Aquele Garoto Idiota e Aquela Garota Idiota

2 Capítulo 2 - Skate e patins não combinam


Notas iniciais
Assustando vocês! Decidi abrir um dia a mais para postar os capítulos, já que estou bem adiantada em relação aos meus estudos e mais organizada também. Então ficaram de terça e sexta os dias em que postarei!

“- Eu... Eu quero que saiba... Que eu não vou desistir de você..! – eu disse com a voz meio rouca e chorona. O garoto me olhou com indiferença, e se virou.”

Acordei ao som do meu despertador, e dessa vez não estava atrasada. Era um milagre, mesmo sabendo que eu iria arranjar uma maneira de me atrasar, fuçando meu blog antes de ir para a faculdade. Cocei a cabeça sentada na cama, e me levantei para desligar o despertador que estava em cima da minha cômoda branca do outro lado do quarto. Quando desbloqueei a tela do celular, havia uma mensagem de um numero que não estava marcado nos meus contatos.

“Eu acho que o nosso trabalho tem que ser sobre musicas do Daft Punk. Ah e anota o meu numero aí, vai precisar pra me chamar.”

Claro, eu não sabia de quem era a mensagem, e não tinha nem o nome, como eu ia anotar no meu celular? Parabéns, você merece o troféu cérebro do ano!

Suspirei e desci até a cozinha. Júlia não ia à aula hoje, então teria que ir sozinha – nunca consegui tirar carta, infelizmente – com milhares de livros nas mãos. Tomei um leite com açúcar do jeito que eu gosto, troquei de roupa e saí até o fundo de casa. Peguei meus patins azuis gastos e prendi bem forte nos meus pés. Amarrei os meus sapatos pelos cadarços e atravessei-os sobre a minha nuca. Saí pela cidade patinando em direção à faculdade, bem lentamente, pensando em quem enviara a mensagem.

Demoraria dois minutos para chegar à faculdade, se não fosse por uma pedra que estava no meio do caminho. Caí rápido demais, minha perna arrastou por alguns centímetros no asfalto morno e senti o sangue escorrer em ambos os joelhos. Ah merda! Agora eu chegaria de novo atrasada para a segunda aula! Senti meu rosto ficar um pouco vermelho com a dor, mas logo disfarcei por ouvir alguém se aproximando.

– Será possível que você não sabe correr sem tropeçar em algo ou alguém? – senti uma mão passando delicadamente por trás em meu ombro, o que me fez arrepiar por um instante. Quando me virei para ver quem era, Thomas estava meio ofegante e com um olhar preocupado.

– Não se preocupa, eu consig... – minha tentativa ao me levantar e parecer bem fracassou e me rendi ajoelhada. — ...não consigo. — Thomas deu uma risada, e então se ajoelhou ao meu lado. Abriu a mochila, procurando alguma coisa. Percebi que ele tinha um skate ao seu lado, meio velho e bem gasto, mas antes que eu perguntasse algo, o garoto já passava um pano preto em um dos meus joelhos pra tirar o sangue que quase escorria.

– Não sabia que você andava em um desses. – disse ele apontando para os meus patins.

– Desde criança eu gosto... Ai!

– Faltam cinco minutos a pé até a escola. Eu aguento. – olhei pra ele com cara de retardada.

– Aguenta o que? – observei-o levantar a mochila e colocar o skate dentro da mesma, e então eu congelei: senti seus braços passando pela minha cintura e pernas, me erguendo lentamente. Thomas saiu andando comigo no colo como se eu fosse um projeto de ciências, mas não consegui falar nada até chegarmos à porta principal.

– Eu já tô bem, sério. – eu disse me debatendo feito idiota e mal agradecida.

– Não, temos que ir até a enfermaria, esse joelho precisa ser limpo. – Thomas parecia sério, entrando lentamente pela escola com todos me encarando. Minha cabeça foi se enterrando em seu peito, até que meus olhos encontraram os de alguém que eu já conhecia. Ele era ruivo, com sardas por todo o rosto, usava óculos enormes e seus olhos eram verdes e brilhantes. Desanimei na hora. Por que raios eu tinha que estar no colo de alguém justo quando encontrei “ele”...?

