Aquele último ano
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O dia seguinte começou bem, não bem, normal na verdade, achei que estaria mais disposta por conta de todos os acontecimentos recentes, mas não, estava meio que... voando. Minha cabeça não pensava em nada, como se estivesse completamente desligada, acho que esgotei minha cota de pensamentos todas no dia anterior, ou estava apenas cansada agora que estaria retomando toda a rotina novamente de escola e trabalho. Mas, se a sorte estivesse a meu favor, daqui a dois dias estaria saindo desse trabalho desagradável, indo para a hospedaria.
Cheguei na escola, cumprimentei algumas pessoas na entrada e no caminho para minha sala, provavelmente não veria Renan neste dia, mas sinceramente não estava tão ansiosa por isso, só de pensar que pelo resto do ano teria ele como professor bastava.
— Que cara de idiota é essa? E você está encarando o que exatamente? – Tomei um susto, não havia visto Ethan parado ao meu lado.
— Ethan! Que susto, odeio quando faz isso! E credo, você está todo suado, não fique tão perto.
— Estava treinando, vamos ter alguns treinos pela manhã durante algum tempo. Odeio isso, mas já que é para jogar futebol faço uns sacrifícios. – Disse ele
— Que honra o futebol tem por ter tanto a sua atenção, talvez seus amigos devessem virar uma bola de futebol, talvez assim você nos dê essa atenção toda também. – Ele deu uma risada irônica.
— Até onde eu saiba, não fui eu que deixei de sair com meus amigos ontem por conta de trabalho.
— Eu sei, é verdade. – Respondi meio sem graça. Era verdade, estava sendo bem desleixada com meus amigos ultimamente, mas isso iria mudar. – Prometo que as coisas vão mudar.
— Não que eu ligue também. – Disse novamente dando uma pequena risada e indo embora. – Ah, vê se para de ficar voando, você estava bem estranha agora a pouco.
— Pode deixar, idiota. – Ele saiu e continuei meu caminho para minha sala.
Ainda faltava uns minutos para o sinal bater então muitos alunos da sala ainda estavam fora, mas não estava afim de caminhar então sentei na minha cadeira e fiquei observando o mar pela janela. Tudo o que queria hoje era ficar em paz, sem barulhos altos, queria ficar na minha. Descobri que estava mais cansada do que imaginei, talvez fosse por ter chegado tarde em casa do restaurante ontem, dormi tarde e acordei muito cedo.
— Elô!! – Disse Marie entrando na sala e correndo na minha direção.
— Bom dia, Marie.
— Que cara de sono, o que aconteceu? – Me perguntou olhando atentamente para mim, era sempre bem atenciosa quando se tratava de alguém com quem se preocupava. Isso era bom e ruim, porque acabava não conseguindo esconder nada dela.
— Nada demais, só estou cansada da rotina que começou de novo. – Resolvi ocultar a parte sobre ter ido ao restaurante com Renan, na verdade sem querer acabei não contando a ela sobre ele e, sinceramente esconderia até onde pudesse. Marie era uma amiga maravilhosa, mas de alguma forma, não queria que ninguém soubesse, sentia que algo de ruim iria acontecer se alguém soubesse, apenas um pressentimento, me senti mal por isso.
— Ontem foi muito divertido, pena que você não pôde ir! Fomos à praia e logo depois passamos em uma sorveteria, depois fomos a um lugar que tinha diversos tipos de jogos, ficamos um bom tempo lá! – Ela disse completamente animada.
— Acredite, daria tudo para ter ido, disse agora a pouco pra Ethan que isso vai mudar daqui alguns dias.
— Ah, ele veio hoje então. – Ela disse de cara fechada. Estranhei, então resolvi perguntar.
— O que há com essa cara? Vocês brigaram ontem?
— Não realmente, na verdade não. – Ela respondeu com indiferença.
— Tá, então...? – Tentei incentivar ela a contar.
— Ah, não foi nada fora do normal Elô. Você sabe que não tenho paciência pra muitas manias dele. E já que entramos no assunto sobre ele, já está com uma namorada nova, arrumou ontem. – Ela disse com cara de desdém.
