Aquele último ano
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Boa leitura!
Acho que algumas pessoas têm um certo dom para atrair má sorte, azar ou até carma, como você preferir chamar. Bom, isso também depende muito do ponto de vista de cada um. Apesar de eu achar que era a pessoa mais azarada do mundo, por muitas vezes achei que a sorte estivesse a meu favor. Mas, como eu disse, tudo depende do ponto de vista.
Acho que meu primeiro e grande azar, nesta história, foi eu ter 12 anos, enquanto ele tinha 17...
Você pode vir com aquela ideia de que idade não faz diferença quando o sentimento é verdadeiro. Mas, você não poderia estar mais enganado. Quando o rumo das vidas vai sendo tomado, você percebe a grande diferença que a idade faz, o quanto você passa a ter dificuldade em entender a pessoa em muitos aspectos. Uma segunda observação, mas não menos importante. Essa coisa de “sentimento verdadeiro supera tudo” é furada, não acredite nisso! Não coloque todas as suas esperanças nisso, há muito mais coisas para se tomar cuidado em um relacionamento. Se quiser, pode anota isso aí, antes que quebre a cara como eu.
Muita coisa mudou. Ou pelo menos eu achei que havia mudado. Agora era eu quem tinha meus 17 anos. Havia mudado muito, mas o que mais chamava a atenção das pessoas em mim era meu cabelo. Tinha o cabelo que ia um pouco abaixo das minhas axilas. E, era azul, se quer saber. Um azul escuro na raiz que ia clareando até ficar de um azul em claro nas pontas. Já fazia um ano que tinha o cabelo assim e as pessoas ainda insistiam em falar dele. É engraçado, todos estão acostumados com a cor azul, mas é só coloca-la no cabelo que a perspectiva de todos muda. Acho que posso dizer que muito muito, ao mesmo tempo que não mudei nada.
Estava agora no terceiro ano do colegial, época mais esperada da minha vida. Como todo início de ano, desejei também que este fosse bom. Nunca imaginei que aconteceria tanta coisa nessa fase da minha vida.
Eu trabalhava meio período em uma loja que vendia peixes, sardinhas mais especificamente. Eu vivia em uma cidade litorânea então era comum lojas e mercados que vendiam peixes, ainda sim, não queira saber porque comecei a trabalhar aqui, talvez mais pra frente você entenda. De qualquer forma, isso era apenas temporário, trabalhava neste pequeno mercado apenas enquanto meu irmão mais velho terminava de resolver umas burocracias para finalmente abrir a sua hospedaria. Não via a hora de trabalhar em um lugar onde depois chegasse me casa com cheiro de gente normal, não de sardinha. Acho que nem preciso dizer como isso é desagradável, né?
Este é meu penúltimo dia das férias de verão, acabei o meu período de trabalho na loja por hoje. Sempre gostei de caminhar de noite por ser tão silencioso e poder ouvir o som do mar bem claramente. É relaxante e ajuda a pensar. Tomei um susto ao ouvir meu celular tocar no bolso da mochila. Peguei ele e a tela exibia com uma claridade incrível o nome “Marco”. Não sei o que meu irmão iria querer em uma hora dessas, mas surpresa, atendi:
— Alô? Marco?
— Eloisa? Rápido, me diga onde está! –Disse ele com uma animação de dar medo.
— Acabei de sair do trabalho, estou indo para casa, o que você quer?
— Quero que venha até aqui, chegue o mais rápido que puder! – Ele disse, sem deixar sumir a animação, logo depois, desligou. Estava tão animado que esqueceu de dizer onde ele estava. Pensei em ligar para ele e perguntar, mas desisti só de pensar em ouvir toda aquela animação outra vez. Por sorte, fui poupada disso porque alguns minutos depois ele me mandou uma mensagem com o endereço do local. “Podia ter mandado mensagem antes também”, pensei. Mudei o percurso do meu caminho e segui para o endereço que ele havia mandado.
