Aquele último ano
25 Epílogo
Notas iniciais
Aquele apartamento comprado há alguns anos, simples e aconchegante, com uma sacada de frente para o mar; iluminado pelo nascer do sol e depois pelo alaranjado pôr-do-sol, cada um iluminando uma parte do apartamento conforme sua determinada posição. Um apartamento inundado pelo som das ondas que iam e vinham; já havia visto boa parte da história daqueles dois, já havia feito parte do início da construção da história deles, aquele apartamento havia escutado o primeiro choro de felicidade pela nova vida que surgia, o primeiro choro de desespero quando o momento do nascimento daquela pequena criança surgiu e ouviu também o primeiro choro daquela criança quando chegou em sua casa pela primeira vez. Em cada parede daquele apartamento há um conto diferente da história deles. Mas teve que ser deixado para trás, o espaço já não era mais suficiente, porque não precisava comportar apenas um casal, mas um casal e duas crianças. A pequena Alice havia chegado cheia de energia e graça mas, agora, há um ano, o pequeno Sam inundava a casa com sua alegria de dar os primeiros passos. Aquele apartamento havia ficado para trás, guardando com ele todas as lembranças que haviam sido feitas ali.
Agora havia uma casa, também a beira do mar, uma casa espaçosa com a vista de frente para aquela imensidão de águas azuis. Uma casa que agora também começava a juntar memórias de uma família tão feliz.
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A vida era uma loucura, uma loucura boa. Tudo havia dado certo, claro, com uns problemas aqui e ali, mas tudo estava no seu lugar, eles haviam jurado fazer tudo dar certo e passar por tudo juntos, bem, conseguiram.
O dia do casamento foi uma loucura! Eloisa nunca havia passado mal de nervosismo como nesse dia. Afinal, o vestido nunca ficava na medida certa! Que raios as costureiras estavam fazendo? Era difícil para ela manter a calma, ainda mais quando te ligam e você percebe que confundiram a data da sua lua de mel! Adiando ela para duas semanas. Eloisa não tinha um emocional muito bom para cuidar de tudo isso, ela queria que o casamento fosse perfeito, que todos aproveitasse aquele momento com ela. No fim, de alguma forma todos haviam tomado a frente por ela, Renan resolvia a confusão das datas de viagem, Marco cuidava dos preparativos da festa e a mãe lidava com as costureiras. Ela só precisava se acalmar e pensar no seu momento.
— Chega de comer doces!! — Disse a mãe de Eloisa dando um tapa na mão da menina, fazendo um pedaço de chocolate cair no chão.
— Mãe!
— Nada de mãe! Por isso o vestido nunca cabe em você, não para de engordar e emagrecer o tempo inteiro, isso vai te fazer mal! — Eloisa fez uma cara emburrada.
— Estou nervosa. — Disse Eloisa olhando para a mão que ainda estava suja de chocolate. — Não sei se vou saber lidar com uma vida de casada, mãe! — A mãe da menina suspirou.
— Sabe cozinhar?
— Sei.
— Sabe limpar?
— Sei.
— Tem um emprego para ganhar o próprio dinheiro?
— Tenho.
— Ama seu futuro marido?
— Amo. — Respondeu Eloisa a última pergunta.
— Então está tudo bem, o início é sempre assim, aos poucos vão aprendendo juntos o que for necessário. — Disse a mulher e segurou o rosto da filha firmemente. — Lembre-se de que é uma novidade para Renan também uma vida de casado, ele precisará aprender tanto quanto você, por isso é um trabalho a dois, ambos ajudando um ao outro aonde for necessário e aonde não for também. — Não sendo nenhuma novidade Eloisa já estava chorando, tentando limpar o rosto com a mão ainda suja de chocolate.
O dia do casamento foi muito agitado, Eloisa nem teve tempo de pensar em comer qualquer coisa. Foi ao cabeleireiro arrumar-se. O cabelo estava meio preso e meio solto, mechas dançavam pela lateral de seu rosto e pescoço; a maquiagem feita era leve e delicada, já estava uma princesa. Eloisa precisou de muita força emocional para não chorar quando colocou o vestido e se olhou no espelho.
— Se chorar vai manchar a maquiagem. — Disse Marie ao lado dela.
— Com você chorando do meu lado não ajuda muito. — Respondeu Eloisa e Marie riu.
— Você está linda.
— Um dia será você! — Eloisa disse e Marie concordou. Marie e Ethan não haviam se casado ainda, estavam noivos e moravam juntos já, mas não haviam casado formalmente. Viviam brigando ainda, isso não havia mudado, tanto que o pedido de casamento dele havia sido feito no meio de uma discussão. Inteligente da parte dele, mas perigoso.
