Notas iniciais
Gostei pra caramba de escrever esse capítulo, e a escrita fluiu muito bem. Espero que gostem dele tanto quanto eu gostei! Boa Leitura!

Dar carona na moto, comprar suco para ela, fazê-la matar aula em uma sala para conversar comigo, tocar enquanto ela canta, ficar com ela na praia; ficar irritado por ela ficar brava comigo, odiar vê-la triste... e tocar seu rosto para que olhasse para mim. Tenho certeza absoluta de que não é algo que um professor deveria fazer. Na minha cabeça consigo separar muito bem a minha vida profissional e particular, mas acho que na pratica não ando tão bem assim, mas só quando se trata dela. Tenho 21 anos, repito isso para mim mesmo sempre, ela tem 17, repito isso na minha mente na mesma frequência.

Eu mesmo não sei explicar o que houve entre mim e Sasha naquela noite, apenas sei que não consegui afasta-la de mim. Saí com Sasha recentemente para uma lanchonete, ela tinha ido até a escola porque queria conversar comigo, então aceitei almoçar com ela. O assunto foi meio engraçado, fiquei surpreso, mas gostei de ajuda-la e dar conselhos, senti como se tivéssemos voltado à época do ensino médio. Ainda assim, sabia que Sasha iria precisar de mim por um tempo, e fiquei atento a ela por uns dias, até aquele dia na hospedaria, quando ela irrompeu da cozinha e me olhou com o rosto fervilhando de raiva e os olhos marejados não pensei duas vezes, quando vi já havia deixado Eloisa sozinha sem entender nada e estava ao lado de fora com Sasha. Eu já sabia o que havia acontecido, ou pelo menos imaginava. Assim que atravessei a rua para conversar com ela, Sasha se virou e começou a despejar palavras em mim, mas não direcionadas a mim, foi como se ela já soubesse que eu tinha ido atrás dela e começou a desabafar. Eu não conseguia pensar em nada para dizer a ela, apenas ouvia e me agoniava vê-la tão triste. Ela quase não respirava de tanto que falava, coloquei minhas mãos em seus ombros e me abaixei para olha-la nos olhos, nessa hora ela se acalmou um pouco e respirou umas duas vezes.

— Calma, respira, não vai adiantar nada apenas jogar as palavras em cima de mim, vai com calma e respira. – Ela respirou e me olhou nos olhos, ainda com as lágrimas escorrendo pelo rosto até sua bochecha, que estava vermelha de raiva.

— Sinto sua falta. – Foi o que ela me disse e fiquei sem reação e sem entender o que ela queria dizer, mas não tive tempo de pensar porque logo em seguida ela me beijou.

Por uma fração de segundos fiquei sem reação, mas logo depois retribui seu beijo, sem entender exatamente o porquê. Sasha e eu havíamos terminado o namoro há uns bons anos, e nunca mais nos envolvemos depois disso, apenas amizade, presumo que isso seja uma reação pela nossa falta de proximidade e agora, do nada, voltarmos a nos ver quase todos os dias. Mas o pior momento para mim não foi esse, eu poderia muito bem me desculpar com Sasha depois e resolvermos as coisas, não, o pior momento foi quando Sasha arregalou os olhos e deu um passo para trás, se afastando de mim, a primeira coisa que pensei foi que Marco estava atrás de nós, quem me dera fosse ele, perdi o ar por alguns bons segundos quando me virei e vi uma cabeleira azul e seu rosto desviando do meu. Pensei em mil e uma coisas de uma vez, coisas que poderia dizer naquele momento, mas quando vi, já havia atravessado a rua na direção dela, vi que ela carregava alguns sacos pesados e foi a melhor desculpa que achei na hora. O segundo pior momento veio depois disso, quando estendi minha mão para ajudá-la e ela me afastou com um tapa na mão. Naquele momento caiu a ficha e entendi que havia feito besteira, mas ainda não sabia o tamanho da besteira, mas logo entenderia.

O terceiro pior momento veio quando ela recusou minha ajuda e seu celular tocou, vi claramente quem ligava e ela não fez questão de esconder, e nem de responde-lo olhando diretamente para o meu rosto. Depois que ela se virou para conversar saí andando e entrei novamente na hospedaria.

O quarto pior momento foi quando ela foi embora junto com os pais, me deixando a sós com Sasha e Marco. Eu sabia que nada de bom iria vir dali, e estava mais do que certo.

— O que aconteceu? – Perguntou Marco. – Minha irmã não estava com uma cara muito feliz, e ela não estava daquele jeito antes de pedir que levasse o lixo.

— Isso não importa pra você. – Respondeu Sasha para ele secamente. – Talvez soubesse se você mesmo tivesse levado a porcaria do lixo. – Continuou ela, como se a calma que ela se esforçara para ter a deixasse em um rompante.

