Aquele último ano
8 Capítulo 8
Notas iniciais
O intervalo ainda não havia acabado, então aproveitei o tempo para ir até o banheiro e lavar o rosto que estava vermelho e inchado de chorar. Joguei uma água fria no meu rosto e saí novamente.
Estava andando no corredor para me encontrar com Marie quando passei pela sala de música, a que eu havia ensaiado no dia anterior. Não ouvi barulho nenhum vindo dela então presumi que não havia ninguém, abri a porta e entrei, estava completamente vazia e com um ar bem leve e aconchegante, pensei em ficar ali mesmo então até o sinal bater novamente e descansar um pouco. Havia esquecido como era bom dar um tempo para mim mesma, ficar sozinha, sem pensar em nada, só deixando a mente descansar. Mas não consegui fazer isso por muito tempo, enquanto passava os olhos pela sala me deparei com um violão, aquele conhecido violão que já ficou em minha casa muitas vezes, aquele violão que tentei tocar muitas vezes quando era pequena, o violão que me fez reparar em Renan de verdade pela primeira vez. Pensando bem, era um instrumento que trazia mais memorias do que eu podia imaginar. Senti uma forte pontada de nostalgia quando o vi ali, parado na sala. Fui até ele e comecei a olha-lo de perto, passei as mãos por algumas marcas de arranhão, uma delas eu mesma havia feito, soltei um riso baixo inconscientemente. Veio então um flashback na minha cabeça, algo que acontecia com frequência quando era menor. Renan as vezes deixava seu violão em casa e lá ia eu mexer nele e xeretar, tentava tocar mas só o que conseguia era reproduzir um som nada harmonioso e sem sentido, Renan chegava e me via com seu violão, nunca brigava comigo apesar de eu saber que ele não gostava que tocassem nele, pelo contrário, ele me dava um sorriso e pegava o violão, depois sempre dizia, “um dia te ensinarei a tocar”, passava a mão na minha cabeça e saía.
Nunca havia imaginado a falta que iria sentir de ser criança, só notei como era bom quando me dei conta de que realmente nunca mais teria a liberdade que tinha. Eu iria crescer e crescer, até estar cada vez mais cheia de coisas para fazer. Mas também, nunca pensei que sentiria falta de como era tratada por Renan. Meus sentimentos estavam mudando, e sentia que isso não era bom, começava a me dar certo desespero. Estava completamente perdida em pensamentos quando ouvi a porta sendo aberta, levei um susto e caí sentada para trás.
— O que está fazendo? – Disse Renan entrando, estava rindo um pouco por causa do meu tombo, virei o rosto sem graça.
— Nada importante. – Respondi.
— Isso eu estou vendo. – Continuou ele.
— Estava só lembrando de algumas coisas, esse violão é nostálgico, nunca pensei que ainda teria ele. – Eu disse vendo-o se aproximar.
— Impossível eu trocar ele. – Disse Renan olhando o violão com carinho. – Me traz muitas lembranças também.
— Posso te perguntar algo? – Eu disse.
— Claro. – Respondeu ele. Pensei seriamente em perguntar sobre ele e Sasha, mas fiquei com medo então resolvi abordar outro assunto.
— Como é crescer? Sabe pode parecer uma pergunta meio idiota, mas é que lembro de você no colegial como um adolescente normal e agora é meu professor. – Eu disse e dei uma leve risada. Ele pareceu pensar um pouco no assunto, então se sentou numa cadeira e começou a afinar o violão.
— É meio difícil dizer. – Começou ele. – Mas, não é tão assustador assim se você entender a fase da sua vida atual. Sinceramente acho que as pessoas exageram demais e isso acaba causando um certo “medo” no pessoal da sua idade. Mas pode ser bem divertido também. As vezes as coisas não correm como planejamos mas é bem legal quando encontramos os amigos e vemos como está a vida um do outro.
— Sim, percebi isso naquele dia estávamos no restaurante. Sasha não mudou quase nada, admiro muito ela, espero poder crescer e progredir como ela. – Entrei no assunto da Sasha pra ver se ele dava alguma brecha.