— Mãe... chega de chorar. — Eloisa disse enquanto a mãe não se segurava.
— Você está maravilhosa, meu bebê. — Disse a mulher a abraçou a filha, tão forte quanto o vestido permitia.
De qualquer forma não era só Eloisa que estava nervosa, assim como Renan riu do nervosismo de Marco no casamento dele, agora passava pelo mesmo. Ele já estava no salão com os convidados e Elosia não havia chegado ainda.
— Ela vai chegar não vai? — Perguntava Renan para Marco.
— Sim, ela vai. — Respondia Marco pela milésima vez.
— Quero vê-la logo. — Dizia Renan andando de um lado para outro.
Eloisa não havia se atrasado muito, apenas o "necessário" para fazer um suspense. Seu vestido tinha uma cauda considerável, era bem ajustado ao corpo, como um vestido de princesa. Ela chegou no salão e assim que Renan ouviu que ela havia chegado ficou ainda mais inquieto.
Assim que chegou o momento, Eloisa viu todos levantarem para ela passar, mas não se preocupou muito com isso, seus olhos enxergavam apenas Renan, esperando por ela logo a frente. Até ali ela havia se esforçado para segurar o choro, mas não conseguiu impedir mais algumas lágrimas de rolarem. Sua mãe, seu pai, Marco e Marie choravam (uma forma rápida de resumir a história desses dois é o choro). Renan parecia não acreditar no que via e assim que ela foi entregue a ele pelo pai seus olhos não desviaram um do outro, Renan estava com os olhos marejados e não escondia isso.
— Você está incrível. — Disse Renan como se não conseguisse achar as palavras que descrevessem o que sentia.
Era inacreditável a energia que emanava daqueles dois, como se uma magia os envolvesse. O casamento havia sido lindo, calmo e tranquilo. Aproveitaram aquele momento que sabiam só ter uma vez na vida, ao menos é o que se espera.
Escolheram para a lua de mel uma cidade fria, viajaram para longe afim de fugir do calor da cidade natal deles. Foram para um lugar de neve, onde puderam praticar esporte novos, tomar bebidas quentes, aproveitar o calor de uma lareira e, aproveitar ainda mais o calor um do outro. Aproveitaram sua lua de mel tanto quanto puderam. Só precisavam ter um ao outro ali, e bastava.
Os anos haviam passado e agora seguiam uma rotina totalmente diferente da que imaginaram um dia ter. Foi uma surpresa enorme e assustadora a descoberta da gravidez da primeira filha. Eloisa acordou enjoada e vomitou o dia inteiro. Apesar do medo ela já sabia do que se tratava, disse a Renan que estava tudo bem e não havia com o que se preocupar, era apenas um mal estar. Mas assim que Renan saiu para trabalhar e dar as suas aulas no período da manhã Eloisa foi ao hospital confirmar o teste de gravidez que havia feito. E, sim, ela estava grávida. Voltou para casa atordoada e incrivelmente feliz, apesar de um pouco assustada, não contou a ninguém, Renan seria o primeiro a saber. De noite, quando ele havia chegado em casa tentou agir o mais naturalmente possível. O jantar estava pronto e ela foi colocando a mesa distraidamente.
— Está melhor? — Renan perguntou preocupado.
— Estou sim, fui melhorando durante o dia.
— Certeza que não que ir ao médico? — Ele perguntou.
— Já fui, hoje de manhã. — Ela disse calmamente.
— Sem mim? Por que não avisou? — Perguntou ele, Renan sempre se preocupava demais. — Mas o que o médico falou?
— Bem, nada sobre mal estar, não vou precisar de nenhum medicamento, apenas... aprender a trocar fraldas. — Ela disse e Renan segurou o braço que lavava mais uma colher de comida para a boca.
— Como assim? — Perguntou ele já com os olhos começando a marejar.
— Você vai ser papai. — Disse Eloisa sorrindo docemente. Renan levantou num pulo e correu até ela.
— Você está grávida! — Dizia ele, sem saber se afirmava ou fazia uma pergunta.
— Estou. — Disse Eloisa abraçando-o de volta. Não paravam de repetir um para o outro "Eu vou ser pai" e "Eu vou ser mãe".
Foi uma comoção maior ainda quando contaram para a família. Marco não parava de repetir que seria tio, já os avós da criança que estava por vir não paravam de acariciar a barriga de Elosia que nem havia crescido ainda.