— Não misture o que aconteceu entre nós com o que estou perguntando. – Respondeu Marco seriamente, era raro, muito raro vê-lo tão sério.

— Sasha, está na hora de ir para casa. – Eu disse a ela, e ela não conteve o olhar de raiva que me lançou. – Não adianta fazer essa cara, nada de bom vai acontecer se os dois continuarem dessa forma.

— Tem algo que queira me contar, Renan? – Perguntou Marco, já sabendo que algo havia acontecido. Eu estava calmo, perfeitamente calmo, até Marco falar comigo dessa forma.

— Na verdade não. – Respondi friamente. – Não que te diga respeito, eu suponho, porque se tivesse feito a sua parte certamente eu não teria que ter ido atrás da Sasha e nada teria acontecido.

— Renan, chega. – Disse Sasha, aparentemente voltando a se acalmar. – Eu estou indo, depois resolvemos isso, não vamos estragar o dia. – Marco soltou uma risada zombeteira ao ouvir Sasha dizer isso.

— Meus parabéns para a grande pacificadora. – Respondeu Marco ironicamente. Sasha cerrou os punhos e olhou para Marco, como se fosse começar a debater, mas se segurou, apesar de mais algumas lágrimas terem começado a rolar pelo seu rosto.

— Você não é assim... e vou tomar isso como um bom sinal. – Respondeu Sasha simplesmente e saiu, deixando Marco ainda mais irritado.

Eu estava ainda hospedado ali, não havia como eu fugir e nem para onde ir. Sasha havia ido embora, mas eu sabia que ainda não tinha terminado, com certeza não. Respirei fundo e então disse:

— O que houve? – Perguntei o mais calmo que pude.

— Independentemente do que houve, você não tinha o direito de beija-la. – Marco respondeu, tentando manter a calma tanto quanto eu. – Não fique surpreso, é bem óbvio o que aconteceu.

— Não queir...

— Você sabia de tudo! – Me interrompeu Marco. – Você sabia Renan, sei que sabia porque ela te contava as coisas e eu também! Como pôde deixar isso acontecer?

— Foi ela quem me beijou, ela! Não coloque a culpa em mim, posso sim ter cometido um erro ao deixar que ela me beijasse, mas você não sabe como é ver a pessoa que um dia você se apaixonou se desmoronando na sua frente e não poder fazer absolutamente nada!

— Ora vamos, é um garotinho do colegial agora? Vamos beijar então todas as pessoas que aparecerem tristes na nossa frente! – Disse Marco rindo com sarcasmo.

— Garotinho do colegial? Olha quem fala! Não sabe nem como chegar na garota que gosta e ser sincero com ela. Não me importa mais o que houve entre vocês porque sei com certeza que você agiu como um covarde, fugindo. – Respondi sem pensar, Marco explodiu de raiva e veio pra cima de mim, agarrou minha camiseta na região do pescoço e cerrou os punhos, como se fosse me bater, mas parou.

— Ande! Vai me bater? Bata! Ou não tem coragem nem para isso? – Eu disse e Marco afrouxou a mão.

— Não te bato porque ainda tenho um grande carinho e consideração pela minha irmã, não importa o que for ela nunca me perdoaria se fizesse isso. Não se intrometa na minha vida. – Disse Marco por fim, depois virou as costas e também foi embora.

Fui para o meu quarto e nem preciso dizer que tive uma péssima noite de sono, revirando na minha cabeça tudo o que havia acontecido. Três adultos de 21 anos brigando como três adolescentes.

O quinto pior momento veio no dia seguinte, nas primeiras aulas quando cheguei para dar aula e Eloisa não estava na sala, sabia sem dúvida alguma que ela estava me evitando, e que ficaria nisso por um bom tempo. Acordei com um humor terrível mas fiquei aliviado por ser as primeiras aulas, de certa forma a sala fica mais comportada nesse horário.

O sexto pior momento veio quando ela chegou atrasada na segunda aula, pediu licença de chamando de professor, mas de alguma forma sabia que havia raiva naquelas palavras. Então, para piorar tudo fui grosseiro com ela, mas ela não abaixou a cabeça e me respondeu, fazendo uma cara absolutamente séria, igualzinha o irmão. Ela sentou em seu lugar e o resto da aula ocorreu bem, na medida do possível.

O sétimo pior momento veio quando a coordenadora me chamou na sala dela e me deu uma bronca, havia sido avisada por uma funcionária que eu estava sendo descuidado com meus alunos. Sem opção tive que arrumar uma forma de “punir” Eloisa por ter tentado matar aula.

O oitavo pior momento veio quando estava na sala dos professores organizando alguns materiais com ela me ajudando, ela começou a cantarolar e tentei puxar conversa, mas fui cortado, tentei então me explicar e fui cortado, foi quando ultrapassei um dos limites, cheguei mais perto que o necessário dela e tirei uma mecha de cabelo de seu rosto fazendo-a olhar para mim, ela olhou, mas me respondeu com um rosto mortalmente sério e me chamou de professor no melhor tom de nojo que conseguia, depois levantou e saiu.