— Você se tornará aquilo que tem que se tornar. – Disse ele com um sorriso. – E isso basta, não importa se parece ou não com alguém que você admira. – Ok, ele não mordeu a isca e ainda por cima disse algo bem legal.
— Agora tenho direito de devolver uma pergunta. – Ele disse, eu deveria saber que daria nisso.
— Ok, diga. – Eu disse com vontade de revirar os olhos.
— O que aconteceu pra você estar assim hoje?
— Não deveria fazer esse tipo de pergunta. – Eu disse brincando. – Sou uma aluna, não deveria mostrar maior aproximação comigo.
— Ora vamos. – Disse ele rindo. – Não tente virar o jogo contra mim, é óbvio que não tem como comparar nossa relação com a dos outros alunos. Além do mais, não há mais ninguém aqui fora nós dois. – Ele disse normalmente, mas essa frase me pegou desprevenida e acidentalmente meu coração deu uma palpitada errada.
— Não é nada demais, sério, já estou melhor agora. – Respondi não olhando nos olhos dele.
— Certo então vou converter em outra pergunta que talvez tenha uma resposta. – Disse ele.
— Era apenas uma pergunta. – Eu disse sorrindo para ele.
— Vamos ignorar aquela então.
— Isso não é justo.
— Você está namorando aquele garoto? O Ethan. – Ele perguntou, me pegou desprevenida. Mas, sério que ele perguntou isso? Com Ethan? Comecei a rir.
— Ethan? Claro que não, é meu melhor amigo, apenas, impossível nós namorarmos. – Respondi ainda não acreditando naquela pergunta.
— Então é com o Davi? – Insistiu ele.
— Uma segunda pergunta? Está bem trapaceiro hoje. Mas não, também não tenho nada com o Davi, mal o conheço na verdade. Mas por que a pergunta?
— Por nada, é só o que transmite então fiquei curioso. – Disse ele naturalmente.
— Então, tenho direito a outra pergunta. – Eu disse, dessa vez séria.
— Isso não é um jogo. – Ele disse. – Apenas vamos conversar normalmente.
— Tudo bem. Você, por acaso, voltou com a Sasha? – Perguntei, mas assim que fiz a pergunta me arrependi, não sei porque.
— Sasha? Não, não voltamos. – Respondeu ele naturalmente de novo, era difícil ver qualquer expressão diferente nele nessas horas, não dava pra saber o que ele estava pensando. – Por que a pergunta?
— Por nada, é só o que transmite então fiquei curiosa. – Copiei a frase dele.
— Cheia das graças não é? – Respondeu ele sorrindo. Mas, neste momento, senti como se um peso sumisse de mim, fiquei mais leve.
— Que horas são? – Perguntei desesperada. – Tenho que voltar para a aula!
— Não ouviu? O sinal bateu faz tempo já, nem adianta ir agora. – Ele disse.
— Que tipo de professor você é? – Perguntei indignada mas rindo.
— Ora vamos, ainda sou jovem, não estou tão careta ainda.
E foi assim que passei uma aula, matando aula com um dos meus professores, fazendo nada na sala de música, jogando conversa a fora. O medo que eu sentia antes me deixou então comecei a pensar que não seria tão ruim assim gostar do Renan de verdade. Talvez, eu que estivesse complicando as coisas sem nem perceber.
--------------------------- * -------------------------
— Onde você estava?! – Me perguntou Marie na saída da escola. As aulas finalmente haviam acabado então estávamos saindo juntas um pouco.
— Desculpa, acabei perdendo a noção do tempo, quando vi já estava bem atrasada então resolvi nem entrar na sala.
— Quase me mata do coração, fiquei te esperando igual doida!
— Desculpa. – Eu disse um pouco sem graça para ela. Estávamos caminhando quando senti um peso em um de meus ombros fazendo eu me inclinar um pouco.
— Onde você estão indo? – Perguntou Ethan se pendurando em mim e em Marie.
— Em um lugar onde não tenha Ethan. – Respondeu Marie, Ethan revirou os olhos.
