Aquele último ano
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Estava caminhando em direção ao meu trabalho, o dia estava bom, nem quente nem frio. Estava pensativa, estava curiosa para saber como as coisas seriam daqui pra frente. Será que minha relação com o Renan mudaria? Seria apenas uma aluna qualquer? De alguma forma, não acho que isso seja possível, até porque ele era amigo de Marco, meu irmão, de certa forma ele estava mais conectado a mim do que aos outros alunos. Fiquei feliz que ele se lembrava de mim. Como meu professor que tipo de distância ele manteria de mim? Acho que estou me preocupando demais com isso, acho que agir normalmente é a melhor escolha, talvez seja até melhor que os outros alunos não saibam que nos conhecemos.
Enquanto andava, observei o mar, dava para ver vários estudantes se divertindo. As sorveterias e lanchonetes estavam cheias. Meus amigos também estavam em algum lugar se divertindo. Eu estava indo trabalhar. Não tenho como expressar o quanto odeio isso.
Cheguei na loja e ela não estava cheia, como de costume, nunca estava especialmente cheia.
— Estou indo embora desse lugar fedido Cloe, vou sair com alguns amigos meus. Diga para a mamãe que chegarei mais tarde em casa. – Ouvi alguém dizer na entrada da loja, conhecia essa voz e logo um pequeno frio subiu pela minha espinha. Sabia muito bem quem era.
— Você tem que começar a parar de pensar apenas em você e ser mais responsável. Não vou ficar te acobertando para sempre, lide você mesma com seus atos. – Ouvi Cloe responder de dentro da loja. Cloe era uma mulher que trabalhava na loja junto comigo, tinha mais ou menos a idade do meu irmão, talvez um pouco mais nova. Era alta, muito bonita, de olhos verdes e cabelos loiros.
— Ah, pare de ser tão chata, está parecendo uma vel... Ai!! – Disse ela quando trombou comigo. Realmente é quem eu pensei que era. Alissa.
— Ai, cuidado! – Disse eu com a mão na cabeça onde tínhamos trombado.
— Ah! Tinha que ser você, menina fedida. – Disse ela com cara de nojo e tampando o nariz. – Parece que não quitou sua dívida aqui ainda, continua nesse lugar desprezível. – Disse zombando de mim.
— Se não se importa, poderia me dar licença? Preciso entrar para trabalhar. – Respondi.
— Com certeza, passe madame. – Disse ela ainda zombando e abrindo espaço com um falso floreio. Apenas passei por ela e entrei na loja. – Tenha um bom dia, garota do peixe. – Deu uma risadinha e saiu. Sua irmã estava dentro da loja, tinha uma cara cansada, daquelas mães que não sabem mais o que fazer com um filho rebelde.
— Desculpa por isso Eloisa. – Disse ela com um sorriso culpado.
— Não se preocupe, você não tem culpa, além do mais já aprendi a lidar com ela, eu acho.
— Não sei mais o que eu faço.
— Você não tem que fazer nada. – Eu disse sorrindo. – Ela já tem quase 18 anos, não é mais criança, se não aprende com você, deixe que aprenda com a vida.
— Como se eu pudesse. – Ela disse ainda com aquele sorriso de mãe.
— Se me dá licença, preciso ir me trocar para trabalhar. – Eu disse saindo.
Sabe, vocês já conhecem todas as pessoas que amo, minha família e amigos. Realmente sou rodeada de pessoas que me amam. Mas claro, há as exceções, no caso, a Alissa.
Bom, acho que agora também já está na hora de vocês saberem como vim parar aqui nessa loja, e sim, Alissa faz parte dessa história.