Por um problema que não era meu acabei criando uma grande e enorme bola de neve. Entendia Marco ficar absurdamente bravo comigo e entendia Sasha se ela começasse a me evitar, mas não entendia ela! Definitivamente não entendia e mais ainda, não entendia o motivo de isso me incomodar mais do que a outras coisas. A única coisa que sabia, era que devia dizer a ela que não tinha voltado com Sasha e nem tinha essa intenção. Sasha agora era problema de Marco, assim como Marco era problema dela, apenas fui envolvido em tudo.

O nono pior momento veio quando estava na porta da quadra assistindo de longe o jogo amistoso de vôlei que um de meus alunos havia me chamado. Davi, justo ele. Da porta eu a vi vibrando com um ponto que Davi havia acabado de fazer e depois Ethan gritando orgulhoso “tinha que ser o namorado da minha amiga”. Após ouvir isso sai e fui terminar de resolver algumas coisas antes de voltar e terminar de assistir o jogo.

Por último, o décimo pior momento veio quando o jogo acabou, havia restado umas poucas pessoas na quadra ainda e fui caminhando para ir embora. Vi então ela andando em minha direção, obviamente sem ter me notado ainda, porque se tivesse teria dado meia volta e ido embora, fiquei atento ao ver Alissa andando na direção dela, pronto pra interceder caso algo acontecesse. Mas não houve nada, assim que Alissa se foi ela continuou a seguir seu caminho na minha direção, mas foi parada por Davi, e assim que o viu desviou os olhos de mim, em seguida foi embora junto com ele.

Entre todos esses 10 piores momentos houve outros, obviamente. Mas não vale a pena escreve-los aqui.

Depois desses acontecimentos os dias passaram, passaram de verdade. O lado bom foi que Marco e eu nos resolvemos, nunca fomos de ficar brigados por causa de mulher, demorou alguns dias, mas sem perceber já estávamos conversando normalmente e rindo juntos, e isso bastou, não precisava haver uma conversa porque ambos sabiam que aquilo passou, ficando agora apenas entre Marco e Sasha, que por sinal não haviam conversado mais desde então. Porém minha relação com Eloisa não mudou em nada, ela havia desistido de participar do festival musical comigo e não falava mais do que o necessário, como se fosse uma outra aluna qualquer, e isso ainda me incomodava muito, afinal nos víamos com frequência, já que ela passou a trabalhar na hospedaria, onde eu continuava morando até achar uma casa para alugar. Mas ao contrário de sua relação comigo, a relação dela com Davi havia aparentemente melhorado, e muito. Nunca perguntei nada a ninguém até porque não tinha mais esse direito aparentemente, mas sempre que podiam saiam juntos e ele a acompanhava até a hospedaria quando não tinha treino, ambos ignorando minha presença.

Pensei em parar de me preocupar com isso e deixar o tempo arrumar as coisas, mas não dava. Conseguia ver de longe seu brilhante cabelo azul, e sempre que via dava um impulso inconsciente na direção dela, mas depois retomava minha compostura e a observava de longe, quando nossos olhares se encontravam ela não dava brecha pra eu nem mesmo dar um sorriso e virava o rosto, procurando desesperadamente algo para disfarçar. Ela era interessante e as vezes até mesmo me fazia rir quando fazia essas coisas. Me pegava diversos momentos observando-a, quando estudava, quando prestava atenção na minha aula, quando tinha dificuldade na prova e equilibrava um lápis na boca para passar um tempo, quando se distraia na aula e ficava observando o mar, quando voltada cansada da educação física o cabelo amarrado com alguns poucos fios soltos, eu sabia que ela não havia feito 1% da aula mas ainda assim voltada cansada e suada, eu ria sozinho; via quando sorria com Davi, quando procurava e quando sorria assim que o encontrava, quando conversava distraidamente com seus amigos, quando trabalhava, atendia clientes, anotava pedidos e por aí vai...

O que não percebi, foi que aos poucos isso tudo despertou algo dentro de mim, algo que eu senti pela primeira vez há alguns anos pouco antes de namorar com Sasha. Ignorei todos os obstáculos, o fato de eu ser professor e ela minha aluna, o fato de ela ter 17 anos e eu 21, e foi quando fiz isso que percebi: Eloisa não era mais uma criança, e eu não a via como uma, pelo contrário.

Desse momento em diante não ri mais da regra da escola que dizia que era proibido relacionamento entre professor(a) e aluna(o). Pelo contrário, passei a odiá-la.

Notas finais
O que acharam? Me digam, ok? É sempre bom saber a opinião de vocês. Até o próximo capítulo!