— Não tenho treino hoje, vou com vocês. – Disse ele.
— Não vai não! Hoje somos só nós, Ethan, deixa pra outro dia. – Respondeu Marie.
— É sério que vão me deixar pra trás? – Perguntou ele me olhando como se eu fosse contradizer Marie.
— Desculpa, Ethan. – Eu disse tentando consola-lo. – Mas deixa para a próxima, precisamos de um tempo sozinhas hoje.
— Ok então. – Ele disse e foi saindo meio ressentido.
— Saia com sua namorada! – Disse Marie um pouco alto para ele ouvir com um pouco de tom de deboche, Ethan apenas mostrou a língua e saiu.
Marie e eu decidimos que tomaríamos um sorvete na sorveteria que sempre frequentávamos, ficava a uns cinco minutos da escola e de frente para o mar. Acho que desde que nós nos conhecemos frequentamos essa sorveteria, tenho lembranças muito boas nela, e outras bem vergonhosas também.
Entramos nela e logo de cara já deu pra sentir uma rajada de ar mais fresco, foi como se minha cabeça estivesse pegando fogo e alguém jogasse um balde de água nela. Pegamos uma mesa pequena e fomos nos servir; depois de pensar e pensar resolvemos que tomaríamos açaí, sairia mais barato, o que era melhor já que carregávamos pouco dinheiro. Nos sentamos e começamos a comer, inicialmente sem falar nada, estávamos mais preocupadas em afastar o calor do que qualquer outra coisa. Era bom ficar com Marie, começamos esse ano sem nos falar muito mas era aconchegante ficar com ela, não era incomodo quando estávamos juntas sem falar nada, de alguma forma uma entendia o que a outra estava pensando e nos virávamos assim, nunca pensaria em “troca-la” por ninguém.
— Então, dona cheia dos problemas. – Começou Marie. – Parece que não anda me contando muita coisa ultimamente. -Dei uma leve risada.
— Ah, sabe, não é tão importante para você. – Eu disse já rindo, Marie colocou suas mãos geladas no meu pescoço, ela odiava quando eu dizia isso para ela. Marie tinha uma personalidade um pouco complicada nesse sentido, ela não liga pra muita coisa mas liga se você não fala sobre essas mesmas coisas com ela. Por exemplo, em relação a relacionamentos, ela acha muita coisa que envolve isso besteira e sem necessidade, é bem difícil na verdade ela se envolver com alguém, apesar de ser uma menina bem aberta pra conversar; porém quando se trata dos meus problemas de relacionamento ela sempre quer saber, sinceramente tenho dificuldade de entender essa parte dela.
— Usou uma das frases proibidas, não pode! – Disse ela fazendo uma falsa cara de brava. Há duas frases que intitulamos como “proibidas” de falar para Marie, uma é “ah, não é tão importante para você” e a outra é “você é muito inocente então fiquei com receio de te dizer”. Diga essas frases para ela e veja sua amiga emburrar com você para o resto da vida.
— Ok, deixa eu ver por onde começar... Primeiro tenho que te dizer que nosso professor de História, Renan, não é simplesmente um amigo de colegial do meu irmão. – Comecei a dizer.
— Como assim? – Perguntou ela atenta.
Comecei então a contar tudo para ela, absolutamente tudo, desde quando conheci Renan quando era pequena, o que sentia por ele, até tudo o que aconteceu este ano. Comentei de seu passado com Sasha e que os vi juntos no dia anterior, também contei que ele está na hospedaria do meu irmão, que me deu carona de moto e que matei aula porque fiquei conversando com ele na sala de música. Mas não foi só isso, falei sobre Davi e do que achava dele; falei também sobre TODOS os meus sentimentos, criei coragem e disse tudo sem medo, Marie nunca iria me julgar, finalmente coloquei isso na cabeça pra contar tudo para ela. Foi muito bom, senti como se não estivesse sozinha e que não tivesse de carregar tudo sozinha, de certa forma foi até mais fácil de raciocinar algumas coisas depois de dizer tudo o que queria em voz alta.