Alguns meses atrás estava fazendo algumas compras na cidade para minha mãe, então passei em uma certa loja de peixe, para comprar algumas sardinhas que estavam na lista de compra. Assim que entrei na loja comecei a conversar com o atendente e lhe dizer o que queria. Enquanto o rapaz pegava o meu pedido fiquei esperando, foi quando vi uma garota loira atrás do caixa, passando com algumas caixas, provavelmente uma entrega que tinha acabado de chegar. Na época não a reconheci, não lembrava de seu rosto, por mais que fossemos da mesma escola. Quando ela me viu, não disse nada, apenas fez uma cara de pânico, que depois passou para raiva, em seguida ela virou o rosto e seguiu seu caminho. Não me importei muito com isso, achei estranho mas ignorei, peguei meu pedido e fui para minha casa. Lembrando agora da cena entendo que, eu não lembrava dela, mas ela se lembrava de mim. Passaram-se alguns dias e, então estávamos tendo uma reunião na escola com os representantes de turma, na época eu era a representante da minha sala. Fomo todos para uma sala, chegando lá vi Alissa, reconheci ela como a menina que estava na loja de sardinhas. Depois que a reunião acabou, todos estavam conversando entre eles, eu tinha alguns amigos lá, mas Alissa parecia meio deslocada ( o que foi um grande erro meu, ela apenas não queria se misturar com a gente ), então fui até ela e disse: “ Oi, eu lembro de você, é a garota que estava na loja de peixes uns dias atrás, não é?”. Disse na melhor das intenções tentando enturmar ela, mas fui inocente demais. Quando eu disse isso ela fez uma cara de espanto, que se transformou novamente em pânico depois em raiva. Todos que estavam a nossa volta ouviram, um menino chegou para mim e perguntou o que eu queria dizer com aquilo, respondi que uns dias atrás havia visto Alissa trabalhando em uma loja de peixes. Depois de ouvirem isso todos começaram a rir e a fazer perguntas zombando de Alissa. Naquele dia não entendi nada, no dia seguinte Ethan me explicou tudo. Alissa era uma das meninas mais “populares” e conhecidas da escola, era orgulhosa até os ossos. Sua família não era rica, mas ela era tão mimada quanto uma nobrezinha. Ou seja, a partir daquele dia, muita gente começou a rir do fato dela trabalhar em uma loja de sardinhas, a consequência disso pra mim? A inimizade dessa garota. Toda vez que passava por ela sentia como se ela me lançasse fogo pelos olhos. Realmente não tinha falado por mal, foi apenas inocência minha. Alissa era birrenta, mas não era idiota, era esperta, não iria bater boca comigo, muito menos me bater ou algo do tipo, iria pagar com a mesma moeda. Alguns bons dias depois, era de noite, eu estava voltando para minha casa, vi na mesma calçada que eu uma pessoa vindo com algumas caixas na mão, continuei andando, quando eu me encontrei com essa pessoa senti uma enorme pancada no meu corpo, quando entendi a situação estava caída no chão, com três caixas cheias de sardinhas quebradas e caídas sobre mim. Quando olhei para cima, vi Alissa em pé a minha frente.
— Olha o que você fez!! – Disse ela desesperada, quero dizer, fingia estar desesperada.
— Me desculpa, eu não vi você, vou limpar tudo isso agora. – Eu disse, realmente achei que era culpada.
— Não adianta nada! Isso era uma entrega importante!! Vai ter que pagar por todos esses peixes desperdiçados e pela entrega não feita! – Ela respondeu.
— Vou arrumar tudo isso, se for preciso pego outras caixas para fazer a entrega.
— Esses peixes, eram de uma transportadora importante, não era qualquer uma. Não tem como conseguir todos eles novamente simplesmente pedindo. Vai ter que pagar o prejuízo.
— Mas não tenho dinheiro! – Eu disse desesperada.
— Não tenho nada a ver com isso, você que causou o problema. – Fomos até a loja e Alissa contou ao dono tudo o que havia acontecido. Sabe, fui muito idiota naquela época, eu não tinha culpa alguma, mas aquela idiota me fez pensar que sim. Fico indignada comigo mesma só de lembrar.
— Como é seu nome mesmo? – Me perguntou o dono da loja.
— Eloisa. – Respondi.
