão perto de mim, mas poderia estar mais, segurei seu rosto com a mão livre, estava gelado mas lágrimas eram quentes. Por puro impulso a trouxe para mais perto e mais perto. Sim, eu ia beijar ela, e me surpreendi porque eu queria isso, queria de verdade e ela em momento algum se afastou, pelo contrário, apoiou sua pequena mão na minha que ainda segurava seu rosto, pensei se ela estava entendendo o que eu estava quase fazendo. Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa algo dentro de mim me impediu de continuar, foi mais difícil do que pensei mas afastei meu rosto do dela e depois aos poucos tirei minha mão do rosto dela. Quando vi seu rosto confuso eu entendi, ela claramente entendeu o que quase aconteceu, não tinha como não entender, e ela queria, não sei se tanto quanto eu, mas queria que tivesse continuado.
— Temos que chamar o médico. — Foi tudo o que eu disse. Ela concordou e saiu.
Fui examinado rapidamente e pro meu alivio meu machucado mais grave era um corte feito no braço direito, que já havia sido cuidado, levei alguns pontos e ganharia uma tosca cicatriz. Porém como as coisas não são fáceis não poderia ir embora ainda, teria que ficar sendo observado por pelo menos mais um dia. Me senti uma criança.
A médica saiu e foi conversar com Marco e Sasha, que estavam agindo como se fossem meus pais. Depois de um tempo eles voltaram e ficaram um tempo conversando comigo. Marco disse que sairia para buscar algumas coisas para mim e levou Eloisa junto, uma parte de mim ficou aliviado. Fiquei sozinho com Sasha, como se fosse minha mãe. Não falamos nada por um tempo, ela apenas ficou mexendo no celular, provavelmente tranquilizando alguém sobre minha situação. Sasha havia me pedido conselho várias vezes sobre Marco, pensei em perguntar algo sobre a Eloisa, não queria ajuda de Marco para isso porque ele era meio preocupado demais com a irmã.
— Desembucha logo. — Disse Sasha para mim, dei uma risada, ela lia o ambiente bem demais.
— É errado, não é? — Perguntei para ela.
— Poucas coisas são realmente erradas. A não ser que corra o risco de ser preso, aí sim é melhor não fazer. — Eu ri, era cara dela dizer esse tipo de coisa. — Mas, ela é só quatro anos mais nova e quase maior de idade, não vejo problema. — Fiquei um pouco envergonhado, Sasha já sabia de tudo.
— Mas ela ainda está na escola, e eu sou praticamente como um irmão para ela, além de ser seu professor. — Eu disse, Sasha riu.
— Ela está no último ano, logo irá se formar e você não será mais professor dela. E não, você não é praticamente um irmão só porque a viu crescer, não misture sua relação com Marco com a dela. Você não a vê como uma irmã e isso já é o suficiente. — Fiquei um pouco envergonhado de novo, me sentia um garoto de 15 anos.
— Beleza, mas e ela? Como ela me vê? — Sasha riu de novo. — Para de rir! Estou falando sério!
— E isso deixa tudo mais engraçado! — Respondeu ela. — Você não processa as coisas que acontecem entre vocês! Mas para te ajudar, acho que o que aconteceu nessa sala hoje diz tudo.
— Você viu? — Perguntei com vergonha.
— Vi e agradeça por ter sido eu e não o Marco! Tive que voltar para distrair ele. — Suspirei cansado. Viu o que eu disse? Essas coisas são cansativas.
— Não aconteceu nada. Ia acontecer mas não aconteceu, não deixei acontecer.
— É, eu reparei... — Disse ela em tom reprovador.
— Quando você descobriu o que eu sentia? — Perguntei.
— Antes de você. No dia da inauguração da hospedaria, quando aquele garoto da escola dela apareceu e a acompanhou. — Davi. Certo, não lembro de ter agido diferente dessa vez, mas não vou negar que achei curioso.
— Você é impossível. — Eu disse rindo e Sasha riu também.
— Acho melhor você acelerar o lado para você, aquele garoto não perde tempo, já você... — Ela disse me olhando com desdém e me senti insultado, mas ela estava certa.
— Obrigado, Sasha. — Respondi irônico mas sincero ao mesmo tempo.
— E não se preocupe, Marco não vai achar tão ruim assim. Antes você do que um qualquer. — Ela disse e tentei acreditar nisso.
— Espero que sim.
Por alguma razão senti um enorme frio na barriga ao pensar em como agir a partir de agora. Disse para mim mesmo "sou um adulto de 21 anos", mas não ajudou muito, não me sentia um. Por um segundo respeitei Davi por ter sido tão transparente com ela.
Realmente, odeio esse tipo de relacionamento, é cansativo. Mas se tudo der certo, conseguirei conquistar ela e nunca mais terei que passar por isso.
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