Aquele a quem chamam Severus Snape
6 Capítulo 6
Contra todos os seus instintos, e já que Elohim demorava a voltar, Madame Pomfrey examinou Severus Snape, tentando ignorar a visão das duas magníficas asas sobre as quais ele estava deitado. No pescoço, não havia cicatriz, nenhum sinal da ferida horrível infligida pelo bichinho de Você-Sabe-Quem. Ela tinha visto a ferida há menos de quatro dias.
Poppy notou que Snape não estava exatamente mudado, mas ele parecia um pouco mais jovem. E as asas pareciam sedosas, brilhantes como estava o cabelo preto. Seus sinais vitais estavam bons, então ela se voltou para o jovem Sr. Potter.
Estranhamente, a enfermeira da escola descobriu que os sinais vitais do adolescente estavam tão bons quanto os do antigo diretor. A aparência do rapaz, porém, não era lá essas coisas. A pele tinha um tom acinzentado sinistro e parecia uma cera estranha e nada saudável. O Salvador do Mundo Bruxo parecia mais velho: linhas finas escureciam a área ao redor dos olhos. Embora a respiração dele fosse rala, ele não parecia estar em perigo imediato.
— Como eles estão? — quis saber McGonagall.
— Melhor do que eu esperava. Agora será que alguém poderia me explicar como e por que o diretor está vivo e... er, alado?
— É — interveio Neville. — Eu também estava curioso sobre isso.
A Professora McGonagall resumiu o que ela sabia sobre o caso todo. Poppy mal conseguiu acreditar no que ouvia. Foi um segundo choque para a experiente enfermeira.
O primeiro tinha sido a descoberta que o odiado diretor de Hogwarts, conhecido Death Eater e assassino, era na verdade (e comprovadamente) um espião agindo sob as ordens de Dumbledore. Snape tinha recebido postumamente uma Ordem de Merlin, Segunda Classe, por ter dado sua vida para ajudar Harry a cumprir sua missão.
Tinha sido difícil para Poppy aceitar que Severus Snape agora era saudado como um grande homem e um herói. Depois de um ano inteiro de reinado de terror, vendo as detenções se tornarem um verdadeiro festival de maldições, azarações e pragas, para não mencionar Imperdoáveis. Poppy tinha dificuldade em acreditar que Snape não concordava com aquilo. Contudo, ela teve que admitir, quando discutiu com Minerva sobre isso, que, se Snape tivesse feito qualquer coisa para impedir, ele teria sido destituído como diretor, e o cargo teria ido para os Carrow. Nesse caso, tremeu Poppy, as Imperdoáveis teriam sido padrão para qualquer punição.
Ainda assim, era difícil para Pomfrey esquecer todos os estudantes, pobres crianças. Muitas vezes a ala hospitalar estava abarrotada de alunos. Ela fez o melhor para aliviar as feridas, machucados e cortes. Contudo, a enfermeira tinha sérias preocupações sobre as cicatrizes mentais e psicológicas que muitos deles teriam durante anos.
— Não acredito — admirou-se Neville. — Parece que literalmente tudo acontece com Harry. E por que ele está doente?
— Não tenho certeza — disse Pomfrey. — O homem disse que traria ajuda.
— E não é sem tempo — comentou Neville. — Parece que Harry está acordando.
Era verdade. Minerva McGonagall se adiantou até ele, sentando-se na beirada da cama. Observou os olhos do adolescente abrirem-se com dificuldade. Ele olhou em volta, um pouco perdido. Mas antes que Minerva pudesse saudá-lo, ele se assustou e ergueu-se para se sentar, os olhos pretos arregalados.
— Está tudo bem agora — disse Minerva. — Você está bem agora.
Aquilo não o acalmou.
— A escola... está segura? — A voz dele parecia um pouco mais grossa.
— Você salvou a escola — garantiu Minerva. — Você salvou todos nós.
De novo, ele não pareceu mais tranquilo.
— E o Lord das Trevas?
McGonagal respondeu pacientemente:
— Você o derrotou. Não se lembra?
Ele abriu a boca para responder, ainda parecendo incerto e angustiado, quando uma luz rosada invadiu o quarto. De suas costas, Minerva ouviu uma voz feminina suave, que soou como um bálsamo em seus ouvidos:
— Oh, meu garoto, é muito cedo ainda para você estar acordado. Pode descansar um pouco mais, filho. Deite-se, por favor.
Minerva ficou impressionada ao se virar para observar a chegada de Apsara, envolta na luz suave, agora numa tonalidade mais esverdeada, talvez azul. Os passos dela eram tão suaves que ela mais parecia flutuar acima do chão.
A recém-chegada caminhou até os pacientes, em camas contíguas. A luz que a envolvia também se estendia sobre Snape e Harry.
O jovem olhou para Apsara com uma expressão estranha, algo entre surpresa e alívio. Minerva podia jurar que os olhos dele mudaram de cor, de preto para o costumeiro verde vivo. Em segundos, ele suspirou, fechando os olhos e calmamente deitando-se antes de cair em sono profundo.
A luz de Apsara continuou a banhar os três, e ela cantarolou baixinho, uma melodia harmoniosa que não parecia ser um hino religioso, mas sim o mesmo encantamento misterioso que Severus usara no jovem Draco Malfoy, quando ele fora atingido por um horroroso Sectumsempra.