— Você, por acaso, está com ciúmes do Ethan? – Tentei perguntar da forma mais cuidadosa possível, mas ao ouvir isso seus olhos arregalaram de surpresa e seu rosto assumiu uma expressão de nojo.
— Claro que não! Como isso seria possível? Porque teria ciúmes dele? Não faz o menor sentido. Só acho nojento quando ele fica flertando com as garotas o tempo todo, sempre querendo se exibir, e mais irritante ainda é elas ficarem dando bola, TODAS dão bola pra ele! Não sei o que é mais ridículo! – Ela disse impulsivamente, uma palavra atropelando a outra.
— Tá, entendi, entendi. Então está evitando ele agora?
— Não estou evitando, só não quero ficar no mesmo lugar que ele. – Ela disse tranquilamente, não aguentei e comecei a rir.
— Marie, você é a pessoa mais estranha que já conheci. Não liga pra isso, se estressar com essas coisas é só perda de tempo. Enfim, me conte como foi ontem! Quero saber mais sobre o que aconteceu.
Ela me contou tudo o que aconteceu, até as coisas mais simples, isso só me deixou mais arrependida por não ter ido. Tinham ido mais pessoas do que imaginei. A conversa estava boa, até ela me contar algo que me fez despertar um pouco mais.
— Ah, e sabe Elô. Um menino Davi, do time de vôlei disse que estava interessado em uma amiga minha de cabelos azuis. – Disse e lançou um olhar provocador na minha direção.
— Davi?? Nunca ouvi falar! Quem é? – Fiquei curiosa.
— Se encontrarmos ele hoje te mostro. Ele é bonito e é bem simpático. – Continuou com aquele olhar provocador na minha direção.
— Não estou interessada. – Ela riu.
— Sei! – Riu mais um pouco antes de continuar. – E sabe, conheci uma pessoa, o nome dele é Charlie, não é da escola, conheci ele na sorveteria ontem. – Dessa vez foi minha vez de lançar um olhar provocativo para ela, tão fofa, começou a corar.
— E como o conheceu exatamente?
— Tinha um outro grupo de amigos de outra escola na sorveteria também, trocamos alguns olhares por algum tempo, sabe, aquela coisa clichê toda. Mas, quando estava indo embora ele chegou em mim e começou a puxar conversa, nada de mais, depois me deu seu número de celular e pediu para que eu chamasse ele para conversar. Foi super simpático. – Ela disse animada. Dei uma pequena risada.
— Isso é bom, eu acho, quero conhece-lo qualquer dia.
O sinal bateu e a aula começou, não estava nem um pouco concentrada, mas não me importei muito, hoje poderia pegar a qualquer momento a matéria com outra pessoa. Por alguns instantes meus pensamentos foram até aquele tal de Davi que Marie mencionou. Não estava especialmente interessada, mas curiosa, acho meio sinistro uma pessoa que você nunca viu na vida estar interessada em você. É algo normal, mas sinistro, pelo menos para mim.
O sinal para o intervalo bateu e todos começaram a sair para comer. Ethan chegou até nós para irmos juntos mas Marie o ignorou, ele não entendeu nada, fez uma cara emburrada e foi comer junto com alguns de seus colegas do clube de futebol. Era meio raro ver Marie tão brava assim com Ethan, por nada, isso era o pior. Os minutos passaram e o intervalo acabou. As duas aulas seguintes seriam vagas, professor de geografia havia faltado, mas como bons alunos que somos, fomos para a biblioteca adiantar o conteúdo.
Chegando na biblioteca Ethan me puxou pelo braço e saiu me carregando até uma mesa nos fundos, longe de todos e escondida por algumas prateleiras de livros.
— Ei, por que tão afastado de todo mundo? – Perguntei curiosa.
— Só quero conversar com você, em outra mesa aqueles alunos chatos iriam reclamar de barulho e outros iriam querer ouvir a conversa. Fora que Marie ficaria curiosa.
— Uau, e fazendo assim ela super não vai notar que estamos falando sobre ela.