Se você acha que fui um pouco grossa com meu irmão, vou te dar uma boa explicação para isso. Normalmente não sou chata assim, mas hoje meu dia foi tão horrível quanto um dia pode ser. Começou com uma chuva tediosa e irritante que me atrasou para o trabalho; como punição, me fizeram ajudar a guardar as encomendas na despensa. Como sou perfeitamente azarada, me fiz o favor de deixar cair uma caixa de sardinha em mim mesma. Meu salário foi diminuído por isso e, se antes já ficava cheirando a peixe, hoje eu era uma perfeita sardinha ambulante. Só queria chegar em casa e tomar um longo banho. Mas onde cheguei não era nem perto de ser a minha casa.
Cheguei em um estabelecimento que ficava de frente para o mar, uns níveis acima dele, onde tinha uma espécie de sacada entre a rua e o oceano que ficava lá em baixo. O estabelecimento não era grande e nem pequeno, tinha o tamanho certo que uma hospedaria aconchegante deveria ter, pelo menos por fora. Logo na frente tinha escrito em letras bem grandes e com uma cor marrom escura “Marco”. Por este nome, reconheci o lugar imediatamente e o que era. A hospedaria do meu irmão estava prestes a ser inaugurada! Isso fez o meu péssimo dia ganhar umas cores, bem poucas, mas ainda sim cores.
Antes que eu pudesse empurrar a porta para entrar ela foi aberta com um estrondo, meu irmão apareceu diante de mim com o sorriso mais largo que se possa imaginar.
— Ah! Minha Eloisa! – Disse me abraçando. – Pensei que não chegaria nunca! – Continuou, ainda me abraçando...
— Sim, sim, já entendi. Já cheguei, pode me soltar agora. E o que é isso de “minha”? Parece um garotinho carente, se controla, hoje meu dia não está bom.
— Sim, estou percebendo. Mas tenho uma gran... – Do nada, ele parou de falar e ficou me encarando. Fiquei encarando ele também, tentando saber o que ele queria de mim. Nada. Depois de alguns segundos ele começou a cheirar o ar, parecendo um gato. – Por acaso você está sentindo... – E parou de falar novamente e, dessa vez, começou a me cheirar. Fez uma careta de dar medo. – Mas que nojo! O que você é, um peixe por acaso? O que aconteceu? – Me perguntou, tampando o nariz, depois o soltou e começou a se cheirar, procurando algum cheiro de peixe em si também.
— Você é tão delicado quanto um bêbado de bar. Apenas um acidente de trabalho, nada demais. Uma caixa com sardinhas caiu em cima de mim.
— Uma caixa? Uma sardinha fugiria de você com esse cheiro agora, parece que tomou um banho com água de peixe! Venha, entre. – Disse me puxando para dentro da hospedaria.
Como pensei, era um lugar realmente aconchegante. Daqueles raros de se encontrar hoje em dia. Tinha uma arquitetura bem rustica, toda amadeirada e bem polida. Do lado direito da entrada, tinha uma lareira média, que não funcionava neste momento por causa do calor que fazia. A parede do lado esquerdo tinha um enorme mapa, com informações da minha cidade e de pequenas ilhas ao redor dela, era lindo, tão rustico quanto o resto do ambiente. Ao fundo, havia um enorme balcão, com uma bela pedra de granito verde musgo combrindo-o por toda a sua extensão. Ainda não havia mesa, cadeiras, bancos nem nenhum tipo de prateleira, nada, mas ainda assim, era um lugar que não dava vontade de deixar.
— É tão lindo! – Disse, admirada
— Sim! Também estou fascinado! Mas antes de lhe explicar tudo vá tomar um banho, sei cheiro me desanimou de falar agora.
— Ah! Acho que agora você entende meu mau humor! Mas sinto lhe informar que não tenho uma muda de roupa. – Vi ele fazer uma leva careta.
— Oras! Você foi nua para o trabalho por acaso? – Ele disse olhando o que eu vestia. Só então me dei conta de que ainda usava o uniforme do trabalho. Havia ido embora com a cabeça tão cheia que nem me dei ao trabalho de trocar de roupa.
— Certo, acho que não estou com a cabeça no lugar. Onde tem um banheiro?
— Lá em cima, suba a escada, no primeiro andar a última porta a esquerda.
Subi a escada que ficada ao lado direito do balcão, que dava para um corredor razoavelmente comprido. Segui até a última porta da esquerda e entrei. Era um banheiro simples e razoavelmente pequeno, mas me deu uma alegria enorme saber que tiraria aquele cheiro de peixe de mim, mesmo que um pouco.
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