Elohim escolheu aquele momento para entrar na sala. Sua presença foi percebida por todos, e ele anunciou em voz baixa:
— Não deve demorar muito. Apsara é excelente em cura. O rapaz ficará bem. Ele precisa de muito repouso.
Os demais escolheram não responder, talvez induzidos pela luz suave e canto acolhedor de Apsara, que acalmava até mesmo quem não estava diretamente envolvido. Em questão de uns meros minutos, Harry estava ferrado no sono de novo, agora com uma aparência tranquila.
Apsara virou-se para o grupo, com um sorriso suave.
— Ele vai ficar ótimo. Lamento dizer que não vai acordar tão cedo, mas ele está num profundo transe de cura. Vai fazer bem. Enquanto isso, há muito a fazer antes que ambos estejam prontos para ir.
— Ir? — repetiu McGonagall. — Ir aonde?
Com grande gentileza, Apsara explicou:
— Aquele a quem vocês chamam se Severus Snape está em grande sofrimento, mas também lhe falta sua própria essência. O garoto a quem chamam Harry leva consigo as duas essências, o que lhe causa grande desgaste. Ele pode correr um grande risco se tentar manter ambos midrashes por mais tempo. Severus deve se reunir com sua própria essência, sob pena de esvanecer e se esvair para sempre. Harry deve se separar de midrash de Severus sob pena de permanecer num estado de desequílibrio que pode prejudicá-lo de forma irreversível. É uma tarefa demasiadamente grande para eu realizar sozinha. Devemos levá-los para casa, onde receberão cuidados excelentes, e ganharão paz de espírito. Até lá, muito precisa ser feito.
— Mas ele morreu — disse McGonagall. — Não morreu?
— Sim, certamente — confirmou Elohim. — Mas Apsara e eu estávamos discutindo o que aconteceu e acreditamos que a única explicação possível é que Severus precisou morrer para que sua herança Elohim pudesse literalmente emergir. Sua mágica tinha que deixar seu corpo totalmente para que seu midrash pudesse acordar na mente do jovem Harry. E quando isso aconteceu, foi demais para o pobre rapaz. Ele não estava em condições de manter o midrash e também sua própria essência. Ele tinha lutado contra aquele Lord Voldemort, e isso o desgastara imensamente.
Neville quis confirmar:
— Está dizendo que Harry tem mesmo essa coisa rash do Professor Snape na cabeça?
— Sim — confirmou Apsara. — Essa deve ter sido a razão pela qual ele desmaiou. E quando ele acordou, agora há pouco, não era ele mesmo falando. Era a essência de Severus.
— Bem que achei que a voz estava diferente! — exclamou McGonagall, admirada.
— O que fazemos agora? — quis saber Neville. — Podemos ajudar?
Apsara sorriu para ele, e era tão doce que parecia um anjo. — Você, Neville, de coração tão corajoso e puro, seria mesmo de grande ajuda. Nosso bom amigo Kingsley está tentando explicar aos repórteres o que está acontecendo, mas parece que as pessoas com quem ele está falando não acreditam nele. Contudo, se você falar com eles, eles o ouvirão. Infelizmente, não será prudente falar toda a verdade. Já que é culpa do Lord das Trevas que Severus teve que morrer, então se pode dizer que Harry foi atingido por uma maldição desconhecida de ação retardada lançada por aquele conhecido como Lord Voldemort. Essa maldição, antiga e obscura, provou ser superior aos talentos maravilhosos de Madame Pomfrey, portanto um especialista está vindo de Floo diretamente até Hogwarts. Ninguém acha que o jovem Harry esteja em perigo, mas ele ainda não acordou. Essencialmente, foi isso que Kingsley disse a ele, então eles vão terminar tendo que pedir desculpas a nosso querido ministro. Está disposto a nos ajudar a fazer isso, Neville?
— Claro — disse Neville. — Vou lá agora mesmo, se concordarem.
— Vá, meu rapaz. — O sorriso de Apsara era contagiante e confortador.
Poppy esperou até que Neville tivesse saído para então perguntar:
— Então o jovem Potter vai realmente ficar bom?
— Na verdade, ele deve ficar, mas não há garantias. Nem para ele, nem para Severus. Mas confiamos nos esforços da Hierofante.
Pomfrey e Minerva mostraram-se alarmadas, mas Elohim tentou tranquilizá-las.
— Não há razão para prever qualquer resultado do procedimento que não um êxito total. É só que isso jamais foi feito em memória conhecida — nossa memória conhecida, que é muito anterior à infância da humanidade.
— Então não devem fazer! — disse Minerva. — Se não há garantias... — Ela não terminou a frase, receosa.
— Se eles não fizerem, então Severus vai morrer e Harry vai enlouquecer — disse Apsara, baixinho. — Temo que não haja alternativa. Como mãe de Severus, preciso tentar. Espero que entendam.
Tanto Poppy como Minerva entendiam. Ainda assim, elas não podiam evitar temer pelos dois. Poppy quis saber:
— Podemos fazer algo para ajudar?
Apsara sorriu para as duas. — Na verdade, podem. Deixem-me falar sobre essa viagem que precisaremos fazer. Quem vocês recomendariam para acompanhar Harry?
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