— Eu não disse que iríamos falar dela. – Ele disse levantando uma sobrancelha.
— Ora, vamos! Não sou nenhuma idiota, vocês dois estão dois estúpidos hoje!
— Não por culpa minha, isso eu garanto. – Ele disse firme.
— Certo, então comece a falar que estou curiosa. Mas antes disso me empreste seu caderno, preciso copiar a matéria das primeiras aulas que perdi hoje. – Ele assentiu com a cabeça e tirou o caderno da mochila.
— Mas preste atenção! – Ele disse com firmeza.
— Estou prestando, só estou copiando a lição, mas estou te ouvindo.
Primeiro Ethan começou a falar sobre coisas irrelevantes que aconteceram ontem, algumas inclusive já sabia por causa de Marie, mas não o interrompi, deixei-o falar, até porque estava mais preocupada no momento em copiar a lição para meu caderno. Sinceramente Ethan não era o aluno mais dedicado do mundo, normalmente seria o último pra quem eu pediria o caderno emprestado, porém os alunos dos clubes esportivos tinham um certo “acordo” com a diretoria da escola, eles tiravam boa nota e poderiam treinar e participar dos campeonatos livremente. Essa condição pesava em dobro para Ethan, já que ele era o capitão do time de futebol neste ano.
Depois de várias pequenas histórias contadas, Ethan finalmente entrou no assunto que eu queria, havia ficado curiosa desde que Marie havia mencionado isso.
— Então. – Prosseguiu ele. – Estávamos jogando alguns jogos no fliperama ontem e acabei me encontrando com a Amy, meio do nada, mas ela é muito gata. Começamos a conversar e resolvemos jogar junto alguns jogos. Depois de um tempo conversando beijei ela. –Não consegui me segurar e deixei escapar uma risada.
— Você é inacreditável Ethan, e agora vocês estão namorando então. – Eu disse me divertindo.
— Como sabe que estamos namorando?
— Bom, tenho minhas fontes. – Disse sorrindo.
— Marie não é? Bom, de qualquer forma isso foi no final do rolê, então fui para casa com ela e agora estamos namorando. Ela é muito gata, você precisa conhece-la, pena que é de outra escola.
— Adoraria conhece-la, assim como todas as outras que conheci. – Disse zombando um pouco dele.
— Ora vamos, você também já teve os seus namoradinhos. Mas ela é diferente, não sei dizer exatamente como, mas é.
— Sim, sim. Bem, fico feliz por você então. – Disse realmente sincera. – Tome, seu caderno, obrigada.
— Sem problemas. Ah! – Disse ele como se lembrasse de algo. – Acho que deve ser por isso que Marie está brava comigo.
— Não entendi.
— Estávamos todos juntos, então surgiu o assunto de namoro e essas coisas. No meio dessa conversa toda disse para Marie que ela era uma garota divertida, namoraria com ela sem problemas, depois disso ela virou a cara pra mim, poucos minutos depois dessa conversa conheci a Amy e rolou tudo o que te contei. – Não aguentei de novo e comecei a rir, mas ri de verdade, Ethan me olhava com uma cara de quem não entendia nada.
— Ei vocês. – Disse alguém aparecendo por trás das estantes de livros. – Estão fazendo muito barulho na biblioteca. – Era Renan, entrou em nosso corredor com alguns livros na mão.
— Desculpa. – Eu disse ainda rindo um pouco.
— Não vou atrapalhar a conversa de vocês, só vou pegar um livro que estou procurando. – Disse ele.
— Sem problemas. – Disse Ethan, depois se virou para mim com o rosto sério. – Do que estava rindo? Não entendi.
— Ah, não tem muito o que explicar, só achei a situação engraçada.
— Você é muito idiota sabia? Rindo das coisas assim. – Ele parecia meio ofendido. Quando notei, Renan olhava para nós dois.
— Vocês se dão muito bem, é legal de observar, me dá saudade da minha época de aluno. Bom, já encontrei o que queria, vou indo, não se esqueçam de fazer mais silencio na biblioteca. – Disse isso e saiu, não vou negar, fiquei absurdamente feliz por poder vê-lo hoje.