É um pouco engraçado dizer seus problemas para os outros, as vezes quando começamos a contar o problema passa a parecer tão menor, tão insignificante que as vezes você mesmo nota que é algo fácil de ser resolvido. Claro, nem todos os problemas vão parecer assim, mas ainda assim é uma ajuda enorme contar para alguém. Amém quem inventou a amizade.
— Meu Deus, você atrai as coisas pra você. – Disse Marie raciocinando tudo o que contei. – Quem diria que nosso último orientador na escola seria seu primeiro amor.
— “Primeiro amor”, dizendo assim parece tão infantil. – Eu disse sorrindo pensando numa Eloisa mais nova com os olhinhos brilhando quando via Renan.
— Mas sabe de uma coisa. – Recomeçou a dizer Marie, levantei a cabeça e comecei a prestar atenção no que ela dizia. – Acho que primeiramente você tem que parar de se sentir inferior ao Renan. Não, inferior não é a palavra certa. – Ela colocou a mão que segurava a colher do sorvete no queixo enquanto pensava. – Acho seria mais correto dizer que você coloca uma distância maior do que o necessário entre vocês.
— Como assim? – Perguntei.
— Você o conhece desde que era muito nova, então era natural ele te tratar como uma criança sabe. Mas agora, você já tem 17 anos, ainda existe a distância de idade mas você não é mais criança. Não sei se ta entendendo o que quero dizer, mas basicamente acho que você ainda pensa que ele te vê como criança e acaba agindo como tal quando ele está por perto.
— Quer dizer que eu tenho que ser mais madura? – Perguntei.
— Acho que é quase isso, apenas o faça ver que você cresceu, que é uma mulher agora, não uma garotinha.
— Certo, isso faz sentido.
— Agora me explica uma coisa. – Começou ela com um sorriso no rosto. – Pretende dar uma chance para o Davi?
— Sinceramente isso passou pela minha cabeça. Mas Davi nunca deixou claro suas intenções comigo, então acho que não tenho que pensar muito nisso. Fora que ter passado esse tempo sozinha com Renan na sala de música fez com que eu percebesse meus sentimentos por ele. Marie, é meio difícil admitir isso, mas eu realmente gosto do Renan. – Marie pareceu surpresa quando eu disse essa última frase, mas logo em seguida abriu um largo sorriso.
— Então vou apoia-la de todo meu coração. – Foi o que ela respondeu.
Não conversamos tanto quanto gostaríamos, mas o suficiente pra falar tudo o que queríamos. Descobri que aquele garoto chamado Charlie estava realmente interessado em Marie, e era reciproco, eles conversavam sempre e as coisas estavam ficando muito boas. Fomos embora juntas até certa parte do caminho, depois cada uma seguiu por uma direção. Voltei calmamente para casa, estava me sentindo mais leve e feliz, como se tudo tivesse se resolvido. Escutei meu celular vibrar e vi escrito na tela: “venha até aqui mais tarde”, era Marco, mais uma vez teria de desviar meu caminho para ir até a hospedaria. Pensando nisso, pensei em antes ir até a loja em que eu trabalhava, ou deveria estar trabalhando, e pedir demissão de uma vez, inconscientemente acabei faltando hoje novamente, então para não criar problemas à loja e a mim, era melhor sair de lá logo.
A tarde começava a chegar ao fim, as ruas um pouco menos movimentadas, o vento fresco do mar batia forte em meu rosto, decidi então que passaria na praia depois de sair da loja, Marco poderia esperar uns minutos a mais.
Da calçada já podia ver a luz da pequena loja acesa, era pequena, um pouco demais até. Por alguma razão senti uma pontada de insegurança ao me aproximar, fiquei com medo de falar com meu chefe, porém não queria de forma alguma continuar naquele lugar. Parei em frente a loja por uns segundos, encontrei a irmã de Alissa no balcão.
— Olha só quem apareceu! – Disse Cloe com um sorriso.
— Olá. – Eu respondi com um sorriso tímido. – O chefe está ai?