— Eloisa, é um prejuízo e tanto para nós isso, sinto muito mas terá que repor esse dinheiro para nós. – Me disse ele.
— Eu sinto muito por isso tudo, mas não tenho dinheiro para pagar essas coisas, realmente não tenho.
— Tenho uma solução para você, poderá pagar o prejuízo com trabalho. – Ele disse
— Trabalhar aqui? – Perguntei já com um frio na barriga.
— Sim, ou isso ou fechar uma dívida conosco até que acerte o prejuízo.
— Não posso criar uma dívida assim, trabalharei para você então até pagar o que for preciso.
— Ótimo.
Mais tarde descobri que, Alissa já havia feito a entrega daqueles peixes. Ela apenas tinha pegado algumas sardinhas quaisquer e colocado na caixa de uma famosa transportadora. Tudo planejado, para que? Para revidar o que eu tinha feito com ela. Depois disso, Alissa foi despedida e sua irmã Cloe entrou em seu lugar para arrumar várias bagunças que sua irmã havia feito. Cloe era uma pessoa maravilhosa, sempre bondosa e gentil, me ajuda sempre que preciso, totalmente o oposto da irmã. Cloe sabe que Alissa precisa mudar, sabe que foi uma menina mimada por um bom tempo e que agora havia acostumado com isso, achava-se sempre superior e que todos deveriam fazer suas vontades, realmente era isso que acontecia, mesmo na escola. Agora, mesmo depois de uns bons meses, Alissa ainda me odeia, uma ou outra pessoa a zomba por aquilo, mas depois de ter descontado na pessoa que causou tudo isso ela se sente mais satisfeita e “segura”. Não costumo ter inimizade com as pessoas, mas odeio ela.
De qualquer forma, de modo geral eu tinha uma boa relação com a maioria das pessoas que conhecia. Até porque eu não era uma pessoa que marcava muita presença, era mais discreta, ao contrário de Ethan por exemplo, que chama atenção onde quer que esteja, seja pela sua beleza ou pelo seu jeito extrovertido e despreocupado com tudo.
O dia de hoje foi daqueles que eu parecia uma idiota. Estava pensando em tanta coisa que não prestava atenção em nada do que fazia. Ao mesmo tempo em que estava com um sorriso de orelha a orelha por causa do Renan, estava nervosa por causa de Alissa. Sério, essa menina merece um troféu por conseguir me fazer odiá-la assim.
As horas passaram e já estava chegando no fim da tarde, tinha dado meu horário então estava indo embora do meu trabalho. Iria até a hospedaria do meu irmão, queria conversar com ele e contar tudo o que havia acontecido, apesar de que, muito provavelmente, ele já saiba sobre o Renan. Ainda assim, queria falar com ele.
Coloquei meu uniforme da escola novamente e guardei o do trabalho na mochila. O dia já começava a escurecer e a brisa já estava mais forte e fria, o crepúsculo já tomava conta de toda a cidade. Acho que essa era a minha hora favorita do dia, quando estamos exatamente entre o dia e a noite, certa vez quando era pequena ouvi dizer que o crepúsculo marcava a união do mundo mortal com o espiritual, era a hora do dia em que se podia ter contato com coisas de outro mundo. Grande besteira, claro. Mas, para uma criança isso soaria a coisa mais fantasiosa do mundo e aquilo ficou na minha cabeça por muitos anos. Desconfio que seja por isso que me sinto tão confortável nessa hora do dia, por mais que ela dure pouquíssimo tempo.
Já estava razoavelmente escuro quando cheguei na hospedaria de Marco. Pra minha surpresa, estava tudo escuro, as luzes internas e externas apagadas. Segurei na maçaneta da porta e estava trancada. De certa forma não havia motivo para ela estar aberta, ainda sim achei estranho, peguei meu celular e resolvi ligar para meu irmão. Na primeira ligação o celular chamou, chamou e chamou... Nada dele atender. Liguei novamente, chamou, chamou e chamou, quando pensei em desligar, escuto sua voz do outro lado da linha.