Mesmo me sentindo um lixo, meu rosto acabou se acomodando no peito de Thomas, e pude sentir sua respiração logo acima da minha cabeça. Ele deve ter percebido, pois parou por alguns instantes olhando para os lados, mas logo continuou.

Na enfermaria, dona Dalva, uma senhora de 60 e poucos anos, com olhos azuis brilhantes e cabelos grisalhos pediu para Thomas me colocar em uma pequena maca; ela começou a limpar os meus ferimentos, mas ardia muito, e parecia que a coisa estava feia com os meus joelhos, então não queria perguntar nada para evitar entrar em desespero.

– Eu não sei, mas parece que isso precisa de alguns pontos. – ela disse sem olhar em meu rosto. Sabia sobre a minha fobia de agulhas, e sabia muito bem o escândalo que eu faria assim que chegasse ao hospital. Apenas olhei para os lados tentando esconder uma lágrima de raiva, mas então meus olhos encontraram com os de Thomas que estava sentado ao meu lado, quase tocando em uma das minhas mãos.

– Vou até a sala do diretor para ver se alguém pode te levar para o hospital. Thomas se quiser voltar para a sala... – o garoto levantou os olhos para dona Dalva e logo respondeu sem esperar a mesma terminar a frase.

– Não, vou cuidar dela. – senti minhas bochechas esquentarem, mas como eu sou muito morena, sabia que era difícil meu rosto ficar vermelho. De algum jeito, aquela frase me fez bem. Dalva saiu pela porta branca, e então dei um longo suspiro. – então... Você gosta daquele garoto ruivo chamado Pedro? – aquela pergunta me pegou de surpresa.

– Ahm... Não sei de quem você está falando. – virei o rosto, mas Thomas riu.

– Ele não gosta de voc...

– Eu sei. Ele não gosta de ninguém. – atrapalhei. Meus olhos lacrimejaram, mas não valia a pena chorar por ele. Thomas ficou me encarando por um tempo, e logo quebrou o silencio com algo que fez meu coração acelerar.

– Se eu dissesse que eu gosto de você nesse exato momento, seria um jeito legal de quebrar esse clima triste? – silencio. Eu não conseguia falar nada, simplesmente fiquei o encarando por um bom tempo, aqueles lábios avermelhados me chamavam a atenção mais do que tudo, até que um sorriso de abriu. – quero dizer, gostar de...

– Não! Eu entendo! Eu... Eu... Também gosto de você. – senti seu sorriso abrindo mais e mais, até que eu me toquei do que tinha falado. Merda, eu não gostava dele daquele jeito! Mas como se tivesse lido meus pensamentos, limpou a garganta e disse meio sem graça.

– Então espero que sejamos bons amigos, Amanda. – estendeu a mão. O que? O gostar dele... Era o gostar de amizade?! E eu tinha dito que eu gostava pensando que esse seria o começo de um amor? Ele riu. – quer dizer que você pensou que eu gosto de você e quero te pegar?

– Seu idiota! – dei uma risada sem graça, passando a mão na minha testa, sorrindo meio torto. Peguei a sua mão, e prestei atenção ao seu toque, que era quente e fez minha barriga gelar. Quando meus olhos subiram em direção aos seus, percebi que ele me encarava com um olhar meio triste e ao mesmo tempo manhoso. Aquilo não estava certo; os dedos da sua mão que apertava a minha se entrelaçaram lentamente por entre os meus, e senti seu corpo se aproximando da maca, onde estava parcialmente deitada. Meu coração pulava e minhas pálpebras não se mantinham abertas direito. Senti a sua respiração em uma de minhas bochechas, mas logo ele se afastou. Quando abri os olhos o xingando mentalmente, percebi que havia alguém à porta: era Pedro!

Seu rosto sem expressão era a sua marca registrada, mas sua respiração estava acelerada; devia estar correndo. Entrando calmamente, passou uma das mãos nos meus joelhos enfaixados e disse com aquela voz grossa que gelava o meu estômago.

– Eu vi você sendo carregada pelo Thomas e esperei o intervalo entre as aulas pra poder te ver. Tá tudo bem? – ele disse, mais encarando Thomas do que me encarando.

– Ahm.. Tá tudo bem agora. Parece que vou precisar levar uns pontos e... – uma lágrima escorreu no meu rosto. Merda, eu não queria chorar agora, não na frente do que menos merecia... Thomas encarou Pedro com uma expressão brava, e se levantou, soltando minha mão. – Thomas..