— De qualquer forma. – Continuou Ethan. – Não acho legal a Marie ficar me ignorando assim, afinal não fiz nada de errado para ela.
— Ah Ethan, você sabe como ela é, não tem muita tolerância com esse seu lado de ficar flertando com as meninas assim.
— Isso não tem nada a ver com ela, não tem motivo para ela ficar assim, fora que essa é a primeira vez que ela fica tão brava.
— Olha vou tentar falar com ela, então relaxa. Mas não vou ficar resolvendo essas briguinhas de vocês sempre.
O sinal bateu e fomos embora da biblioteca. As horas passaram e finalmente deu o horário de ir embora também.
Fui embora mais rápido que todos, estava com pressa porque tinha que passar em uma loja para comprar tinta, já estava na hora de retocar meu cabelo. Mas não podia demorar muito, já que ainda tinha de trabalhar. Fui andando rapidamente pelos corredores quando dei de cara com alguém e cai no chão.
— Ai. – Eu disse quando cai. – Me desculpa, não te vi aí.
— Sem problemas, você se machucou? – A pessoa estendeu a mão para mim, me ajudando a levantar. Era um garoto alto e loiro, tinha um sorriso radiante. – Você é Eloisa, não é?
— Sim, sou. Como me conhece? – Disse retribuindo o sorriso que ele me dava.
— Apenas sei. – Ele respondeu ainda sorrindo. – Meu nome é Davi, adoraria conversar mais com você, mas tenho treino agora, então a gente se vê por aí! – Disse acenando para mim e indo embora. Reparei que ele usava o uniforme de vôlei da escola, era alguém do time. Mas, espera? Davi... Era o nome do garoto que Marie havia mencionado para mim, não era? Mas, não podia ser ele, era bom demais para mim. Arrumei minha roupa que ficou meio desarrumada depois que cai e segui meu caminho.
Estava passando pelo último corredor quando ouvi alguém tocando violão. Reconheci a música imediatamente, I See Fire, do Ed Sheeran. Uma das minhas músicas favoritas. Sem perceber, enquanto caminhava comecei a cantar ela, fiquei com vontade de ver quem estava tocando, mas não tinha tempo para isso, então apenas segui meu caminho.
— Ei! – Ouvi alguém chamar e me virei para olhar, era Renan.
— Está, me chamando? – Perguntei.
— Estou chamando quem estava cantando. – Disse ele sorrindo. – Se era você, então sim. – Ele me ouviu cantar, comecei a ficar muito sem graça, raramente eu cantava e nunca na frente de ninguém.
— Ah, era eu sim... Ouvi alguém tocando a música e acabei cantando. – Dito isso, ele retirou um violão de dentro da sala e me mostrou. Certo, tinha que ser ele tocando, né? Tinha que acontecer uma coincidência dessa.
— Haverá um festival de música na escola, gostaria de participar? – Me perguntou. – Sua voz é muito boa.
— O que? Não! Nunca! – Respondi por impulso, depois me recompus e continuei. – Quero dizer, eu não canto e nem sei nada de música, acho que seria melhor para você escolher outra pessoa, tem muitas garotas que cantam bem por aqui.
— Sim, deve ter mesmo. – Disse ele. – Mas eu quero que você cante, isso não é motivo o suficiente? – Continuou com aquele sorriso lindo.
— Olha, não acho que seja uma boa ideia, mas podemos tentar ensaiar algumas vezes. – Disse meio contra minha vontade.
— Então, amanhã, depois que as aulas terminarem iremos ensaiar.
— Eu trabalho depois das aulas, não posso.
— Então, depois que sair do trabalho. Podemos nos encontrar na hospedaria do Marco, pode ser? – Disse, mas apesar de ter feito uma pergunta, sua voz soava mais como “você vai sim”, dei uma risada mas concordei.
— Você é muito insistente. – Disse a ele rindo.
— Sei disso, é um dos meus charmes. – Respondeu fazendo uma falsa cara de convencido.
