Aquele adorável verão
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A represa do acampamento Audácia era extensa e parecia profunda. Para Tobias, essas características estavam um tanto aumentadas, porque ele não sabia nadar e tinha medo de água. Enfrentava um dilema terrível, com medo ou não, precisava atravessar a represa. Isso porque seu rival, Eric, havia lhe desafiado a isso, e agora, a metade do acampamento os assistia.
Tobias não considerava Eric realmente um rival, até poderia tentar ter um bom relacionamento com ele, mas não era possível. Eric era um dos monitores do acampamento, porém não fora a primeira escolha. Tobias que recebera o convite, mas tinha recusado. De alguma forma, Eric infantilmente insistia em tentar provar sua suposta superioridade. Tobias suspeitava que o adversário conhecesse seu medo. Estava arrependido de ter aceitado o desafio. Só o fizera, porque possuía vagas esperanças de que, aceitando esse, não seria mais incomodado. Ele aceitara antes de saber do que o desafio se tratava. Se pudesse prever o futuro...
— Vou contar até três antes de apitar. — disse um campista se posicionando entre os competidores — O primeiro que chegar até a outra margem...
— Peter, eu que inventei o desafio, e é claro que sei as regras. Não precisa repetir. Garanto que Tobias também sabe, não é? — Eric sorria cinicamente.
—Sei sim! — Com um sorriso desses, Tobias quase confirmara que Eric sabia de sua pequena inimizade com a água. Tentava manter-se confiante, principalmente porque estava sendo assistido. Não se importava muito em passar vergonha, só não queria que a causa fosse Eric.
— Diga as regras para eles, Eric! Eles que têm que saber. — Peter se virou, um tanto desajeitado e repetiu as regras da competição.
Os campistas, de média de idade entre catorze a dezessete anos, soltavam seus gritos e ovações, acompanhados de costumeiras provocações. Eric parecia gostar disso, principalmente ao ver que a torcida estava até equilibrada.
Tobias, ao olhar para a represa, começou a tremer. Ela não tinha partes rasas nas margens, parecia funda em todas a sua extensão. O garoto pensava se alguém iria salvá-lo. Afastou esse pensamento logo em seguida. Estava no clima de derrota, como se já tivesse perdido a competição. Bem, nesse caso, o futuro não era tão indecifrável assim.
A água estava azulada, refletindo o céu. Tobias olhou para cima e viu nuvens afastadas e em pouca quantidade. Definitivamente não iria chover. Ele realmente gostaria que tivesse algo que pudesse impedir a ocasião.
Com os gritos animados da torcida, Peter fez a contagem e apitou. Em seguida, Eric pulou e começou a nadar. Tobias fez o mesmo depois de um momento de hesitação. Ao menos, só a parte de pular que foi parecida. Ele tentou ao menos boiar, mas logo entrou em pânico, agitando os braços para frente e balançando as pernas de qualquer jeito. Tinha prendido a respiração, porém, já estava ficando sem fôlego, tendo que soltar o ar, fazendo água entrar em suas narinas.
De repente, um barulho forte de estouro foi ouvido, capturando a atenção das pessoas no local. Tudo aconteceu muito rápido. Enquanto se desesperava, Tobias foi envolvido pela cintura e logo depois estava na superfície, próximo à margem. Ele tossia muito. Logo se acalmou ao se sentar no gramado. Ainda tremia, porém estava agradecido, porque a maior parte desse motivo não era pelo medo, e sim pelo frio. Olhou para o lado, vendo familiares cabelos louros.
— Tris! — exclamou um Tobias aliviado e bastante envergonhado.
— Desculpe a demora — Tris respondeu sorrindo, com seus olhos azuis brilhantes e travessos.
Eles ficaram se olhando timidamente. Tobias estava com seu orgulho estraçalhado por ter sido salvo e feliz pelo mesmo motivo.
— Há! Você perdeu, Tobias! — Eric gritou já na outra margem. Por azar ou não, os campistas, outrora animados, estavam bastante preocupados com o barulho. Parecia que uma arma tinha sido disparada. Muitos já haviam se dispersado, provavelmente com medo.
Tobias perdera o desafio, mas aquele som que causara tanto alvoroço lhe trazia pequenas esperanças. Olhou estupefato para Tris, que parecia ansiosa, como se estivesse à espera de algo.
— Você fez aquilo? — disse em voz baixa. A garota, bastante ciente, fez um muxoxo.
— Espere e verá. Claro que também fiz isso por você, mas precisava de vingança. Sabe que sou agradecida pelo que fez...
Tobias ficou boquiaberto. Olhou os campistas que ainda estavam preocupados com suspeito estrondo. O próprio Peter, que era o juiz, já não prestava mais atenção à competição.
— Hey, acho que ganhei, não? Vocês reconhecem isso, certo? — Eric chegou, tentando ganhar a multidão. — O que foi?
— Esse barulho, não ouviu? — Peter falou — Era como uma...
— Quem pegou a minha pistola?— gritou uma mulher, se aproximando.