— Está sim. Finalmente vai sair desse lugar horrível? – Ela me perguntou docemente.
— Parece que sim.
— Vou chama-lo para você, só um minuto. – Ela disse e sumiu nos fundos da loja, fiquei esperando por uns minutos, o que me deixou mais nervosa.
— Eloisa. – Disse meu chefe aparecendo, estava sério, mas não sabia ao certo se estava bravo comigo ou não, a única coisa que sei é que senti um frio subir pela minha espinha.
— Boa noite. – Eu disse fazendo um leve cumprimento com a cabeça.
— Imagino que sei o que queira me dizer. – Ele disse colocando um pano que usava para secar as mãos em cima do balcão.
— Acho que sim. – Respondi sem graça, Cloe havia ficado nos fundos mas ainda assim podia ver sua silhueta na porta. – Estou encerrando meus serviços aqui, precis... – Fui interrompida por ele que levantou uma das mãos indicando que eu já havia dito o suficiente.
— Não precisa se alongar nem acrescentar motivos para sua demissão. Entendo que esse não é um lugar que uma garota de 17 anos queira trabalhar. Sei que não foi culpa sua ter de trabalhar aqui, portanto agradeço por seus serviços. – Disse ele com o rosto sério embora sua voz soasse calma.
— Agradeço muito por ter me dado a oportunidade de trabalhar aqui e peço perdão pelas vezes que fui displicente, como nos últimos dois dias. – Ele de meu um cumprimento, retribui e ele voltou a fazer o que estava fazendo anteriormente. Cloe voltou para o balcão sorridente.
— Queria poder fazer o mesmo. – Disse ela. – Aproveite esse tempo livre.
— Obrigada por tudo Cloe.
— Qualquer problema com minha irmã não hesite em me contar. – Ela disse me dando um tchau com as mãos, apenas sorri e acenei de volta.
Estava livre agora, ao menos era como me sentia, o nervosismo foi embora e no lugar veio uma tranquilidade enorme. Acelerei o passo e fui o mais rápido que podia para a praia, meu dia havia começado terrível mas agora estava tão bom quanto podia estar, o que me deixava motivada.
Cheguei na praia e ela estava vazia, com exceção de alguns poucos surfistas que aproveitavam esse horário para praticar. Sentei na areia e fiquei observando o mar indo e voltando, o brilho da lua refletido na água e algumas poucas estrelas que refletiam também. Decidi, naquele momento, que daria o melhor de mim daqui em diante, em todas as situações, aceitaria tudo de cabeça erguida e encontraria soluções, seria aquela pessoa que todos admiram e que pode “fazer qualquer coisa”; um juramento entre eu e eu mesma, isso bastava. De alguma forma isso me deixou ainda mais motivada, pensei “Eu sou Eloisa, a única no mundo, sei melhor que ninguém minhas falhas e qualidades, posso mudar tudo aquilo que não me agrada e ser melhor a cada dia, a cada amanhecer melhorando algo que não foi possível no dia anterior”.
Depois de pensar e pensar sozinha, me levantei e fui até a parte rasa do mar, tirei meu tênis e senti a água molhar meus pés, estava tão fresca. Um dia bom, e de sorte.
— O que faz aqui sozinha? – Ouvi uma voz perguntar atrás de mim, tomei um susto, gritei, tropecei e caí, molhando toda a minha roupa.
— Meu Deus! Qual o seu problema? – Respondi um pouco nervosa sem nem reconhecer que fora. Mas a pessoa começou a rir, imediatamente reconheci o som daquela risada, o que fez com que eu abrisse um sorriso de volta.
— Você se assusta tão fácil, não foi minha intenção te surpreender. – Disse Renan me ajudando a levantar. Ele estava sem camiseta, apenas com uma bermuda e descalço, os cabelos molhados que brilhavam com a luz da lua, segurava uma prancha em uma das mãos.
— Se não foi sua intenção me surpreender gostaria de saber qual foi. – Eu disse com o rosto sério, não estava brava, nem um pouco mas queria faze-lo se sentir arrependido. Funcionou.