Foi uma grande mistura de emoções quando a pequena Alice nasceu. Renan certamente era o pai mais protetor que Elosia havia visto, tratava a menina como uma princesa. Eloisa como boa fotógrafa que era registrava cada momento da criança, e não foi diferente quando o segundo filho veio, cinco anos depois o pequeno Sam veio.
Alice era a cara do pai, mas agitada e atrapalhada como a mãe, ela havia sido o motivo da mudança de casa, precisava de espaço. Já Sam era uma criança diferente, havia puxado a mãe, apesar de ter vibrantes olhos azuis, vindos da família de Renan, havia puxado os avós paternos, apesar de pequeno Sam era uma criança bem orgulhosa, o que rendia mais trabalho para Renan e Eloisa.
Era comecinho da tarde quando Renan chegou em casa para almoçar, continuava a dar aulas e vez ou outra podia almoçar em sua casa, já que não ficava longe da escola pela cidade ser pequena. Eloisa e Renan escutaram o barulho do ônibus escolar chegando, a pequena Alice de cinco anos entrou correndo pela casa.
— Chegueeeei!! — Gritava ela correndo por todo lado, tinha uma energia inesgotável.
— Bem vinda meu amor. — Disse Eloisa abraçando a filha, a menina deu um beijo no rosto da mãe.
— Como foi a escola hoje? — Perguntou Renan colocando a filha no colo, Alice se aconchegou no pai como gostava de fazer.
— Eu fiz um desenho! — Ela disse estendendo um papel que segurava.
— Deixa eu ver. — Disse Renan pegando o desenho para olhar, Eloisa sentou para observar também.
— Quem é no desenho? — Perguntou Eloisa olhando a obra de arte da menina.
— Sou eu e a pessoa que eu vou casar um dia! — Respondeu Alice animada e pulou do colo do pai, Renan e Eloisa olharam um para o outro desconfiados e um pouco preocupados.
— E quem seria essa pessoa, querida? — Perguntou Eloisa.
— O meu professor! — Respondeu Alice com um sorriso brilhante.
— Não quer casar com o papai? — Perguntou Renan
— Não! — Disse Alice ainda sorrindo, Elosia riu.
— Feriu seu orgulho, papai? — Perguntou Eloisa provocando.
— Casar com o professor... parece que ela puxou você apesar de tudo. — Disse Renan rindo.
— Só espero que o professor dela não tenha puxado você. — Respondeu Eloisa brincando mas preocupada.
Na manhã seguinte Renan e Eloisa decidiram eles próprios levarem Alice para a escola, queriam conhecer o "futuro marido" da filha deles.
— Vocês vão ver! Ele é muito bonito e legal!
— Sei... — Disse Renan levemente enciumado.
— Ele sempre me dá doces e elogia meus desenhos!
— É claro, você é uma menina super inteligente! — Eloisa respondia, sempre elogiando a filha.
A escolinha não era longe, assim que chegaram Eloisa pegou o pequeno Sam no colo e Renan segurou e mão de Alice para a menina não correr desgovernada. Conversaram na secretaria para avisar que queriam conversar um pouco com o professor de Alice, eles entraram na escola e a menina foi guiando eles.
— Ele deve estar por aqui... — Dizia Alice observando tudo agitada. — Ali! — Disse ela e correu na direção de um homem que andava até a recepção, Alice o abraçou e ele retribuiu cuidadosamente.
— Chegou cedo hoje. — Disse ele passando a mão na cabeça de Alice.
— Meus pais querem te conhecer! Vem! — Alice o puxou pela mão até onde Elosia e Renan estavam. Assim que os três se olharam ficaram tão surpresos que não conseguiram falar nada.
— Ah! — Foi tudo o que Eloisa conseguiu dizer, Renan foi o primeiro a falar.
— Quem diria!! Nunca imaginei que estaria trabalhando em um lugar assim!
— Professor Renan! É sua filha? Quero dizer, vocês se parecem muito.
— Não acredito. — Disse Eloisa. — Davi?
— Eu mesmo. — Disse Davi um pouco sem graça.
— Você é o professor da Alice? — Perguntou Eloisa.
— Sou sim, mas é temporário. Estou tentando lecionar em uma escola de vôlei, até lá estou fazendo um estágio aqui. — Disse ele.
— Isso me deixa aliviado. — Disse Renan. — Queríamos conhecer o tão querido professor que Alice fala, ela diz que vai casar com você. — Nesse momento Alice deu um pulo.
— Papai! Era segredo! — Disse Alice e se escondendo atrás da mãe de vergonha, Davi riu.