– Muita gente numa enfermaria. Eu volto quando eles vierem te buscar, eu prometo. – ele disse saindo pela porta. Meus olhos caíram em direção ao chão creme. O que foi aquilo? Ele queria ter me beijado mesmo depois de ter falado que queria ser meu amigo? Pedro sentou na cadeira agora vazia.

– Você é bem desastrada mesmo. – bateu de leve no meu ombro. Suspirei. – podia ter me chamado pra ajudar... Sei lá. – dei uma risada irônica.

– Claro, eu ia lembrar de pegar o celular quando caí.

– Ah, tá. – o silencio invadiu a enfermaria. Bufei mais algumas vezes o xingando mentalmente pela falta de vontade que ele tinha de se comunicar de uma maneira decente comigo e então dona Dalva entrou com o diretor.

– Amanda, gostaríamos de saber se você conhece alguém que possa te levar ao hospital. Todos os professores estão dando aula e daqui a pouco ele vai para uma reunião com os pais... – ótima escolinha aquela que nem chamar alguém conseguia. Eu já estava brava, e quando ia dizer que poderia ir andando, uma voz familiar meio afeminada passou pela porta, entrando lentamente com seus cabelos loiros e super brilhantes.

– Eu vou levar essa desastrada, dona Dalva. – disse Renan com seu sorriso mais que confortante. Eu amava aquele menino; na hora certa ele estava lá para me tirar de momentos tensos com Pedro e desabafar. Um sorriso enorme abriu em mim e senti Pedro tocar a minha mão.

– Eu que ia levar ela, Renan. – ele disse com a cara meio fechada e me encarando como se quisesse dizer “diz que sou eu que vou te levar!”.

– Não, eu vou me sentir melhor com o Renan... Ele... Ele sabe lidar com a minha fobia. – eu disse levantando da maca e indo em direção do loiro que me segurou pela cintura, sem parar um segundo de encarar Pedro com uma expressão de nojo.

– Tá bom, eu entendi. – disse cabisbaixo.

Renan me levou pelo corredor vazio — praticamente silencioso se não fosse pelas vozes dos professores – em direção ao estacionamento. Chegando perto de seu enorme Palio preto, uma figura surgiu rapidamente atrás de nós dois. Era Thomas de novo. Ele me olhou preocupado, então depois encarou Renan e suspirou.

– Ele que vai te levar? Não é o Pedro? – ele disse passando uma das mãos no próprio braço.

– Sim, eu prefiro o Renan... Ele é meu melhor amigo e..

– Eu vou entrar pra classe então. – eu fiquei sem voz. O que era aquela mudança repentina de atitudes? Tipo, em um momento ele estava todo carinhoso e agora se sentia... Magoado? O que ele tinha na cabeça?! Antes que eu pudesse dizer algo, completou – você não respondeu a minha mensagem mais cedo, eu acho que esqueci de colocar o meu nome no final... Usa ele pra me mandar mensagem quando sair de lá. Levo as suas coisas até a sua casa mais tarde, só me passa o endereço. – se virou e subiu de volta para a sala antes que levasse alguma bronca.

O tempo passava devagar. Eu não entendia mais nada, ele estava me confundindo toda. Renan me encarou mais uma vez e não aguentou. Soltou uma de suas deliciosas risadas cativantes até que perguntei o que tinha acontecido.

– Amor amiga, ele está super “xonado” por você! – senti meu rosto corar. Não, aquilo não era amor! Se fosse não seria confuso assim! Renan continuou rindo até me colocar no banco do passageiro em seu carro e dirigir em direção ao hospital, quinze minutos da faculdade. Quebrei o silencio com uma simples pergunta:

– E ele vale a pena?

– Não. — disse ele mordendo os lábios. – não se permita apaixonar por ele enquanto ele não provar que vale algo. Você sabe disso muito bem desde que o Pedrinho Silêncio terminou com você. – senti minha garganta dar um nó de novo, e permaneci quieta. Uma parte minha pedia para Thomas ser diferente e poder me aproximar dele, mas ao mesmo tempo algo me dizia que aconteceria algo muito ruim se eu o fizesse. Ah que merda, eu odeio esses meninos!

Notas finais
Gostaram? Comentem! Eu não mordo, juro.