— Elô??
— Marco?? Onde você está?? – Escutei ao fundo da ligação uma barulheira razoável. Conversa e risadas altas.
— Estou em um restaurante com alguns amigos, precisa de algo??
— Não, na verdade não. Apenas pensei em te fazer uma visita na hospedaria mas encontrei tudo fechado. Só queria saber onde você estava.
— Ah, tive que resolver uns problemas hoje então fechei ela mais cedo, depois acabei vindo me encontrar com alguns amigos.
— Tudo bem, vou indo para casa então, volto amanhã.
— Ok, vá com cuidado, se cuide.
— Eu sei. – Desliguei. Fiquei meio desanimada mas fazer o que né? Guardei meu celular e me virei para voltar para minha casa, estava tão empolgada pra conversar com Marco que nem notei que estava tão cansada, teria que adaptar meu corpo novamente a rotina.
— Eloisa?? – Tomei um susto, virei e vi uma moto parada do outro lado da rua. Renan.
— Renan? O que faz aqui? – Perguntei, quase me atrapalhando com o susto.
— Eu que te pergunto isso. – Disse brincando. – Está tarde, deveria estar em casa.
— Eu estava indo agora mesmo, tinha vindo falar com meu irmão mas acabei de descobrir que ele não está.
— Ah, estou indo encontrar ele agora. Marcaram uma pequena reunião com o pessoal do nosso terceiro ano. Te levo até lá se quiser, aceita uma carona? – Disse com o rosto totalmente calmo, as luzes artificiais da rua iluminavam fracamente seu rosto, seus cabelos pretos brilhavam e seu rosto estava meio escondido pela sombra, ainda sim isso me deixava inquieta. Pensei em negar a carona, mas senti que essa poderia ser uma oportunidade única, então não tive coragem.
— Eu adoraria, se não for incomodar. – Eu disse, tentando falsamente esconder o largo sorriso que surgia em meu rosto. Ele desceu da moto, pegou um capacete que estava em sua mão e colocou em minha cabeça, ajustando-o.
— Seu cabelo, ficou muito bom em você. – Disse enquanto sua mão pousava levemente no meu rosto enquanto terminava de regular o capacete. Por um pequeno instante esqueci de que meu cabelo era azul, já havia me acostumado e, por um leve instante, meu coração deu uma batida errada.
— Obrigada. – Disse um pouco sem graça. Notei então que só havia um capacete. – Ei, e o seu??
— Meu o que??
— Seu capacete oras.
— Ah. – Disse ele compreendendo. – Não preciso, não agora. E mais, já que sou seu professor agora, sua segurança é prioridade não é? – Disse batendo em cima do capacete e com um sorriso divertido no rosto, logo em seguida subiu de novo na moto e depois me ajudou a subir. – Apesar de que, eu faria isso sendo seu professor ou não. – Após dizer isso ligou a moto e o motor começou a fazer um barulho muito alto. Nunca havia andado de moto, quando ligou bateu um pequeno pânico em mim, então segurei desesperadamente na sua cintura, quando fiz isso senti sua barriga tremer um pouco, estava dando risada, de mim, não pude deixar de abrir outro largo sorriso que, obviamente ele não viu.
Não estávamos andando a uma velocidade muito alta, imagino que ele estivesse diminuindo a velocidade por causa de mim, daquela vez que o vi de moto ele estava em uma velocidade razoavelmente rápida. Mas não estava incomodada com isso, o vento batia forte no meu rosto mas não sentia frio, o corpo dele era quente e, involuntariamente esquentava o meu também, era reconfortante. Passávamos pela beira da praia, o som do mar alto e um denso céu escuro com várias estrelas brilhando acima de nós. Me senti em um daqueles livros clichês de romance, mas é claro, era apenas minha imaginação voando. Esse não era meu romance, e estava muito longe de ser. Ainda assim, me permiti imaginar um pouco mais, não faria mal a ninguém além de mim mesma pelo menos.