— Acho que era segredo mesmo porque eu não sabia disso. — Disse Davi.
— Era segredo mas verdade! — Disse Alice.
— Bem, fico aliviado por saber que é você também. — Disse Eloisa.
— E quem é esse? — Perguntou Davi olhando para Sam.
— Esse é o Sam, tem um ano apenas. — Disse Eloisa virando o menino para Davi, havia acabado de acordar.
— É a sua cara! — Disse Davi. — Mas esses olhos, são lindos!
— São os olhos do meu pai. — Disse Renan.
— Posso segura-lo? — Pediu Davi.
— Claro! — Eloisa entregou a menino para Davi, incrivelmente não estranhou e ficou quietinho.
— E Alissa? Como ela está? — Perguntou Eloisa um pouco receosa.
— Está muito bem, melhorou muito nos últimos anos. Nos casamos há três meses.
— O que?! — Eloisa e Renan disseram juntos e Davi riu.
— Estamos casados, demorou um tempo mas ela se tornou uma pessoa incrível depois que mudou aquele jeito dela.
— Estou surpresa! Muito! Mas estou feliz. — Disse Eloisa.
— Bem, as aulas já vão começar. Vamos manter contato eim! Tenho muitas coisas para contar e acredito que vocês também. — Disse Davi.
— Com certeza! — Respondeu Renan.
— Se comporte meu anjo. — Disse Eloisa para Alice.
Davi e Alice foram para a sala de aula e Eloisa e Renan foram para casa.
— Parece que Davi tem certa influência sobre as mulheres dessa família. — Disse Renan brincando.
— Sabia que não deixaria isso escapar. — Eloisa respondeu rindo.
Assim que chegaram em casa Renan foi para a escola trabalhar, deu um beijo de despedida em Eloisa e saiu. Eloisa foi direto para o computador editar algumas fotos de ensaios que havia feito recentemente, o pequeno Sam ao seu lado brincando calmamente.
A vida deles era assim, sempre tranquila, cada coisa no seu devido lugar.
Era sexta a noite, nesse dia Renan e Eloisa deitavam na sacada na frente de casa e ficavam olhando as estrelas e ouvindo o som do mar, como faziam quando haviam começado a namorar.
— Como foi no trabalho hoje? — Perguntou Eloisa deitada nos braços de Renan.
— Tudo tranquilo, apesar de ser semana de provas e ter que dar um puxão de orelha nos alunos que tiram nota vermelha.
— Ainda bem que eu não era assim. — Disse Eloisa rindo.
— Você? Jamais né. — Respondeu Renan rindo também. Ao longe, depois mais alto, eles escutaram um choro que não cessou.
— Sam acordou. — Disse Eloisa. — E Alice vai acordar daqui a pouco também...
— Eu vou lá. — Disse Renan levantando e entrando em casa, Eloisa sentiu na hora o ar frio em seu corpo quando Renan saiu. Mas a cena que viu fez valer a pena o cansaço e a falta que sentia de ficar a sós com Renan por um tempo.
Renan deitou Sam em seus ombros e caminhava calmamente pela casa cantando alguma canção baixinho, o menino foi se acalmando até adormecer novamente. Mas como Eloisa previu, Alice já estava de pé, grudada nas pernas do pai, Renan sentou e colocou Alice sentada em uma de suas pernas, enquanto Sam ocupava a outra. Alice se aconchegou e deitou no peito do pai, ouvindo a voz suave de Renan cantando envolvendo o ambiente. Rapidamente as duas crianças já haviam adormecido completamente, Renan levou-as para o quarto e saiu, voltando a aproveitar o tempo com Eloisa, sem saber que a esposa ficou admirando-o cuidar dos filhos tão gentilmente.
Os dois voltaram a deitar juntos e olhar o céu limpo acima deles. Eloisa percebeu que a mãe tinha razão, ela e Renan estavam aprendendo muito juntos, um sendo o apoio do outro.
— Obrigada. — Disse Eloisa abraçando Renan. — Por tudo. — Renan baixou os olhos e viu os cabelos de Eloisa espalhados pelo seu peito, os olhos dela fechados e um sorriso preenchendo o rosto.
— Eu amo você. — Disse ele acariciando a bochecha dela com a mão.
— Também te amo. — Ela respondeu e levantou a cabeça para olha-lo nos olhos, sentiam-se da mesma forma que se sentiam logo quando começaram a namorar, como se poucos meses apenas tivessem se passado depois daquilo. Eloisa reclinou a cabeça beijando Renan, que retribuiu calorosamente.
FIM.
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