Aquele Garoto Idiota e Aquela Garota Idiota
8 Capítulo Final - Coração desregulado
Notas iniciais
– Thomas? – disse Balther meio sem graça, mas com um tom alegre. O arrependimento me pegou de surpresa e tentei me aproximar dele, nas todo o passo que eu dava para frente eram dois passos para trás de Thomas. Sua cara de assustado não tinha se desfeito, e tudo o que fez foi entrar na casa de Pedro, chutando o pacotinho rosa. Bosta Amanda, olha isso! Corri para dentro também, deixando Balther parado no muro.
Quando entrei, todos me olharam com uma cara assustada, e segui o vão que ia para a cozinha, onde Thomas tirava uma garrafa de vodca do armário. Sem falar nada, observei seus olhos se encher de lagrimas e engasgar com a bebida. Julia estava do seu lado, e tentou acalma-lo, tirando a bebida da mão dele e abraçando-o. Renan foi o primeiro a entrar na cozinha, seguido por Hideki e Pedro. Nenhum deles parecia entender nada, somente eu e Julia, que me olhava com uma cara brava.
– Thom...
– Não fala comigo. Nunca mais fala comigo. Eu confiei em você... Eu amei você, Amanda! – ele disse começando a chorar. Meus olhos também se encheram de lágrima, mas nenhuma saiu. O que eu tinha feito foi errado, então eu não tinha o direito de chorar.
Renan se aproximou de mim, colocou as mãos no meu ombro e sussurrou algo que não escutei. Minha atenção estava toda em Thomas. Julia também sussurrou algo para ele que o fez assentir e então saiu com o menino que era quase o dobro do seu tamanho, deixando a casa no maior silencio. Hideki foi o primeiro a perguntar.
– O que aconteceu aqui?
– Eu beijei o Balther. – as palavras saíram da minha boca rápido demais, mas o suficiente para fazer todos pularem com a surpresa. Hideki não parava de andar de um lado para o outro, me xingando mentalmente, enquanto Pedro ficou imóvel. Renan não me largou, mas também não foi muito caloroso.
– Era isso que seu coração mandou fazer, Amanda? – ele disse.
– Foi... – senti o soco de Pedro na porta da cozinha. Levei um susto e o acompanhei com o olhar, sair pela mesma porta que Thomas saíra com Julia. Minhas pernas não aguentaram. Caí no chão, mas nenhum dos meninos pareceu preocupado em me ajudar. – o que... Eu faço?
– Termine essa merda, Amanda. – disse Renan, também saindo pela porta. Olhei para Hideki com certa vergonha.
– Eu lembrei porque nunca existiu um Nós: seu coração é desregulado. – ele disse, sentando em uma das cadeiras, coçando a cabeça, meio confuso.
Levantei-me lentamente e saí também, mas em direção à minha casa. Me sentia um lixo. Quando Balther veio falar comigo ao me ver saindo, o ignorei completamente. Dei mais uns passos e peguei o pacote rosa do chão. Li um pequeno escrito no canto, com a letra de Thomas:
“Para a minha bobona. Vamos ficar juntos para sempre, eu te prometo.”
As lagrimas não paravam mais de cair. Saí correndo para casa, berrando e soluçando feito um bebê, e na metade do caminho, caí no chão novamente. Senti a dor me invadir, mas não dei a mínima: nada era pior que a dor de sentir que você acabou de fazer a maior cagada do universo. Cheguei em casa, subi as escadas e me tranquei no quarto. Julia não estava, pelo menos nenhuma das luzes estavam acesas.
Abri o pacote com medo do que havia dentro, e assustei: vários papéis com textos, todos com meu nome, hora dizendo “eu me apaixonei pela Amanda” e hora dizendo “eu queria ser mais corajoso”. Merda, eu fui totalmente egoísta! Beijando um cara qualquer para esquecer os meus “problemas”, que tipo de vadia eu sou?!
Estava começando a ficar com dor de cabeça depois de tanto choro, até que no fundo da caixa, vi outro pacotinho. Dentro dele havia uma passagem para a cidade que Thomas estava se mudando. Meu mundo terminou de desabar: joguei tudo no chão, saí correndo e gritando para o meu banheiro. Minha cabeça não parava com vozes me criticando, e cada vez aumentavam mais e mais...
– Calem a boca!!! – berrei comigo mesma. Dei um soco no espelho, o que o fez quebrar e minha mão sangrar. Droga, nem mesmo a dor de um corte eu estava sentindo! – Amanda... Olha o tamanho da merda que você fez... – disse.
Depois de uma hora sentada no chão do banheiro, pensando no que fazer, levantei-me e saí dali. Minha mão pingava sangue, mas não liguei: deitei na minha cama daquele mesmo jeito, aquele estado horrível em que estava.