— É, acho que deve ser mesmo. Preciso ir agora. – Dei um aceno para ele e saí. Já havia me atrasado demais então não tive tempo de comprar minha tinta. Fui direito para o trabalho.
As horas passaram tão devagar quanto se pode passar quando se está fazendo algo realmente tedioso e chato. Não preciso lhes dar muitos detalhes sobre meu trabalho, realmente não acontece nada que valha a pena dizer. Apenas eu empilhando caixas de sardinhas, ou atendendo clientes e as vezes limpando a loja.
Recebi uma mensagem no celular e fui checar, era minha mãe, mandou uma lista de coisas para comprar e levar para casa. Pensei em ir comprar assim que saísse do trabalho, mas não ia dar tempo, além de ser um pouco longe de onde eu trabalhava. Liguei para Marco, ele teria que fazer essa por mim.
O celular chamou algumas poucas vezes e ele atendeu
— Marco? Preciso que faça um favor pra mim, se for possível.
— Me ligando assim para pedir um favor, você acha que merece? – Ele disse sério, apesar disso percebi o tom de brincadeira na sua voz.
— Sim, na verdade tenho certeza que mereço. – Ele riu.
— Vai ficar me devendo uma, o que quer?
— A mãe me pediu para comprar algumas coisas para ela no mercado, mas não vou ter tempo, então...
— Tá, já entendi. Me manda a lista no celular.
— Okay, e vou precisar que passe em uma loja para mim para comprar tinta pra eu retocar o cabelo. Assim que eu sair do trabalho passo aí pra buscar tudo!
— Certo, certo. Não se esqueça disso, porque vai ter que me retribuir por isso.
— Tá, já entendi, obrigada Marco.
— Sem problemas, idiota.
Um problema a menos para mim. Mandei a lista de compra para ele e a marca da tinta, junto com a numeração.
A horas passaram e finalmente fui liberada dos meus serviços. Me troquei, peguei minha mochila e fui embora. Minha ideia era ir embora tranquilamente, pegar as coisas com Marco e ir para casa descansar. Mas é claro que as coisas não foram assim, sabe, as vezes acho que certas pessoas nasceram só pra deixar nossa vida um inferno. Com isso, quero dizer que encontrei Alissa no caminho, não só ela, aquele tal de Davi com quem esbarrei hoje na escola estava acompanhando ela. Fingi que não os vi, já ela não fez o mesmo.
— Estou sentindo um fedor de peixe, credo! Ah, Elô, é você. – E começou a rir sozinha.
— Alissa, não tenho tempo para você hoje. Na verdade nunca tenho tempo pra você, então se me der licença estou indo.
— Ah, assim você me deixa triste. Já que parece ter pressa deixaria você ir, mas sabe, não gosto quando as outras pessoas dão em cima do meu namorado como fez hoje... – Estaquei onde estava, não fazia a mínima ideia do que ela estava falando, mas vendo Davi alí com ela pude ter uma vaga noção.
— Sinceramente, você está cada dia mais louca. Não faço a mínima ideia do que está falando.
— Ah, não? Davi, querido, por favor diga o porquê de ter se atrasado hoje no treino.
— Já contei o que houve Alissa. – Davi disse depois se virou para mim. — Não se preocupe Eloisa, ela não é minha namorada.
— Não que eu estivesse preocupada né? – Respondi mais seca do que pretendia. – Mas ainda que fosse, não fiz nada com que teria de me desculpar. – Davi abafou uma risada ao ouvir isso, se não estivesse tendo uma discussão com Alissa teria achado engraçado ele rir, mas sabia que isso só a deixaria mais nervosa. Tive vontade de lhe dar um tapa na cara. Mas Alissa fez isso primeiro, mas não nele, se quer saber, o tapa foi em mim. Não vi nem como aconteceu, só senti a ardência no meu rosto.
— Alissa! – Ouvi Davi dizer e segurando o braço da menina.
— Uau, dessa vez você atingiu o nível máximo de infantilidade. – Eu disse com a mão no rosto. – Batendo em mim por alguém que nem seu namorado é! Isso é carência, querida? – Após dizer isso me arrependi, levei mais um tapa e, se não fosse por Davi, teria levado mais um, ele segurou a mão de Alissa e a levou para longe.