Era a diretora, Tori Wu. Ela tinha aproximadamente quarenta anos. De acordo com alguns boatos, já servira no exército, o que fazia muitos temerem, principalmente os mais novos. Não parecia mentira, visto o jeito rigoroso com que administrava o acampamento.
Tori marchou até onde Peter estava, olhou ao redor e continuou:
— Ninguém vai me responder? E o que exatamente está acontecendo aqui? Me respondam!
Os campistas que ainda continuavam ali não tinham coragem para responder, nem ao menos encarar a diretora. Muitos diziam que os castigos que aplicava eram terríveis.
— Eu vi tudo, senhora Wu. — Tris se levantou — Eric desafiou Tobias para que nadassem na represa, mas parece que ele estava com medo de perder.
— O quê? Você nem estava aqui, Careta — Eric se defendeu.
— Deixe Tris terminar — Tori ordenou — Prossiga.
— Então Eric pediu para Peter causar aquele estrondo, para atacar Tobias e o afogar de surpresa. Enquanto todos se preocupavam com o barulho, eu o impedi, por sorte.
— É mentira! — Peter interveio.
— E o que é isso perto de seus pés, senhor Peter? — Tori apontou.
Ela se abaixou e pegou a pistola desaparecida. Encarou Eric e Peter furiosamente.
— Para começar, vocês não deveriam nem fazer desafios desse jeito, mas pegar minha arma e disparar?
—É mentira da Careta, senhora Wu. — Peter reclamou.
— Não chame Tris desse jeito! Falando nisso senhorita Tris, pode me provar?
— Com todo respeito senhora, já me viu mentir alguma vez? Nesse meu primeiro ano aqui, nunca fiquei de detenção. — respondeu Tris, determinada. Tobias podia ver que a garota se divertia enganando os demais. Ele estava gostando do foco não ser mais o desafio idiota. Poderia imaginar o castigo que seria aplicado e, por dentro, comemorava.
— Bem... Não. — Tori se voltou para Eric e Peter — Vocês dois, me acompanhem.
O resto das pessoas se dispersava aos poucos. Peter encarou Tris com ódio. Ela apenas beijou os dedos e assoprou, com cinismo, deixando o garoto com mais raiva.
Tobias tocou os ombros de Tris, bastante corado, agora que estavam a sós. Achou-a linda, com os cabelos louros contrastando com o uniforme verde do acampamento.
— Devo estar parecendo uma donzela em perigo — Tobias coçou a cabeça —, mas... Obrigado, Tris.
— Você éuma donzela em perigo! Nem parece mais aquele garoto forte, importante e misterioso, sempre solitário, que me defendeu das provocações no começo do verão...
— Ei! — Tobias reclamou. Tris sorriu e se aproximou. Os dois trocaram um tímido beijo.
— Estava brincando. Sei que não saber nadar é um dos seus quatro medos e blá blá blá... Acho que Peter ouviu. Já não bastava a surra que levou de você... Acho que eu mesma vou ter que bater nele depois.
— Vai mesmo. Já que ficou forte nesse verão... —Ele se secou e vestiu sua camiseta que estava jogada no chão — Vamos arrumar as coisas? — Tris assentiu. Tobias passou o braço ao redor dos ombros de Tris e os dois andaram até a área dos chalés.
***
Aquele era o último dia no acampamento. Dos três verões que passara, obviamente, esse tinha sido o melhor, em que Tris chegara.
A vida de Tobias era um tanto complicada. Seus pais eram divorciados e ele morava com o pai. Os dois não tinham um bom relacionamento. O pai era sempre irritado, autoritário... Não poderia morar com a mãe, porque seu trabalho exigia muito dela, tendo que fazer viagens e muitas outras coisas. O aspecto bom era que tinha um pouco de tempo com ela no final do verão, coincidindo com o final do acampamento.
A estadia no acampamento Audácia era consequência de seu relacionamento com o pai. Fora um alívio de ambas as partes. Nos verões, Tobias se distraía um pouco, mesmo não tendo muitos amigos. Ele era muito bom nas atividades, tinha o reconhecimento da diretora e até ganhara diversas medalhas. Entretanto, não era muito feliz. As pessoas de lá, muitas vezes queriam se aproximar dele por puro interesse. Na maioria das vezes, ficava sozinho. Até a chegada de Tris.
No primeiro momento, já tinha se encantado pela garota. Ela era um pouco diferente dos demais, sendo considerada um pouco certinhapor eles. Tobias descobria mais tarde que esse fato era por causa de seus pais, que eram um tanto diferentes. Para começar, seguiam os costumes vegetarianos e rejeitavam tudo que consideravam luxuosos demais. Tris, mesmo não gostando do jeito dos pais, acabava tendo reflexo disso no seu comportamento, o que não contribuiu muito para sua popularidade em Audácia. Contudo, Tris se mostrou bastante inteligente e forte com o tempo: ela foi muito bem sucedida em diversas atividades e fez alguns amigos.