Acordei dos meus pensamentos com a moto parando aos poucos, depois estacionou em uma vaga em frente a um simples restaurante, no centro da cidade.
— E chegamos. – Disse ele descendo da moto e me ajudando a descer também, depois me ajudou a tirar o capacete. Estava sendo muito gentil, poderia até me sentir sendo tratada como uma dama, mas a verdade era que estava sendo tratada como uma criança, o que na verdade fazia mais sentido, já que era assim que ele ainda me via. Ele seguiu para a entrada do restaurante e fui indo logo atrás dele.
Assim que a porta foi aberta uma enorme barulheira tomou conta dos meus ouvidos, avistei um grande grupo de pessoas juntas no fundo do cômodo, e o barulho vinha de lá.
— Olha só quem chegou! Pensávamos que não viria mais. – Disse um rapaz chegando e dando um abraço caloroso em Renan.
— Desculpe pela demora, estava saindo da trabalho, tinha um bocado de coisas pra fazer.
— Relaxa, ainda dá tempo de curtirmos bastan... – Ele parou de falar quando seu olhar pousou em mim, fiquei meio sem graça. – E quem é essa garota aí? Sua namorada? Ela é bem bonita mas não acha que é meio nova? – Disse ainda olhando pra mim, fiquei sem saber o que responder.
— Eloisa? – Senti um alívio ao ouvir a voz de Marco, estava começando a me sentir desconfortável.
— Oi. – Eu disse baixo e um pouco constrangida, todos estavam olhando para mim.
— O que faz aqui? – Me perguntou erguendo uma sobrancelha. Antes que eu pudesse responder Renan já estava falando.
— Encontrei ela no caminho para cá, disse que queria falar com você então dei uma carona.
— Espera! – Disse o garoto barulhento. – Eloisa? Não me diga que esta é a sua irmã mais nova, Marco?
— É ela sim.
— Por que não disse antes, Renan? Achei que era sua namorada.
— Você não me deixou falar, afobado como sempre Victor. – Victor! Um nome familiar, lembrei vagamente quem era. Estudou muitos anos com meu irmão e o Renan, uma garoto extrovertido e sem noção, sempre foi muito simpático comigo mas sempre me incomodou o fato de ele ser tão barulhento. Depois de quatro anos, não havia mudado nadinha.
— Desculpe, desculpe. – Disse Victor meio sem graça. – Apenas fiquei muito feliz, não consegui me controlar.
— Bem, venham e se sentem logo! Ainda tem muita comida. Você também, irmã do Marco. – Disse uma mulher que sentava perto do meu irmão, se não me engano, seu nome era Sasha, e já havia namorado Renan em sua época do colegial. Era uma garota linda e simpática, muito inteligente; daquelas que fazem sua autoestima ir lá pra baixo. Mas eu gostava dela, era um amor de pessoa.
Renan foi até a mesa e se sentou, depois de hesitar um pouco fiz o mesmo, me sentei ao lado de Sasha. Pelo menos ao lado dela ficaria um pouco mais confortável.
— Ei, seu cabelo é maravilhoso! Como conseguiu deixa-lo assim? – Me perguntou Sasha.
— Ah, muito obrigada. – Respondi. – Demorou um pouco, mas uma amiga minha que lida com essas coisas me ajudou. Ficamos alguns meses tentando chegar na cor, mas gostei do resultado.
— Valeu a pena mesmo! Ficou muito lindo! Sempre quis fazer esse tipo de coisa no cabelo, mas sempre fui muito medrosa. – Disse ela com um sorriso simpático.
— Realmente, dá um desespero na hora, mas depois que você faz só dá vontade de fazer mais e mais vezes. — Disse retribuindo o sorriso
— Qualquer dia vou querer a sua ajuda, quando tomar coragem pra fazer no meu.
— Adoraria ajudar. – Eu disse. É, ela era realmente divertida e simpática. Sempre quis saber porque ela e o Renan terminaram seu namoro, não que eu quisesse eles juntos, fiquei bem chateada na época, mas aparentemente não via motivo para não ter dado certo, até mesmo depois do término eles continuaram amigos como sempre.