— Está abusando da sorte, Elozinha! – Disse fervendo de raiva.
— Sorte? Nunca tive, então está tudo bem para mim. – Respondi. Virei e continuei seguindo meu caminho. Por alguns segundo me arrependi profundamente de não ter lhe batido também, mas logo passou, nunca fui de me meter em brigas, muito menos em discussões. Já era realmente um milagre ter gastado meu tempo discutindo com ela.
A noite estava fria e isso só fazia com que o tapa ardesse mais, não tinha visto como estava mas tenho certeza que estava de um vermelho intenso. Não queria nem imaginar como seria quando Marco visse isso, por um pequeno instante quase desisti de passar na hospedaria, mas logo esse pensamento também foi embora.
Abri devagar a porta da hospedaria, tentando ser o mais discreta possível, não que isso fosse disfarçar o tapa na minha cara, mas parecia diminuir o ocorrido. Para o meu azar, assim que entrei avistei Marco, mas não só ele, havia um de seus clientes também, o conhecido Renan.
— Elô! – Disse Marco, finalmente. Continuei na porta, onde havia sombra e não pretendia sair de lá.
— Acabei saindo um pouco tarde, mas vim pegar as coisas, onde estão?
— Na cozinha, vou buscar, espera um segundo. – Ele saiu e só ficou o Renan.
— Vai ficar aí parada? Entra logo. – Disse Renan sorrindo.
— Vou ficar aqui mesmo, já vou embora mesmo.
— Aconteceu alguma coisa? – Me perguntou. Parando pra pensar, era realmente estranho ficar parada na sombra da entrada da porta. Quando ele me perguntou isso não consegui segurar a vontade que veio de chorar. Um segredo sobre mim, sou uma grande chorona. Posso me fingir de forte, mas fico ressentida facilmente. Por causa disso, as lágrimas começaram a rolar, o tapa realmente estava ardendo, eu estava realmente chateada. Afinal, o que eu realmente fiz para aquela garota me odiar tanto? Sempre havia sido completamente educada com ela e cuidadosa, nem meus pais nunca haviam levantado a mão para mim! Por que uma garota como ela se achava no direito de fazer isso? Estava não só chateada agora mas me mordendo de raiva.
— Ei! – Disse Renan com a voz preocupada. – O que aconteceu? – Levantou e veio caminhando na minha direção, escondi o rosto com as mãos. Senti sua mão em meu ombro, olhei e ele estava abaixado na altura dos meus olhos me observando, meu coração deu umas boas palpitadas por causa disso. Ele me puxou da sombra para me olhar direito, ainda fiquei com uma mão pousada na bochecha vermelha. Ele retirou minha mãe para olhar, quando olhou vi sua expressão, não escondeu a surpresa, pousou sua mão delicadamente em minha bochecha acariciando. Sua mão era quente.
— O que aconteceu? – Perguntou novamente.
— Não foi nada de mais, não se preocupe com isso.
— Se não foi nada de mais por que está chorando? Vamos, me diga. – Disse gentilmente.
— Apenas uma discussão com uma pessoa, uma garota da escola. – Respondi. Ele me deu um abraço, fiquei muito surpresa, logo depois se afastou um pouco e me levou até uma mesa onde sentamos. Marco chegou.
— Aqui está Elô, vai conseguir carregar tudo isso soz... – Ele parou de falar quando olhou para mim. – Vou perguntar só uma vez e espero que me responda com sinceridade. – Disse com o olhar grave.
— Ok. – Respondi.
— Quem foi?
— Alissa.
— Por que? – Me perguntou ainda sério, contei tudo o que havia acontecido. Contei até do esbarrão com Davi na escola. Renan ouvia tudo atentamente.
— Certo, nós vamos resolver isso. – Disse Marco.
Peguei as coisas que Marco comprou, Renan fez um pequeno curativo em minha bochecha. Depois Marco me levou para casa, dei uma desculpa qualquer para minha mãe sobre o curativo e meu dia terminou assim.
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