Tobias não sabia exatamente quando começaram o relacionamento, tinha quase certeza de que foi quando Tris passou a ter aulas de esgrima com ele. Desde então, aproveitaram o verão ao máximo. Eles se encaminharam muito desanimados para a saída, à espera de seus pais. Tobias estava tão triste que nem pensava no castigo que Eric e Peter receberam.
— Tris, me passe o número de seu celular.
Tris revirou os olhos.
— Meus pais consideram isso um luxo também. Não tenho um. — Tobias se entristeceu, mas pensou por um momento que os pais dela eram bem parecidos com o seu. Ele nem sabia por que estava pedindo o telefone, sendo que também não tinha um. Talvez, os pais de ambos seguissem o mesmo estilo de vida.
— Tome o número da minha casa — Tobias estendeu um papel para Tris — Aqui também tem o endereço. Depois que se mudar, me ligue, ou faça qualquer coisa para nos vermos. — Ele estava preocupado. Tris também estava. Naquele momento, por mais que respeitasse seus pais, tinha raiva das decisões de viver de maneira simples que eles tinham.
— Meus pais são caretas, Tobias — Ele riu. — Provavelmente, eles já terão se mudado quando vierem me buscar, então, não se preocupe. Só pelo falo de morarmos em Chicago...
— Chicago não é uma cidade tão pequena, Tris.
— Mas é a mesma cidade.
Abraçaram-se por alguns segundos. Tobias estava com o coração bastante acelerado. Tinha medo de nunca mais encontrar Tris. Gostava muito do acampamento, desejava que o tempo se estendesse para passar mais tempo com ela.
Tris se ergueu, ficando na ponta dos pés e deu um beijo de despedida em Tobias. Diferente das outras vezes, não era mais tímido e inseguro. Era suave, simples, porém agradável.
— Estou vendo o carro dos meus pais, Tobias. É melhor eu ir. — Tocaram as mãos uma última vez e Tris correu por entre os campistas que se despediam.
Tobias se sentiu como se uma parte dele estivesse indo embora junto com Tris. A garota olhou para trás e sorriu, antes de chegar ao carro dos pais. Ele ficou encostado em uma árvore, olhando seus colegas cumprimentando seus pais, com um pouco de inveja deles. Pensou no verão que tivera. Afinal, não precisava reclamar de nada. Fora feliz. Não sentia isso há muito tempo.
Depois de alguns minutos, viu um carro cinza e um homem carrancudo lá dentro. Era Marcus, seu pai. Tobias pegou sua mala e andou até lá. Como sempre, não fora recebido como um filho.
— Olá, Tobias.
— Oi, pai. — respondeu, entrando no carro.
Marcus deu a partida, manobrou, e num instante estavam na estrada, em direção a Chicago. No percurso, não tiveram um diálogo propriamente dito. Trocaram pouca coisa a mais que monossílabos.
Ao chegar à casa de sua mãe, Tobias desceu do carro.
— Em uma semana volto para te buscar — Marcus proferiu, como uma ameaça.
Tobias assentiu e se afastou. Observou a rua onde sua mãe morava e viu um caminhão de mudanças. Por um instante pensou que... Não, seria coincidência demais.
Entrou em sua casa. Depois da recepção um tanto calorosa da mãe, foi para seu quarto guardar sua mala e descansar um pouco, até que foi interrompido pelo chamado dela.
— Tobias, venha conhecer os senhores Prior, eles acabaram de se mudar. — Prior? Tobias se encheu de animação e desceu correndo. Quando chegou à sala de visitas, encontrou um casal, com apenas um filho.
— Aqui, esse é o meu filho Tobias — ela disse, sorrindo.
O casal o cumprimentou, educadamente.
Tobias não pode disfarçar todo o desânimo de ter suas expectativas derrubadas. Por isso, decidiu sair de sua casa, para tentar se acalmar.
— Mãe, posso dar um passeio por aí?
— Pode sim, mas...
— Não demoro. — E saiu.
O garoto andou por um tempo até chegar a uma praça bastante movimentada. Carros passavam rapidamente. Todo o agito da cidade fez até bem para ele.
— Cuidado! — alguém gritou.
Um cachorro da raça São Bernardo estava correndo em direção a Tobias, arrastando uma corda solta, parecendo que havia se soltado de seu dono. Felizmente, decidiu que se chocar com garotos não era tão interessante assim e parou para farejar o chão.
Tobias encarou a dona da voz e não pode acreditar em quem via. Ela ainda usava o uniforme verde, estava sorrindo como nunca.
— Tris... — e correu até ela, beijando-a de um jeito meio desesperado.
— Hey, se acalme. Quando cheguei aqui, conheci sua mãe e vim passear com meu cachorro aqui.
— Quer dizer então que os senhores Prior tem uma filha?
— Bem, se eles não mentiram pra mim, acho que isso é verdade — encarou Tobias levantando uma sobrancelha — Mas e aí? Acabou que o número de telefone não foi tão necessário assim, não é?
— É verdade. Acho que a “caretisse” dos nossos pais não importou muito no final das contas...
Agora, Tobias tinha muito que comemorar. Com certeza estenderia aquele verão o máximo de tempo possível.
Fale com o autor