O tempo foi passando e fiquei apenas sentada observando a conversa deles, lembrava de muitas das histórias que estavam relembrando, cheguei até a sentir uma certa nostalgia por eles, e por mim também, aquela época tinha sido realmente boa. O ritmo da conversa já tinha diminuído bastante quando Sasha voltou a puxar assunto comigo.
— Está com quantos anos agora Elô? – Me perguntou e como todos não estavam tão entretidos mais começaram a prestar atenção em nossa conversa.
— Tenho 17. – Respondo um pouco envergonhada por conta da atenção.
— Nossa! Já? O tempo realmente passou! Lembro de você grudada no Marco na escola, e as vezes que saia com ele. – Disse sorrindo pra mim.
— Sim! Verdade – Disse Victor, alto como sempre. – Nunca vi alguém tão grudada assim no irmão, era tão bonitinho. Lembro daquela vez quando teve um campeonato de futebol na escola e a nossa sala perdeu justo na final, depois do jogo a Eloisa foi correndo chorando abraçar o Marco. – Comecei a ficar mais constrangida ainda.
— Ah, eu lembro disso. – Comentou Renan. – Lembro que até no dia anterior eu estava na casa do Marco e ela ficava ensaiando pequenos gritos de torcida. – Continuou com um sorriso.
— Vocês estão deixando ela com vergonha. – Disse Marco
— Não estou não! – Tentei miseravelmente faze-los acreditar nisso, mas meu rosto queimava de vergonha. Renan começou a rir, aquele risada alta que há quatro anos eu não ouvia.
— Tudo bem, então vamos mudar de assunto. – Disse Sasha. – Já sabe o que quer fazer depois de se formar? – Fez aquela pergunta que toca na ferida.
— Ah, na verdade estou um pouco confusa com isso ainda. – Respondi.
— Normal, eu estava assim também quando me formei. É uma pressão meio chata, mas faça as coisas no seu tempo. – Disse tentando me tranquilizar.
— Ei, o professor orientador dela sou eu. – Disse Renan com uma falsa cara de repreensão.
— O que??- Disse Victor. – A turma que você está orientando é a dela??
— Exatamente. – Disse Renan tranquilamente.
— Pobres alunos, tenho pena deles, vai ficar tudo bem ta Eloisa? – Disse Victor zombando de Renan e olhando pra mim forçando uma cara de preocupação. Não consegui segurar, comecei a rir. No ambiente em que estávamos era realmente difícil imaginar o Renan como um professor orientador, ainda mais quando lembrei da aula de hoje dele.
— Bem corajosa você de rir do seu professor na frente dele, ainda por cima quando ele gentilmente te ofereceu uma carona na moto dele. – Ele disse com ar sério, mas com aquele sorriso nos olhos, como normalmente ele fazia.
— Desculpa. – Disse tentando segurar o riso.
— Então ficou com a sala dela? – Perguntou Marco.
— Exatamente, ia te contar hoje mas acabou ficando tudo muito corrido.
— Isso é muito estranho. – Disse meu irmão.
— Eu que o diga! – Eu disse.
— Vai dar tudo certo. – Disse Sasha se divertindo.
O dia havia sido inesperadamente bom. Nesse jantar pude tirar várias conclusões sobre esse pessoal todo, não importa quantos anos passem, quando se reúne amigos de longo período escolar você percebe o quão pouco as pessoas podem amadurecer. E isso incluía o Renan, mas isso me deixou contente, me fez perceber que apesar de tudo, ele ainda era o Renan que conheci há alguns anos atrás. Havia outras pessoas nesse reencontro, mas poucas de quem eu tivesse alguma recordação.
Depois, Marco me deu uma carona para casa. Cheguei muito cansada, levei uma bronca da minha mãe por ter chegado tarde sem avisar e Marco também não escapou de uma bronca da mamãe. Foi um dia maravilhoso. Um dia.
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