Aquele que conheci na morte.
6 O que os olhos não vêm o coração não sente.
O jantar estava muito bom. Como um casal, me sentei ao lado de Stefan, mas Damon não para de me fitar, e de um certa maneira, isto não me incomodava.
Me ofereci para lavar a louça, mas os pais de Stefan recusaram minha ajuda, então me sentei na sala principal, ao lado de Stefan. A lareira nos aquecia, e o fogo tocava meu coração, as chamas estavam inquietas assim como eu.
Segurei nas mãos de Stefan, me apoiava em seu peito, e pude sentir sua pele estranhamente fria, e seu coração não batia. Ele tinha um peito bem forte, seu queixo se apoiava na minha cabeça, e eu escutava sua respiração, eternamente lenta, eternamente calma.
Eu precisava falar com Jeremy de algum jeito, o colo de Stefan me deixava calma, mas alguma coisa me dizia que o Jeremy não estava bem, da última vez que o vi, ele estava dormindo. Resolvi pegar o telefone de Stefan, já que eles eram bem amigos, ele poderia atender.
"Stefan, me empresta seu celular?"
"Por que, amor?"-Disse ele com um sorrisinho.
"Preciso falar com uma pessoa, só isso, e o meu esta desligado."- Meus lábios se mexiam de um jeito muito diferente, eu queria beijá-lo também, mas eu precisava falar com meu irmão.
"Tá, depois você sobe?"
Assenti com a cabeça, e ele no meio da escada já tirou a camiseta. Apenas um belo pedaço de carne.
Não me ocupei em achar o contato de Jeremy, sabia o número dele de cor. Disquei. E como sempre caiu na caixa postal. Disquei de novo, e caiu na caixa postal.
O telefone estava desligado. O desgraçado deve estar com alguma menininha, mas que droga, preciso falar com ele.
Estava subindo as escadas, quando Damon me flagrou.
"Acho que você vai ficar no quarto de hóspedes."- Provocou ele, seus olhos eram lindos, mas eu estava muito irritada para apreciá-los.
"Não enche Damon."-Falei, sem encará-lo. Ele estava à um palma de mim,e eu pude sentir seus músculos contraindo, vi a fumaça de vapor saindo dele, tinha tomado um banho quente.
"Nossa cunhada, qual o problema?"-Disse, com um tom de preocupação.
" Nada Damon, coisas entre mim e Jeremy."-Disse, e cruzei os braços, esperando que ele me desejasse boa noite e fosse pro seu quarto. Desejo não concebido.
" Deve estar sendo me difícil..."-Ele disse, e seus olhos ficaram avermelhados.
" Como assim, difícil?"- Perguntei, dando uma risada.
"Passar pelo luto, é muito recente."-Ele colocou as mãos nas minhas.
" Não, eu já estou acostumada."-Eu tirei minhas mãos. Damon não sabia da minha vida, que eu dormia com a morte e tomava café com a solidão de manhã. O Sol não iluminava mais minha vida, não era ele que me direcionava, era o luto, ele estava tão presente na minha vida, que era como noite todos os dias. Stefan foi o mais próximo que tive de uma felicidade, e tive a impressão de ser eterna.
"É mas não é todos os dias que se perde um irmão."
"Quem perdeu o irmão?"-Perguntei, um tanto preocupada.
"Você Elena, você precisa superar, eu posso te ajudar."-Ele disse e desta vez apenas colocou a mão no ombro.
"Jeremy morreu?"-Quando disse isto, meus olhos arregalaram e deles escorreram lágrimas de dor, de medo, de vazio. Agora eu entendi de onde eu conhecia o Damon, em um cemitério, no enterro do meu irmão, não Jer! Eu não posso perdê-lo, mas quanto tempo faz? Por que eu não sabia? O que aconteceu? Stefan.
"Stefan!"-Gritei, segurei mecanicamente no braço de Damon, era forte, era frio.
"Elena..."-Ele saiu do quarto colocando a camiseta de novo, coçava os olhos de sono.
"Por que eu não sabia da morte do meu próprio irmão Stefan, você faz ideia do que é perder um irmão? Stefan, por que eu não me lembro de nada? É por isso que o Jeremy não atende a merda do telefone dele, ele esta morto.... Morto!-Cai de joelhos no chão, e segurei o colar que Stefan tinha me dado.-Stefan, eu nao aguento, não dá mais. E por que tia Jenna não quer que eu fique longe de você? Ela certamente não sabe o mentiroso que você é."
Stefan estava em choque, me via chorar, mas seus pensamentos estavam distantes. Eu olhava para ele e sentia um nojo, como pude dormir, e amar alguém que só mentia para mim, que de alguma maneira, conseguiu esconder a morte de meu irmão. Como vou viver sem Jeremy?
Damon sentou do meu lado, e colocou a mão na minha nuca, seu nariz estava bem perto do meu, e seus lábio se moviam. Os lábios se moviam, ele ia mentir, assim como o irmão.
"Damon, deixe ela."-Disse Stefan, com os braços cruzados.
Ele deixou. Não. Damon era a única coisa que me deixava mais perto do meu irmão. Damon. Eu não podia gritar o nome dele, não conseguia falar mais nada, eu só queria ter Jeremy de novo, eu só queria que a morte não soubesse meu endereço.
"Elena, desculpe."-Ele disse, e me deixou, no chão, sozinha.
Stefan andou até o quarto, bateu a porta. Não, sozinha de novo não, eu tinha que achar minha família, eu não vou morrer sozinha, não importa se eu vá até os confins do inferno, eu vou achar minha tia, e vou achar meu irmão.
Fui até o quarto de Stefan, entrei. A cama estava desarrumada, e a luz do banheiro acesa. Encostei meu rosto na porta e avisei que estava indo embora, que ia andar até a estação de ônibus.
Ele não disse nada, apenas abriu a porta, estava sem camisa, e uma pequena nostalgia veio em minha cabeça. Mas eu não podia me deixar levar pelo desejo. Stefan segurou minha cintura, e me beijou. Foi doce, e molhado, ele estava chorando, eu apertei a nuca dele, e meus lábios se embaraçavam nos dele, como duas galáxias em colisão.
Olhei em seus olhos, que choravam, e disse adeus.
Antes de descer aquelas escadas, passei no quarto de Damon.
"Damon?"
"Elena, você está bem?"-Ele veio correndo até a porta.
"Vou embora. Tenha que achar minha tia, e ver meu irmão, obrigada por tudo, diga aos seus pais que eu agradeço muito."-Falei, olhando para o chão.
"Se cuida Elena, me liga quando estiver chegando em algum lugar."-Ele olhou para mim, Damon me entendia, de uma forma diferente.
Nos abraçamos e dei um beijo em sua bochecha. Olhei uma última vez para o quarto de Stefan, e escutei seu sono, seu sossego, sua alma dormindo, sua dor por me ver partir.
Já estava na metade do caminho, as ruas eram vazias e bem pavimentadas, a cidade era tão pequena, tinha uns três ou quatro restaurantes, uma igreja, um hospital, uma praça enorme de casas grandes.
Estava chegando na estação já, não estava cansada, a ansiedade de ir para casa, de encontrar minha tia era muito grande.
Quando entrei na loja onde vendia passagem 24 horas, vi de costas um homem alto, com um jaqueta preta e calça da mesma cor, uma bota meio amarronzada e nas mãos uma carta.
Ele virou, e logo reconheci, levei um susto, um susto que mudou a minha vida, um susto que fez história em meu coração. Damon.
"Posso ir com você, senhorita Elena?"-E me entregou a carta.
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