— Ah para, foi sem querer. – Ele disse me abraçando com o braço que estava livre, fui surpreendida de novo e meu coração começou a ficar contra mim, batendo em uma velocidade um pouco fora do normal. Coloquei a mão em seus braços e a retirei de mim.
— Não pode fazer esse tipo de coisa, professor. – Eu disse a ele com um olhar de aviso. – Alguém pode nos ver. – Ele deu uma risada de deboche.
— Ora vamos, fala como se eu tivesse te beijado. – Ele disse. Não me segurei e disse em voz baixa, muito baixa:
— Quem dera tivesse feito.
— Desculpa não entendi. – Ele disse.
— Não é nada. – Respondi sorrindo.
— De qualquer forma. – Retomou ele. – Não estamos na escola e não há ninguém por aqui, não precisa ficar tão preocupada. – Concluiu ele fazendo um pequeno carinho na minha cabeça.
— Então, não sabia que surfava. – Disse olhando para a prancha que ele segurava.
— Não digo que surfo exatamente, é só um hobby, não sou muito bom nisso mas gosto de praticar, principalmente nesse horário. Mas então, o que faz aqui esse horário sozinha?
— Nada de mais, só passando o tempo antes de ir ver o Marco.
— Vai para a hospedaria? Se for te dou uma carona, estou de moto.
— Adoraria, mas meio que estou molhada agora por causa de um certo alguém... – Ele riu. Já disse que o sorriso dele é lindo? Provavelmente já, mas vou dizer novamente, é lindo. Certamente você não entenderá o que estou falando, já que não pode vê-lo, sinto pena de você por isso.
— Estou molhado também, não esquenta eu trouxe toalha, pode usa-la também. – Ele disse e se virou começando a andar, fez um gesto com a mão indicando que o seguisse.
Renan se secou e se vestiu, me entregou a toalha e me sequei também tanto quanto possível. Tirei uma fina blusa de frio que carregava na bolsa e enrolei na cintura pra não molhar tanto o banco de sua moto.
— Satisfeita? – Ele perguntou voltando e me entregando um suco de laranja que havia comprado em algum lugar.
— Agora sim. – Respondi sorridente, amo suco de laranja. – Seu cabelo ainda está muito molhado. – Assim que eu disse isso uma gota de água caiu de seu cabelo, peguei a toalha e joguei em sua cabeça, secando seu cabelo, foi tão automático que nem percebi que havia feito, fiquei com vergonha e retirei minha mão ainda deixando a toalha lá. Ele colocou a mão na cabeça para segurar a toalha e se sentou e um pequeno muro que tinha atrás dele.
— Por que parou? – Ele perguntou levantando a cabeça e me encarando. Encarei-o de volta, ainda estava sem graça, seus olhos eram profundos e indecifráveis, fiquei observando-o por uns bons segundos, sem perceber, voltei à realidade quando ele piscou e inclinou a cabeça preocupado. – Você está bem?
— Ah, sim! Só estou com sono. – Me virei e comecei a arranjar alguma coisa pra arrumar na mochila na tentativa de disfarçar, enquanto ele guardava suas coisas também prendi meu cabelo num rabo de cavalo alto, apesar de estar molhada sentia calor. Ouvi Renan se aproximas e subir na moto, peguei minhas coisas e fui até ele.
— Você cresceu, sabia? – Ele disse me olhando, senti minhas bochechas queimarem um pouco. – Em muitos sentidos, está linda. – Pega totalmente desprevenida não sabia onde enfiar a cara.
— Você é tão aleatório. – Foi a única coisa que consegui dizer, nem um “obrigado” conseguiu escapar, sabia que ele estava falando só por falar, seu tom de voz estava completamente natural. Ouvi ele rindo um pouco, abaixei minha cabeça e subi na moto, totalmente sem jeito para me segura nele.
— Segura firme que dessa vez vou correr um pouco mais. – Ele ligou a moto e saiu, bem mais rápido que a última vez, segurei com força em sua cintura sentindo o vento bater fortemente. Assim, seguimos até a hospedaria.
Fale com o autor