Na manhã seguinte, levantei cedo e fui para a cozinha. Julia ao estava lá, mas havia um bilhete pendurado na geladeira.
“Pegue a sua passagem. Você sabe o que fazer.”
Engoli em seco. Subi as escadas de novo e procurei pela passagem que estava no chão. O ônibus sairia dentro de quinze minutos, e não me arrumei. Naquele estado deplorável, suja, ensanguentada e descabelada, saí com meus patins até a rodoviária. Eram oito e quarenta e sete. Faltavam treze minutos.
Vi os cabelos ruivos de Julia a metros de distancia, e soube que ele ainda estava lá. Gritei pelo seu nome mas ela não ouviu. Quando chegava mais perto, via a fila que se formava na frente do ônibus e soube que meu tempo estava acabando.
– Thomas... – eu tentava gritar sem muito sucesso.
Quando cheguei perto do ônibus, o motorista já estava entrando. Não daria tempo nem para subir nele mais, e então pensei na coisa mais idiota de todas. Peguei o meu celular e em pouco tempo coloquei Instant Crush para tocar. Eu sabia que ninguém de dentro do ônibus ia conseguir ouvir. Ou quase todos.
Vi Thomas se levantar com uma cara surpresa e parar do lado do motorista. Com o resto de força que eu tinha, comecei a cantar, mesmo que as lagrimas começassem a cair. Os lábios de Thomas ficaram trêmulos, e assim permaneceu até o motorista dar a partida. Não dava mais tempo.
– Você não me ajudou no trabalho de artes, seu idiota..! – foi tudo o que eu consegui gritar. Uma lagrima escorreu em seu rosto. Soube que ele tinha entendido.
“E você nunca me deu um beijo, sua idiota!” foi o que eu entendi, lendo seus lábios. O ônibus deu ré e por fim partiu. Julia parou do meu lado e suspirou.
– Ele disse que não queria falar com você por um tempo.
– Eu sei. Nem eu gostaria de falar comigo mesma por um tempo. – disse saindo em direção de casa. Julia apertou a minha mão. Soltei um gemido de dor.
– Esse é pra você aprender a pensar antes de pedir qualquer bosta pra um galinha, e acreditar no que ele tem a dizer. – ela apertou mais uma vez. Caralho, aqui doía demais! – e esse é por achar que sua prima gosta do Thomas sendo que ela já está namorando. Sua idiota! – e eu um tapa na minha cabeça antes de rir e sair em direção ao carro.
– Por que você está rindo, Julia? Acabei de cometer a maior merda de tod... – ela tampou a minha boca.
– Talvez isso seja um sinal, Amanda. E vem, eu deixo você entrar no meu carro. Não sou tão má. – e me puxou pelo braço. Não falamos muito, e evitamos o assunto de ontem, mas assim que chegamos, Balther estava parado em frente ao portão. Julia já ia descer, mas fiz que não com a cabeça. Aquilo só eu poderia resolver.
Quando desci do carro, Balther abriu um enorme sorriso e veio me dar um abraço, mas me afastei antes disso.
– O que eu pedi ontem foi errado. Me desculpa por te iludir achando que gosto de você. – eu disse olhando para baixo. Ele riu.
– Eu sei que você não gosta de mim, Amanda. E eu não me importo com isso. Eu só gosto de ter alguém comigo e achei que você ia conseguir suprir a minha carência, mas não gostando de outro cara assim como você gosta. Mas... doeu um pouco sim. – ele apertou seus braços.
– Pedir desculpas não adianta, mas... Espero que você fique bem e encontre essa garota.
– É, eu acho... — e saiu andando.
Precisava de um pouco de ar e decidi patinar mais um pouco. Passei na frente da escola, e como era sábado, entrei para ver como ela era vazia demais e bonita assim. Tirei os patins e fiquei descalça. Passei as mãos pelos armários, passei pelo refeitório e parei no corredor em que trombei com Thomas e o vi pela primeira vez. Sentei um pouco ali no meio e fiquei pensando em como a vida pode ser engraçada no quesito conhecer gente nova.
Após algum tempo fui até a sala de artes e me sentei no mesmo lugar onde eu estava quando peguei o seu caderno. Tentei reviver a cena engraçada que foi a professora nos passar um trabalho... Droga. Eu tinha aquele trabalho para entregar na próxima semana!
Demorei um pouco mais e saí da escola, patinando por lugares aleatórios. Eu queria sentir o vento, e esquecer as vozes que ainda me criticavam. Por algum motivo, uma voz parecida com a de Thomas era a única que me protegia. Sorri por um momento. Acho que aquele realmente foi um sinal.
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